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Conclusions - Reproductibilité des canaux

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D’ENRICHISSEMENT CemOA

III. 1 • VALIDATION DU DISPOSITIF EXPERIMENTAL

III. 1.5. Conclusions - Reproductibilité des canaux

Neste momento, apresentaremos as reflexões de Antunes sobre o assunto, além de algumas falas pontuais de acadêmicas guarani que fazem parte do referido Curso de Licenciatura. Nesses diálogos estabelecidos, refletimos sobre os mitos, sobre a função da mulher guarani estabelecida a partir deles e discordamos da associação exclusiva da mulher com a desobediência e transgressão apontada em alguns mitos ameríndios.

É importante destacar que as mulheres são apontadas nos mitos como relacionadas à alteridade, como seres antissociais dotados de ambivalência e associadas à transgressão. Nesse momento, apontamos para a perspectiva desse outro – nesse caso, a mulher guarani – como um ponto de vista entre os vários que já analisaram os mitos guarani. Dessa forma, observamos que a história foi, muitas vezes, contada na perspectiva dos homens e, portanto, é necessário observá-la na ótica das mulheres indígenas. Se os homens se apoiam nos mitos para justificar o imenso controle que é necessário manter sobre as mulheres – instituído nos tempos míticos por causa de um comportamento imoral e antissocial atribuído às mulheres –, também os utilizamos para refletir sobre outras perspectivas possíveis.

A partir da mitologia guarani, Antunes explica que a mulher guarani foi criada para ser a companheira de Nhanderu, para conceber o filho dos dois, que esse filho seria parte dos dois seres: a mulher – humana, e o deus – Nhanderu. A mulher foi criada, então, para ser uma representante de Nhanderu, que a criou com perfeição. Esse

10 Não pretendemos estabelecer uma relação do tipo causa e efeito na escolarização e atuação como professoras e, a partir daí, o surgimento de lideranças femininas. Todavia, observamos que a formação de professores (desde o magistério e posteriormente na universidade) tem contribuído para a atuação de muitas mulheres como lideranças dentro e fora de suas comunidades.

filho foi criado pelo carinho e amor que Nhanderu transmitia por essa mulher, que é a luz. Responsável por trazer a luz ao mundo – o filho de Nhanderu com ela. Os outros seres, os outros deuses cobiçaram a criação de Nhanderu, um deles ousou e tocou na mulher de Nhanderu. Naquele ato ela concebe o filho desse outro deus, que é o Lua, o djatchy, ali, segundo Antunes, surge a imperfeição.

Esse ato recai sobre a mulher, acusada pela traição e abandonada pelo esposo. Grávida, inicia sua jornada à procura de seu marido, encontrando um trágico destino pela frente: a morte, devorada pelas onças. Essa mulher carregou dois filhos no ventre, Kuaray e Djatchy, sendo que o primeiro era filho de Nhanderu, e o segundo, não se torna filho da mulher, torna-se “dono” dela – o responsável pela fertilidade. Por isso djatchy – o dono da mãe. Por isso tudo, paira sobre as mulheres a designação da inferioridade, como se a mulher guarani fosse inferior aos outros seres.

Quando as mulheres guarani chegam à universidade, começam a pensar na origem da mulher. Apesar de saberem de sua importância como mulheres indígenas, refletem sobre a associação com a traição, com o desvio da caminhada e as consequências experienciadas a partir de seus erros. Todavia, Nhanderu deu a chance para que a mulher vivesse até o tempo atual e refletisse sobre a função das mulheres e sobre o porquê de sua criação. Na universidade, as mulheres guarani não estariam “quebrando tabu” ou “passando por cima dos mitos”, mas trazem “a parte da mulher”, pois as mulheres guarani têm regras a serem seguidas para viver bem nessa terra.

Desde a criação da mulher por Nhanderu, dentro da aldeia, os líderes espirituais sabem dessa história e a função da mulher dentro da comunidade e das regras a serem seguidas para esse reparo. O cuidado que ela (a esposa mítica de Nhanderu) não teve no início dos tempos primordiais, ela deve ter hoje, e as pessoas mais velhas sabem disso, os homens sabem disso. As mulheres comandam a parte social da comunidade, desde o passado são responsáveis pela agricultura, pelo plantio, por semear na terra, cuidar das plantas; são responsáveis ainda pela produção de alimento na comunidade. Possuíam o olhar da quantidade, da qualidade, sempre tiveram essa visão. Elas chegavam ao homem e falavam como eles deveriam fazer as coisas, onde a terra produzia melhor, tinham a função de dar as coordenadas e o homem executá-las.

Hoje as terras indígenas são limitadas, quase não se consegue sobreviver com a agricultura; desse modo, a mulher assume outras posições, mas continua dando sustento para os filhos, não mais como

agricultora, mas na produção do artesanato, com a responsabilidade de manter a comunidade.

No momento de falar em uma reunião, em tomadas de decisões – principalmente as mulheres das grandes lideranças – elas que possuem a voz mais forte (transmitida pelo homem – pois a mulher fala com o marido em casa, expressa sua opinião, e ele a transmite para comunidade). Isso se dá porque a mulher tem a visão ampla de tudo que está vivendo, e o homem deve transmitir à comunidade.

Depois da entrada das escolas nas aldeias indígenas, o homem também tem a função de ensinar e as mulheres começaram a se destacar; conforme foram estudando, tornam-se responsáveis pela interlocução entre a comunidade e os órgãos do estado e município, assim como os homens. A partir dessa atribuição como mediadora, a mulher começa a ter voz e se tornar liderança, conforme a palavra – nhe’e.

Antunes, como professora, explica para as mulheres essa regra, que é o corpo da mulher, a saúde. Busca-se repassar para as alunas, para as Secretarias de Educação do Estado, para que registrem no projeto político pedagógico e transmitam a importância desses cuidados para além das aldeias indígenas.

As mulheres começam a se articular, pois possuem uma visão geral da comunidade: quem está doente, de que família, de que maneira é possível fazer com que tenham sustento sem agricultura. Em relação ao artesanato, as matérias-primas não são suficientes; então, as mulheres decidem estudar, pois com o estudo têm emprego e sustento.

Quando as mulheres começam a vir para a universidade, o preconceito é intenso, pois os ensinamentos e prescrições dos mitos são importantes: as mulheres devem ter certos cuidados com o corpo. Todavia, a universidade não tem preparo para que possam seguir essas regras, e as próprias mulheres indígenas nas comunidades dizem que na universidade vão deixar de ser mulher guarani, “vão ficar que nem a mulher branca”. Além da linguagem que utilizam na universidade para falar em português, existem regras que são “quebradas”: a regra da alimentação, do resguardo, do ciclo menstrual; nesse sentido, o que mantém a mulher guarani na comunidade é o que ela deixa de manter na universidade.

As mulheres guarani nas aldeias começaram a olhar as acadêmicas com um olhar diferente por causa da saída rumo à universidade; todavia, essa situação tende a mudar. Os mais velhos possuem o entendimento de que é necessário que as mulheres saiam para ter a sobrevivência da cultura guarani. Possuem uma grande preocupação de que essa mulher

volte da universidade, mas como alguém que não seja mais uma mulher guarani – essa talvez seja a preocupação maior dos mais velhos, pois o povo guarani é um povo que tem em seu cerne a espiritualidade e o teko – seu jeito de ser e viver. São vários desafios que as acadêmicas indígenas devem superar, pois acabam por cometer essa “falha” com a comunidade, passando por cima de algumas regras, principalmente durante o período da menstruação – djatchy.

Percebemos a função social dos mitos e os aprendizados transmitidos em suas entrelinhas. Algo recorrente refere-se aos cuidados necessários nas relações conjugais, na gestação, a importância dos resguardos e dietas alimentares e as condutas esperadas das mulheres guarani. Além disso, observamos a dinamicidade da cultura guarani e os diferentes contextos históricos vivenciados a partir da escolarização e do ingresso na universidade.

Procuramos demonstrar os desafios impostos pelas regras de sociabilidade exaltadas pelos mitos, a preocupação dos mais velhos em “deixar de ser guarani” e a relação com a perda da língua indígena, dos hábitos e cuidados na produção do corpo. Todavia, diante de todos os desafios impostos pelas transformações contextuais, esses grupos possuem estratégias para manutenção de seu jeito de ser e viver, como descreveremos a seguir.

Reinventando o que é ser mulher: a experiência

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