B.2 Le modèle de rotation de la Galaxie
8.1 Principe et mise en place de la méthode
Noite de 3 de agosto de 1967. Em conhecida casa assobradada da Av. Junqueyra Aires, um homem já septuagenário padecia terrivelmente em sua cama de estranha moléstia, que assaltava sem tréguas o seu corpo, promovendo variações bruscas de temperatura e alterações na tonalidade da epiderme da pele, logo tomada de agressivo enrubescimento:
Acordei tiritante, com a sensação de atravessar despido uma planície polar. Na treva, passavam ursos brancos, arrastavam-se focas, gritavam pinguins. Todos os agasalhos foram ineficazes, apesar do volume e densidade. Simultaneamente, sopravam-se bafos ardentes e breves como se abrissem, intencionalmente, as forjas flamejantes de Vulcano. Estava, ao mesmo tempo, deitado numa banquise e abandonado no Saara.345
Noite de agonia, que se prolongou pela madrugada, deixando na manhã seguinte novos sinais:
Pela manhã, a meia perna esquerda vestia-se numa púrpura digna do cardeal Richelieu. E uma dor de queimadura urente, como uma brasa com urticária.346
As sensações dessa “visita” inesperada ganharam uma ars poetica na descrição do enfermo... Mas demandaram mesmo, em verdade, uma práxis médica. Destino: Hospital das Clínicas. Às pressas, o doente fora conduzido ao apartamento 203, sendo aí prontamente internado e recebendo os primeiros cuidados. Com a bateria
345 CASCUDO, Lu ís da Câmara. Pequeno manual do doente aprendiz: notas e maginações. 3. ed. Natal:
EDUFRN, 2011. p.84.
de exames, detectou-se que se tratava do Streptococcus erysipelatis, mais conhecido como erisipela. De imediato, o médico Jairo Leite aplicou-lhe a medicação própria ao tratamento dessa doença bacteriana, composta de antibióticos e sulfas, ictiol e sulfoictiolato amônico. Foram doze dias de internamento hospitalar no combate ao persistente bacilo.
Foi assim, então, que o escritor Câmara Cascudo fizera sua inscrição- forçada, é claro - no “Curso de doente aprendiz” ofertado pelo amigo de última hora Sr.Streptococus. O curso ainda contou com um segundo encontro em 8 de abril de 1968, um domingo, quando, num jantar, uma mesa desabou, atingindo o dorso da mão direita de Cascudo, dor insuportável que logo provocou seu desmaio. Novo internamento, e mais 18 aulas para completar o curso, sem nenhum desejo, por parte do doente, de profissionalização.
Essas experiências de internamento hospitalar renderam a Cascudo a publicação do opúsculo Pequeno manual do doente aprendiz: notas e “marginações”, levado a público já em abril de 1968, mês de seu retorno imediato ao lar da Junque ira Aires. São memórias de um doente, anotações quase diárias de suas impressões do hospital, de médicos e funcionários, acerca da presença da família e amigos à beira do leito, de remédios e exames, divagações diversas sobre saberes e práticas médicas, enfim, toda sorte de imagens e reminiscências que lhe acorriam à mente no reticulado de seu apartamento. Reencontro do presente com o passado, deslocamentos espaço- temporais, “maginações” produzidas na geografia carcerária do quarto de hospital, deslizando arrastadas entre a janela, a poltrona e a cama.
Nessa espécie de “diário”, tomamos contato com o cotidiano de um doente hospitalizado nos idos da década de 1960, no Rio Grande do Norte.Tendo seus movimentos espacialmente restringidos a um leito de hospital, além das naturais limitações impostas ao corpo pela doença, e tendo sua vida regulada pelos horários de medicação e visitas de parentes e amigos, como se desenrolava o dia-a-dia de um paciente? Que opções lhe restavam, ao fim e ao cabo, nessa disciplinada economia terapeutica?
Tentando lidar com essas questões, Cascudo organizou o conjunto de suas memoires a partir dos pontos de deslocamento possíveis ao enfermo no interior do quarto, lugares estratégicos de apoio para o movimento do paciente, “limites
dimensionais” de sua mobilidade, articulados na “triangulação funcional” de Janela, Poltrona e Cama. Voyage autour de ma chambre, assim nos lançou o convite Cascudo em seu Prefácio...
Debruçado sobre um dos janelões do apartamento 203, nosso doente ilustre divisa abaixo o casario acinzentado e pobre dos moradores situados ao pé do Monte Petrópolis, suas hortas de milho e feijão subindo a colina, as roupas estendidas no varal e as crianças brincando descalças nas ruas barrentas, meninos e meninas voltando da escola, microcosmo de gente simples. As luzes do Grande Hotel, o “mar sem fim” da Ponta do Morcego e imediações de Mãe Luiza, com seu Farol de 37 metros de altura, “Grande círio velando o cadáver da Noite”, citando o poeta Jayme Wanderley. Nas suas divagações de janela, ainda sobrou espaço para comentário sobre o hábito de frequentar as praias e de tomar banho de mar:
As praias marítimas de toda a Europa, Mediterrâneo, Atlântico e Báltico, estão desertas fora das estações elegantemente regulares. Idem, pelo continente americano, em ambos os lados. Penso que essa fidelidade à buliçosa e sonora lúdica do banho é uma poderosa presença puramente ameríndia. Os indígenas brasileiros, não todos os grupos étnicos (alguns profissionalmente inimigos de banhar-se), eram malucos pelos pulos, cambalhotas e mergulhos nos rios e lagoas, várias vezes, diários. Africanos e europeus foram mais restritos e tímidos. O banho de mar é relativamente recente, em maior percentagem. Pouco mais de dois milênios e meio, se tanto, e sempre em caráter terapêutico, vale dizer, ocasional, grupal, jamais vulgar.347
Traço histórico que ele contrasta com os usos contemporâneos dessa prática: Atualmente, o banho de mar nada tem a ver com a Saúde ou Higiene. É excitação, ginástica, tonificação solar, alegria de convívio, fermento erótico pela visão próxima das formas coleantes e minivestidas.348
Nessa e em outras passagens de suas memórias, o Cascudo-doente marca a importância da janela como espaço de contato com o mundo exterior, porosidade de vaso comunicante que regula o plano da imagética, a troca entre o que entra e o que sai, “o dentro” e “o fora”, equilíbrio homeostático do olhar... O enfermo tem na abertura da janela um vasto campo de possibilidades, paisagens diversas, comportamentos a se rem decifrados, uma vasta hermenêutica do mundo, que, por vezes, tranquiliza, em outras inquieta, incomoda e reintegra, por isso, o paciente na órbita dos viventes. De seu posto de observação, Cascudo acabou por fundar uma nova especialidade nas ciências humanas: a “etnografia de janela”!
347 Ibid., p.31. 348 Ibid.
Essas memórias cascudianas de janela terminam com o registro percuciente e um tanto indiscreto do encontro de um casal de adolescentes na praia de Areia Preta, flagrante da fluidez das novas relações amorosas dos anos 1960. A descrição do evento feita por Cascudo é pura alcovitice disfarçada de antropologia dos costumes:
A menina coquetel, com o amor fiel, subiu a escadinha para a balaustrada onde deu curto volteio, as nádegas dançando bambelô sem bateria. Mãos dadas. Proximidade esfregante, excitadora. O namorado tomou o ônibus para a cidade e, pela janela, abanou a mão, já saudoso. O broto ficou olhando a paisagem, absorta. Da Avenida Getúlio Vargas surgiu um rapaz magruço e sacudido, camisa arco-íris, bem escancarada, mostrando a titela, cabeleira donzel, gingando como campeão olímpico. A guria fez que não via. O boy chegou para perto e sacudiu conversa, gesticulando como cinema mudo. Parecia exigir explicações porque a pequena interrompia as falas, rodava nos pés, sorria pondo a mão no ombro do cara ressentido. A mímica esmoreceu em pausas pegajosas de ternura. Creio que se entenderam, estabelecendo armistício e pacto mútuo de não agressão temporária. Rumaram à Praia do Meio. Mãos dadas. Proximidade esfregante, excitadora. Mesma técnica contagiante de efervescência interna.349
Bem, é hora de fechar a janela, pois o vento frio da noite já sopra gélido nas costas do doente... O movimento agora é do janelão para a poltrona, clinóstase médica forçada, segundo ponto de apoio das memórias de nosso enfermo. Que se pode fazer numa poltrona de hospital?
Receber visitas, é claro... Parentes, funcionários do Hospital das Clínicas, amigos de primeira hora, médicos, irmãs de Santana, uma tal comitiva que Cascudo resolveu classificá-los em três tipos: os Comparativos, os Negativos e Familiares ou Concordantes. Os primeiros desprezam o estado de saúde do doente, pondo na conta dos exageros e descrevem sem omitir detalhes padecimentos infinitamente maiores como forma de acalmar o enfermo:
Convencidos de que a exposição das câmaras de tortura e reportagens de necrotério dissipará a impressão do enfermo em face de seu incômodo físico, pormenorizam os horrores das agonias e estertores dos moribundos. Evocando o Dilúvio, ninguém vai queixar-se de uma enchente do rio Potengi. Não esquecem fraturas expostas generalizadas e longas intervenções cirúrgicas sem anestesia, suportadas com estoicismo inverossímil. É um sadismo na intenção didática, educadora, confortativa.350
Por seu turno, os Negativos não veem sentido no internamento ho spitalar,
349 Ibid., p.48. 350 Ibid., p.49.
estão convencidos de que se trata de um exagero das circunstâncias, não havendo mal que justifique tal internamento, mas apenas “dengo” do doente, “cavilação”. O doente não está doente, é uma questão de psicologia do afeto, carência de ternura. Cascudo descreve mordaz o sentimento do doente diante desses visitantes:
Riem. Zombam. Ironizam. O amigo, no leito ou na poltrona de embalo, amarrado de restrições, dietas, doces ameaças, não sabe se deva agradecer ou proferir palavrão desabafador. Esse processo humilhante denomina-se “Animar o doente! Incutir-lhe coragem!”. Gonçalo Correnteza, um popular do natal em meus tempos de menino, queria curar um defunto com chá de papaconha!351
Chegam finalmente os Familiares, sempre alegres e concordando em tudo com o doente. Trazem novas informações, evitam conversas desagradáveis, mantendo o ambiente tranquilo para o repouso do paciente. São os visitantes louvados por Cascudo, mencionados ao longo de suas memórias sem poupança de tinta: Ilma Melo Diniz, presidenta da fundação José Augusto; Enélio Lima Petrovich e sua esposa Miriam; a irmã Superiora Maria Zélia, irmã Cleófa, Olavo Medeiros, Oswaldo de Souza, a companheira Dahlia, os médicos Onofre Lopes, Paulo Bittencourt, Grácio Barbalho, e quem mais viesse.
O presença dos visitantes preenchiam de alguma forma a solidão do leito, o corpo singular do doente no moderno hospital tecnológico, embora Cascudo se esforce, em suas memórias, por mostrar um espírito de comunidade que habitava o espaço do Hospital das Clínicas. Assim, sempre havia com quem conversar no interior do hospital, ainda que fosse assunto para a filosofia do desespero de Sören Kierkgaard:
Ao café, pela manhã, o Capelão, Padre Tenório (Alfredo Tenório dos Santos, SDB) conta-nos que um doente, ontem, internado, coberto de úlceras, evadiu-se durante a noite e, fazendo prodígios de simulação e paciência, conseguiu atingir o extremo do parque. Não recuperar a liberdade e sim encontrar a Morte. Agora, sete e meia de 23 de abril, o cadáver está tocando o solo, quase ajoelhado pela proximidade da terra, onde vai ficar para sempre...352
E na ausência dessa população de visitantes e suas conversas, que restava ao doente? Recostar-se na poltrona, o scimpodium dos antigos, e deixar vagar a imaginação... Cascudo releu o livro L’Homme Iconnu (1935), do médico Alexis Carrel.
351 Ibid., p.50. 352 Ibid, p.58.
Detalhe importante: o livro era um verdadeiro alfarrábio de mais de mil páginas e, como se pode notar, em língua estrangeira! Segundo nosso “Doente aprendiz”, Carrel elogiava os avanços da Ciência, vendo nela o complemento orgânico das limitações humanas. Cascudo retrucou essa conclusão, afirmando que o aparato tecnológico da Ciência não respondia às necessidades humanas, como defendia Carrel. Aliás, nem a ele se reportava:
Escapam as dimensões irradiantes. Os fenômenos inexplicáveis pelas teorias correntes são negados. Esse animal não existe! O idemonstrável não merece atenção científica ou dos professores prestigiosos no momento. O homem dos especialistas não é o concreto nem real. As ciências mecânicas, físicas e químicas não nos trazem a Moralidade, a Inteligência, a saúde, o Equilíbrio Nervoso, a Segurança e a Paz.353
Concorda, todavia, com a crítica do Dr. Carrel a respeito dos excessos do conforto numa civilização tecnológica que produzia maravilhas e dispensava cada vez mais o esforço do homem:
Vamos pelo conforto, abandonando as mais legítimas defesas do organismo. [...] Já não mastigamos, porque os alimentos são preparados para evitar o excesso mandibular. Refrigeração, aquecimento, transporte, diminuem assustadoramente a verdadeira colaboração muscular na produção humoral. O elevador derrotou a escadaria, velha ginástica apreciável, notadamente para o coração. Falta-nos o jejum dietético, eliminador de saltos perigosos. Apanhar chuva e vento. Pisar terá com pés nus. Cansar-se.354
O problema era de meta, de natureza psicológica: fixação obsessiva no êxito econômico como finalidade existencial, como objetivo de uma vida mais saudável, e esquecimento do trabalho, da execução, do esforço inteligente. “A cruel e criminosa batalha entre o Ser e o Haver”, arrematava Cascudo.
Fim das reflexões? De Poltrona, sim. Mas... a bateria continua em novo cenário: a Cama. No arquivo de memórias de nosso doente do 203, sempre sobrava espaço para catalogação e armazenamento de mais informações.Em linguagem informática, diríamos que seu HD já estava para lá de um Tera de memórias!
Pulsação cardíaca, pressão arterial, check-up, assim os discípulos de Asclépio submeteram Cascudo na malha dos exames hospitalares. Nas suas “memórias
353 Ibid., p.72. 354 Ibid., p.72-73.
de Cama”, ele registrou o trabalho de assistência dos médicos, com particular atenção para os remédios e medicamentos. Pílulas e fórmulas populares de combate ao morbus se confundem na história de uma farmacologia mais atrativa ao doente, processo de “dulcificação” descrito com graça em sua experiência de internado:
Tenho pílulas e comprimidos discoides, redondos, esféricos, cilíndricos, azul-rei, vermelho-sangue-de-boi, doirados, de prata brilhante, róseos como pétala de Paul Neron, agradáveis ao olhar como fáceis de deglutição. Um xarope cor-de-rosa é tão melífluo que o julgo digno de um batizado de bonecas. Evoco os remédios do meu Tempo-Menino, engolidos sob ameaça de chinela ou promessa de brinquedos. Tomar era uma antevisão apavorante! Laxantes, purgativos, fortificantes eram formas penitenciais com que Higeia cobrava seus benefícios. Remédio ruim é bom! Amargos, acres, mau- olor, de aspectos repulsivos, eram garantias de eficácia. E havia os segredos miríficos da Medicina caseira, invioláveis tantas vezes no prestígio tantas vezes secular. Urina de vaca em jejum, chá de grilo, caldo de largatixa, lambedor de fedegoso, fora a estercoterapia, não sabendo o doente o que toma [...]. Purgante de mastruz, jalapa, rícino, de manhã cedo, cinco horas sem comer, sem beber, sem dormir [...].355
Tomar remédio amargo, ruim, era cantado como símbolo de masculinidade, virilidade, força. O martírio e a dor eram tidos pelos médicos como inimigos, que deviam ser eliminados, daí a vitória dos sedativos, analgésicos e anestésicos. No Hospital de Caridade “Juvino Barreto”, a anestesia local, a chamada raquianestesia, só fora introduzida no final da década de 1910, pelo cirurgião José Tavares da Silva. Segundo Cascudo, o medo da dor não era privilégio do paciente:
Uma estória muito gozada, no velho tempo do Hospital Juvino Barreto, foi o doutor Januário Cicco, diretor e cirurgião devoto, grande sacerdote do bisturi, ter sido compelido a extrair um molar com o Clidenor Lago, chefe dessa seção. Clidenor deu a injeção e voltou-se abrindo a gaveta para escolher o boticão. Quando olhou para a cadeira, Januário havia desaparecido, com injeção e tudo [...]356
Nem o chefe de clínicas do hospital resistiu à ameaça de uma simples extração de molar... Por isto, todo o investimento farmacológico e laboratorial no sentido de amenizar a dor: clorofórmio, éter, novocaína, opiácios variados, morfina. O mesmo para os remédios, que passaram a apelar na propaganda impressa para os sentidos do paladar e da visão. Cascudo recordou-se do Xarope Jataí-Prado e do Elixir Sanativo, ambos sendo anunciados nos jornais com recursos poéticos. As cores entusiasmavam o doente do apartamento 203:
355 Ibid., p.78. 356 Ibid., p.79.
Dá-me vontade derramar os meus remédios na colcha da cama e brincar com eles, como fazia, na fase juvenil, com botões. Não juro que sejam úteis, mas garanto que são bonitos. Muito deve ter andado a indústria farmacêutica apresentando seus produtos em formas amáveis e graciosas.357
A presença de amigos e parentes, a constância dos médicos no cuidado habitual, as Filhas de Santana nas visitas de rotina, o padre Capelão, mesmo ressaltando o convívio humano perene, Cascudo não olvidou os momentos de solidão propiciados pela fragilidade do corpo na debilidade causada pela doença. O doente é obrigado a ficar consigo mesmo, aturar-se, ver-se no espelho, entabulando auto-conversação diária e frequente. Contudo, ainda que admitindo a solidão como companheira, nosso enfermo do Hospital das Clínicas não a tomou como inimiga, personificação da Ausência, da Falta, da Morte. A solidão se manifestava como positividade, instrumento, alavanca. No mundo da velocidade, ressalta Cascudo, a doença é a melhor oportunidade do gnôthi seautón358 délfico-socrático: “Quem não adoece,/Não se conhece...”, dizia.
Solidão capturada na racionalização a posteriori de Cascudo, no reordenamento das memórias pós-hospital, tornada oportunidade de autoconhecimento, aprendizado de si consigo mesmo. O doente internado pintou assim sua solidão psicanalítica:
A doença é um processo de análise. Rara oportunidade para o autoencontro, a intimidade reveladora da própria personalidade. Estar realmente consigo. Entender-se. Pesquisar-se. Fusão ideal com o alter ego, disperso na diversidade das preocupações centrífugas. A moléstia nos reaproxima, restituindo-nos a velha unidade psicológica da nossa meninice, quando estabelecíamos a entidade total, na naturalidade, no milagre da conversa dialogal, falando sozinho, com nós mesmos. Reencontramo-nos no final do labirinto perturbador. O sofrimento, a relativa imobilidade da clinóstase, as horas solitárias, o desinteresse pela vida pública, reduzida a uma farfalhante atividade de superfície, valorizam a delicadeza, a curiosidade mental, a jornada sutil, nos meandros da Percepção, emergida dos abismos inconscientes.359
E falava aí um doente surdo, duas vezes solitário, portanto. Especialista no silêncio sonoro. Para ele, “estar só” não era problema de convivência, ausência de pessoas em derredor, ou qualquer espécie de “mal do século”. Era ausência de exercício, hábito, questão individual: “A solidão é ausência de fauna e flora anterior e pessoal.
357 Ibid., p.81.
358 “Conhece-te a ti mesmo”, famosa frase grega presente na fachada do Templo de Delfos, e tornada
imortal na obra do filósofo Sócrates.
Isolamento para aqueles que não sabiam andar sozinhos e a pé, dizia o conde de Ficalho. O espírito não se esvazia ao deter-se, como a Arca de Noé...”.
Últimas memórias sobre o tema da solidão. O “Doente aprendiz” terminou suas lições em 26 de abril de 1968, pela manhã, com o telefonema de Onofre Lopes anunciando sua alta do hospital. Tornou-se mestre no assunto e escreveu seu “Pequeno manual”, ensinando aos interessados como um doente deve se comportar em um hospital.
A dupla experiência hospitalar de Câmara Cascudo (agosto de 1967 e abril de 1968), contada na modalidade do gênero memorialístico, nos revela um pouco do cotidiano de um doente hospitalizado na década de 1960, no Hospital das Clínicas. Nessas experiências, Cascudo descreveu o espaço circunscrito e limitado da mobilidade funcional do enfermo, obrigado a se movimentar dentro de um reticulado cujos principais pontos de apoio são uma janela, um sofá e uma cama, dos quais a fuga só era possível através da imaginação, da inventividade, as “maginações” das notas cascudianas. Cotidiano que se desenrolava no recebimento de visitas de amigos e parentes, conversas com o Capelão, irmãs de Santana, médicos e demais funcionários do hospital.
Todavia, não devemos nos deixar levar pelas seduções literárias da escrita de Cascudo, doce e esteticamente atraente como as pílulas coloridas que ele pretendera derramar na colcha da cama ou como os anúncios poéticos do Xarope Jataí-Prado e do Elixir Sanativo. Poucos doentes comemorariam seu aniversário de casamento com champagne dentro do hospital nem tampouco teriam tantos médicos amigos à disposição, assim como parentes a receber em visita. Um indigente transferido para o hospital (havia um espaço próprio reservado para eles) certamente não gozaria das mesmas regalias que o nosso doente-memorialista.
A solidão do paciente era a marca registrada do processo de singularização dos corpos levado a cabo no século XX – isto ele não poderia negar -, intensificando a sentimento de “estar só”. O neoindividualismo próprio de nosso tempo trouxera os