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Concernant les cancers de vessie (question 2)

Dans le document > Revue trimestrielle de l’INRS (Page 54-58)

> AVANTAGES ET LIMITES DES OUTILS UTILISABLES POUR ASSURER LA TRAÇABILITÉ DES EXPOSITIONS PROFESSIONNELLES À DES CANCÉROGÈNES

2. Concernant les cancers de vessie (question 2)

É importante observar que grande parte da argumentação contrária às cotas raciais em universidades públicas está frequentemente permeada por ou articulada a lógicas e discursos racistas. As pessoas, para não se caracterizarem como racistas, costumam adotar uma série de justificativas de conotação aparentemente neutra para o posicionamento anti-cotas, mas, com frequência, lógicas racistas emergem na medida em que essas justificativas são postas em questão. Como observa Sales Jr. (2006):

A cordialidade, por meio do não-dito racista, faz com que a discriminação social não seja atribuída à “raça” e, caso isso ocorra, a discriminação seja vista como episódica e marginal, subjetiva e idiossincrática. Todavia, a cordialidade não se confunde com gentileza, mas se expressa nas próprias formas de agressividade, reduzindo as relações de poder a relações pessoais e informais, relações privadas. A relação entre cordialidade e agressividade é importante na constituição dos laços pessoais, como processo de individuação e diferenciação que conduz ao laço pessoal nas relações familiares e ao de amizade nas relações de trabalho, dentre outras. O não- dito, por exemplo, se efetiva não apenas nas piadas ou nos eufemismos, mas também na injúria racial. Em termos lingüísticos, a cordialidade, como veremos mais adiante, se expressa em modalizações afetivas, por meio de valores e práticas personalistas, privadas e informais que ocupam os espaços e aparelhos institucionais formais e públicos (SALES JR, 2006).

Em decorrência da efetivação das ações afirmativas, vem ocorrendo uma maior auto- identificação dos estudantes enquanto pertencentes à população negra. As cotas podem, nesse sentido, passar a contribuir para fortalecer o processo de afirmação identitária desses discentes, levando-os a valorizar a cultura e a tradição afrodescendente. As políticas de ação afirmativa, como o próprio nome sugere, visam também reconhecer e afirmar a identidade de sujeitos discriminados e estigmatizados histórica e socialmente. Ao mesmo tempo, essas políticas tem o potencial de modificar a identidade e a “cor” das próprias instituições sociais, como as universidades, já que mais pessoas negras passam a adentrar em um espaço no qual historicamente lhes foi impedido o acesso.

Diversos autores têm se dedicado, em anos recentes, a desenvolver estratégias de análise e teorizações em relação aos processos de estruturação e funcionamento dos discursos racistas. Destacam-se, nesse contexto, as sínteses realizadas por Lin e Kubota (2011) e Wodak e Reisigl (2001), os trabalhos de Van Dijk (2007) a partir da Análise Crítica do Discurso (ACD), e os trabalhos sobre o racismo brasileiro de Sales Jr. (2006) a partir da referencial da Teoria Política do Discurso de Laclau e Mouffe. Nosso trabalho busca apropriar-se das contribuições metodológicas e teóricas desses autores, lendo-os na perspectiva da Teoria

Política do Discurso, para investigar como se constituem e atuam os discursos sobre as cotas raciais na UFPE e até que ponto é possível observar a articulação de lógicas racistas na produção e funcionamento desses discursos.

Van Dijk (2007) afirma que os tipos de estratégia discursiva mais frequentemente empregados por grupos racistas são: indicar a negatividade presente no outro, indicar a positividade presente no grupo do nós (de dentro, dominante) e a não valorização as características do outro (etnia, país, costumes, cultura etc.). Por esse mesmo viés, os textos e discursos enaltecedores do racismo apregoam que os imigrantes, por exemplo, são preguiçosos, violentos, atrasados e, portanto, retrógrados em relação à civilização mais evoluída, moderna, tolerante, progressista, etc. O pesquisador elenca, ainda, uma lista de características de discursos racistas, tais como: a repetição de pontos negativos pertinentes à historicidade dos outros, o distanciamento para com os outros grupos étnicos, materializados através de pronomes demonstrativos como aquelas pessoas, essa gente, esses grupos, pessoas desse tipo etc. Utilizam-se ainda de comparações, especialmente metáforas, nas quais enfatizam aspectos negativos, como se os imigrantes fossem “hordas” ou “nuvens” de “invasores” cuja chegada se dá mediante “ondas” nos países europeus. Há também a superlativação de qualidades negativas atribuídas ao outro, que se materializam em expressões qual “criminosos”, “monstros”, “selvagens” etc. Por fim, porém não menos importante, também são comuns a utilização de eufemismos que tentam amenizar o viés racista das afirmações (VAN DIJK, 2007).

No Brasil, os discursos racistas manifestam-se das mais variadas formas, sendo muito comum sua formulação através de piadas, brincadeiras, ironias, provérbios, trocadilhos etc. (SALES JR, 2006). A população negra é estigmatizada e segregada através de inúmeras estratégias. No momento, por exemplo, em que uma pessoa é denominada de “negro sujo”, essa afirmação produz um efeito objetivo. Em decorrência de todo um processo negador da identidade negra, os sujeitos, os quais pertencem explicitamente à população a que se atribui essa classificação, acabam por negar e rejeitar a si mesmos sendo, portanto, “obrigados” a “embranquecer-se” (entendido como buscar a aproximação com características físicas atribuídas aos brancos como, por exemplo, alisamento ou pintura dos cabelos). Tendem a tentar aproximar-se do ideal propagado violentamente pelos colonizadores europeus em nosso país. Evidencia-se a (auto) negação dos sujeitos negros desde a infância já que, na mais tenra idade, as crianças aprendem pelos modelos hegemônicos, elitistas, que sua cor e características físicas a tornam inferior e que, portanto, devem ser negadas, escondidas e

desvalorizadas. Defender as políticas de cotas raciais, nesse sentido, pode ser algo incômodo e doloroso para as próprias pessoas consideradas negras, pois elas implicam em reconhecer e destacar como relevantes politicamente traços físicos e processos psicológicos e sociais que muitas vezes, ao longo de suas vidas, elas foram instadas a encobrir e/ou secundarizar para evitar os conflitos e angústias decorrentes da problematização explícita das relações raciais.

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