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II. 3 • TRAITEMENT DES ECHANTILLONS
II. 3.3. Analyses quantitatives de la biomasse
Em boa parte do ano, os Mbya de Marangatu se alimentam dos produtos oriundos dos mercados da região. Além do arroz, feijão, macarrão, frango, óleo vegetal, o próprio tabaco, a erva-mate e a farinha de milho, há um destacado consumo de farinha de trigo. Esse é, de longe, o item adquirido em maior quantidade. Estimo que represente cerca de 70 a 80% do que os Mbya escolhem entre os alimentos disponíveis no comércio para preparar comida em suas casas. Entre as famílias que eu mais frequentava, era comum que uma das refeições do dia fosse preparada com trigo. Geralmente uma das mulheres servia o xipa, um bolinho frito, acompanhado de café preto. Era comum, também, terem na refeição o feijão cozido, acompanhado de arroz, macarrão ou farofa (feita tanto de milho como de trigo), ou uma combinação dessas e outras preparações.
O que se come ao longo do dia varia conforme a época do ano e a disponibilidade de recursos da família para comprar mantimentos. Da primeira vez que estive em Tekoa Marangatu, entre julho e dezembro, a maior parte da comida que via as mulheres prepararem era feita com produtos comprados no mercado. Depois, quando retornei, entre fevereiro e abril, período da fartura nas roças, usaram muito milho verde, feijão e legumes, colhidos na aldeia, bem como peixes que eram pescados nos rios do entorno.
A onipresença do trigo parecia se contrapor ao que relatavam os mesmos Mbya, os quais afirmavam ser necessário comer a comida mbya, entre outras práticas, para viver bem, isto é, em contato com as divindades. Em sua concepção cosmológica, todo conhecimento tem origem nessa relação, que é mantida ordinariamente através de práticas xamânicas pessoais, centradas na produção de fumaça de tabaco com o
6 Havia aposentados, mulheres que receberam o salário-maternidade, e todos os núcleos residenciais eram beneficiários do Programa Bolsa Família (programa de transferência de renda do governo federal).
cachimbo (petyngua); e coletivas, que são os cantos-danças realizados preferencialmente na opy. Essa comunicação é essencial não só para saber como lidar com o presente, com as mudanças decorrentes do convívio mais intenso com não índios, mas também para reforçar os princípios de boa convivência entre si, centrados no mborayu, que os Mbya traduzem como amor. O mborayu se expressa em cuidados, trocas e diversas maneiras de ajuda mútua. A agricultura é pautada nesse valor.
As práticas alimentares são alvo de grande atenção entre as parentelas que moram em Tekoa Marangatu. Dietas são um meio de manter um corpo apropriado para comunicar-se com as divindades e controlar certas mudanças corporais consideradas negativas, passíveis de acontecer em vários momentos da vida. São também uma expressão da estética da moderação característica do modo de ser mbya.7 Não que
todos sigam as recomendações à risca, mas o que pode decorrer dos descuidos com a alimentação é de amplo conhecimento na aldeia e, de algum modo, respeitado por todos.
Em geral, as dietas preconizam o consumo parcimonioso de alimentos cultivados e pequenos animais, ou animais que não têm sangue, como os Mbya se referem. Trata-se principalmente de pequenas aves e peixes miúdos, os quais têm propriedades semelhantes aos alimentos cultivados. O uso de sal e açúcar é evitado. É bom ressaltar que as carnes que não eram incluídas na alilmentação durante as dietas, ditas so’o guasu, como anta, porco do mato e veado, não se encontram na região de Imarui atualmente. No entanto, hoje em dia essa regra é transferida para a carne de grande animais disponíveis no comércio, como boi e porco, tanto quanto para seus derivados: leite, banha, queijo, mortadela etc. Essas interdições fazem com que o consumo desses produtos seja bastante reduzido em Tekoa Marangatu. O mais comum nas casas da aldeia é o consumo de carne de frango ou peixe.
Além disso, no dia a dia, evita-se comer à noite. Nas comidas coletivas, quando geralmente se preparam alimentos em abundância, mesmo assim predomina a moderação no consumo. Há uma recorrência de regras alimentares similares preconizadas em certas fases da vida, com pequenas variações, que se estende, de forma atenuada, no tempo. Esse cuidado é fundamental para a manutenção de um corpo purificado, propriamente mbya.
Assim sendo, para entender o uso da farinha de trigo processada, diante da ênfase que é colocada na comida pelos próprios Mbya,
busquei apreender as técnicas culinárias, comparando aquelas usadas para alimentos feitos com milho e aqueles à base de trigo. Essa, digamos, “análise culinária”, foi inspirada em Douglas (1975, 1979) e balizada pelos conceitos e práticas mbya sobre combinações de alimentos, as propriedades da comida, os modos de consumo e partilha em situações diversas. A partir daí foi se tornando evidente que o que se faz com o trigo é também boa comida, tembiu porã, comida mbya.
Em termos ideais, uma boa refeição é considerada uma combinação de dois tipos de alimentos. Especialmente entre os mais velhos, ouvi falar do mbaipy, um cozido de carne de caça cujo caldo é engrossado com farinha de milho, e do hu’i, um tipo de farofa preparada a partir da mistura de grãos de milho e amendoim. O hu’i era comido puro ou acompanhado de caça, peixe ou larvas assadas. Atualmente a combinação mais comum de ser consumida é o jopara,8 uma preparação
em que geralmente se mistura o feijão cozido com outro alimento, como arroz, macarrão, abóbora etc. Outra constante é o revíro, uma farofa feita com farinha de trigo, que pode ser acompanhada de frango, feijão ou ovos fritos, mas também consumida pura.
Quem prepara e serve a comida é uma das mulheres de cada núcleo residencial, podendo ser tanto a mais nova quanto a mais velha, a depender das características do grupo corresidente. A maneira de produzir, preparar e consumir alimentos tem variações entre cada família na aldeia. Mesmo os horários de comer são bem diferentes em cada casa. A relação com a comida, no âmbito da socialidade familiar, evidencia, sobretudo, a autonomia pessoal, é um elemento diferenciante na esfera do parentesco (SILVEIRA, 2011).
Em torno dos sete a nove anos de idade, as meninas começam a cozinhar, o que depende do interesse que elas demonstrem pelas artes culinárias. Aliás, todo tipo de transmissão de saberes segue essa mesma dinâmica entre os Mbya: uma pessoa com mais experiência ensina a um iniciante sobre plantas e animais da mata, sobre as histórias dos antigos, a confeccionar artesanatos, a preparar substâncias para feitiço amoroso, a cantar e tocar, tudo o mais, na medida em que a pessoa busca esse conhecimento.9 Outra característica marcante do desenvolvimento de
8 Ciccarone (2001) refere-se ao jopara como uma sopa de feijão à qual se acrescenta mandioca ou banana verde, indicando ser uma refeição comum na aldeia de Boa Esperança, no Espírito Santo.
9 À exceção do período de reclusão das mulheres, ainda em voga, quando a aprendizagem intensiva das tarefas femininas, do comportamento verbal e do respeito aos mais velhos é compulsória.
habilidades é a experimentação tentativa. Há um engajamento peculiar em aprender pela observação, praticar errando e acertando, aprimorar e inovar com autonomia. Na culinária é uma ação de descobrir sozinha que guarda certa relação com a ideia de autodesdobramento (oguerojera), o modo como surgiu a primeira divindade mbya, Nhanderu Tenonde (CADOGAN, 1997).
De acordo com os relatos das mulheres mbya, o aprendizado da culinária pode se dar a partir de relações diversas, não ocorre apenas nas linhas do parentesco consanguíneo. Dependerá do pertencimento ou vínculo mais forte da menina ou jovem esposa à determinada parentela, do local de residência, da necessidade, de sua curiosidade e vontade de aprender, circunstâncias que tendem a variar muito ao longo da vida. Uma das mulheres com quem conversei sobre o assunto, por exemplo, explicou-me que as receitas de bolo e pão de trigo que ela faz aprendeu com uma mulher branca para quem trabalhou por um período. A construção de um repertório culinário mais amplo não é estanque. As mulheres vão trocando receitas, aprendendo e ensinando, incorporando novas formas de fazer comida daquelas que vão visitar. Quando preparam comida para os mutirões e para as festas na aldeia, elas cozinham juntas. Os momentos de trocas sobre culinária acontecem com certa regularidade entre mulheres de parentelas distintas em Tekoa Marangatu.
Antes de analisar as preparações propriamente ditas, quero comentar sobre a produção de farinha de milho, pois esse é o ingrediente básico da maioria das preparações de milho entre os Mbya. As variedades de milho duro são preferidas para socar no pilão (angu’a)10 e preparar
a farinha fina que utilizam na culinária, enquanto as de grão mole são mais usadas ainda verdes, no preparo de mingaus e bebidas, conforme comunicação pessoal de Noelli. Fabricar farinha é uma prática muito eventual em Marangatu, já que a produção do milho guarani11 nas roças
é pequena. O milho é usado antes de amadurecer ou guardado como semente para o próximo plantio e as mulheres usam o fubá adquirido no
10 Eu vi apenas dois pilões na aldeia, em núcleos residenciais distintos, um vertical e outro horizontal. No pilão vertical trabalha uma mulher por vez, de pé, enquanto no horizontal podem sentar duas mulheres, uma de frente para a outra, e trabalharem juntas. Quando mulheres de outras casas querem socar milho, amendoim, coquinho de pindó ou outro, emprestam o pilão ou pedem que a dona do pilão prepare a comida, oferecendo uma parte a esta.
11 Os Mbya conservam as sementes de variedades de milho, como também de outros cultivos considerados sagrados, por várias gerações dentro da mesma família, feito do qual se orgulham (FELIPIM, 2001).
mercado quando querem fazer farofa ou bolos de milho. É importante destacar que embora o consumo de comidas feitas de milho não seja exorbitante nos dias atuais, a imagem que se cria quando os Mbya falam do milho evoca sempre a abundância. Ao inverso, o período do ano por volta do mês de outubro, quando nunca há milho, é conhecido como
karuvai12 (MÜLLER, 1989; REED, 1995; LADEIRA, 2008), tempo de
comer mal, de escassez.
A fartura das roças era o mote para o consumo da carne de grandes animais e, além disso, o milho é imprescindível para a realização do ritual de nominação, o nhemongarai, parte de um ciclo ritual que inclui a celebração da colheita e visa à renovação cosmológica. A prática agrícola é permeada pelo xamanismo. e a produção de comidas para consumo ritual, nesse contexto, serve para aproximar os Mbya e as divindades. Para os Mbya, idealmente, o milho verdadeiro deve ser batizado em pelo menos três momentos: antes de ser plantado, o batismo das sementes; quando são colhidos os primeiros milhos das roças, batismo dos alimentos; e, no rito de nominação, batismo das crianças. “Batizar”, como dizem em português, refere-se a soprar fumaça de tabaco ritualmente, ou em uma tradução mais fiel, “fazer enfeite”13
no que é fumegado. O batismo das sementes e das primícias da roça não se restringe ao milho, mas abrange aqueles cultivos deixados pelas divindades, a saber, variedades de feijão (kumanda), batata-doce (jety), amendoim (manduvi), aipim (mandi’o) e melancia (xãjau). Nessa aldeia faz alguns anos que não se realiza o batismo das crianças, apenas as sementes são batizadas.
Segundo contaram em Tekoa Marangatu, no passado distante, nos anos em que o clima estava favorável ao cultivo do milho, era possível estocar boa quantidade de espigas maduras e produzir farinha ao longo de vários meses. Naquele tempo as meninas começavam a assumir a tarefa de pilar o milho logo após o primeiro período de reclusão, uma habilidade essencial que indicava uma mulher apta para o casamento. A perpetuação das sementes, a coordenação do plantio na roça, a colheita
12 Alguns autores registraram uma série de alimentos alternativos consumidos apenas no período anual de escassez pelos Mbya, entre os quais destaco a fécula da palmeira pindó que, segundo Clastres (1995), é um alimento básico entre os Guayaki.
13 Suponho que esse efeito de embelezar corresponda a tornar visível, reluzente, no plano divino, aquilo que foi fumegado. Um dos conceitos-chave no xamanismo mbya é a ideia de imagens, ta’anga, que se multiplicam em diferentes planos dos cosmos. A fumaça de tabaco tem o efeito de conectar o plano terreno a outras dimensões cosmológicas, criando uma imagem.
e o preparo das comidas de milho são todas atividades pertencentes à esfera feminina.
Atualmente, as mulheres investem seu tempo em uma tarefa contemporânea, que não trata somente da manutenção da proximidade com as divindades, mas sim de uma adequada proximidade com os brancos. Usar a farinha de trigo para preparar sua própria comida – leia-se, algo substancialmente diferente da comida dos brancos – é uma maneira de usar essa capacidade transformativa para, a despeito de uma convivência cada vez mais intensa, propiciar o bem-viver. De acordo com Fausto (2002), a partilha do código culinário é um dado fundamental para pensar a familiarização. Ele se refere aos efeitos das regras de etiqueta, comensalidade e abstinência na produção de parentesco, ou ainda, de certa identidade que se cria a partir dos corpos com esse compartilhar. Aqui desloquei o foco para pensar o preparo dos alimentos como um componente desse código. Como veremos a seguir, as preparações de milho e trigo têm em comum nomes e maneiras de preparar. Se analisadas em conjunto, é possível perceber um gradiente de semelhança nessas preparações, o que nos indica que as comidas de trigo não são comidas regionais, são antes criações das mulheres mbya a partir da matéria-prima de que dispõem para cozinhar.