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Conclusion de la troisième partie

A “língua-de-santo” inclui uma série de termos e expressões usadas na liturgia, especialmente para fazer alguma menção ao campo simbólico das entidades. A liturgia é própria de cada modalidade religiosa e inclui a integração de uma série de elementos, como a forma de tocar tambor, a música, a língua dos cantos, as vestimentas, os nomes das divindades e os demais traços do ritual (Bastide, 1961). A despeito da classificação linguística proposta por Bastide (1961) – de que nos candomblés bantos as palavras tendam a ser de origem portuguesa e nos candomblés iorubá as palavras sejam em “língua” –, assumimos que o significado de língua é construído localmente, o que inclui aquilo que os/as dirigentes e praticantes compreendem por “língua” ou “línguas africanas”. Abaixo apresentamos uma série de termos, com seus sentidos, que foram mencionados no decorrer das entrevistas. Novamente, não fazemos distinção do uso desses termos por modalidade religiosa, mas os consideramos de uma maneira agrupada, para fins de evidenciar a complexidade linguística e a maneira como as línguas ajudam a construir um sentido simbólico religioso, estético e ético mais amplo.

Assim, elaboramos o glossário a seguir a partir das respostas fornecidas, principalmente, à questão “Quais são as expressões mais utilizadas por entidades como preto velhos, caboclos, exus, pombagiras, ibeijadas? Citar algumas.”. Disponibilizamos, para tanto, as seguintes informações: (i) termo utilizado ou citado; (ii) sentido atribuído ao termo; (iii) entidade que normalmente utiliza o termo. Nesta seção, todas as informações estão de acordo com aquelas fornecidas pelos dirigentes das casas.

TERMO SENTIDO UTILIZADO POR

Abaga Coração. Caboclos. Acué Dinheiro. Pretos velhos. Água doce Refrigerante. Ibejada.

Água preta Café. Pretos velhos. Ajeum Comida. Pretos velhos. Aluá Cachaça com mel. Pretos velhos. Amarafa Cachaça. Exu. Aruanda Céu. Ibejadas.

Baga Coração. Olhos. Pretos velhos. Bate-bate Coração. Pretos velhos. Batedor Coração. Pretos velhos. Bibirico Bebida. Pretos velhos. Bicho de fogo Carro. Exu, Pombagira.

Bizi filho Sentido não fornecido. Pretos velhos. Burro Médium com quem trabalha. Pombagira. Burro da terra Médico. Caboclo.

Cacuruco Cabeça. Informação não fornecida. Camundongo Criança. Pretos velhos. Camuntuê, comutuê Cabeça. Pretos velhos. Canela Fumo, cigarro, charuto. Exu, Pombagira. Canela branca Cigarro. Exu, Pombagira.

Casa branca Hospital. Informação não fornecida. Catatau Charuto. Caboclo, Oxóssi. Cavalo de borracha Sentido não fornecido. Informação não fornecida.

Cavalo Moto. Médium. Informação não fornecida. Choupana Casa, residência. Informação não fornecida. Cotopô Casa, residência. Informação não fornecida. Curiado Bebida. Pretos velhos.

Curumim Criança. Caboclos, Oxóssi, Pretos velhos. Erã Tipo de comida. Pretos velhos.

Escrevidor Estudar. Informação não fornecida. Êxa êxa (mizfio) Sentido não fornecido. Pretos velhos.

Exá firo Sentido não fornecido. Pretos velhos. Fêmea Mulher. Pombagira. Ferradura Sapato. Informação não fornecida.

Fio Filho. Pretos velhos. Formoso Sentido não fornecido. Informação não fornecida. Fundanga Pólvora. Ciganos, Exu. Gafanhoto Criança. Pretos velhos.

Inocente Não iniciado. Pretos velhos. Jão fío Sentido não fornecido. Pretos velhos. Lua Dia. Pretos velhos. Macaco Charuto. Ciganos, Exu. Macaia, macaiá Casa. Casa de santo. Caboclos, Pretos velhos.

Macho Homem. Ciganos, Exu. Mãezinha Forma como chamam as mulheres. Ibejadas.

Marafá Bebida alcóolica. Exu. Marafi Bebida alcóolica. Pretos velhos. Marafo Cachaça. Informação não fornecida. Marola Água. Informação não fornecida. Meladinho Cachaça com mel. Pretos velhos.

Meu cavalo, meu

aparelho Médium. Pretos velhos. Minha banda Minha casa. Pombagiras.

Minha burra Médium. Pombagiras, Pretos velhos. Mizifío, misifilho(a) Meu filho. Pretos velhos.

Môxo, môxa Sentido não fornecido. Informação não fornecida. Muringa Sentido não fornecido. Pretos velhos.

Netim Sentido não fornecido. Pretos velhos. Netinho Filho. Pretos velhos. Omi, omin Água. Pretos velhos. Oti, otin Bebida alcóolica. Cachaça. Pretos velhos. Paco paco Comida. Informação não fornecida.

Padê Tipo de comida. Pretos velhos. Paizinho Forma como chamam os homens. Ibejadas. Pataca, pataco Dinheiro. Pretos velhos. Pé de borracha Carro. Pretos velhos. Pemba Sentido não fornecido. Pombagira. Perna de calça Homem. Pretos velhos.

Piculito Pirulito. Ibejadas.

Pito Cachimbo. Palheiro. Charuto. Cigarro de palha. Caboclos, Exu, Pretos velhos. Ponto de fogo Riscar ponto. Pombagira.

Pula-macaco Feijoada. Pretos velhos. Que seja Dinheiro. Pretos velhos. Rabo de saia Mulher. Pretos velhos.

Riscador Fósforo. Exu, Pretos velhos. Sabido da terra Médico. Pretos velhos.

Suncê Sentido não fornecido. Pretos velhos. Tábua Sentido não fornecido. Pombagira. Tamantuê Cabeça. Caboclos.

Tarimba Cama. Pretos velhos. Tique tique Coração. Ciganos, Exu.

Toco Vela. Exu, Pretos velhos. Trapo Roupa. Pretos velhos.

Tuiá Pólvora. Pretos velhos. Tupã Deus supremo. Caboclos. Umbunga Dinheiro. Pretos velhos.

Vosmecê Você. Informação não fornecida. Zi filho Meu filho. Pretos velhos.

Zuncê Sentido não fornecido. Pretos velhos.

Palavras finais

Este capítulo apresentou uma visão panorâmica da riqueza linguístico- discursiva existente nas casas religiosas de matriz africana localizadas em Florianópolis e municípios vizinhos. Trata-se de um mapeamento linguístico que foi viabilizado pelos dados levantados por entrevistas realizadas com dirigentes de 210 casas religiosas, conforme o Projeto Territórios do Axé (Leite, 2010). Buscamos, também, apresentar uma visão comparada com a literatura vigente –

especialmente centrada nos trabalhos de Yeda Pessoa de Castro e Pierre Verger –, de forma a contribuir com uma visão alargada sobre os usos linguísticos. Consideramos, assim, tanto os sentidos estabilizados pelos usos compartilhados, como os significados localmente construídos. Compreendemos que as línguas integram um acervo cultural e estético valioso, sendo que as línguas de origem africana ecoam fortemente em práticas religiosas brasileiras e afro-brasileiras. Trata-se, portanto, de considerar essas práticas religiosas como repositórios sagrados de conhecimentos linguísticos – e dos modos de uso e de transmissão da língua verbal – que ajudam a compreender não apenas a história sócio- linguística brasileira, mas o modo como a língua verbal se articula com gestos de interpretação e formas de compartilhamento e de apropriação do espaço social.

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