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3 • CROISSANCE DE BIOFILMS EN EAUX NATURELLES

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D’ENRICHISSEMENT CemOA

III. 3 • CROISSANCE DE BIOFILMS EN EAUX NATURELLES

O estudo de Benites (2009), em pesquisa sobre os processos de parentesco guarani e kaiowá, aponta que estes perpassam pela ideia de “compartilhamento de um comportamento típico de parentes”, conceituado pelos Kaiowá por teko laja. Tal compartilhar – de um comportamento típico de um grupo familiar – acontece preferencialmente ao redor do fogo, que só se mantém aceso por causa de uma série de atividades, com objetivo de abastecê-lo e alimentá-lo, exigindo entrosamento e compartilhamento das responsabilidades advindas, divididas entre os membros do grupo. O processo de obtenção da lenha (que inclui incursões à mata e escolha das madeiras mais adequadas segundo os critérios guarani), até seu uso cotidiano, seja na cozinha, seja na casa de reza (opy), é conformador da própria organização da sociedade guarani.

O fogo, não dissociado de sua dimensão sagrada, é lugar de memória e de trocas de sentimentos, emoções e conversas. É ao redor dele que os nhemongueta – aconselhamentos – empreendidos pelos mais velhos podem se efetivar. Estes são valorizados na cultura guarani por

obedecer ao preceito divino da comunicação e das trocas de Palavras entre seres humanos. A fumaça, ao subir, estabelece comunicação entre aldeia terrena e a aldeia divina de yvy mara ey – da terra sem mal (PISSOLATO, 2006). Meio e forma que permitem a perpetuação das Palavras de deus nesta terra, os aconselhamentos deixam evidentes os investimentos empreendidos pelas gerações mais velhas em relação às mais novas, nos processos de sociabilização17 e incorporação de hábitos

e formas de agir, ver e sentir o mundo, segundo os preceitos do ethos guarani em geral, ou de uma parentela em particular.

É para o fogo que muitas das atividades do cotidiano estão voltadas, seja para abastecê-lo, para mantê-lo aceso, para a produção de alimentos ou, ainda, para a produção de artesanato. Os homens se dedicam a ir buscar lenha nas matas baixas, denominadas por ka’aguy carape, “capoeira” ou “locais de mata baixa”, que servem preferencialmente à obtenção de lenha.

Em algumas aldeias guarani do estado de Santa Catarina pode-se notar a disposição circular das casas, em torno de uma cozinha central. A ausência de cozinhas dentro das casas guarani dessa região se deve ao hábito de compartilhamento de um fogo de chão de dentro da cozinha de um casal de anciãos, e são essas casas que, não por acaso, geralmente possuem cozinhas. Tal disposição das casas é sugestiva de uma sociabilidade18

interna bastante específica das aldeias guarani do litoral do estado de Santa Catarina, em que as famílias nucleares vêm realizar suas refeições diárias nos fogos domésticos do casal de idosos, geralmente os chefes de família extensa. Desse modo, diferentes famílias nucleares de uma mesma parentela cozinham juntas, em uma mesma cozinha, em seu cotidiano, localizada dentro das habitações do casal de anciãos. Da cozinha sairão os alimentos oferecidos aos que vêm de fora, indígenas ou não indígenas, constituindo- se enquanto lócus de poder e estabelecimento de alianças políticas, sociais e de parentesco, através do oferecimento e compartilhamento da comida. É ainda na cozinha que se conformam os corpos das crianças e dos que com elas compartilham suas refeições.

A utilização da expressão “fogo doméstico”, trazida por Pereira (2010) para se referir às famílias nucleares guarani e kaiowá, é bastante apropriada também para o contexto guarani litorâneo deste estado. A

17 Utilizo o conceito de sociabilização enquanto “aprender cultura” (GOMES, 2007) e modos de transmissão de conhecimentos que incluem o empenho da própria pessoa para inserção em determinada cultura em particular.

18 Utilizo o termo socialização segundo o conceito popularizado por Strathern (1988), no qual o foco se volta para as relações que emergem entre as pessoas e nas ativações (ou desativações) de laços entre os agentes envolvidos.

expressão “tataypy” (tata = fogo, ypy = lugar), ou “o lugar do fogo”, é recorrentemente empregada pelos Guarani para se referir aos locais onde foram, estão sendo ou serão acesos os fogos, por diferentes grupos de parentes. Não por acaso, a expressão guarani “amboa’e tataypy”, que pode significar “aqueles daquele fogo”, ou ainda “aqueles que pertencem àquele fogo”, aponta a importância do fogo para a criação de identidades sociais e de parentesco para essa população indígena.

O compartilhar de um mesmo espaço físico (e social) cria um sentimento de pertença ao grupo de parentes, que os distinguem e delimitam as diferenças entre um fogo doméstico (ou grupo parental) e outro. Sendo assim, cada tataypy, ou fogo doméstico, é um universo de conhecimento particular, e é ao redor dele que muitas das trocas de saberes acontecem, em vários momentos do cotidiano.

O fogo possui importância material e transcendental. Alimenta corpo e espírito e é parte constituinte do ser e do corpo guarani. Como dizem, é “cheiro do Guarani”.19 A fumaça – tataxῖ –, em seu caráter sagrado,

ao envolver o corpo, protege-o de quaisquer influências maléficas; por isso, os Guarani gostam de andar, por assim dizer, “defumados”. O fogo é ainda local de memória e de trocas de sentimentos e sobre isso pode- se perceber que os locais onde foram acesos seus fogos fazem parte do grande tataypy rupa (“o leito dos fogos”). Ele é representativo para esses indígenas do próprio território guarani. Tal denominação aponta que o território indígena é pensado com base nos locais por onde passaram e onde foram acesos seus fogos de chão, ressaltando a importância do fogo na conformação territorial.

São as refeições cotidianas, as rodas de chimarrão, os sentimentos, as emoções, o compartilhamento de substâncias corporais, enfim, os compartilhamentos ao redor de um mesmo fogo de chão, que criam um sentimento de pertença a um grupo de parentes, os quais se identificam não apenas entre si, mas em relação aos demais grupos.

Como dito, as Palavras para os Guarani não se constituem apenas daquilo que é verbalizado, mas representam o próprio sopro

19 A questão do cheiro do corpo é tema recorrente entre as mulheres guarani. Algumas afirmam que tiveram que mudar o cheiro do corpo de seus maridos, para aceitá-los como cônjuges. Aqueles que tinham hábitos muito ligados ao mundo jurua – não indígena – que tinham forte cheiro de alho e outros elementos tipicamente não indígenas, tiveram que ser investidos na modificação de seus hábitos alimentares. Sendo assim, entre outras, elas lhes solicitavam que ficassem mais tempo próximos ao fogo, fumando o petyngua – o cachimbo sagrado guarani, para que perdessem o “cheiro de jurua” e passassem a ter “cheiro de Guarani”, apontando grande importância desse tema na vida desses indígenas.

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