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CONTROLLING MAJOR STATE

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PRINCIPLES OF OPERATION AND HARDWARE DESCRIPTION

5.14 CONTROLLING MAJOR STATE

Quando os desfechos das tramas se prolongam nas partes de uma narrativa, estabelecem a necessidade de compreensão por parte do público e é aí que repousa a essência do que é a implicação da continuidade66 do enredo. Uma espécie de acordo tácito se configura

entre as partes através do pacto receptivo. É preciso acompanhar para saber o que acontece e como tudo finaliza. A fruição plena de uma obra de ficção seriada no campo audiovisual condiciona a recepção a testemunhar o desenrolar da história por episódios ou capítulos, mesmo que o público tenha acesso a todos os episódios de uma só vez, ainda assim a narrativa continua fragmentada e é preciso seguir um caminho já estruturado: um episódio ou capítulo por vez. Caso isso não aconteça, corre-se o risco do não entendimento dos acontecimentos e perder os efeitos gerados pela completude da história apresentada.

Caso Divina exige o acompanhamento do espectador para entender todo o

desenvolvimento do processo de investigação através das ações dos investigadores Lucinda e Gustavo recolhendo pistas, tomando depoimentos, ouvindo testemunhas, analisando os fatos, recompondo cronologicamente os eventos, reconstituindo a cena do crime, traçando teorias, eliminando suspeitos para a cada episódio aproximarem-se da verdade, revelando o autor do crime e a verdadeira motivação para o assassinato de Davi.

63 Poderia fazer uso do termo série ou seriado, pois carregam o mesmo sentido, porém nesta frase soa estranho o

termo: série/seriado serializado.

64 Que possa ser transmitida em canal aberto (mediante negociação e adequação a horário mais tardio), canal

fechado e plataforma streaming. Esses possíveis modos de veiculação alteram alguns procedimentos de criação. Isso será melhor explorado, principalmente, quando for tratado os recursos para composição da narrativa, entre eles o gancho.

65 Entendendo o caráter capitular neles empregados.

66 Não são somente os desdobramentos do enredo que garantem a continuidade da obra, existem outros

componentes relacionados diretamente ao formato que a obra adquire a partir da sua organização. Esses elementos são explorados quando for discutido o tópico: formato.

Sobre o entendimento de complexidade, afirmo que a ideia de narrativa complexa desenvolvida por Mittell (2006) encontra seus princípios nas interpretações das organizações internas das narrativas de ficção seriada e nas variações das formas dessas organizações já apontadas neste capítulo. O teórico ao examinar os produtos seriados no mercado estadunidense afirma que desde a década de 1980 a ficção televisiva já apontava sinais de caminhar em direção à hibridização entre os extremos das formas serials e series. Os resultados dessas variações, dessas hibridizações, seriam as narrativas complexas que evoluíram com o passar do tempo, aprimorando-se e se tornando mais sofisticadas.

Emergindo nas últimas décadas, as narrativas complexas resultam de um contexto67 de mudanças e inovações no campo audiovisual já apontadas por Brett Martin (2013) e é a partir desse entendimento das origens que é possível pensar a narrativa complexa, em linhas gerais, como

Uma redefinição de formas episódicas sob a influência da narração em série – não é necessariamente uma fusão completa dos formatos episódicos e seriados, mas um equilíbrio volátil. Recusando a necessidade de fechamento da trama em cada episódio, que caracteriza o formato episódico convencional, a complexidade narrativa privilegia estórias com continuidade e passando por diversos gêneros.68 (MITTELL, 2006, p.36)

Seguindo essa diretriz, a narrativa complexa se refere ao modo como os seriados redefinem formatos episódicos típicos do series através da influência do serial, sem necessariamente representar uma junção completa das duas formas, mas compondo uma mudança no equilíbrio entre ambas. Para existir e ser bem-sucedida em sua complexidade, a narrativa precisa equilibrar as exigências competitivas e de fruição de uma produção que insira recursos dos regimes episódicos e capitulares.

O próprio autor vai depois dizer que a complexidade não pode ser definida apenas como os modos de compor a serialidade, mas que o conceito de complexidade se expande para além disso, não se reduzindo apenas à organização interna da narrativa, mas atingindo demais recursos dramáticos e estéticos que produzem efeitos diversos das convenções da época.

67 Essas novidades não podem ser entendidas apenas como uma liberação criativa sob responsabilidade de

artistas visionários, mas também como a combinatória de um conjunto de fatores que operam para transformar as Mercedes s estabelecidas através de uma prática criativa. Assunto já discutido no capítulo 01 desta pesquisa.

68 Os gêneros serão abordados mais adiante neste capítulo. A discussão é focada na possibilidade de mistura

entre gêneros na proposição criativa desta tese atendendo essa conceituação de Mittell para a complexidade de uma narrativa.

Esses programas de efeitos são gerados por modelos distintos de atração. Investimentos considerados ousados, como as variações de temas. Um exemplo dado pelo autor acontece na série Six Feet Under, que começa todos os seus episódios na primeira temporada com uma morte da semana, mas na segunda temporada os criadores mudaram a apresentação dessas mortes de modo a desviar a atenção e oferecer articulações novas para manter os espectadores fascinados (mesmo depois de terem entendido as regras intrínsecas do programa).

Esses momentos trazem a performance operacional para o primeiro plano, chamando atenção para a natureza construída da narração e demandando uma admiração direcionada ao modo de fazer a série, de composição e organização da narrativa seriada de ficção.

Trago como exemplo o nono episódio da primeira temporada de How To Get Away

Whith a Murder quando existem as revelações dos principais acontecimentos da noite que

levaram à morte do marido da protagonista. A narrativa apresenta uma estratégia complexa de abordagem de linhas temporais diversificadas e como elas se encontram neste episódio compondo uma única linha temporal. A surpresa está na revelação de que a protagonista sempre esteve presente e sempre soube de tudo o que aconteceu e quem estava envolvido. A sucessão de revelações é ainda suplantada pelo efeito que os retrocessos das linhas temporais mostram. Por mais que o espectador esteja já acostumado com a revelação que o retrocesso temporal possa trazer, essa dinâmica é funcional porque traz ainda o mais inesperado, levantando a possível indagação: “Como fazem isso?” Um interesse que anima a curiosidade pelo trabalho do escritor e como ele consegue acionar os procedimentos narrativos necessários para reunir de modo surpreendente as linhas de ação e dar continuidade à narrativa.

Essas e outras tantas indagações são os efeitos da narrativa que Mittell (2006) denomina como um momento de “reflexividade operacional” que convida o espectador a pensar a engenharia da composição ficcional ao mesmo tempo em que aprecia a sua construção. Nessa perspectiva é possível conjecturar que a narrativa complexa demanda para a fruição uma audiência conhecedora e familiarizada. Exige um tipo de recepção mais alerta com capacidade para imersão e envolvimento com o universo de ficção e ao mesmo tempo uma apreciação técnica69. Essa “reflexividade operacional” está demonstrada nos

69 Não significa que é excludente. Que deva existir um público complexo para compreender a complexidade de

uma narrativa, mesmo porque, como já apontado no capítulo anterior, as mudanças e evoluções no campo audiovisual também perpassam pelo público. O que Mittell afirma é que um público engajado é aquele que vai aceitar o esforço para decodificar o que testemunha e então se deleitar também com esses recursos na fruição da obra.

desdobramentos da fruição quando a audiência dedica horas de especulações após ou até mesmo antes da veiculação da obra na tentativa de desvendar como operam os procedimentos narrativos. Para Mittell, o público deseja, além de ser inserido num mundo narrativo de ficção, tomar parte das engrenagens e ver desvelado o seu funcionamento.

A partir disso é pertinente afirmar que não é apenas na organização da narrativa que estaria a chave para a composição da complexidade; ela passaria também por outros recursos que compõem a estrutura dramática. Entre os possíveis recursos, o autor traz para discussão as analepses (alterações cronológicas como flashback70, flashforward71, etc). O que não é uma

exclusividade das narrativas complexas, porque tais recursos já foram e muito utilizados nas narrativas convencionais, porém para Mittell (2006) são potencializados na complexidade da narrativa porque, quando utilizados, são assinalados de maneira muito mais sutil ou adiados. Tais recursos parecem utilizados sem receios de causarem uma confusão temporária no espectador. Sequências fantasiosas, alucinantes, representações simbólicas de pensamentos, lembranças, estado de espírito das personagens, são mostrados de forma abundante sem serem claramente demarcados ou sinalizadas como tais. As narrativas que fazem uso desses recursos apresentam perspectivas sobre eventos que oscilam entre a subjetividade da personagem e a realidade exposta no desenrolar da trama, jogando com fronteiras ambíguas.

Muitos são os exemplos que podem ilustrar essas afirmativas, pois na atualidade são muitas as séries que fazem uso desses recursos. Personagens que (re)agem de forma agressiva quando confrontados ou ainda as personagens que têm rompantes apaixonados e beijam o alvo do seu desejo, mas que logo após o público testemunhar isso, bruscamente, através de um corte na edição, vê-se que tudo foi imaginação. As personagens não (re)agiram, apenas imaginaram. O que foi testemunhado era apenas a expressão de um desejo oculto de uma delas.

Outro exemplo é a situação explorada na série Breaking Bad. Cada temporada trouxe uma sequência de acontecimentos que era revelada aos poucos em cada episódio e que poderia ser qualquer coisa relacionada ao protagonista Walter White, como sonho, lembrança ou ainda um evento do futuro. Isso permite entender as muitas possibilidades de uso desses recursos na série Caso Divina, pois existe nisso a possibilidade de explorar características da personagem principal, a investigadora Lucinda, desvelando aos poucos nuances de seu

70 “Exibição (em inglês, flash) de incidente que ocorreu antes (em inglês, back) do que se narra.” (CAMPOS,

2009, p. 382)

71 “Exibição (em inglês, flash) de incidente que vai ou pode acontecer adiante (em inglês, forward) do que se

passado através de fragmentos de cenas que aos poucos contribuem para expor ao público os sentimentos e a personalidade dessa mulher e como o seu cotidiano é afetado por isso.

Outro recurso abordado por Mittell (2006) é o uso de uma interação mais direta entre a narração e a recepção. Um bom exemplo é a interação entre a personagem Francis e o espectador na série House of Cards. Desde o piloto, a personagem fala diretamente com o espectador encarando a câmera como se falasse olho no olho com quem assiste. Um recurso muito bem empregado porque coloca o espectador num lugar de extrema cumplicidade com a personagem e os acontecimentos na trama. Tanto que, na quinta temporada, a personagem Claire, esposa de Francis, fala pela primeira vez com o espectador exatamente no momento de virada da trama, quando ela assume o poder e o controle da situação. Ela não encara o espectador, fala de soslaio, mas deixa claro a consciência de que sempre soube que o público estava ali.

Mittell (2006) afirma que

Todos esses programas, a falta de indicações e sinalizações explícitas sobre a forma de contar gera momentos de desorientação, implicando que os espectadores tenham que se engajar mais ativamente na compreensão da história e premiando espectadores comuns que conseguiram dominar as regras internas de cada programa narrado complexamente. Tais estratégias podem ser similares à dimensão formal do cinema de arte, mas nesse caso elas se manifestam em contextos expressamente populares para uma audiência massiva – podemos ficar temporariamente confusos em alguns momentos [...] - mas esses programas demandam de nós que confiemos que a recompensa virá eventualmente no instante da compreensão complexa, mas coerente, e não a ambiguidade e causalidade questionável de muitos filmes de arte. (BORDWELL, 1995 apud MITTELL, 2006, p.47)

As afirmativas do pesquisador são corroboradas quando se percebe na composição estética de algumas dessas séries que não há o trabalho de sinalizar a diferença entre as temporalidades de várias linhas narrativas. Enquanto How To Get Away With a Murder ainda elege paletas de cores para marcar a diferença de temporalidades, a série Westworld72 não

dedica atenção (propositadamente) a isso, e é aí que o efeito da complexidade se potencializa porque é uma estratégia que gera efeitos na audiência, pois os flashbacks são repentinos e não

72Série de televisão americana desenvolvida por Jonathan Nolan e Lisa Joy, transmitida pela

emissora HBO desde 2016. É baseada no filme de mesmo nome de 1973. Produtores executivos: Jonathan Nolan, Lisa Joy, Bryan Burk, Jerry Weintraub e J. J. Abrams. A história se passa num futuro tecnologicamente avançado e é centrada em Westworld, um parque temático que simula o Velho Oeste e é povoado por androides sintéticos apelidados de "anfitriões", que atendem aos desejos dos ricos visitantes do parque (apelidados de "recém-chegados" pelos anfitriões e de "hóspedes" pela gerência do parque). Os visitantes podem fazer o que quiserem dentro do parque, sem seguirem regras ou leis e sem medo de retaliação por parte dos anfitriões. O conflito se instala quando alguns “anfitriões” passam a questionar essa posição.

indicados numa ordenação clara, com conexões sonoras entre o tempo presente e o passado dos eventos, contribuindo assim para o sentimento de desorientação que esses programas usam para aumentar a tensão e a ansiedade.

Grosso modo, me parece que grande parte dos programas com narrativas complexas

que fazem uso desses recursos flertam com a desorientação temporária e com a confusão na busca de um efeito que possibilite aos espectadores a articulação de suas habilidades de compreensão através do acompanhamento de longo prazo e do engajamento ativo. Sendo assim, para atingir a complexidade em uma narrativa seria interessante o exercício de aglutinar alguns recursos e potencializar o uso de outros, pois em sua forma cabem elementos facilmente reconhecíveis na fruição tradicional de narrativas convencionais, como o aprofundamento de personagens, solução clara das tramas, consistência do mundo elaborado, excitação com a ação em curso, etc., associados a outros dispositivos orquestrados com a finalidade de provocar, inquietar, exigir mais da audiência.

O mais relevante é pensar que a complexidade narrativa sugere um movimento interessante no campo do audiovisual, impondo revisão de conceitos dos formatos estabelecidos, um nível mais elaborado no uso dos mecanismos de construção de uma narrativa para estimular espectadores que estabelecem intenso envolvimento com a obra, concentrados tanto na fruição do mundo ficcional como nos meandros da composição desse mundo.

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