_________________________________________________________________________________________________________________
Resumo
O objetivo foi identificar quais as estratégias de educação em saúde do adolescente são implementadas na atenção básica em saúde. Pesquisa documental nas bases de dados LILACS e BDENF de 2009 a 2013. Foram encontrados 10 trabalhos. O local de desenvolvimento da ação, foi seis em escolas da rede pública, dois em unidade básica de saúde, um em parceria com a escola pública e a unidade básica de saúde e um em entidade pública não governamental. Os métodos utilizados são dinâmicos e lúdicos, a maioria apoiados na pedagogia freiriana e, as estratégias, dinâmica de grupo, oficinas, filme, exibição de slides e consulta de enfermagem. As atividades foram desenvolvidas por enfermeiras docentes, estudantes universitários e de pós-graduação. Apenas em dois trabalhos houve a participação da enfermeira da unidade básica.
PALAVRAS-CHAVE: Enfermagem em Saúde Comunitária; Saúde do Adolescente; Educação em Saúde
Introdução
A adolescência é uma fase de mudanças profundas e rápidas no ciclo de vida. Isso se revela nas mudanças biológicas, comportamentais, de aprendizagem, de socialização, de descobertas, de interação e de inúmeros processos que nos permitem valorizar a adolescência como um potencial imprescindível para a sociedade.
65 Apesar dessa parcela da população brasileira não ser a mais significativa a nível quantitativo, é crescente a preocupação referente aos dados epidemiológicos inferidos pelo grupo na faixa etária de 10 a 19 anos. Pode se destacar, além das questões de saúde sexual e reprodutiva, o aumento no uso de drogas, principalmente álcool e tabaco, e de mortes por causas externas relacionadas a algum tipo de violência.
Nesse sentido, a inclusão de adolescentes e jovens nas políticas de saúde exige uma
concepção ampliada do contexto sócio-histórico em que estão inseridos para a implementação de estratégias intersetoriais e educativas embasadas em suas necessidades (CAMPOS; SCHALL; NOGUEIRA, 2013).
Revisão de Bibliografia
Atualmente o Brasil apresenta uma população de 190 milhões de habitantes. Considerando a desaceleração do ritmo de seu crescimento e respectivo aumento da população adulta e idosa, o censo de 2010, demonstra que os adolescentes de 10 a 19 anos de idade representam um total de 34.157.633 pessoas – aproximadamente 18% da população brasileira (IBGE, 2010).
No entanto, apesar de ser considerada uma parcela pequena da população, os adolescentes representam um grupo ativo e produtivo capaz de influenciar em mudanças sociais e, nos indicadores de saúde pública como a morbi-mortalidade, taxa de natalidade e, mais recentemente, o índice de violência.
No concernente às questões de saúde é importante repensá-las à luz da epidemiologia. À vigilância de agravos transmissíveis agregam-se novos temas relevantes, como a vigilância epidemiológica de doenças não transmissíveis, os acidentes e violências, a vigilância ambiental e de saúde do trabalhador, a análise da situação de saúde da população e a implementação da Política Nacional de Promoção da Saúde, que nada mais são que resultados das transformações na sociedade contemporânea e da transição epidemiológica (BRASIL, 2008).
Adolescentes e jovens, por serem consideradas pessoas saudáveis, não recebem a necessária atenção à saúde, a não ser nas questões de saúde reprodutiva. Hoje, no entanto, as condições de saúde desse grupo populacional tornaram-se um diferencial que evidencia a sua vulnerabilidade frente às diferentes formas de violências e a crescente incidência de mortalidade, evidenciadas especialmente pelas causas externas, configurando-se em um agravo de saúde pública.
Em relação às situações de violência, dados da Vigilância de Violências e Acidentes (VIVA) apontam que as mulheres, em todas as faixas etárias, são as principais vítimas de violência doméstica,
66
sexual e outras violências, com 6.636 casos (74%). As adolescentes de 10 a 19 anos de idade ocupam o segundo lugar, correspondendo a 77, 9% dos atendimentos (BRASIL, 2010).
A vulnerabilidade de adolescentes e jovens às causas externas atinge proporções mais significativas do que no restante da população ocupando o primeiro lugar na mortalidade desse grupo populacional. Segundo Brasil (2010), as agressões foram a principal causa de morte para adolescentes de 15 a 19 anos de idade com 58,7%, seguidas das lesões autoprovocadas e pelos afogamentos e submersões. Já para adolescentes de 10 a 14 anos, a primeira causa foram os acidentes de transporte (35,9%) seguido das agressões (22,4%), afogamentos e submersões (21,8%) e, em quarto, as lesões autoprovocadas (4,8%). Em relação a incidência de homicídios na população com idade entre 15 e 24 anos, que de 1996 a 2006, passaram de 13.186 para 17.312, com aumento de 31,3%. Esse crescimento foi superior aos homicídios na população total, que aumentaram em 20% nesse período.
Da mesma forma, os casos de suicídio que é uma violência auto-infligida, preocupam por serem elevadas em algumas cidades brasileiras e estarem aumentando na população jovem masculina, provocando um impacto na saúde pública. A proporção de óbitos por suicídios em 2006 foi de 79% no sexo masculino e de 21%, no sexo feminino (BRASIL, 2010).
Em relação à Saúde Sexual e Reprodutiva, os dados da Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS) de 2006, apontam que até os 15 anos 33% das mulheres pesquisadas já haviam tido relações sexuais, o triplo das relações ocorridas em 1996, na mesma faixa etária (BRASIL, 2009). Esse tema está diretamente relacionado ao manejo da saúde pública em relação a planejamento familiar, saúde da mulher e do homem, prevenção de DST/AIDS e gravidez na adolescência.
A mortalidade materna entre as mulheres de 10 a 19 anos de idade ocupou o segundo lugar em pesquisa realizada de 2000 a 2010, representando 15,9% da população feminina, sendo as duas principais causas a hipertensão e a infecção puerperal (BRASIL, 2010).
Neste cenário, a gravidez na adolescência se configura como problema de saúde pública, demandando intervenções efetivas e imediatas que fomentem estratégias de promoção da saúde sexual, com garantia ao acesso desburocratizado aos serviços de saúde e à aquisição dos métodos anticonceptivos, de acordo com Moreira et al., (2008). Cabe ressaltar que apenas a garantia do direito e a desburocratização do acesso aos serviços não garantem a efetividade da ação. A educação em saúde configura-se como um elo fundamental nesse processo pois somente através dela é que a pessoa terá de fato liberdade de escolha, autonomia e discernimento para tratar as situações de saúde.
Coelho et al., (2012) refletem que, no Brasil e em outros países, observa-se um espetáculo de informações em massa expostas aos adolescentes por meio da televisão, rádio e publicidade escrita prevenção da gravidez. No entanto, essas medidas perdem o seu significado, pois são destituídas da
67 singularidade cultural, religiosa e social de cada sujeito. Fato esse que é comprovado pelos indicadores de saúde referentes a essa população.
Em relação às bebidas alcoólicas, estas ocupam o topo da lista tornando-se um importante problema de saúde pública uma vez que o consumo de álcool e de outras drogas entre crianças e adolescentes de 9 a 19 anos e jovens de 20 a 24 anos é elevado (BRASIL, 2010). Segundo Vieira et
al., (2008, p. 2493), “existe a crença cultural de que bebida alcoólica não é uma droga contribui para o
estímulo e incentivo ao uso de álcool, não só durante a adolescência mas em todas as faixas etárias”. Nesse sentido, os hábitos culturais e familiares funcionam como importantes marcadores de condutas e tendências e devem ser considerados pela equipe de saúde na perspectiva de favorecer uma assistência humanizada e efetiva.
Segundo Brasil (2010), os dados contidos na análise da situação de saúde de adolescentes e jovens evidenciam as dificuldades de acesso à educação, o desemprego, as profundas desigualdades sociais, o meio ambiente degradado, a morbimortalidade por violências, dentre outras, apontando para o impacto no crescimento e desenvolvimento saudáveis das pessoas jovens. Nesse âmbito, reflete-se sobre a integralidade da atenção, como uma das diretrizes do SUS, que pressupõe a organização de serviços e a execução de práticas de saúde que integrem um conjunto de estratégias para a prevenção de agravos e promoção da saúde e para as ações curativas e de reabilitação, individual ou coletivo.
Nas Diretrizes Nacionais para a Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e Jovens na Promoção, Proteção e Recuperação da Saúde, a proposta de Reorientação dos Serviços de Saúde para Favorecer a Capacidade de Respostas para a Atenção Integral à Saúde de Adolescentes e de Jovens, um de seus itens visa a promoção da participação desse grupo populacional em redes intersetoriais que lhes garanta proteção e a garantia de seus direitos. Nesse sentido, a educação em saúde, voltada para adolescentes e jovens, deve favorecer a autonomia, a liberdade e a dignidade humanas, estimulando a reflexão e o posicionamento frente a relações sociais que dificultam ou facilitam assumir comportamentos saudáveis, ao mesmo tempo em que estimula o desenvolvimento da curiosidade crítica, como sinal de atenção que é integrante da vida (BRASIL, 2010). Portanto, o objetivo deste trabalho foi identificar quais as estratégias de educação em saúde do adolescente são implementadas na atenção básica em saúde.
Metodologia
Foi uma pesquisa de revisão integrativa da literatura na Base de dados em Enfermagem (BDENF) e na Literatura Latino-Americano e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), tendo como critério de inclusão publicações em português, com textos completos disponíveis nas bases de dados
68
selecionadas, no período compreendido entre 2009 a 2013. Os trabalhos foram referentes a relato de experiência das estratégias de educação em saúde do adolescente implantadas nos serviços de atenção básica de saúde pelos profissionais de saúde. Foram excluídos os artigos de reflexão e pesquisa documental.
A busca nas bases de dados foi através dos termos saúde do adolescente, educação em saúde e enfermagem. Os resultados encontrados foram organizados em um quadro contendo ano de publicação, nome do artigo, base de dados onde foi encontrado, autores, estratégia educativa desenvolvida e local onde foi realizada a ação.
Resultados
Foram encontrados 10 trabalhos, sendo quatro na BDENF, dois na LILACS e quatro em ambas as bases de dados. O período de maior produção foi de 2012 com quatro artigos e o de menor produção na área foi de 2013, que não apresentou nenhuma divulgação de trabalho de acordo com os critérios de inclusão estipulados.
Além do objetivo principal da pesquisa, foi possível elencar outros tópicos que podem influenciar direta ou indiretamente no processo de educação em saúde do adolescente, como local de desenvolvimento das ações e quais os profissionais que desenvolveram as atividades.
Em relação às estratégias educativas
Em relação às estratégias educativas desenvolvidas no âmbito da atenção primária de saúde para a população de adolescentes, objeto do presente estudo, foram descritas: oficinas grupais com métodos dinâmicos e lúdicos, a maioria apoiada na pedagogia freiriana, tendo como estratégias a dinâmica de grupo, oficinas, filme, exibição de slides com conteúdo teórico e a consulta de enfermagem.
A metodologia dialética compreende o homem como ser ativo na construção do seu conhecimento, durante as relações com os outros e com o meio (ANASTASIOU; PESSAGE, 2007). Desse modo, os princípios de educação dialógica de Paulo Freire constituem importante instrumento para problematizar e integrar saberes e práticas mediadas pelo diálogo entre os sujeitos profissionais de enfermagem/saúde, indivíduos e comunidades, possibilitando a interação de educadores com educandos (FREIRE, 1987).
Nessa perspectiva, a educação em saúde, nos moldes da problematização, configura-se como estratégia efetiva no tocante ao envolvimento dos adolescentes com a discussão das temáticas. A
69 parceria entre ensino, pesquisa e extensão e a aproximação da academia dos serviços de saúde legitimam as unidades básicas da Estratégia Saúde da Família como espaço de produção de conhecimento científico para repensar as práticas de saúde, aberto à incorporação de propostas inovadoras (COELHO et al., 2012).
Local desenvolvimento das ações
A maioria dos trabalhos (seis) foram desenvolvidos em escolas da rede pública, dois em uma unidade básica de saúde que compreendia a Estratégia Saúde da Família (ESF), um trabalho em uma entidade não governamental que desenvolve projetos para adolescentes e, um em parceria entre a Unidade básica de saúde e a escola.
Estes dados apontam para uma primeira reflexão sobre o cenário de desenvolvimento das atividades com grupo de adolescentes – a escola pública. Esse fato pode ser associado ao fomento do Programa Saúde na Escola (PSE), que trata de uma política intersetorial da Saúde e da Educação para o desenvolvimento da cidadania e da qualificação das políticas públicas brasileiras. As ações voltadas para promoção de saúde e prevenção de agravos realizados pelas enfermeiras nas escolas através das oficinas grupais, vão ao encontro da proposta da segunda dimensão de atuação do PSE, promoção da saúde e prevenção de agravos, que visa oportunizar que os educandos tornem-se protagonistas da produção da própria saúde, do cuidado com o outro e do meio ambiente (BRASIL, 2013).
Em relação aos profissionais que desenvolveram as ações educativas
Os profissionais que desenvolveram as atividades educativas foram enfermeiras docente e acadêmicos de enfermagem. Pode-se notar que houve pouca participação da enfermeira da unidade básica de saúde como protagonista das ações em saúde com a população de adolescentes sendo, todos os trabalhos idealizados, planejados e desenvolvidos por docentes de instituição de ensino superior.
As universidades devido à necessidade de implementação prática dos conteúdos teóricos encontram, nas escolas e unidades básicas de saúde, ambientes propícios para o desenvolvimento de suas atividades. Dessa forma é possível justificar esse maior envolvimento desses grupos nas ações encontradas.
No entanto, a pouca participação do enfermeiro nas ações com adolescentes sugere uma reflexão mais profunda sobre as dificuldades encontradas por esses profissionais no que tange a educação em saúde com esse grupo específico. Em pesquisa realizada em 2011 sobre a atuação de
70
enfermeiros junto a adolescentes, na categoria dos resultados sobre as dificuldades para atuar junto aos adolescentes, foram apontados: dificuldades de captação dessa população uma vez que não são usuários frequentes das unidades básicas de saúde; à falta de capacitação dos profissionais para a abordagem e atuação junto aos adolescentes, local adequado, materiais capazes de atrair a atenção e participação de diferentes profissionais. Nesse sentido, os enfermeiros apontaram que a formação acadêmica na área de saúde do adolescente “foi superficial ou inexistente” (HIGARASH et al., 2011, p. 379).
Conclusão
As estratégias educativas relacionadas ao público de adolescentes devem ser atualizadas e dinâmicas de modo a estimular o interesse e participação dos mesmos. As estratégias da problematização e baseadas em dinâmicas mostram-se mais efetivas para esse público. O estudo também permitiu visualizar alguns fatores que influenciam no processo educativo como o local de realização das atividades e o profissional que as desenvolve, sendo necessário maior reflexão desses aspectos.
Referências
ANASTASIOU, L.G.C; PESSAGE, L.A. Processo de Ensinagem na Universidade: estratégias de trabalho em aula. 7ª Ed, Joinville: Univalle, 2007.
BRASIL. Ministério da Saúde. Ministério da Educação. Programa Saúde na Escola: manual instrutivo. Brasília, 2013. BRASIL. Ministério da Saúde. Painel Temático Prevenção de Violência e Cultura da Paz III. Brasília. Organização Pan- Americana de Saúde. 2008. 60 p. (Painel de Indicadores do SUS).
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção em Saúde. Departamento de Ações Programáticas Estratégicas.
Diretrizes nacionais para a atenção integral à saúde de adolescentes e jovens na promoção, proteção e recuperação da saúde. Secretaria de Atenção em Saúde, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas, Área Técnica de Saúde
do Adolescente e do Jovem. – Brasília : Ministério da Saúde, 2010.
CAMPOS,H.M.;SCHALL,V.T.;NOGUEIRA,M.J. Saúde sexual e reprodutiva de adolescentes: interlocuções com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE). Saúde em Debate. Rio de Janeiro, v. 37, n. 97, p. 336-346, abr./jun. 2013. COELHO MMF et al.Educação em saúde com adolescentes: compartilhando vivências e reflexões. Revista Ciência
71
DIAS, F.L.A, Riscos e vulnerabilidades relacionados à sexualidade na adolescência. Revista de Enfermagem da UERJ, Rio de Janeiro, v. 18, n.3, p.456-61, jul/set, 2010.
FREIRE P. Pedagogia do Oprimido. 17ª.ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1987.
GUBERT, F.A et al.Tecnologias educativas no contexto escolar: estratégia de educação em saúde em escola pública de Fortaleza-CE. Revista Eletrônica de Enfermagem [Internet], v. 11, n.1, p:165-72, 2009. Disponível em: http://www.fen.ufg.br/revista/v11/n1/v11n1a21.htm Acessado em: 02/07/2013.HIGARASHI, I.H. et al. Atuação do enfermeiro junto aos adolescentes: identificando dificuldades e perspectivas de transformação. Revista de Enfermagem da UERJ, Rio de Janeiro, n.19, v.3, p: 375-80, jul/set; 2011.
IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro, p.1-239, 2010. Disponível em: <http://7a12.ibge.gov.br/vamos-conhecer-o-brasil/nosso-povo/caracteristicas-da-populacao> Acessado em: 15/11/2013. MOREIRA, T.M.M et al. Conflitos vivenciados pelas adolescentes com a descoberta da gravidez. Revista Escola de
Enfermagem da USP. n. 42, v.2. p:312-320, 2008.
VIEIRA, P.C et al. Uso de álcool, tabaco e outras drogas por adolescentes escolares em município do Sul do Brasil. Caderno
de Saúde Pública, Rio de Janeiro, n.24, v.11, p: 2487-2498, nov, 2008. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/csp/v24n11/04.pdf> Acessado em: 14/12/2013.
72