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: CONTEXTE ET DEMARCHE D’ELABORATION DU DSRP-C

Ao longo do texto, venho me referindo aos conhecedores das grafias dos kubẽ como sendo principalmente os homens jovens e as crianças em processo de aprendizagem. Tentarei definir melhor quem faz parte desse conjunto de pessoas que utiliza a escrita em situações cotidianas escolares, em oficinas e cursos promovidos pelos kubẽ ou nos interiores das casas, quando corpos e paredes são compostos por nomes77. Faço isso trazendo para o texto as categorias de idade, noção que ajuda a entender aspectos do modo de vida xikrin e já bastante discutida nos textos sobre os Mẽbêngôkre78. Tento compreender por que a escrita é um conhecimento vinculado aos que estão em processo de amadurecimento corporal, que, em português, é identificado pelos Xikrin como o conjunto de crianças e/ou os mais novos. Embora use, neste texto, a palavra “jovem”, ela não é comum entre os Xikrin, que preferem falar os mais novos, o que, por ser categoria ampla e genérica, acaba incluindo as crianças ou todos aqueles que estão numa fase inicial da vida, marcada ou pela ausência de filhos ou pelo seu número ainda reduzido. No contexto da aprendizagem e manipulação da escrita, o que os Xikrin mostram, no entanto, é que existe diferença na forma como crianças, e estas depois que crescem e, em alguns casos, produzem filhos, fazem no uso da escrita, ainda que em certas situações elas sejam coincidentes.

Os trabalhos de Vidal (1977) e Fisher (1991 e 2001) trazem explicações minuciosas sobre as categorias de idade entre os Xikrin; elas auxiliam na compreensão de como tais categorias atuam na organização de atividades coletivas, mobilizando alianças entre homens, por um lado, e mulheres, por outro, fazendo com que não se restrinjam aos critérios de parentesco. As formas de ordenação definem atividades e comportamentos considerados adequados para cada pessoa, de acordo com a fase da vida em que se encontra. Fisher (1991, p.216) explica que é um jeito xikrin de colocar ordem no desenvolvimento biológico individual, uma vez que as categorias de idade ajustam comportamentos que são transitórios, pelos quais todos devem passar. Elas estão, portanto, relacionadas com o amadurecimento corporal de cada pessoa, o qual envolve

77 Os Xikrin me explicaram que as tatuagens podem ser feitas em qualquer espaço que não o da escola, mas

percebi uma preferência pelas casas. Irei tratar sobre tatuagens em outro capítulo.

78 Os trabalhos que abordam as categorias de idade de forma detalhada são de Turner (1966); Vidal (1977);

tanto relações entre os que compartilham as mesmas substâncias (consanguíneos) quanto entre uma coletividade maior, sempre variável, como é o agrupamento em aldeias.

Os trabalhos sobre os Mẽbêngôkre que discutem as categorias de idade mostram que há algumas variações de nomes que são atribuídos a cada uma delas, incluindo o reconhecimento de diferentes nomes para uma mesma categoria, além da quantidade de divisões diferir quando são comparados os subgrupos. Seguirei o que foi elaborado por Fisher (1991) com os Xikrin do Bacajá, cuja sequência é a seguinte:

As categorias de idade se baseiam em uma lógica de divisão em que os gêneros são separados, embora as crianças muito pequenas (mẽprire) e os velhos e velhas (mẽbengêt) sejam designados pelas mesmas nomenclaturas. A consolidação do casamento, com o nascimento do/a primeiro/a filho/a, é um ponto marcante na vida de uma pessoa xikrin, e também é indicada com o mesmo nome para homens e mulheres (mẽkrare). O nascimento de mais filhos/as gera uma distinção interna nessa categoria, ainda que não muito utilizada pelos Xikrin (Fisher, 1991), mas que distingue homens e mulheres, quando o orador assim o deseja. O crescimento de meninos e meninas, até antes do casamento, toma rumos diversos, tanto na forma como recebem cuidados, como também no modo de se relacionarem na aldeia, com as pessoas e com os espaços. Os nomes das categorias marcam isso, sendo que os meninos passam a ser reconhecidos como mẽboktire, mẽgôrômànõrõ e mẽnõrõnyre, e as meninas são agrupadas em mẽprintire e mẽkurêrêtire.

Os Xikrin indicam mais fases para os meninos nos primeiros anos de suas vidas, porque é quando eles devem fazer uma transição da casa de seus pais para a casa da/o sogra/o, o que, aparentemente, exige maiores investimentos em relações com os não parentes, que ocorrem em espaços públicos, para se adequarem às novas condições. As

HOMENS MULHERES mẽprire mẽprire mẽboktire mẽgôrômànõrõ mẽnõrõnyre mẽprintire mẽkurêrêtire mẽkrare mẽkrare mẽbengêt mẽbengêt

meninas permanecem na casa de seus pais mesmo após o casamento, saindo apenas, em alguns casos, depois que já têm muitos filhos e passam a morar com seu marido e filhas/os em uma casa separada. O trânsito dos meninos, que, no passado, tinha como implicação o ato de dormir fora da casa dos pais, no pátio da aldeia, é uma prática pouco observada nos dias de hoje; considerando os relatos de outros trabalhos (Cohn, 2000, p.128), os Xikrin já não fazem isso há um bom tempo, mas ainda acontece de eles irem dormir no ngà (casa que fica no centro do pátio da aldeia), ocasionalmente. Em campo, observei apenas uma vez isso acontecer na aldeia Ràpkô, e os poucos meninos que seguiam essa conduta logo desistiram, com a alegação de que alguns tinham visto mẽkarõ79 no meio da noite, fazendo com que voltassem para as casas de suas mães antes que o dia amanhecesse. No dia seguinte, quando a notícia se espalhou, ninguém quis continuar dormindo lá. Nenhuma objeção foi feita à atitude dos meninos, os mais velhos apenas comentavam o fato com humor. O mais comum, atualmente, é ver os meninos saírem das casas de suas mães apenas quando se casam e passam a morar com a/o sogra/o. É, inclusive, o indício dos casamentos que, em tempos passados, tinham como referência um ritual chamado mẽ kamrô (Vidal, 1977, p. 160 e Fisher, 1991, p. 291), realizado na casa da mãe da menina, com a duração de alguns dias.

No que diz respeito aos agrupamentos diários das crianças, o que vi nas aldeias foram grupos baseados em parentesco, em que meninos e meninas faziam brincadeiras diferentes, dentro de grupos que não costumavam ultrapassar o das irmãs e dos irmãos e dos/as primos/as cruzados/as. Nessas situações, o vínculo por parentesco sobressaía ao

79 Mẽkarõ é outra palavra que assume diversas traduções contextuais, muitas vezes de difícil entendimento

para os estrangeiros. Mẽkarõ é o plural de karõ, onde mẽ é uma partícula que coletiviza. O karõ é um dos elementos que constitui a pessoa e é a parte que sobrevive à morte e que vai habitar a aldeia dos mortos. Karõ também é usado pelos Xikrin para designar coisas como fotos, vídeos, desenhos, imagens na televisão e pode se referir à fala registrada em um gravador (Giannini, 1991, p. 144). Assim como Tselouiko (2018a, p.256), escutei explicações xikrin de que eles chamam de mẽkarõ quando não sabem o karõ de quem é, como quando animais são transformações de pajés ou de parentes que morreram e entram em suas casas. Nessas situações esses bichos não devem ser mortos, mas cuidadosamente colocados para fora, orientam. Essa palavra também é usada para designar manifestações que podem anunciar acontecimentos ruins, como a morte de alguém, mas não é sempre assim. Essas manifestações, normalmente, são associadas à aparição de algum animal, ou ao fato de se ter visto (olhado) primeiro (do que outras pessoas) o animal, ou a algum som ou barulho que se ouviu ou aquilo que se ouve repetidamente quando se frequenta o mesmo lugar para executar certa atividade. Os mẽkarõ têm uma presença intensa na vida dos Xikrin e estão em todos os lugares (Tselouiko, 2018a, p.281), embora pareçam estar mais presentes em alguns deles, como são os cemitérios e as roças (Giannini, 1991, p.145), o que não exclui o fato e a relevância de prestar atenção em sua abrangência no cotidiano dessas pessoas. Além disso, essa presença entre os vivos indica que eles não ficam circunscritos à aldeia dos mortos, pois transitam, ou caminham, para diversos cantos. Do mesmo jeito como descreve Giannini (1991, p. 76), a compreensão que tenho é a de que os mortos (mẽkarõ) xikrin não se extinguem nunca, estando eles a viver eternamente naquele outro lugar. Para finalizar, esclareço que nas produções sobre os Mẽbêngôkre essa palavra costuma ser traduzida como “espírito”, “alma”, “sombra”, “imagem” e “duplo” (ver Turner, 1966; Vidal, 1977; Lea, 1986; Fisher, 1991; Giannini, 1991, entre outros).

das categorias de idade, apesar de tais arranjos contemplarem separadamente diferentes tamanhos de crianças. Utilizo a expressão “diferentes tamanhos” porque, nas conversas com os Xikrin, a forma como me explicavam quais crianças ocupavam uma ou outra categoria de idade era feita por meio de gestos manuais que mostravam os seus tamanhos com a referência à distância do chão. Se a criança tinha tal tamanho, era mẽbôktire, se fosse de um tamanho um pouco maior, mẽnõrõnyre, e assim por diante. Portanto, o crescimento do corpo parece ser um critério expressivo nos primeiros anos de vida de uma pessoa.

Os agrupamentos de crianças por parentesco podem ser pensados dentro do processo de cisão de aldeias que vem ocorrendo com força nos últimos anos. O número cada vez mais reduzido em que a população de cada aldeia se encontra dificulta a existência de crianças para compor variados grupos de brincadeiras, tendo o critério das categorias de idade, simplesmente. É necessário também considerar a observação de Fisher (1991, p.233) de que os Xikrin reconhecem diferentes categorias de idade que antecedem o casamento, mas não fazem eventos coletivos, como rituais de iniciação, para marcar a passagem de uma a outra, nem mesmo a introdução dos meninos na casa do centro da aldeia quando ingressam na categoria mẽnõrõnyre, acontecimento bem enfatizado em outros subgrupos mẽbêngôkre (Fisher, 1991). A transição de categorias, não sendo marcadas publicamente, tem como consequência a fraca distinção entre elas no cotidiano, pois nomear os meninos em uma ou outra depende da intenção do orador ou de decisões coletivas para os arranjos de atividades.

Divergindo do argumento que pontua a ausência de rituais de iniciação entre os Xikrin, Cohn (2000, p. 96) registra, em seu texto, várias fases do que constituiria o ritual de iniciação da categoria mẽnõrõnyre, seguindo as explicações fornecidas por Vidal (1977, p. 127) para os Xikrin do Cateté. Nesse último contexto, os jovens passam por uma sequência de acontecimentos que ocorrem em diferentes ambientes, como a aldeia, o mato e o rio, ao longo de vários anos – indicados pela antropóloga como fases do ciclo de iniciação dessa categoria de idade. No Bacajá, pelos relatos recolhidos dos velhos (Cohn, 2000, p. 98), várias fases também são mencionadas como parte da passagem. Porém, nem mesmo os velhos que narraram o assunto participaram do ciclo completo, contando apenas memórias de histórias que ouviram. No Cateté, o ciclo também não acontecia por completo há muito tempo, quando da pesquisa de Vidal. O que é descrito

com detalhes por Cohn (2000, p. 93) é um ritual mẽreremej80 realizado como um evento

de iniciação em que um único jovem passou para a categoria mẽnõrõnyre.

Seguindo o fluxo de vida xikrin, ao crescerem, casarem-se e produzirem uma criança, as pessoas vão progredindo pelas categorias de idade por meio do aumento da quantidade de filhos: sendo assim, quando adultos, o que é acentuado é o fato de ter poucos filhos ou muitos filhos. Embora nomenclaturas específicas não sejam usadas, pois os Xikrin preferem o termo mẽkrare, explicações são feitas com essa descrição (Fisher, 1991, p. 246). Fisher (1991, p. 240) menciona mais dois termos usados pelos Xikrin para tal categoria de idade: mekrabdji (apenas um filho) e mekrapõjnre (poucos filhos). Ao longo de seu trabalho, o antropólogo apresenta algumas nomenclaturas que os Xikrin usam para as categorias de idade, mas, em sua interpretação, o eixo condutor das classificações é composto por mẽprire, mẽkrare e mẽbêngêt, o que irei seguir neste texto, uma vez que ela é suficiente para montar uma apresentação que procura entender as motivações xikrin quando associam a escrita aos mais novos, assim como estes foram os termos que ouvi corriqueiramente na aldeia. Uma investigação mais apurada seria necessária para saber como os Xikrin estão ajustando as categorias de idade com o novo contexto de multiplicação de aldeias. Até o ano 2000, a TI Trincheira-Bacajá contava com duas aldeias, e em 2019, dezesseis. O que vale sublinhar é que, mesmo num tempo em que eles viviam agrupados em um número maior em cada aldeia, Fisher (1991) já apontava pouca disposição xikrin por marcar as categorias de idade no dia a dia.

Assim, na fase mẽkrare, os homens começam a se engajar em atividades individuais, como a caça e a pesca, para proverem sua mulher e seus filhos, além dos sogros e os demais que moram na residência. Isso não impede que, em algumas situações, organizem caçadas e pescarias coletivas ou outras atividades, como arrumar a casa de alguém, o que exige idas para o mato para retirar folhas de palmeira de babaçu e, depois, dispêndio de tempo na sua arrumação em uma estrutura já montada81. Além disso, todas as manhãs e noites eles se reúnem no ngà para conversar sobre diferentes assuntos.

80 Faz algum tempo que os Xikrin reconhecem o mẽreremej como um ritual para confirmar nomes bonitos.

Antes, cada classificador de nomes, Bep, Tàkàk, Katob, Nhàk, Ire, Bekwynh, Kôkô, Pãnh, Ngrenh (Vidal, 1977, p. 175) era vinculado a outros rituais ou tinha o seu ritual específico. Como já explicado por Vidal (1977, p. 182), “[o] mẽrêrêmê, pelo fato de não estar relacionado a nenhum rito de passagem específico, pode, por isso mesmo, receber, como em apêndice, elementos desses rituais e que os Xikrin não conseguem mais, por enquanto, realizar.”

81 Observei os mẽkrare envolvidos na atividade de arrumar casas na aldeia Mrôtidjãm em 2011, quando

elas ainda eram feitas de palha de babaçu. Algumas eram de barro nas laterais e cobertas com as palhas. Atualmente, as casas xikrin são de alvenaria, exceto nas aldeias mais novas que ainda não conseguiram viabilizar recursos para tal ação. Em trabalho de campo recente na aldeia Ràpkô, onde as casas são de alvenaria, o que pude observar é que são os projetos do Plano Operativo do Plano Básico Ambiental

Já as mulheres dessa categoria de idade costumam se reunir para ir às roças tirar mandioca ‒ outros produtos são preferencialmente responsabilidade do núcleo de irmãs, mãe e avós ‒, organizar saídas de pesca ou captura de jabutis, além de promoverem conversas matinais na casa da liderança e realizarem sessões de pintura corporal. Ainda que a vida das mulheres ocorra, em grande medida, numa esfera doméstica, nessa fase há várias mobilizações que extrapolam as relações entre os consanguíneos, como mostram as atividades diárias citadas.

Além do mais, tanto homens quanto mulheres contam com chefias para essa categoria de idade, compostas por um ou mais casais. A quantidade de chefes não é sempre a mesma. Em 2011, na aldeia Mrôtidjãm, que possuía algo em torno de 300 pessoas, eram quatro os denominados “guerreiros” e as suas esposas eram as “guerreiras”. Em 2017, na aldeia Ràpkô, com aproximadamente 100 moradores, dois guerreiros e duas guerreiras foram designados para a função. Tais pessoas são escolhidas pelos velhos, que observam quem trabalha direito, ajuda os outros, fala de forma boa, sem causar intrigas, e sabe apaziguar discussões. As explicações se aproximam das que justificam a escolha das entregas dos maracás, carregados por homens durante os rituais. Fisher (1991, 2000, 2001) elaborou interessantes discussões sobre as chefias masculinas e femininas entre os Xikrin do Bacajá e relata a importância de certas qualificações para estar à frente dessas posições.

As pessoas são consideradas mẽbêngêt (velhos/velhas), quando suas/seus filhas/filhos passam a ter filhas/filhos e, entre outras coisas, priorizam atividades individuais em detrimento das coletivas, permanecem mais tempo em suas casas,

Componente Indígena de Belo Monte (PBA-CI), no âmbito do programa de atividades produtivas, que têm mobilizado com mais intensidade essa categoria de idade. No caso específico de Ràpkô, o programa estava reduzido, durante a pesquisa, à produção de uma roça de cacau. Ela demandava várias horas de trabalho dos homens para limpar o terreno e plantar as sementes em saquinhos que forneceriam as futuras mudas. Não acompanhei o desenrolar da atividade, mas os Xikrin me contaram, em 2019, que a roça já estava produzindo. Destaco, ainda, que o projeto era designado como sendo dos homens, e isso é importante porque eles diziam que estava faltando projetos para as mulheres no PBA, deixando claro que não devem trabalhar em conjunto mesmo quando se trata de uma atividade organizada e promovida pelos kubẽ. Tselouiko (2018a e 2018b) apresenta um interessante relato sobre o projeto de roça coletiva desenvolvido exclusivamente pelas mulheres na aldeia Potikrô, um evento inédito, como a antropóloga assinala. O projeto não foi uma ação do PBA-CI, mas do Projeto Gestão Ambiental e Territorial Indígena ‒ GATI, uma parceria da FUNAI, Ministério do Meio Ambiente, movimentos indígenas e agências internacionais. No mais, enfatizo que os dados irão se somar às explicações sobre os usos que os Xikrin fazem da escrita, atividade masculina por excelência. No que toca à escrita, ressalto que os nomes pessoais também são feitos pelas mulheres e entram como exceção na afirmativa. Uma exceção que não diminui a relevância de sua ação entre os Xikrin e as mulheres, especificamente, mas que aqui é mencionado para ser analisado separadamente.

cuidando dos/das netos/netas ou fazendo atividades mais solitárias. É quando começam a pronunciar um tipo de fala pública bem característica e também exclusiva dessa categoria de idade. Em alguns comentários, os Xikrin reconhecem o nascimento de um/uma neto/neta como um evento que marca a passagem de uma categoria a outra, mas assumir os comportamentos de um/uma velho/uma, assim como assumir comportamentos de outras categorias de idade, depende de uma conjuntura maior, envolvendo as relações com o conjunto da aldeia.

O que considero interessante salientar, a partir de comentários sumários sobre as categorias de idade para o propósito de compreensão do lugar da escrita nesse contexto, é que, além de não fazerem das passagens de uma categoria de idade a outra eventos coletivos (pelo menos não obrigatoriamente), os Xikrin também acabam usando as suas designações com certa maleabilidade dentro de três grandes identificações, mẽprire, mẽkrare e mẽbêngêt. Mesmo que as categorias de idade sirvam para organizar atividades e comportamentos, tanto Fisher (1991, p.272) quanto Vidal (1977) indicam a flexibilidade dessas classificações entre os Xikrin. A flexibilidade não ocorre em relação às atitudes consideradas adequadas para determinados momentos da vida, mas nas suas expressões verbais classificatórias. Isso fica evidente quando se tenta estabelecer critérios específicos e conclusivos para cada uma das categorias. Vidal (1977, p. 117), por exemplo, ao procurar definir a categoria mẽbengodju, escreve que ela é composta por meninos de oito a dez anos de idade, antes de começarem a sentar-se junto com os homens no ngà, mas pode ser estendida aos meninos de doze e treze anos. Ela também observa que a mesma palavra foi usada por uma mãe para se referir ao seu filho de três anos, fala que foi interpretada pela antropóloga como sendo a vontade da mãe de enfatizar que se tratava de um homem82. Como o caso demonstra, os empregos dos termos não comportam rigidez porque eles contêm vários significados que podem ser manipulados por cada orador para realçar o que considera necessário no momento de fala. Contudo, o alcance dos empregos dos termos não é infinito, tendo certos parâmetros como baliza, mas que são difíceis de serem capturados em todas as suas possibilidades.

Outro exemplo é o critério do nascimento de uma criança, que confere a transição para a categoria mẽkrare ou mẽbêngêt. O evento, com toda a sua relevância, por ser o

82 Fisher (1991, p. 232 e 233) faz o seguinte comentário “The Xikrin-Kaypó seem ‘underinstitutionalized’

compared to other Kayapó groups in the lack of emphasis put on complex and demanding initiation procedures, particularly for boys. This may be the primary reason for the few distinctions made when referring to boys. Either one was meprire, mebôktire or menõrõnyre, with no apparent need for further specification.”

gerador de um núcleo de pessoas que compartilha substâncias, também pode ser manipulado quando a finalidade é indicar uma categoria de idade, a depender de outras relações e do prestígio que cada pessoa desenvolve entre os demais (Fisher, 1991, p. 273). O casal que me recebe em sua casa quando estou na aldeia Ràpkô, por exemplo, está junto há muitos anos e não tem filhas/filhos, mas, mesmo assim, não deixam de participar das atividades coletivas de homens e mulheres da categoria mẽkrare, ao mesmo tempo que