• Aucun résultat trouvé

.CRAW 1 An attempt was made to define more than seven windows in your program

Dans le document RT–11 System Macro Library Manual (Page 87-102)

Programmed Request Description and Examples

.CRAW 1 An attempt was made to define more than seven windows in your program

No início da década de 1930 o senhor Antônio Clarindo da Silva começava a escrever sua história da educação na comunidade São Roque, homem simples, sem qualquer formação acadêmica ou condições financeiras. Mas foi movido pela paixão e pelos livros e leituras que fundo, em sua pequena casa de pau a pique, situada nessa localidade rural, uma pequena escola e nela iniciou uma história de educação rural para as crianças e jovens da Comunidade.

As aulas eram ministradas em uma sala pequena, quente e sem móvel adequado para tal ação de ensino. Os alunos ficavam sob uma velha mesa, com bancos ao seu redor, os materiais fornecidos pelo seu Antônio Clarindo eram somente um pequeno caderno e um lápis grafite. O mesmo ensinava o que sabia, mas, apesar de todas as dificuldades enfrentadas, seus ensinamentos foram de grande valia para todos da comunidade que com ele estudaram.

Os filhos dos camponeses lá permaneciam e, pelo que ouvimos, tinham anseio pelo aprendizado que, diante da negligência e descaso do Estado perante as comunidades rurais e seus sujeitos, privava-os de frequentarem uma escola que, com estrutura, favorecesse uma educação de qualidade.

Sua prática pedagógica era baseada na concepção tradicional de educação, onde o ensino era focado na figura do professor como detentor de todo o saber. As aulas em si eram de português e matemática, onde o mesmo oferecia a leitura por repetição, ditados de palavras, treinos de ortografia, entre outras atividades de cunho repetitivo.

Na matemática o objetivo era as quatro operações e a tabuada, tendo em vista os costumes da época, seus métodos eram bastante rígidos, tanto é que a cada erro ou arenga na sala ele se munia de objetos de castigo e não poupava seus alunos. Essa tendência pedagógica faz parte dos estudos de muitos escritores, como por exemplo, Libâneo (1992), Mizukami (1986), Saviani (2008).

Esses estudiosos apontam que a tendência tradicional se caracteriza por acentuar o ensino humanístico, de cultura geral, no qual aluno é educado para atingir, pelo próprio esforço, sua plena realização como pessoa. Os conteúdos, procedimentos didáticos, a relação professor-aluno não tem nenhuma relação com o cotidiano do aluno e muito menos com as realidades sociais.

Assim sendo, os métodos e procedimentos de ensino de Antônio Clarindo baseados na concepção tradicional, tinha a exposição verbal do conteúdo, os exercícios de repetição e a memorização do conhecimento transmitido, além da relação professor-aluno pautado pela sua autoridade frente aos estudantes.

Durante as aulas, era a sua esposa que fazia o papel de merendeira, mas, diante da situação precária da época e seus poucos recursos, a mesma tinha a preocupação de manter os alunos alimentados com simples lanche preparado por ela, esse gesto causava grande satisfação entre os estudantes e seus pais.

Mesmo com a falta de incentivo e políticas públicas, essa escola ajudou a alfabetizar boa parte das gerações da comunidade de São Roque, muitos foram os percalços enfrentados, mas a força e determinação de Antônio Clarindo e sua esposa fizeram com que seguissem em frente com o projeto de ensino para a comunidade rural. A escola, na época, não tinha vinculação com nenhum órgão público, seus honorários eram pagos pelos alunos, haja vista que a escola não era publica e as mensalidades eram valores simbólicos pagos com muita dificuldade pelos pais dos

alunos. Como já mencionado, essa pratica era recorrente no âmbito rural, pela absolutamente ausência de Estado.

Sobre essa prática, Silva Júnior e Borges Neto (2011) afirmam que, com a negligência do Estado em relação às escolas rurais, as próprias comunidades se organizavam para criar escolas e garantir a educação de seus filhos, contando, algumas vezes, com o apoio da Igreja, de outras organizações e dos movimentos sociais, partidos de esquerda, movimentos camponeses, sindicatos dos trabalhadores rurais, dentre outros, comprometidos com a educação dos filhos dos moradores do campo.

Essa escola, no qual o Antônio Clarindo lecionou e fundou se perpetuou por vários anos, pois mesmo a educação rural amparada pelo texto da Carta Magna de 1934, a escola da comunidade São Roque, oficializada pelo poder público, ainda permanecia no em descaso por parte das autoridades municipais da época.

Apesar de toda a batalha com a educação e das dificuldades vivenciadas, seu Antônio Clarindo conseguiu criar e educar os seus três filhos juntamente com a sua esposa. As crianças foram alfabetizadas pelo seu pai que mais tiveram filhos que seguiram esse caminho e deixou um marco histórico para todos os moradores.

Depois de vários anos de luta e já cansado do oficio o professor Antônio Clarindo da silva, finalizou sua batalha. Seu nome ecoa até os dias atuais, pois foi considerado o principal educador dessa comunidade, deixando um legado de grande valia para todos. Com a sua ausência na sala de aula, esse bastão foi passado para sua nora Alina Silva e a mesma deu continuidade a escola sendo essa estabelecida em outro local.

Mesmo diante de tantas dificuldades começava um novo ciclo na história da educação da comunidade São Roque. Com novos personagens a então jovem professora Alina Silva seguiu na vaga de mestre do lugar, mas também com os conhecimentos restritos, sendo difícil, para a mesma, mudar as possibilidades da forma de ensino. Havia aprendido com o mesmo e seguia com os seus ensinamentos. Sem incentivos públicos e nenhuma estrutura, a professora seguiu em seu propósito de ensinar aos moradores da comunidade. As formas de pagamento e a estrutura física da escola continuavam as mesmas, as dificuldades encontradas eram partilhadas entre as famílias dos alunos que podiam pagar, e assim davam continuidade as aulas na nossa pequena comunidade. Esse tipo de “escola” perpetuou até meados dos anos setenta.

Com a construção da escola pública, o ensino passou a ser gratuito para todos os moradores da região. Os mesmos passaram a ter um ensino/aprendizado sistematizado, começavam a conhecer as disciplinas de Português, Matemática, Ciência e Estudos Sociais, com uma escola equipada com quadro negro, carteiras, professores contratados pela prefeitura, serviços de ASG, merendeiras, dentre outros. O melhoramento dos serviços, na década de 1970, alavancou a educação na comunidade, mas não o bastante para assegurar uma educação de qualidade social. Com o crescimento da população logo se viu uma superlotação de alunos nos diversos níveis de ensino, nas salas multisseriadas, aparecendo assim novos problemas, tais como: salas de aula superlotadas, com apenas duas salas de aula na escola; alunos fora da faixa, poucos recursos para manter os serviços básicos da escola, não havia água, nem energia elétrica, faltava material pedagógico, dentre outros desafios.

Assim as dificuldades docentes eram outras. Antes essas dificuldades estavam pautadas na falta de espaços apropriados, profissionais e matérias de ensino; com a abertura da escola as dificuldades migraram para outras demandas e havia falta de direcionamento de supervisores que pudesse dar suporte pedagógico a escola.

A supervisão de ensino, na área rural, geralmente era ausente do cotidiano escolar, e raramente havia encontros pedagógicos para embasar as metodologias de ensino dos mesmos. Essa dificuldade na formação fazia com que os professores trabalhassem com as ferramentas que tinham: livros fornecidos pela secretaria, atividades escritas no quadro negro, leitura oral, dentre outros.

Diante das dificuldades, mesmo com tempo e espaço reduzidos, os docentes conseguiam lecionar e atuavam da seguinte maneira: antes do intervalo, atendia as series do primeiro e segundo anos do Ensino Fundamental e, após o intervalo, as turmas do terceiro e quarto ano. Sendo essas turmas divididas nos turnos matutinos e vespertinos.

Nesse período, outros descendentes do professor Antônio Clarindo da Silva, exerceram a atividade de docente na comunidade, como exemplo citamos: Inês Medeiros e Iracema Medeiros, que foram contratadas pela prefeitura Municipal de Ouro Branco, por um valor irrisório, mas de muita valia para elas próprias. A senhora Maria da Mata Nascimento3, também neta do velho professor da comunidade, após

um exame feito na própria prefeitura, teve sua aprovação e assim foi efetivada para ocupar o cargo de docente, tendo lecionado por oito anos seguidos.

No final da década de 1970, com uma estrutura mais bem definida a escola passou a ter subsídios para garantir a escolaridade das crianças da zona rural, passando a oferecer merenda de melhor qualidade, mobiliário e serviços, entre outros. Em meados dos anos oitenta, teve início um novo ciclo, no âmbito educacional da comunidade de São Roque, que mudaria o cenário e a história de toda a Comunidade. A então jovem Lucia Maria da Mata, filha de agricultores analfabetos, moradores da zona rural e neta do primeiro professor da comunidade, já citado, dava início a sua atividade docente.

A mesma, ao iniciar sua história na educação rural não tinha formação, como todos os outros. A diferença foi que Lúcia da Mata entendeu a importância da construção de sua carreira na docência.

Sua história, como muitas vistas, foi construída com muita dificuldade, desafios e superação. Ela estudou todos os níveis de ensino morando na zona rural, desde o fundamental nas escolas da comunidade, até o Ensino Médio que se deu através do ensino a distância por meio do rádio, do programa LOGOS DOIS4, o qual

lhe proporcionou a conclusão dos seus estudos, por meio dos fascículos, fazendo as provas ao término dos módulos na cidade. Sendo sabedora e tendo a convicção que aquela seria sua carreira, procurou meios que lhes possibilitassem melhorar e construir novos conhecimentos.

Sem qualquer recurso financeiro a mesma ia prestar os exames, deslocando- se de carona ou até mesmo a pé, com muita dificuldade financeira ela jamais cogitou a hipótese de desistir, diante da sua dedicação e empenho já munido de conhecimentos antes não vistos, ela teve a oportunidade que tanto almejava.

Perante todas as dificuldades enfrentadas, a mesma ingressou na rede Estadual de ensino, através de concurso feito na época, ocupando a classificação do 5º lugar, para o orgulho de todos da comunidade e comprovando que a capacidade junto às oportunidades oferecidas, pode mudar o caminho das pessoas, independentes do seu lugar de vida, campo ou cidade.

4 O Projeto Logos II (Deliberação 018/79 de 07/06/79) foi um programa de educação à distância

implantado em 1975 pelo Governo Federal através do Ministério da Educação e da Cultura (MEC) (PEREIRA; PEIXOTO, 2010), com intuito de formar os professores leigos em regime emergencial, com habilitação em segundo grau para exercício do magistério.

Com o novo vínculo, concursada, Lúcia da Mata deu início ao um novo capítulo da sua história e da história da educação na comunidade. Ela passou a lecionar em uma sala cedida pela prefeitura no grupo escolar da comunidade São Roque, que levava o nome de Escola Isolada São Fernando, e funcionavam nos horários contrários as aulas oferecidas pelo município.

Mesmo considerando a melhoria do ensino com a formação docente por meio do Programa Logos Dois, as dificuldades da época, como falta de funcionários, acompanhamento pedagógico, materiais didáticos, não diminuiu, a mesma passou a exercer a função de gestão da escola, involuntariamente, pois não havia um acompanhamento diário, nem sequer semanal, não havia contratação de pessoal para manter a escola funcionando, então a própria trabalhava de cozinheira, ASG, porteira, vigia dentre outras funções.

Esses problemas acima relatados levam ao nosso entendimento a importância dos professores leigos, por serem profissionais presentes nas escolas rurais e enfrentarem as dificuldades advindas do desamparo das escolas do campo. O professor exercia um papel de suma importância para o desenvolvimento da educação nesse contexto, possibilitando assim a escolarização no meio rural.

De acordo com Therrien “a professora leiga é inseparável do processo de construção social da escola do meio rural” (1991, p.23). Nesse sentido, para Therrien a identidade docente de quem nasce a atua nas escolas localizadas em áreas campesinas, tem o contexto e seus determinantes sociais como fator determinante, ou seja,

[…] a professora rural é gerada pela estrutura social do seu contexto de vida (que é também nacional), é a partir dessa mesma estrutura que se deve conceber estratégias de construção da identidade pedagógica, dessa professora, situando-a no movimento de construção social da escola do trabalhador.

Assim, a docência feminina ganha tendência, na história da educação rural, e a maioria era mulheres moradoras das próprias comunidades, dentre as que sabiam lê e escrever. Essa disponibilidade foi uma construção, pois as mulheres se desdobravam em suas funções e, por mais que fosse uma rotina cansativa, elas não desanimavam, embora muito dos seus direitos, sequer fossem reconhecidos. Na verdade, havia uma falta de comprometimento do poder publico com o funcionamento

da escola rural, da falta de material, o que levava a precariedade do ensino e do trabalho docente, mas a professora não deixava transparecer para seus alunos.

Lúcia da Mata, mulher simples, uma doce poetisa que em suas horas vagas, enchia o mundo de poemas com suas palavras e dedicava sua vida a educação, a família e a sua comunidade, dispondo sempre a contribuir com o próximo, tanto é, que ela trabalhava voluntariamente na igreja, na associação e exercia funções em diversas áreas com a mesma determinação e desempenho da docência.

Durante sua carreira na educação realizou eventos na escola, nas comemorações das datas festivas, abria as portas para toda a comunidade, pais, alunos, e proporcionava às mesmas comemorações simples, mas com muita diversão, muitas vezes com recursos próprios e ajuda de amigos.

Com muita dedicação e leveza, proporcionou para todos os alunos da comunidade uma educação significativa, mesmo com poucos recursos. Com o fechamento das escolas municipais ela continuou lecionando até a data da sua aposentadoria, que se deu em maio de 2007, com o seu descanso merecido, ela continuou a trabalhar em outras áreas, mas sempre ajudando aos alunos que precisava. Por isso, comungamos com Therrien (1991, p. 01),

O fracasso da escola pública não é meramente um fracasso "administrativo", e não pode ser imputado à presença da professora leiga. Em determinados contextos, é ela que ainda salva a escola pública. Afinal, esse fracasso generalizado na maioria das regiões brasileiras ocorre também nas áreas e salas onde lecionam professoras "formadas" nos moldes pedagógicos que regem as estruturas da escola tradicional.

Portanto entende-se que o problema da educação brasileira no geral, não pode ser atribuído aos professores que não tiveram formação para o exercício da docência, e sim a falta de comprometimento e fiscalização na execução dos recursos advindos das políticas destinadas para esses fins.

3.2.RELATOS DE EXPERIÊNCIAS: AS PROFESSORAS LEIGAS NA ESCOLA

Dans le document RT–11 System Macro Library Manual (Page 87-102)