Embora Hume seja frequentemente lembrado pela sua teoria epistemológica e moral, é no pensamento político que suas reflexões convergem de forma excepcional e inovadora. É nos escritos políticos que suas teses ganham unidade e formam um só corpo teórico. Os efeitos da experiência na construção do conhecimento, aliado aos efeitos das paixões na construção da moral ditam então as engrenagens que moldam e influenciam a organização social e política. A partir de sua atitude científica diante dos fatos, Hume produz uma análise descritiva que elucida a relação entre as instituições sociais e a natureza humana. Para tratar do homem em sociedade os três pilares de seu pensamento; empirismo, ceticismo e naturalismo estão presentes.
Ao examinar o funcionamento real do sistema político, Hume distanciou-se das noções contratualistas1 e dos direitos naturais, se opôs a um valor de justiça bom per se, e também mostrou que a utilidade e o interesse direcionam fortemente as ações dos homens. Hume desenvolve suas reflexões sobre a origem do governo, propriedade, virtudes, direitos, e a necessidade da justiça, e nelas ele demonstra suas objeções às noções
* Acadêmica do curso de Bacharelado em Filosofia na Universidade Federal de Pelotas. 1 Em seus escritos políticos encontrados no Livro 3, Parte 2 do Tratado, e também nos
Ensaios, no texto Do Contrato Original, Hume diverge em vários aspectos de filósofos como
Hobbes ,Locke e Rousseau. Sua objeção é tanto filosófica quanto histórica. Hume defende que a maior parte dos governos consolidou-se por conquista e usurpação, e que a utilidade gerada a partir da necessidade gera aquiescência habitual, a ideia de consentimento contradiz a realidade, um “raciocínio falacioso e sofístico” (HUME,TNH,2009,589)
clássicas tanto historicamente como filosoficamente. Segundo Hardin, Hume pode ser considerado um pensador político do final século XX, pois ele elabora afirmações sobre as interações sociais baseadas em uma análise téorica de jogos, isto é, em Hume o âmbito político é estudado a partir de fenômenos como: “conflito, coordenação e cooperação”2. Embora Hobbes, em alguma medida, também houvesse utilizado tais elementos para teorizar a política, Hardin afirma que “até muito recentemente, somente Hume havia praticamente definido um mapa completo das mais importantes interações”3. Esta combinação de elementos gerou as bases econômicas das obras de Adam Smith, influenciou movimentos posteriores dentro da história da tradição política, e participou de outras teorias políticas como a de John Rawls.
É por causa desta singularidade que David Hume é considerado um filósofo de difícil enquadramento e delimitação conceitual, a classificação no que se refere a seu posicionamento dentro do espectro político divide opiniões entre os comentadores. Há quem o classifique como um pensador liberal, pelo fato de suas análises naturalistas e céticas terem resultado em uma crítica do entendimento tradicional da moral, política, economia e religião. Para John Stewart4 tais críticas teriam influenciado e possibilitado as reformas liberais5 posteriores. Por outro lado, a desconfiança e desdém de Hume por apriorismo e abstrações, mudanças radicais e racionalismo, tudo isso aliado a uma defesa da ordem social, e reconhecimento da força das convenções consolidadas pelo tempo, indicariam seu pensamento conservador. Contudo, seria correto afirmar que estes atributos são suficientes para fazer de Hume o precursor do conservadorismo? Para autores que defendem esta posição, o hábito e experiência como força
2 Hardin, Russel. David Hume: Moral and Political Theorist, 2007, p.56, no capítulo Strategic
Analysis Hardin desenvolve os argumentos estruturais da política de Hume, que
caracterizam seu pensamento dentro de uma moldura da teoria dos jogos.
3 Ibid. 227
4 John Stewart desenvolve esta concepção liberal de Hume em sua obra “Opinion and
Reform in Hum’s Political Philosophy.”
5 . Tais críticas incluiriam; “defesa do comércio, ataque ao protecionismo, indiferença ao
império, desmistificar a constituição herdada, seu esforço de fazer filósofos e políticos focarem no interesse público e pela sua denúncia de um Whiggery religioso.” Stewart, John: The public interest vs. Old Rights. In: Hume studies, Volume XXI, Number 2, November 1995, p.165-188.
instintiva e guia na reforma das instituições é uma noção que influenciou fortemente o pensamento de Edmund Burke6 e que foi herdada de Hume. 2- Liberalismo e Conservadorismo
Estes são apenas alguns dos elementos que tornam a teoria política humeana no mínimo instigante, pois ele combina simultaneamente visões que podem em primeira análise serem consideradas antagônicas e até mesmo auto excludentes. É preciso, portanto, alinhavar os conceitos de seu pensamento para compreender a combinação destes valores políticos e estudar o modo como eles interagem. A partir deste exame, pode-se buscar uma possível classificação e reconciliação entre liberalismo e conservadorismo no seu pensamento. Porém, antes de traçar uma conjuntura que dê respaldo a um enquadramento apropriado, é crucial estabelecer o significado e aplicação de tais posicionamentos, esquivando- se de usos anacrônicos e rígidos, uma vez que espectros políticos7 ganham novas implicações dentro do contexto em que se encontram e da forma que são compreendidos.
Se tomarmos o conservadorismo, por exemplo, como uma defesa forte das tradições e normas transcendentais aliadas a uma conservação irredutível de ordens existentes -o que poderia ser chamado de um conservadorismo metafísico- como o de DeMaistre, será certamente um equivoco denominar Hume como um pensador conservador. Por outo lado, se considerarmos o conservador, aquele que se opõe de forma reativa a princípios abstratos como fundamento para ação politica, isto é, nos termos de Russel Kirk aquele que está “determinado a resistir todas as ideologias”8 e guia-se pela experiência; neste caso, Hume satisfaria os critérios que o colocam antes de Edmund Burke como precursor de uma filosofia da prudência?
6 “O conservatismo, tal como o entendemos, começa com o que todos tomam ser o seu
maior texto, as Reflexões de Edmund Burke sobre a Revolução Francesa de 1789.” Honderich, Ted: Conservatism p.8
7 Cabe lembrar aqui, que os conceitos, liberal e conservador, “são termos do ínicio do século
XIX enquadrados para caracterizar uma resposta política e intelectual à Revolução Francesa e à Revolução Industrial”.LIVINGSTON, Donald: On Hume’s Conservatism. Embora Hume não tenha vivido durante este período é recuando alguns passos que podemos identificar inspirações antecedentes e melhor compreender as dinâmicas dos conceitos.
Mesmo destoando de seus contemporâneos mais otimistas, Hume ainda é parte do espirito iluminista. No entanto, não aspira projetos utópicos e emancipatórios para humanidade, mas também não demonstra descrença quanto o refinamento da esfera política, desde que tais mudanças não sejam violentas e completamente desvinculadas dos antepassados. Hume é um reformista, pois compreende a sociedade como uma construção heraclitiana, ou seja: “está em fluxo perpétuo, a cada momento saindo um homem do mundo enquanto outro chega”9. Inovações são bem vindas “em toda instituição humana” e é uma felicidade, diz ele, “quando o gênio iluminado da época a dirige para o lado da razão, da liberdade e da justiça.”10 No entanto, Hume é categórico e declara que“ nenhum individuo tem o direito de introduzir inovações violentas”, e que delas “só se pode esperar mais mal do que bem.” Hume propõe e defende uma reforma evolucionária e não revolucionária. Seria este um critério que participe do escopo do conservadorismo?
O mesmo conflito ocorre com o liberalismo. Hume se opunha a partidos de princípios fundacionais, por considera-los destrutivos no exercício político. Isto porque “facções dirigidas por princípios abstratos especulativos”11 impossibilitam acordos, pois subjugam todo aquele que não partilha do mesmo princípio, e isto acaba inviabilizando vantagens mútuas. Deste modo, se o liberalismo for tomado como doutrina da liberdade deontológica, é possível considerar Hume um pensador liberal? Porém, se o pensamento liberal for assumido como uma prática onde se exerce uma ética do individualismo, uma defesa da sociedade civil, propriedade privada e governo representativo sob estado de direito, e considerar tais valores frutos do hábito, poderíamos então denominar Hume um liberal neste sentido?
Feita esta breve exposição do problema, a proposta do projeto é então responder as seguintes questões; é possível reconciliar liberalismo e conservadorismo na política de David Hume? Quais são os elementos de sua teoria que possibilitam uma classificação destas concepções politicas? E finalmente, quais os critérios que designam o pensamento de Hume como um filósofo liberal e/ou conservador?
9 HUME. Ensaios Políticos. Do contrato Original, 1963, p.51. 10 HUME. Ensaios Políticos Do contrato Original,1963, p.51. 11 HUME. Ensaios Políticos, Dos Partidos em Geral, 1963, p.80.
Considerações Finais
A Política como reflexão seja talvez o exercício do pensamento em que dele depende nossa sobrevivência como espécie. E é pensando na espécie humana como ser que inventa ferramentas de coordenação e cooperação -para atender suas necessidades e subsistência- que o pensamento político de David Hume, mais do que nunca, é um objeto de estudo que merece atenção. Hume trata a relação simbiótica entre a natureza humana e as instituições políticas de modo científico, histórico e empírico, oque torna sua análise uma vigorosa teoria da ordem social. Embora a atividade filosófica aconteça no campo da abstração, ela não está desvinculada da vida prática; e talvez esta seja a contribuição mais emblemática do filósofo de Edimburgo. Suas obras são reflexões ancoradas no mundo e por isso elas detêm sobriedade. Há quem pense o contrário, mas muitos concordam com o fato de que os filósofos que privilegiariam a vida comum e a observação da realidade não cederam à tentação da especulação e suas desproporcionalidades.
O papel da filosofia entre muitos é o de esclarecer conceitos, comparando-os e relacionando-os e assim contribuir para uma compreensão sensata do mundo. Liberalismo e conservadorismo são conceitos que surgiram junto com a política prática e a filosofia, e que nas reflexões de Hume ganham vigor prudencial, pois ele e consegue acomodar diferentes valores políticos sem absolutismo. Hume alertou que “deveriamos projetar instuições políticas que funcionariam bem mesmo por cidadãos que não são de forma geral e incisiva altruistas” 12 ou nas palvras do próprio filósofo; sistemas governados por “patifes”.13 Há muito para se apreender do seu utilitarsimo-institucional, uma vez que sua teoria propõe que o exercício político seja desempenhado de forma estratégica, baseado na coordenação de interesses – privilegiando o interesse público- e manejo de conflitos, de forma que desvincula a política de fins morais. Cabe o governo assegurar as regras de justiça para que os membros da sociedade possam usufruir da estabilidade das instituições e assim refinar as liberdades e a convivência civilizada.
12 HARDIN, Russel: Moral and Political Theorist, p.174.
Referências
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