Ana Cláudia Fabre Eltermann61 Cristine Gorski Severo62
Introdução
Neste capítulo, apresentamos um mapeamento semântico de termos amplamente utilizados nas casas religiosas de matriz africana localizadas em Florianópolis e municípios vizinhos. Trata-se de termos e expressões que foram usados no decorrer das entrevistas realizadas com dirigentes de 210 casas, pelo Projeto Territórios do Axé (Leite, 2017). A lista de palavras e expressões foi catalogada pelos entrevistadores, sendo que os significados foram atribuídos localmente pela pessoa dirigente, a partir da experiência contextualizada de uso de determinada palavra e expressão. Trata-se, portanto, de um glossário cujo sentido é construído a partir de experiências locais e não de um levantamento prévio bibliográfico de significações dicionarizadas ou estabilizadas. Importa, assim, reconhecer e legitimar os sentidos conferidos por dirigentes e praticantes a determinados termos e expressões, pois entendemos que o universo semântico não é estático, mas móvel e adaptável, segundo as regras compartilhadas pelos falantes de uma dada comunidade.
61 Doutoranda em Linguística da Universidade Federal de Santa Catarina (PPGLg/UFSC) e Pesquisadora do Projeto Territórios do Axé
62 Professora do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de Santa
Para tanto, enfocaremos neste levantamento as respostas oferecidas às seguintes questões do roteiro de entrevista: (i) “Quais os nomes das plantas mais usadas nos rituais? Possui árvore sagrada? Qual?”; (ii) “Há uso de palavras africanas dentro dos rituais da casa (cantigas, rezas, oferendas, etc.)? Citar algumas.”; (iii) “Quais são as expressões mais utilizadas por entidades, como preto velhos, caboclos, exus, pombagiras, ibeijadas? Citar algumas.”. Além das respostas às questões, contamos com anotações de campo resultantes de observações. Cabe observar que as entrevistas do projeto foram realizadas oralmente. Dessa forma, em relação à grafia dos termos, optamos por manter aquela fornecida pelas anotações de campo dos entrevistadores, reconhecendo, no entanto, que as casas religiosas podem preferir outros modos de representação gráfica ou, ainda, preferir o uso exclusivo da oralidade.
De forma metodológica, a seguir apresentamos os termos e expressões elencados, organizados por seções:
(i) nomes de plantas;
(ii) língua de santo, utilizada nas cerimônias ou nas práticas cotidianas das casas; (iii) expressões que mesclam termos africanos;
(iv) termos usados em referência às entidades.
Reiteramos que não se trata, neste capítulo, de averiguar a proximidade estrutural de termos e expressões africanas com línguas das famílias bantu ou iorubá (Castro, 2001). Além disso, a despeito das 70 autodenominações identificadas nas entrevistas para definir a modalidade do universo religioso afro-brasileiro praticada e vivenciada em Florianópolis e municípios vizinhos (Leite, 2017, p. 38-39), neste capítulo não especificamos os usos linguísticos por modalidade religiosa e, tampouco, por família linguística. Optamos por apresentar uma visão panorâmica desses usos, de forma a contextualizar a riqueza e diversidade linguístico-discursiva que caracteriza as religiões de matriz africana de Florianópolis e municípios vizinhos. Reconhecemos a importância, contudo, de uma segunda etapa de análise linguística considerar as especificidades conforme as diferentes modalidades religiosas.
Assumimos uma perspectiva discursiva de língua, cujos sentidos são construídos e relativamente estabilizados localmente, a partir das práticas sociais e discursivas compartilhadas pelos falantes. Teoricamente, podemos distinguir o conceito de língua e discurso (Bakhtin, 1929; 1952/1953; Ricoeur, 1973): a língua diz respeito a um sistema estrutural de formas e sentidos reiteráveis, previsíveis, dicionarizáveis e estáveis, passíveis de serem sistematizados, agrupados e retalhados; o discurso diz respeito ao evento único e singular de produção, circulação e recepção de sentidos que, por seu turno, são contextualizados temporal, espacial e dialogicamente. O discurso se atualiza e materializa na língua, havendo uma relação de influência mútua entre ambos. Desse modo, se a análise linguístico-estrutural não garante, por si só, o acesso ao universo simbólico, ela, contudo, não pode ser descartada, uma vez que é tanto afetada por esse universo, como produz condições para que o evento discursivo ocorra. Entendemos, contudo, que o discurso se materializa não apenas na língua verbal,
mas também na corporalidade, nas vestimentas, nos ritos, na sonoridade, entre outros. Neste capítulo, nosso enfoque principal serão os significados atribuídos pelos/pelas dirigentes a determinados termos e expressões linguísticas.
Compreendemos que as línguas emergem como produto de práticas sociais (Severo; Makoni, 2015; Makoni; Pennycook, 2006; Harris, 1996), e não o contrário. No contexto dessa pesquisa, as línguas são produto de práticas comunicativas e discursivas compartilhadas pelos sujeitos nas casas religiosas de matriz africana, em que a experiência religiosa coletivamente construída se organiza em torno do uso de linguagens, dentre as quais a língua verbal. Assim, para além de uma visão reiterada de língua – centrada no sistema linguístico –, buscamos compreender as práticas sociais locais como espaços discursivos complexos que são plurilingues, plurivocais, pluriestilísticos e internamente hibridizados e hibridizáveis (Bakhtin, 1934; Severo 2011; 2011a; 2011b). Embora reconheçamos o caráter móvel e dinâmico dos usos linguísticos nas práticas sociais, nesse capítulo fazemos um exercício de mapeamento e representação de palavras e expressões que surgem a partir dessas práticas. Tal mapeamento, contudo, não é conclusivo, mas sinaliza tanto para a maneira como os sentidos são co-construídos localmente, como para a forma como os sujeitos envolvidos constroem conhecimentos linguísticos sobre esses sentidos e sobre seus usos linguísticos. Concordamos com a ideia de que “um signo é um signo apenas devido ao contexto comunicativo, e qualquer coisa em um dado contexto pode adquirir relevância linguística. Não é possível delimitar previamente os elementos que se tornarão comunicativamente importantes”63 (Davis, 1997, p. 42).
Reconhecemos, portanto, o papel da comunidade – e do convívio discursivamente compartilhado – na construção e estabilização de significados que são localmente relevantes e potentes. Dialogamos, com isso, com a ideia política e estética de “comunidade de dados sensíveis”, postulada por Rancière (2014, p. 99), entendida como “coisas cuja visibilidade considera-se partilhável por todos, modos de percepção dessas coisas e significados também partilháveis que lhes são conferidos. E também forma de convívio que liga indivíduos ou grupos com base nessa comunidade primeira entre palavras e coisas”. Trata- se de considerar a maneira como os significados linguísticos são construídos e partilhados localmente, desestabilizando conceitos estabilizados e universais de língua. Nesse sentido, nos aproximamos de uma Linguística Antropológica, que busca compreender os modos como as línguas são compreendidas – e usadas/ manipuladas – localmente (Makoni; Pennycook, 2006).
63 “A sign is a sign only by virtue of its communicational context, and anything in context can acquire linguistic relevance. One cannot delimit in advance the features that will turn out to be communicationally significant”. As traduções são de nossa responsabilidade.