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Les trois classes fonctionnelles

Ilka Boaventura Leite

A primeira fase do Projeto “Territórios do Axé” foi concluída no final de 2016. Para encerrar essa etapa, realizamos o Seminário II, no dia 08 de dezembro, no Museu de Antropologia da UFSC. Para fechar esse primeiro ciclo e iniciar o novo, nada como um Calendário para abrir os trabalhos, demarcar um desdobrar do novo tempo com o estímulo das imagens da etapa anterior enfeitando nosso imaginário. Foi assim que preparei um presente, uma surpresa que foi entregue a cada um dos participantes durante o referido seminário. Selecionei, a partir das fotos produzidas algumas imagens para ilustrar o Calendário de 2017. Esta foi uma forma singela de agradecimento e marcou ritualmente esse trânsito/passagem.

O Calendário Territórios do Axé 2017 é aqui apresentado como um ensaio fotográfico produzido no decorrer da pesquisa, como uma abordagem reveladora dos micro-universos construídos pelos integrantes das casas religiosas de matriz africana de Florianópolis e municípios vizinhos. Sua divulgação nesse segundo volume publicado pelo NUER/UFSC, visa ampliar a percepção das lugares santos, ampliar o nosso olhar sobre a experiência realizada durante as visitas, as percepções dos pesquisadores e pesquisadoras para o que nem sempre é comumente evidenciado. São 13 fotografias que ilustram a capa e os 12 meses do ano. Essas fotos foram selecionadas do arquivo individual construído por cada membro da equipe que realizou as visitas nas casas religiosas e entrevistou as lideranças. Além das entrevistas realizadas a metodologia previa o uso da fotografia como um recurso etnográfico para auxiliar na caracterização dos

territórios religiosos, suas formas de se organizar, suas dimensões, os tipos de práticas, entre outros aspectos relevantes para compreender cada uma delas. A equipe foi orientada sobre certos cuidados em não expor altares e cenas rituais, consideradas pelas lideranças como parte do ambiente sagrado e da intimidade dos cultos. Portanto, o desafio maior foi o de produzir imagens que valorizassem e realçassem as expressões mais diversas e por vezes sutis, certos detalhes relevadores dos modos de cultivar as relações entre o Orum e o Ayê. Portanto, a seleção partiu desses princípios na escolha das fotos. Levou em conta também e quando possível, as qualidades técnicas e artísticas, na medida em que os pesquisadores e pesquisadoras não tinham formação em fotografia mas exercitavam sua capacidade de registro em pesquisa de campo.

Outro elemento importante nessas escolhas foi o tema e a concepção da cena, em geral colhida nos espaços internos e externos desses territórios religiosos visitados, representados, em geral, pelo núcleo chamado “casa”. O sentido atribuído na pesquisa à casa, refere-se à edificação e seu entorno que compõe o local principal de encontro e prática religiosa de uma coletividade/comunidade de praticantes, líder, grupo de apoio/família de santo/frequentadores assíduos, frequentadores eventuais, simpatizantes e visitantes. Uma “casa” é um território de axé, um território sagrado. Congrega e integra uma coletividade vibrante e as múltiplas relações humanas em intenso fluxo e movimento do que ali acontece. Trata-se, portanto, de um local de ação, de acontecimentos. O altar é o ponto de convergência, o centro, o lugar do encontro. Porém, uma “casa” que pratica a religião de matriz africana em geral, contém muitos altares nucleados por eixos e sintonias densas e em constante ressignificação. Essa ocupação é uma forma de sacralização de todos os espaços, ampliando o espectro e a dimensão do próprio sagrado, para além dos altares onde acontecem as cerimônias principais. De fato, constatamos que em um território sagrado, tudo é sacralizado, desde o seu entorno, a entrada, até cada canto da Casa, formando um mundo harmônico de bem estar através do bem fazer, do adorno e da intenção de revelação da vida que ali acontece. Daí se torna compreensível para nós, as diversas formas pelas quais cada liderança e seus integrantes, protegem, com tal zelo, os espaços centrais, evitando que os altares principais sejam expostos, não permitindo a divulgação de fotos de seus centros de Axé. Mediante a compreensão sobre necessidade desses cuidados, nosso exercício antropológico se redobrou, nos levando a valorizar o todo, o detalhe, a considerar como o sagrado se manifesta nas sutilezas, nos pequenos gestos, no que não está facilmente disponível ao primeiro olhar.

Os e as integrantes/pesquisadores/as do Projeto Territórios do Axé foram desafiado/a/s durante a pesquisa de campo a elaborar registros sensíveis sobre o lugar, a observar a disposição dos objetos como uma forma importante de atos humanos, de trazer o invisível ao campo da contemplação e da espiritualidade. O ensaio concebido como calendário, a partir de um conjunto de fotos de excelência, tornou-se, portanto, um tipo de oráculo da espiritualidade afro- brasileira e foi isso o que o Calendário veio revelar.

A proposta é que o percurso através das fotos escolhidas para cada mês, nos leve ao ciclo do calendário anual, mas elas não foram dispostas segundo os meses

Uma oferenda de alimentos abre o calendário. No centro, frutos dispostos em uma toalha branca: bananas criam uma moldura ou cesta imaginária: no interior estão dispostos frutos menores, de diversas cores e em suas bordas superiores, cachos de uvas adornam e fecham o círculo, frutas que Oxóssi tanto aprecia, como goiaba, banana, pera, uva e maçã. Em seu conjunto, formam uma espécie de mandala do gosto sagrado. A foto, feita por Marliese Vicenzi conduz nosso olhar pelo ambiente do cuidado e da harmonia das cores e sabores. A cena sobreposta em um verde profundo do assoalho, amplia-se para o fundo com mais oferendas: um alguidar, assentado em cerâmica coberta por tecido com dobras de cetim, acomoda, com mais harmonia ainda, mais frutas, arrumadas por cores e tamanhos, predominando o melão, a banana e a maçã. À esquerda, uma jarra de cerâmica branca com folhagens e flores amarelas. Embora a foto tenha sido cortada ao meio para dar centralidade à oferenda maior que está no chão, as três oferendas interligam-se por uma jarrinha (quartinha), criando um triângulo de forças (axé) composto por plantas e frutas. Completa a cena, ao fundo, na parede, uma estampa com flores brancas e encarnadas, simulando um jardim. Que bela de cada santo. Podemos contemplá-las mais lentamente em seguida à descrições e perceber nas imagens maiores, a profusão de detalhes que há em cada uma delas e o que elas podem, por outro lado, refinar o nosso olhar para a beleza da estética religiosa afro-brasileira, sua poética visual e a força do axé que emanam na harmonia de composição estética.

conversa com Oxóssi, valente rei de Queto, o caçador, que come também pratos de milho e coco, como a pamonha, o milho cozido e o assado, a carne de sol e o cuscuz e todos os tipos de caça. Oxóssi alimenta a casa, o povo da floresta, não deixa nada faltar. Esta imagem, escolhida para abrir o calendário, expressa a suavidade, a harmonia, a doçura, o acolhimento e a amplitude de passos ou etapas que conduzem aos doze meses do ciclo anual de deuses, humanos, e todos os seres animados e inanimados. A imagem da capa do Calendário Territórios do Axé 2017 expressa com primor um oráculo da espiritualidade afro-brasileira.

A foto escolhida para o primeiro mês do ciclo apresenta a Mesa de Adivinhação, e está situada em local da Casa onde se faz o jogo de búzios, o oráculo divinatório, o Orumilá, em ato de confirmação do orixá. Embora tenha esse nome, ironicamente, ele não prevê propriamente os eventos futuros, ele não advinha, apenas sugere, uma vez que em seu preceito, o caminho de cada um já está traçado. O branco da toalha de renda celebra Oxalá, Obatalá, o primeiro, o senhor da vida nos candomblés, o Olorum. E o prato, com tampa igualmente de louça branca guarda a oferenda. Conterá canjica? Pipoca? Além da vela, o caderno, que irá registrar o jogo, as leituras e indicações para a limpeza que está por vir? Esta bela foto de Díjna Torres abre o ciclo: em janeiro assinalamos o dia 01 como o da contraternização universal, de Yemanjá, o dia 06, dia de Reis e dos Ibejis, o dia 15 ,Oxalá e dia 20, Oxóssi.

O amarelo de Oxum ilumina por contraste o assoalho de madeira da entrada, sugere também acolhimento para os que chegam na Casa , evidenciando uma entrada iluminada para algo profundo e misterioso em seu interior, portal que une e separa os ambientes. A foto, de Raiane Cunha, destaca no centro, o grande jarro de cerâmica, e o barro vermelho sugere o elemento terra. No vaso, o arranjo de flores brancas adornadas pelo verde, nos convida a entrar, a atravessar o umbral, a descobrir o outro lado. Esse é o mês em que se celebra a deusa dos mares, Yemanjá, no dia 02 e em seguida, vem o carnaval, o divisor dessas águas no nosso calendário anual que nos conduz para um tempo de recomeço e de produção.

Autora: Raiane Cunha

Esta foto registra um canto provavelmente sossegado para uma conversa íntima, sem interrupções, onde se incluem também os conselhos, os recados, as mensagens e os prenúncios do que é, do já foi e do que virá.

Os pontos riscados são portais para o sobrenatural, uma espécie de assinatura espiritual e denotam a característica física do divino. Decifrar completamente o ponto é tarefa precípua do líder da casa cujos símbolos são acionados para invocar, chamar, na pedra, a grafia sagrada, o grande poder mágico, que aqui se apresenta através da abertura, característica dos tridentes dos Exus. Esse ponto riscado indica que o orixá da casa acolhe o azul, o marron e o branco. É assim que Josiana Carvalho Barbosa registra o assentamento existente na entrada da casa, cuja presença sugere Oxalá menino, o Oxaguiã e a luz da vela, o copo d’água e a tesoura podem fazer os cortes, as curas necessárias. Quanta harmonia que vai da parede que dá suporte ao símbolo de ferro ao assoalho de cerâmica branca e azul que se desdobra em diferença de nível, onde se aloja o pilão de madeira e dali se abre um novo campo de madeira escura e calorosa, cujos tons de marrom compõem com os objetos de palha e madeira no interior do pilão. O mês marca uma vibração de Yemanjá, a mãe da cura interior e assinala o 8 de março, dia da mulher.