A expressão “língua-de-santo” tem sido usada por Yeda Pessoa de Castro (2001) para designar um “veículo de expressão simbólica” (p. 80) usada por religiões afro-brasileiras. Embora sua pesquisa esteja centrada na região da Bahia, consideramos que sua nomenclatura é relevante para especificarmos os usos linguísticos feitos pelas casas religiosas de matriz africana. Castro (2001) classifica cinco níveis que sinalizam para o maior ou menor uso de traços linguísticos africanos no léxico presente nos falares da Bahia: linguagem religiosa dos candomblés, linguagem de comunicação corriqueira do povo-de-santo, linguagem popular da Bahia, linguagem cuidada na Bahia, português brasileiro, sendo o primeiro mais expressivo e o último menos expressivo em relação à
presença dos falares africanos. Embora o enfoque da linguista tenha sido o uso da língua em Candomblés, nosso foco neste artigo considera um olhar panorâmico que contemple as diferentes modalidades religiosas de matriz africana de Florianópolis e municípios vizinhos. Acreditamos, com isso, contribuir com a pesquisa de Castro a partir de um olhar comparado.
O glossário a seguir foi construído, principalmente, a partir da pergunta “Há uso de palavras africanas dentro dos rituais da casa (cantigas, rezas, oferendas, etc.)? Citar algumas.” Os usos linguísticos foram organizados da seguinte maneira: na primeira coluna, trazemos os termos citados ou mencionados pelos dirigentes das casas durante as entrevistas; na segunda, o sentido atribuído ao termo, pela própria pessoa dirigente, considerando, dessa forma, a perspectiva das casas; na terceira, comparativamente, apresentamos o sentido resultante da pesquisa de Castro (2001), na Bahia. Nesta última, optamos pela escolha, em Castro (2001), dos termos iguais ou similares aos encontrados nas entrevistas realizadas em Florianópolis e municípios vizinhos. Quando os termos identificados na pesquisa e elencados por Castro não forem ortograficamente idênticos, optou-se por transcrever a definição de Castro que se aproxime semântica e estruturalmente do termo identificado na pesquisa.
TERMO SENTIDO ATRIBUÍDO PELO DIRIGENTE
SENTIDO ATRIBUÍDO POR CAS- TRO (2001)
Aberé Ritual de proteção do corpo. Agulha.
Abô Banho. Preparado de ervas. Infusão de ervas e folhas para banho, no curso da iniciação. Adidê Sentido não fornecido. Ordem de levantar-se, ficar de pé. Adjobá Até amanhã! Não consta o termo. Admun Comida seca Não consta o termo.
Agô Licença, permissão, desculpa. Pedido de licença, permissão, atenção. Agô Yá Permitido Agoê, Agoiê: Resposta para Agô.
Agofá Sentido não fornecido. Não consta o termo. Adorê Saudação, normalmente para as santas almas. Não consta o termo.
Afefé Vento, ar.
Afafá: Ventarola de palha com que se
percute pequenas talhas de barro, usadas a guisa de instrumentos musicais durante as cerimônias rituais
fúnebres. Qualquer abano de palha (variação: abebé).
Ajagum Omulu Não consta o termo. Ajebó Sentido não fornecido. Não consta o termo.
Ajeum Comida de santo. Comida, comer. Convite para comer. Ajeuma Resposta para Ajeum. Àjɛ´mánún: Coma em paz; resposta para wajɛun (venha comer).
Akasá Sentido não fornecido.
Acaçá: Bolo de milho branco ou
amarelo, cozido até se tornar gelatinoso e envolvido, ainda quente,
em folha de bananeira. Refresco de fubá de milho ou de arroz, fermentado
em água açicarada. Coisa apetitosa, refrescante.
Akikó Aves Não consta o termo.
Akué Sentido não fornecido. servia de moeda e ainda usado no jogo Acué: Dinheiro, moeda. Búzio que de Ifá.
Aloriê Sentido não fornecido. Laroiê: Saudação para Exu.
Amassi, amaci sagradas, maceradas em água.Líquido preparado de folhas
Amaci, Amazim: Infusão de ervas e
folhas sagradas usada nos banhos propiciatórios e nos ritos fúnebres, quando ela é posta em uma cabaça, à porta da entrada do terre(i)ro, para que
seus participantes possam molhar os pulsos e as mãos, após o que o restante é atirado à rua, na crença de livrá-los de
qualquer contato com a morte. Amalá Comida de santo, comida dos orixás. caruru, preparado com quiabos, farinha Comida de Xangô e Iansã, espécie de
de inhame, dendê e camarão seco. Atin Pó ritualístico. de folhas secas maceradas ou torradas.Atim: pó medicinal e de uso ritual feito Atisas Árvores. Atinsá: O conjunto de árvores sagradas.
Atotô Saudação para Obaluaê. Grito de saudação para Omulu, sempre acompanhado pelo gesto de tocar na testa e no chão com a ponta dos dedos. Axé, asè Força. Força divina, o objeto que sustenta essa força entre os candomblés.
Axó Vestimenta. Roupa, vestimenta, pano, tecido. Baba, babá Pai de santo. precede do nome egum. Tratamento Pai, antepassado, chefe, palavra que
respeitoso para mameto. Babalorixá Pai de santo. Sacerdote nagô-queto.
Badiras Rezas. Não consta o termo. Balouê Banheiro. Não consta o termo. Bamiré Sentido não fornecido. Não consta o termo. Baruê Árvore de obrigação. Não consta o termo. Beberage Bebida feita de muitas ervas para curar muitas coisas. Não consta o termo.
Catular Raspar. Raspar a cabeça do noviço durante a feitura-de-santo. Cuia Sentido não fornecido. Alma, espírito do morto, assombração, fantasma.
Decá Conhecimento.
Insígnias e apetrechos dos iniciados. Transmissão de obrigações nos terreiros, ou seja, concessão de autoridade religiosa àqueles plenamente iniciados nos segredos
do culto e que consiste no ato de devolver, em uma cabaça, certos objetos sagrados que lhes permitirão,
a cada um individualmente e sob sua responsabilidade, cultuar as divindades
a que foram consagrados, bem como a abrir uma casa própria para adoração e
práticas religiosas. Doboru, deburu Pipoca Doburu, duburu, guguru: Pipoca.
Ebami o período de iniciação e Adepto que já cumpriu “pegou” o conhecimento.
Ebome, ebame, ebamim, ebomim, evame, evamim: Filha-de-santo com sete anos
de iniciação e que tenha se submetido às obrigações rituais de costume.
Ebó Frente.
Despacho, oferenda propiciatória a Exu e às divindades, que em geral é deixada
em alguma encruzilhada, dentro de um prato de barro onde se cola, entre outras coisas, uma garrafa de cachaça,
farofa de dendê, charutos, velas, dinheiro, fitas vermelhas ao lado de um
galo preto, vivo ou não. Pessoa, coisa indesejável. Bruxaria, feitiçaria. Ebô Limpeza, feitiço, magia.
Milho branco. Comida de Iemanjá e Oxalá, com milho branco pilado e azeite-doce; para Besseim é preparado
com dendê. Ver Ebó.
Egbá Assentamento. Nome de uma antiga nação africana na Egbá, ebá: Papa, pirão de água e sal. Bahia.
Ejé Sangue. Ejé, izé, ixé: Sangue.
Eleké Fios de graduação. Elequê: Mentiroso.
Eni Esteira. Enim: esteira.
Epô Azeite de dendê. Aze(i)te-de-dendê.
Ewé Folha. Euê: Folha. Designação genérica de plantas, ervas e folhas. Exô, esô Fogo incontrolável. Ezô: Fogo.
Funfun Branco. Funfum: Branco.
Iá Mãe de santo. Mãe, senhora, tratamento respeitoso dado à mãe-de-santo. Ialorixá Mãe de santo. Sacerdotisa nagô-queto.
Ifá Búzios. adivinhação com os búzios, o destino O oráculo, divindade que preside a do ser humano.
Ikan Amuleto de palha, contra-egum. Não consta o termo. Ilê Casa.
Casa, terre(i)ro, pequenas construções situadas ao fundo do terre(i)ro, cada
qual destinada à adoração de uma divindade.
Ilé Terra. Não consta o termo. Ilê adanã Cozinha. Não consta o termo.
Inã Vela. Fogo controlável. Fogo. Ingorosi Reza.
Ingoroci, ingoloci: Reza fúnebre do ritual
congo-angola, composta de 30 cânticos diferentes que são acompanhados pelo batimento compassado das mãos,
começando no fim da tarde. Isala Fome. Inzala, Inzalá: Fome. Ter fome.
Isô Fogo. Não consta o termo.
Kelê Elo entre orixá e filho. costa que os iniciados usam em sinal de Quelê: Espécie de colar em palha-da- sujeição.
Labé Ritual de raspagem. Cortar.
Matamba Sentido não fornecido. tempestades, equivalente a Iansã.Inquice dos raios, trovões e Mameto Sentido não fornecido. Nossa mãe, tratamento para sacerdotisa congo-angola.
Mona Sentido não fornecido. Irmão ou irmã na religião. Motumbá saudação de um pai de santo Pedido de benção, benção,
para outro. Pedido de licença, saudação. Mukuiú Sentido não fornecido. Mucuiú, Mocoiú: Forma de benção entre os iniciados. N’korin Cantigas. Não consta o termo.
Obá Rei. Rei, chefe. Obé Faca. Faca, punhal. Oberó Prata. Não consta o termo.
Obi orobô Sementes africanas. Obi: Noz-de-cola, fruto muito usado em oferendas e ritos religiosos.
Orobô: Noz-de-cola, fruto africano.
Obori reforçar as energias do filho Obrigação que serve para de santo. Primeira graduação.
Bori: Cerimônia propiciatória de
purificação e renovação das forças espirituais em que se sacrificam animais para da(r)-de-come(r)-à- cabeça, logo, ao dono-da-cabeça, considerada o centro normativo da
vida em todos os seus aspectos. Ofurufun Sopro de vida. Não consta o termo. Omin, omi Água Omim: Água.
Omin dundun Café Omindudu: Café.
Opelê Peneira. Opelê, Opelé: Rosário de búzios usado no jogo-de-ifá. Oraiêrêu Sentido não fornecido. Orerê-ô: Saudação para Oxum.
Ori Cabeça. Cabeça.
Oriki Louvação aos orixás. Oriqui: Cânticos especiais de louvor aos feitos de cada orixá ou referente aos seus atributos.
Orô Segredo. Conjunto de louvação.
Orô: Cantiga para Exu. Conjunto,
sequência de músicas rituais.
Oró: Homem rico, riqueza. Conversa.
Orunpá Imolação. Não consta o termo.
Otin, otim Bebida. Otim: Cachaça, bebida votiva de Exu e caboc(l)o. Otininbé Cerveja. Não consta o termo.
Otitá Banco, poltrona. Otá, Itá: No peji, pedras sobre as quais se assentou o axé. Owajé Pó ritualístico. Não consta o termo.
Patacorí, patucurí,
patacuri Saudação para orixá Ogum. Não consta o termo. Poti Barco. Não consta o termo. Quizila Sentido não fornecido.
Tabu, interdição religiosa, a exemplo de não poder comer abóbora para quem é de Iansã, ou, amendoim, para quem é
de Oxóssi.
Salubaê Saudação para Nanã. Salubá: Saudação para Nanã.
Sassaim Ritual das folhas. Não consta o termo. Tatá de inquice Pai de santo. Tata-d(e)-inquice: Sacerdote congo-angola.
Tatetu Pai de santo. Tateto: Nosso pai, tratamento ao tata.
Toré africanos e indígenas com Cantigas com “elementos
partes em português”. Não consta o termo. Xanxuruê Filosofia e vida. Não consta o termo.
Xaxará Sentido não fornecido.
Insígnia de Omulu, espécie de vassoura feita de palha de palmeira, enfeitada de búzios e contas coloridas com a cor do
orixá.
Xirê Brincadeira.
Ordem de procedências na qual são cantados os cânticos em louvor às divindades afro-brasileiras, que se inicia por Exu e termina com Oxalá.
Festividade. Xiuepa Saudação. Não consta o termo.
Zambi Deus. Deus supremo. Zambiquartiva Agradecimento. Não consta o termo.