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2.3 Ing´ enierie de la Collaboration

2.3.5 Concevoir des processus de collaboration

Temos acesso ao modo como as pessoas interpretam a vida, o mundo através da entrevista. A análise dessas interpretações representa nosso ponto de vista sobre o ponto de vista do entrevistado. As percepções captadas nas entrevistas possuem uma natureza múltipla, plural.

Entrevistamos porque os sujeitos são reflexivos. Eles possuem variadas inserções e posições sociais. O entrevistado nessa pesquisa não é apenas um trabalhador rural, ele é um sujeito sociocultural47 inserido dentro de diferentes clivagens sociais.

As reflexões dos entrevistados são construídas a partir de sua memória e sentimento de identidade. Ambas intrinsecamente associadas, pois a memória do individuo seleciona e registra fenômenos para ele significativos. Geralmente, o significado atribuído aos fenômenos está relacionado ao sentimento de identidade individual e coletiva.

Aqui o sentimento de identidade está sendo tomado no seu sentido mais superficial, mas que nos basta no momento, que é o sentido da imagem de si, para si e para os outros. Isto é, a imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, a imagem que ela constrói e apresenta aos outros e a si, para acreditar na sua própria representação, mas também para ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros. (POLLAK 1992, p.5)

entrevistador avaliar a necessidade de realização dessas questões. Portanto, o roteiro é flexível nesse sentido.

47 A categoria sujeito sociocultural diz respeito a uma visão integral do sujeito, no sentido de entendê-lo como sujeito em constante formação partir de sua inserção em diferentes práticas sociais, com distintos papéis sociais.

A entrevistada D.I 48 frequentemente lembrava as dificuldades financeiras do passado. Queria ser percebida como uma mulher que conquistou seu patrimônio através de muito trabalho. Além disso, foi possível deduzir que desempenha um importante papel na família no sentido de garantir a segurança financeira dos seus membros.49

De acordo com Pollak (1992) os elementos constitutivos da memória individual ou coletiva surgem de duas maneiras: a primeira, através de acontecimentos vividos pessoalmente e a segunda, por meio de acontecimentos “vividos por tabela”.50

Esse último ocorre quando uma pessoa não participa diretamente de um acontecimento, mas ele toma tamanho relevo no seu imaginário por meio da socialização política ou histórica que desencadeia um processo muito forte de identificação da pessoa com o passado. Desse modo, o indivíduo praticamente herda esses elementos do passado para sua memória51, logo os vivencia por tabela.

Quando perguntava sobre a história da família para os agricultores familiares japoneses, frequentemente contavam sobre as dificuldades financeiras e as situações de adaptação deles aos costumes locais. Geralmente recontavam casos que os antigos da família falavam. A entonação da voz e a riqueza de detalhes na oralidade deles constituíam indícios de uma memória herdada, construída a partir de uma socialização histórica, tendo como recorte histórico o período entre as duas grandes guerras mundiais.

Para compreender as representações que esses sujeitos construíam a partir de um problema, precisei aprender habilidades importantes para conduzir uma entrevista52. Escutar com atenção e paciência; fazer silêncio e perguntar no momento certo53; ler o semblante e o tom de voz do depoente. Perceber a entrevista como um acontecimento, um ato mais próximo da delicadeza54.

48 Atualmente essa pessoa é a segunda maior produtora de flores de corte de Minas Gerais.

49 Contou que ajudara financeiramente, por várias vezes, o ex-marido, os filhos e alguns parentes mais distantes.

50 Michael Pollak (1992) ao fazer uma reflexão teórica sobre o problema da identidade social em situações limites. Entrevistou mulheres sobreviventes de campos de concentração no período da Segunda Guerra Mundial.

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A memória é uma conjugação entre o lembrar e o esquecer. Uma construção social que não é fixa no tempo e no espaço. Ela é mutável e processual.

52 THOMPSON (1992); QUEIROZ(1988); OLIVEIRA, R.C(1996) discutem como a partir de uma observação atenta explorar adequadamente o relato do depoente.

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Considero que essa foi uma das habilidades, que ao longo das minhas primeiras entrevistas, fui aperfeiçoando. Ao fazer uma escuta atenta dos relatos gravados, percebi que realizei algumas perguntas diretivas, isto é, perguntas que induziam a uma determinada resposta. Isso ocorreu principalmente nos momentos que interferi buscando respostas diretamente relacionadas com as hipóteses do meu projeto. 54

A socióloga, Inês Assunção de Castro Teixeira, em palestra conferida na Fafich-UFMG em junho de 2008, trouxe reflexões importantes sobre o ato de pesquisar como um processo que propicia a aventura e

Considerei como representações sociais dos sujeitos entrevistados, as formas de conhecimento prático, construídas a partir do senso comum, isto é de saberes não formalizados. Essas manifestações foram pensadas como construções sociais sujeitas às determinações sócio-históricas de épocas específicas.

SPINK, M. (1993) considera que as representações sociais podem ser interpretadas em relação a dois aspectos de acordo com Jodelet (1989a). O primeiro, “as representações constituem formas de conhecimento prático orientadas para a compreensão do mundo e para a comunicação”. Neste processo o sujeito a partir de sua experiência como o mundo constrói e expressa sua representação do mundo. E por último, as representações surgem como elaborações dos sujeitos sociais a partir da interpretação dos objetos que poderão ou não ser valorizados.

A representação é uma construção do sujeito que não é apenas produto de determinações sociais. Também não é o produtor independente, uma vez que compartilha idéias, pensamentos que são construídos dentro de um grupo, mediante a determinados contextos. Portanto, as representações são sempre elaborações contextualizadas, resultantes das condições de sua origem e circulação.

A realização das entrevistas representou um ótimo aprendizado. A formulação das questões trouxe questionamentos às observações do campo tendo em vista a revisão bibliográfica realizada. As categorias analisadas (território, multifuncionalidade, pluriatividade, etc.) não podiam aparecer diretamente expressas na pergunta da entrevista. Parti de exemplos concretos da experiência de trabalho e de vida dos agricultores familiares, a fim de elaborar questões não-diretivas, simples e curtas. Assim, pude interpretar com maior confiabilidade os fatos sociais do quais tomei contato.