E m vista disto, constata-se um estreito r el a cionamento entre inforrnatividade e topicidade, já que itens topicalizados são, em
geral, antepostos, com a tendência generalizada de o referente
tópico expressar informação velha. Outro aspecto decorrente da observação acima consiste na ligação especial verif i c a d a entre a
inforrnatividade e a ordem c o m p 1emen t o-verbo na oração,
p a r t i cularmente quando o item sujeito está sendo introduzido no discurso ou reintroduzido após largo período de ausência.
3 . 3 . 2 . A c o n t r a s t i v i d a d e :
Destaca-se a contrastividade como uma categoria cognitiva, utilizada pelo locutor para atrair a atenção de seu interlocutor. O procedimento consiste em selecionar um item determinado, em um
conjunto limitado de possíveis candidatos, que são avaliados na mente do ouvinte. No mome n t o em que é selecionado, o item passa a figurar como marcado em relação à parte restante do conjunto, cujos memb r o s são m enos importantes que o item selecionado e, por isso mesmo, sem necessidade de marcação. A estratégia facilita a v is u a l i z a ç ã o do que está sendo v e i c ulado pois, como no caso da I n f o r m a t i v i d a d e , aqui também o locutor leva em consideração o que está na mente da pessoa com quem fala e ajusta o que diz ao que imagina que essa pessoa está pensando. (Princípio da cooperação -
G rice 1968). Ao destacar o referente, o falante coloca-o em
evidência, delimita-o, distingue-o dos demais componentes do
conjunto, que podem estar implícitos ou explícitos. Se o contraste é efetuado entre dois itens que formam um par contrastivo e esse
par contrastivo está explícito, dá-se o caso do contraste
empregado no seu sentido mais estreito: aquele em que se permite saber com certeza quais são os itens envolvidos no contraste. Essa m odali d a d e é comum entre os casos de T o p i c a l i z a ç ã o , em que os referentes em contraste são antepostos aos demais constituintes do enunciado. Exemplo:
"
Na Alemanha,
uma filha de comerciantes de classe média, /?£>Sjra&ll, uma
lavradora. " (Rose)À informante, ao relatar a diferença da vida de seus avós tinham na Ale m a n h a em comparação com a que tiveram no Brasil, evidencia ambos os itens e, ao proceder assim, antepõe esses itens
ao restante do enunciado, o que torna visível a presença do
c o n t r a s t e .
Givón (1990b: 26) refere-se à proximidade existente entre a contrastividade e a anteposição, reafirmando o caráter funcional e
altamente cognitivo da categoria. E aponta o princípio da
iconicidade como grande responsável pelas relações entre
informação, contraste e ordenação linear: "categorias
e s t r u t uralmente mar c a d a s são também substanti v a m e n t e marcadas." Daí o especial r e l a cionamento entre o contraste e os m e c a n i s m o s de destaque do tópico.
A p articularidade correspondente à seleção de candidatos na
m ente do ouvinte supõe uma certa dose de conhecimento
compartilhado entre os participantes da interação. Por fim,
p r o porciona a certeza de que o candidato é um, o que evidencia a função real da sentença contrastiva. O item selecionado passa a
figurar como marcado, em oposição aos demais, facilitando, por
certo, a v i su a l i z a ç ã o correta do que está sendo veiculado. Como no caso da inf o r m a t i v i d a d e , aqui também o locutor leva em consideração o que supõe estar na mente da pessoa com quem fala e
ajusta o que diz ao que imagina que essa pessoa está pensando no m o m e n t o .
Givón (1990 b), reafirma o caráter funcional e cognitivo da categoria contraste ao evidenciar a sua relação com a anteposiçâo. De fato, o foco de contraste é, em geral, anteposto ao restante do
enunciado, passando a figurar como o primeiro item da cadeia
sonora. Daí o relacionamento mantido entre contrastividade e
topicalização ou deslocamento à esquerda. Se um locutor/escritor
deseja evidenciar um elemento, opta comumente por antepô-lo,
quebrando a expectativa natural do fluxo do texto. Ao agir assim, atribui entonação de pico de sentença ao item selecionado, o que
contribui para chamar a atenção do interlocutor para esse item. E é esta uma das características da contrastividade, apontada como tal por vários lingüistas, entre os quais B o linger e Chafe. Este último afirma ser a principal m a n i f e st a ç ã o do contraste a
localização do tom mais alto, além do aumento da pressão
(amplitude), no foco de contraste. D esse modo, a centuação enfática
e o r de m - vocabular são as manifest a ç õ e s mais típicas da
C A P Í T U L O 4
OS F E N O M E N O S
O português brasileiro v em sendo considerado pelos gramáticos como língua tipicamente s u j e i t o - p r e d i c a d o . Na verdade, grande
parte de suas estruturas comporta-se assim, apresentando, em
geral, o padrão SVO. Constata-se, no entanto, uma forte tendência
à transgressão desse padrão, seja pela colocação de outros
constituintes que não o sujeito em posição primeira na cláusula, seja pelo deslocamento do referente sujeito topicalizado para
fora dos limites normais dessa cláusula.
R e alizações do tipo:
"
Sinônimo de bons negradas, boas vendas., boas compras e
boas atrações,
a FEINCO já se consolidou como a maiorfeira industrial e comercial, além da segunda maior festa de Santa Catarina." (Jornal D i ário Catarinense, em maio de
1992 ) .
"Toda c rise maior., ela
leva a instabilidades. . . " (Ministro Jorge Bornhausen, em entrevista no programa Jô On z e e Meia, em 1 5 / 0 4 / 9 2 ) ."Sei não,
earsra in&nlna B a tista , &Ja
pode surpreender." (personagem Cândido Alegria, na novela Pedra sobre Pedra, em 1 8 / 0 4 / 9 2 )."... p o r q u e
a
C A P E Sala
faz u m c e r t o crivo, q u a n d o e l a fazu m a a v a l i a ç ã o . .."
"...
a pd&-grarfuaçâ'o s tr c tu ssnsu, &Ja é
uma coisa c o n t i n u a . .." (Prof. Fernando Luis Bastian, representante da CAPES, no VII Congresso Nacional de Pós-Graduandos, em 0 1 / 0 8 / 9 2 )."... de modo que
easa renovação
..&Ja
é salutar." (Prof. Jorge Guimarães, Diretor de D e s e n v ol v i m e n t o T e c n o l ó g i c o - CNPQ, no VII Congresso Nacional de Pós-Graduandos.r e p resentam apenas uma pequena amostra das cada vez mais
freqüentes ocorrências dos fenômenos conhecidos como Desl o c a m e n t o para a esquerda e Topical i z a ç ã o que, por suas características,
fogem ao padrão de estruturação da língua e s t a belecido pela
G r a mática Normativa.
Ambos os processos dizem respeito à ordenação dos
constituintes no enunciado, ordenação esta, em geral, pautada por certos critérios, que diferem de idioma para idioma. O constante afastamento desses critérios está a merecer uma o bservação um pouco mais criteriosa, além do que, pelo expressivo percentual de ocorrências, v em sugerindo uma forte mo t i v a ç ã o funcional.
Tais constatações servem de mo t i v a ç ã o a esta pesquisa, que se pretende um estudo de natureza q u a l i t a t i v o - q u a n t i t a t i v a , com
variáveis, sua extensão ou grau de abrangência, bem como as principais diferenças de emprego na fala e na escrita.
Neste capítulo, faço uma revisão, na literatura lingüística, a respeito das principais características já r e l a c ionadas aos
fenômenos. A seguir, passo à análise e interpretação dos dados constantes dos corpora, em ambos os modos expressivos. Inicio com De s l o c a m e n t o para a Esquerda.
4 . 1 . D e s l o c a m e n t o p a r a a e s q u e r d a :
4 . 1 . 1 . P r e s s u p o s t o s :
Com base em Ross 1967, considero como o c orrências de
D e s l o c a m e n t o para a E s querda (DES) os casos em que se evidencia a
promoção do referente sujeito pelo seu deslocamento para a
posição mais à esquerda e mesmo para fora dos limites estruturais da cláusula, com a posterior retomada desse referente através de pronome c o r r e f e r e n c i a l , resumptivo, que assume a função de sujeito da proposição que segue. Exemplo:
(1) "E
meus! país?, e le s
não são liberais." (Juna)(2) ” ...
rapases1 que tavam lá, e le s
tinham me d o de ir na frente." (Juna)O procedimento possibilita a abertura de um espaço na cadeia temporal dá conversa ou narrativa (cf. Pr ince 1980 e Votre 1 9 9 1 ) . A estrat é g i a de 'criar um e s p a ç o 1 v e m preencher as limitações de
memória, facilitando as t a r e f a s ' de processamento, tanto do falante como do ouvinte que, num discurso m u l t i p r o p o s i c i o n a l , demonstram dificuldades na identificação dos referentes.
Givón (1983) demonstra certa preocupação, justificável,
quanto à complexidade do mecanismo, já que o mesmo argumento é tópico e sujeito. Perg u n t a - s e Givón: "Ele conduz uma dupla função? Que função? Como defini-la?" P a rece que sim, uma ve z que se trata de um mesmo referente nas duas vestimentas: uma para apresentá-lo, numa função discursiva de caráter p ragmático forte,
e uma sintática, de caráter regular, em que esse referente é
sujeito da oração em que está inserido.
Na verdade, o procedimento utilizado é o mesmo o b servado nas
construções ‘quanto a' (Quanto a João, ele deve chegar hoje à
noite.) que, segundo Oc h s Keenan e Schieffelin 1976, quando
e mpregadas com SNs sem acentuação enfática, m a r c a m reintrodução de tópicos e quando seguidas de SNs acentuados, são usadas para
contrastar ou enfatizar referentes ou proposições. Alertam, no
entanto, para o fato de que construções desse tipo estão sujeitas a certas restrições, limitando-se, no caso da r e i n t rodução de
referentes, àqueles provenientes de um contexto não muito
próximo, uma vez que em seqüências como "Where is John?" "As for John, he's at home", seu uso pareceria i n a p r o p r i a d o . Já com SNs deslocados à esquerda não precedidos de 'quanto a 1, as restrições
seriam bem menores, podendo essas construções introduzir
mencionados. E m ambos os casos, os referentes seriam o centro de a tenção da sentença em que estão incluídos.
P o ntes (1983) chama a atenção para a semelhança entre as
construções com desl o c a m e n to à esquerda e figuras de linguagem, como pleonasmo e anacoluto, cujo uso alguns gramáticos condenam, ou restringem, por acha r e m redundante a co-ocorrência do pronome.
G u i m a r ã e s e Lessa (1988), por exemplo, dizem que "Pleonasmo
é
também um caso de repetição, mas que envolve uma redundância. Quer dizer, no pleonasmo há uma repetição desnecessária, tanto do ponto de vista sintático quanto do ponto de vista semântico."E m Cegalla (1984), pode-se encontrar: "
O pl&onasmo, como
f i grui'¿3 d& 1 Inguagem, visa a um of&Ito &xpjressivo & dsv& obsd&c&r
ao bom gros to."
Para Rocha Lima (1976), "Pleonasmo ó o emprego de palavras desnec e s s á r i a s ao sentido. Há o pleonasmo grosseiro, decorrente da ignorância da significação das palavras, e o literário, que serve à ênfase, ao vigor da expressão."
Já Said Ali (1964), afirma: "Pleonasmo consiste em repetir um
termo de
uma
frase empregando outro de sentido equivalente.Co l o c ando-se no princípio da oração um complemento expresso por
substantivo ou palavra substantivada e p r o n u nciando-se este
complemento com ênfase seguida de pequena pausa, é costume
o sujeito posto no começo da oração, depois do qual se faça
pausa, pode vir repetido sob a forma do pronome esse." E
exemplifica: "A podenga negra, essa corria pelo aposento." ( H e r c u l a n o )
Gu i m a r ã e s e L e s s a , portanto, consideram o pleonasmo uma
repetição desnecessária; já Cegalla admite a pretensão a um
efeito expressivo, recomendando, no entanto, a obediência ao bom gosto. Rocha Lima, por sua vez, adverte sobre a existência do tipo literário, visa n d o a efeitos de ênfase. Finalmente, Said Ali, sem nenhuma condenação ou advertência quanto ao uso, parece considerá-lo perfeitamente normal e, ató, bastante utililizado, pela v a r i e da d e de tipos a que se refere. O exemplo que cita para
o caso do sujeito pleonástico, na verdade, ó s emelhante às
construções de d e s l ocamento aqui estudadas, diferindo apenas no
tipo de pronome (demonstrativo/pessoal), conforme pode ser
constatado a seguir, na comparação entre o exemplo citado por Said Ali e a realização de uma informante do primeiro grau, ao iniciar a narrativa que lhe fora solicitada:
"A podenga negra, essa
corria pelo aposento.""...
a minha professora, ela
foi fazê um passeio com a g e n t e ." ( M il a )P ont e s (1987) á de opinião que a redundância não existe,
c ontribuindo o pronome para a caracterização do tópico que,
nesses casos, corre o risco de ser confundido com o sujeito. E adverte sobre a alta incidência de pronomes-cópia nos casos de
s u j e i t o - t ó p i c o , que "pode ser constatada a cada mom e n t o por quem observar a língua falada em casa, na T V ou mesmo em sala de aula,
nos concursos de professores, assembléias, enfim, tanto em
ocasiões informais como formais."
O certo é que, com redundância ou sem redundância, rotulado
como pleonasmo ou como deslocamento, o fenômeno existe em
diversas línguas, e representa uma forma encontrada pelo falante
para 'marcar' o SN sujeito e poder chamar a atenção do
interlocutor sobre esse sujeito que, em construções normais de padrão SVO, aparece como 'n ã o - m a r c a d o '.
Chamo a atenção para o fato de que, em estudos da década de 70, lingüistas utilizavam a deno m i n aç ã o D e s l o c a m e n t o para a E squerda (Left Dislocation) de modo mais genérico, referindo-se, através dela, a outros m ecanismos de destaque do tópico. Duranti
e Ochs (1979), por exemplo, ao pesquisarem o fenômeno na
conversação italiana, apresentam-no como uma construção na qual
um constituinte (nome ou pronome pleno) que aparece antes/à
esquerda de seu predicado, tem, na mesma sentença, um pronome co— referencial (n ã o —r e f l e x i v o ). Nos dados que obtiveram, detectaram
somente pronomes clíticos como co— r ef e r enciais de itens
deslocados à esquerda. Como pronomes clíticos não assumem a
posição de sujeito (pelo menos no dialeto em questão), sujeitos não aparec e r am como itens deslocados para a esquerda. A f i r m a m não terem encontrado construções do tipo "Mario, lui e uscito presto stamatina" (Mário, ele veio cedo esta manhã). A p o n t a m esse achado
como um contrast© do Italiano r e lativamente ao Inglês falado, em que um grande número de itens d eslocados para a esquerda são s u j e i t o s .
Embora o português integre o grupo das línguas neolatinas, como o Italiano, nesse ponto nossos falantes comportam-se como os
falantes do Inglês, uma vez que construções com sujeitos
deslocados para a esquerda são típicas, não só do português
coloquial, mas também de seus registros mais formais.
Por sua vez, E u nice Pontes analisa a p o ssibilidade de
d istinguir os dois tipos de construção como faz Ro s s com o
Inglês. Conclui que "em português a situação não parece muito clara, embora haja indícios de d iferenças funcionais entre as construções estudadas". Ross (1967) estabelece essa distinção, tomando por base o fato de que em DES aparece um pronome-cópia que em TOP não aparece. Dá como exemplos: (1) "Beans I don't like." (TOP) (2) "The man my father works with in Boston, he's going to tell the police that ..." (DES) . Na mesma linha, Emonds (1976) afirma que tanto DES como TOP m o v e m SNs para a frente da
sentença, ligando-os à sentença mais alta, mas que em DES a
transformação "que remove SNs de sua posição usual na sentença s e p a r a — os por vírgula e s u b s t i t u i — os por p r o n o m e s " .
Embora de pleno acordo com a d e nominação adotada por Duranti e Ochs, já que o que chamo de "Topicalização" ’ não deixa de ser, na essência, um deslocamento para a esquerda, e respeitando a
posição de Pontes quanto às dificuldades em e st abelecer as
fronteiras, adoto, neste trabalho, denominações distintas para
referência aos fenômenos que, por suas e s p e c i f i d a d e s , p odem ser
considerados dois recursos distintos. Com tal procedimento,
separo os m e c a n is m o s de destaque do tópico estudados,
restringindo o rótulo
Deslocamsn to para a Esquerda
às construçõesde sujeitos deslocados para a esquerda seguidos de pronomes
c o r r e f e r e n c i a i s . Por outro lado, utilizo
Topíoalísaçâo
para denominar as construções que e n f a tizam os demais constituintes sintáticos, como objetos direto e indireto, complemento nominal,p r edicativo do sujeito e adjunto adverbial. Considero a
classificação p e rfeitamente de acordo com os parâmetros
es tabelecidos tanto por Ross como por Emonds, moti v o pelo qual sinto-me bastante à vontade ao adotar tal posicionamento.
4 . 1 . 2 . A n á l i s e e c o m e n t á r i o s :
D e s l o camento para a E s querda (doravante DES) tem se
comportado como construção típica da oralidade, em que o falante prime o status de tópico a determinado referente, ratificando-o, introduzindo-o no discurso, ou r ei n t r o d u z i n d o — o após certo período de ausência. É o que se pode observar no exemplo (3), a seguir, em que a entrevistadora solicita à informante que relate algum fato, triste ou alegre, que lhe tenha ocorrido e do qual se lembre sempre :
(3) "Ah é, eu tava na segunda série, lá do outro colégio,
a minha professora., ela
foi fazê um passeio com agente . 11
Note -s e que a informante muda o tópico, pára de falar de si,
apresenta a p rofessora e, após uma pequena pausa, retoma o
referente introduzido, agora na forma do pronome pessoal ' e l a 1,
que passa a desempenhar a função de sujeito. Com este
procedimento, provoca uma quebra da expectativa r e lativamente ao que irá relatar, quebra essa que acontece em virtu d e da mudança
do tópico para o outro referente que, apesar de recém-
introduzido, é p e rfeitamente aceitável, já que disponível no
arquivo referencial. Por isso, ja se caracteriza como definido e dado, sem n e cessidade de qualquer e xplicação que o determine.
Para e videnciar a freqüência das construções com DES nas
situações de fala de nossos informantes, comparativamente às
m e smas situações na escrita, dos m e smos informantes, apresento a
T a bela 1, na qual chamo a atenção para o total de registros
verificados, em ambos os modos, nos três níveis de escolaridade:
T a b e l a 1 :
D E S n a f a l a e n a e s c r i t a
lû srrau 2Û srau 3a grau Total
Fala
24
1 1 1 146
A Tabe l a 1 comprova que DES v e m sendo utilizado como um
recurso típico da fala, já que na escrita foram encontradas
apenas 2 manifestações. Aliás, a estratégia de 'criar espaço' ou de 'dar um t e m p o 1, proporcionada pelo uso de DES, justifica essa
larga utilização na fala, inclusive em situações de maior
formalidade ou tensão, já que o falante, ao destacar o referente
e fazer uma pausa, para depois retomá-lo através do pronome,
ganha tempo para organizar seu pensamento, para refletir sobre o que vai dizer. Por outro lado, cria condições para que o ouvinte
processe com maior êxito o que lhe está sendo comunicado,
o p o r t u n i z a n d o , assim, o sucesso da interação. Sim, porque a interpretação adequada do que está sendo dito é o objetivo maior de toda e qualquer situação interativa, determinante, por isso mesmo, da o r ganização estrutural do texto e da maior ou menor presença de recursos expressivos.
Cabe aqui um comentário sobre a posição de Ochs (1979) frente a essa distância entre os m ecanismos utilizados na fala e na escrita. R e l a ti v a m e n t e à constituição dos v á rios tipos de discurso e considerando as diversas situações em que eles se manifestam, Ochs estabelece um continuum, em cujas extremidades localiza, de um lado, o discurso n ã o - p l a n e j a d o , ao qual associa as situações de fala informal, e, de outro, o discurso planejado, que teria na escrita formal o seu representante mais típico. Caracteriza o primeiro como n ã o - p r e m e d i t a d o , espontâneo, sem
organ i z a ç ã o prévia e o segundo, como p r e meditado e organizado p r eviamente à sua expressão, exigindo raciocínio.
Postula ainda Oc h s que a criança, e não só ela, mas também o adulto, ao adquirir novos conhecimentos, não substitui os velhos, mas acumula uns e outros. Depen d e n d o da situação, um ou outro se manifesta. E m casos de discurso n ã o - p l a n e j a d o , por exemplo, tende a m a n i f e s t a r - s e o discurso infantil, com estratégias adquiridas entre 3 a 4 anos de idade. Já em situações de discurso planejado,
que exige fala ou escrita mais elaboradas, é normal que se
recorra ao conhecimento adquirido posteriormente (ensino formal).
Chama a atenção, também, para as ocasiões em que
falantes/escritores utilizam, deliberadamente, estratégias de
discurso n ã o - e l a b o r a d o , com planejamento prévio, considerando, por esse motivo, ser difícil a distinção.
Com referência às construções com DES, que considera
construções de "referente + proposição", próprias do discurso n ã o - p l a n e j a d o , afirma que o falante recorre a certas estratégias como L D (deslocamento para a esquerda), em que inicialmente faz referência a algum elemento (nomeia certo referente) e só depois formula a predicação sobre esse referente, como e s tratégias para garantir a manut e n ç ã o da palavra. O SN inicial atua, neste caso, como um "place-holder", permitindo que o falante m a n t e n h a — se no comando do turno.
A posição de Ochs justifica, assim, a ausência de ocorrências do m e c a n i s m o nos textos escritos, uma vez que estes estariam localizados, no continuum mencionado, em posição mais próxima à
extremidade ocupada pela escrita formal, r e presentante do
discurso planejado. Por outro lado, as freqüentes r e c o r rências a DES em situações de fala mais formal, como conferências, debates, pronu n c i a me n t o s politicos, entrevistas, etc., não en c o n t r am resposta nas observações da pesquisadora, em cuja concepção o m e c a n i s m o está restrito às ocasiões de fala informal.
A seguir, procedo a uma observação das condições sob as quais se d e s envolvem as ocorrências do mecanismo, visando a selecionar e caracterizar as categorias encontradas, bem como a identificar e comprovar a sua funcionalidade. P elas características em geral presentes nesse tipo de fenômeno, espero encontrar SNs à esquerda mais 'definidos', mais ’c o n t r a s t i v o s ', mais 'velhos' e mais
'h u m a n o s '.
Tendo em vista o caráter peculiar das categorias contraste e
informação e seu estreito relacionamento com o m e c anismo em
estudo, inicio por elas a análise dos dados selecionados. O
o bjetivo é evidenciar a relação mencionada, comprovando, através
dela, a atuação das referidas funções como d e terminantes das
4 . 1 . 2 . 1 . D E S e C o n t r a s t i v i d a d e :
Contraste envolve, entre outros fatores, certa dose de
conhecimento compartilhado a respeito do que está sendo tratado,
uma série de possíveis candidatos à avaliação na m ente do
destinatário e, por fim, a asserção de que o candidato ó um, e esta é a função real da sentença contrastiva. (cf. Chafe 1976). Sob tal enfoque, ó de grande importância o limite do número de candidatos à seleção, uma vez que, sendo esse número ilimitado, a sentença deixa de ser contrastiva.
Na grande maioria das ocorrências de DES encontradas
e v i d encia-se o contraste, urna vez que, ao marcar, através do d e s l ocamento para fora dos limites da cláusula, o SN sujeito, para depois retomá-lo na forma do pronome, o falante destaca esse