Nesta seção apresentaremos duas características principais do PB, entre outras, que se confirmam em inúmeros estudos, e que fazem parte de um fenômeno ou tendência reportada não somente no português, mas em várias línguas romanas, e outras indo-européias. Trata-se
1) da tendência à posteriorização articulatória das variantes fonéticas usadas para a realização dos róticos10 e
2) da variabilidade fonética em geral que os róticos apresentam em muitas línguas11.
Antes de analisar a manifestação desses dois fenômenos no PB, lembraremos de algumas fontes históricas que fazem referência aos róticos no PB, para incorporar uma pequena visão diacrônica dos aspectos fonéticos em questão.
10 Reportado, entre outras línguas, para o alemão e o francês. Compare Malmberg (1954). 11 P. ex., o francês, o inglês, o holandês e o alemão (REIGHARD, 1985).
2.2.1
Variantes de róticos no PB descritas desde Gonçalves
Viana (1883)
A descrição das particularidades da pronúncia da variedade brasileira em
comparação com a variedade européia começa, provavelmente, com o Compendio de Orthografia de Frei Luís do Monte Carmelo, de 176712.Esta obra comenta a
diferença entre o PB e o PE quanto à abertura das vogais pretônicas. Fontes mais antigas sobre a formação do PB, em sua grande maioria, tratam exclusivamente de aspectos lexicais regionais, e, quando mencionam a pronúncia, tendem a julgar (e desprezar) a variedade brasileira, sem no entanto descrevê-la.
A primeira menção à pronúncia dos róticos foi encontrada por Noll em obra de Gonçalves Viana, de 1883, que comenta a ocorrência freqüente de uma fricativa sonora que substitui a vibrante no PB, sem poder dizer se se trata de um fenômeno de variação dialetal ou individual, uma vez que ele observa o fenômeno
especialmente em falantes oriundos de Pernambuco e São Paulo13.
“Ce r fricatif sonore est cependant assez fréquent dans la prononciation des Brésiliens, et remplace chez eux le r vibrant; je ne saurais dire, toutefois, jusqu`à quel point cette prononciation est individuelle ou dialectale; je l´ai surtout remarquée chez des
naturels de Pernambuco et de São Paulo” (VIANA, 1941:25-26, apud NOLL, 1999:197- 198).
Com base nesta menção, e também considerando as descrições feitas por Pedra Branca (BALBI, 1826, apud NOLL, 1999:143), Noll conclui que o fenômeno da velarização dos róticos no PB e no PE já havia se iniciado no começo do século XIX, e que no final do mesmo século esse fenômeno já estava mais avançado no PB do que no PE.
No PB atual, a velarização, ou melhor, a posteriorização14, é uma característica bem marcante do comportamento dos róticos. Sua grande variação regional chama a
12 Ver Noll (1999).
13 Noll comenta sua surpresa em relação à menção de São Paulo como região de velarização, pois considera esta uma realização atípica nessa região. Em uma publicação posterior, Gonçalves Viana modifica sua afirmação: “como o r final de muitos dialectos brasileiros, entre elles o do Rio de Janeiro, por ex. em mar, ser” (VIANA, 1892:40, apud NOLL, 1999:198).
14 Silva et alii (2001:96) também chamam de “fricativização” uma vez que as variantes posteriores não somente avançam até a zona articulatória velar, mas também até a uvular e compartilham, como conjunto, o modo articulatório fricativo. Compare seção 2.3.3.
atenção, considerando que é comum, na lingüística lusófona, partir do princípio de que nem o PE e nem o PB apresentam uma variação regional15 muito grande. Essa visão deve-se, provavelmente, à comparação do português com línguas como o italiano ou o alemão, cuja vasta gama de diferenças regionais é normalmente salientada. A esse respeito, a seguinte observação de Mateus e Andrade (2000:3) é interessante, porque os autores distinguem entre a variação dialetal e a variação socioletal: “Even if the variation in dialects is not very great, the enormous variation in sociolects presents the Brazilian school with a formidable challenge.”
No Brasil há um número razoável de elaborações de atlas lingüísticos, situados tanto na dialetologia quanto na geolingüística (ver AGUILERA, 1998), os quais, na sua grande maioria, retratam a realidade de uma região. Contudo, já existem tendências que levam à elaboração de trabalhos que buscam a comparação inter- regional, como, p. ex., o Projeto de Estudo da Norma Lingüística Urbana Culta (NURC16), desenvolvido em cinco capitais brasileiras (Recife, Salvador, Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre).
Em relação aos primeiros atlas lingüísticos brasileiros, Noll (1999) aponta para problemas na notação fonética, como também para uma falta de coerência na descrição de certas variantes, a exemplo do Atlas Prévio de Falares Baianos (APFB), elaborado entre os anos 1960-1962 e publicado em 1963, assim como outros posteriores, tais como o Atlas Lingüístico de Sergipe (ALS) e o Esboço de um Atlas Lingüístico de Minas Gerais (EALMG). O problema para a avaliação das anotações nesses atlas consiste no fato de parcialmente não usarem símbolos fonéticos padronizados e de descreverem algumas variantes com pouca precisão fonética, como, p. ex., a “vibrante velar sonora” (no EALMG) que é articulatoriamente impossível, porque não há vibrantes velares. (NOLL, 1999:51)17
Consciente desses problemas descritivos, apresentamos, nas duas figuras abaixo, as variantes de róticos mais referidas no PB. Como em muitas publicações não há
15 Com “variação regional” denominamos, neste trabalho, a variação dialetal. Ver a seção 3.1.1.
16 Ver a descrição do projeto sob o URL: http://www.letras.ufrj.br/nurc-rj/projnurc.html. 17 Noll deduz então que deve se tratar, no caso, ou de uma vibrante uvular ou de uma fricativa velar. Entretanto, a aparente contradição (vibrante velar) poderia ser um indício de formas intermediárias ou de articulação misturada, como também as encontramos (ver seções 5 e 6) e como são descritas por Silva (SILVA e ALBANO, 1999 e SILVA et alii, 2001). (compare 2.2.2) e também por Spessato (2001) e Margotti (2004) (compare 3.2.2).
especificações por símbolos fonéticos da IPA, tentamos encontrar a transcrição segundo a convenção da IPA que mais se aproxima da descrição que encontramos nas fontes listadas na segunda figura. Trataremos separadamente das variantes retroflexas e aproximantes na seção 2.2.2.
ALVEOLAR RETROFLEXA VELAR UVULAR FARINGAL/GLOTAL VIBRANTE 1. [r] 6. [R] TEPE 2. [ɾ] 3a. [ɽ] FRICATIVA SURDA FRICATIVA SONORA 5a. [x] 5b. [ɣ] 7a. [X] 7b. [ʁ] 8. [h] APROXIMANTE 4. [ɹ] 3b. [ɻ]
VARIANTE: REGIÃO DE OCORRÊNCIA: CONFIRMADO, ENTRE OUTROS, POR: