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Concepts avec chambre d’ionisation dans le canal

Chapitre II : Conception d’un propulseur de Hall double étage

II.1 Etat de l’art – Comprendre les raisons d’un échec

II.1.2 Concepts avec chambre d’ionisation dans le canal

Para refletir um pouco sobre as estruturas de acionamento criativo presentes nos processos da Periplo, Compañia Teatral, nos aproximamos da noção de metáfora empregada por Lakoff & Johnson (2009) para investigar as estruturas pelas quais o grupo desenvolve sua prática acerca da ação teatral.

Em seus processos criativos, o grupo portenho lança mão das metáforas de um modo muito inserido em sua prática e seu discurso. Ao conduzir um grupo de atores na execução de um pequeno momento cênico, a atriz Andrea Ojeda utiliza deste expediente: “Colocar um chapéu sobre a cabeça deve ser como um passe mágico que me transporta para um terreno outro, me conduz para um lugar desconhecido e me impele a agir de um modo absolutamente inesperado”, diz ela (A. O, 2011b). O que a atriz intenta provocar é uma mudança de estado nos atores, um ponto que marca exatamente o momento em que a ação acontece. Mas, em um nível mais profundo, o princípio a ser trabalhado ali é de que a ação deve ser transformadora para o ator.

Neste que pode ser considerado um enunciado corriqueiro, podemos identificar alguns conceitos metafóricos. Aqui, o passe mágico é entendido como a metáfora

viagem, onde “colocar o chapéu na cabeça” trabalha com a ideia de transportar ou,

ainda, com conceitos como transformar, modificar, deslocar, migrar, alterar, transitar. Considerando que pensamos e atuamos mais ou menos automaticamente, podemos também considerar que as metáforas estão de tal forma arraigadas em nosso comportamento, que nossa compreensão delas em suas implicações práticas são, da mesma forma, automatizadas.

Para compreender melhor o expediente de que tratamos aqui, é importante nos voltarmos ao que o filósofo Mark Johnson e o linguista George Lakoff dizem a respeito de conceitos metafóricos. Primeiramente, eles sustentam que “a metáfora não é somente uma questão de linguagem, ou seja, de palavra meramente. [...] Os processos do pensamento humano são em grande medida metafóricos” (LAKOFF; JOHNSON, 2009, p. 42). Nesse sentido, podemos afirmar que nosso pensamento e nossas ações, cotidianas ou não, se estruturam de modo metafórico.

Tomemos, então, como parâmetro, o fato de que nossa composição física e postural se dá na posição ereta e nos orientamos espacialmente através dos conceitos

(convencionais) acima-abaixo, frente-trás, dentro-fora... Está tudo em nossa composição física: “uma postura inclinada acompanha caracteristicamente a tristeza e a depressão, uma postura erguida acompanha a um estado emocional positivo” (LAKOFF; JOHNSON, 2009, p. 51). Assim, não é arbitrário dizer que nos movemos em nosso meio físico de acordo com estas orientações metafóricas. Se compreendemos automaticamente a metáfora “caí em depressão” é porque vivemos no corpo a experiência da queda. E sabemos que depressão é algo estruturado pelo conceito metafórico “para baixo” da mesma forma que a expressão “levantou o meu astral” transparece o conceito metafórico “para cima”.

Então, um exercício com premissas muito simples como colocar um chapéu se apresenta como uma importante ferramenta para o desenvolvimento da ação teatral que se desdobra a partir dele, se aproximando do conceito metafórico viagem já que o enunciado deste exercício propõe colocar algum objeto e ser transportado para algum lugar, se transformar e, como diz Andrea Ojeda, “estar ali um pouco e voltar como num

passe de mágica”.

A função primeira da metáfora é compreender um conceito através de outro e, assim sendo, cabe ainda analisarmos o conceito metafórico quando afirmamos que um

passe mágico é uma viagem. Antes, porém, é importante esclarecer que esta

conceituação provém diretamente do discurso do grupo ao qual nos referimos, postulando sua noção muito particular acerca da ação teatral. Distinta à ideia de dar um uso inusitado ou desconhecido a determinado objeto, colocar um chapéu ou usar um

óculos se converte em um código que transporta o ator para outro lugar onde ele deve

agir de acordo com o impulso que nasce no momento mesmo em que colocou o objeto. Um código de transição, de passagem de um estado a outro. Mas, dependendo da qualidade deste passe mágico, o ator pode ver-se em uma encruzilhada, sem ser capaz de optar, escolher ou ainda deixar clara qual ação irá executar. O passe mágico ainda aciona outras estruturas de criação quando o ator decide voltar atrás em sua ação.

De qualquer modo, trata-se de uma viagem subjetiva em que o princípio mais importante é ver que o ator está agindo e perceber se o que ele está fazendo possui verdade, se ele está comprometido com a ação que executa e, o fundamental, se esse

passe mágico o transformou de tal maneira que ele não saiba aonde vai. Sempre é um longo caminho.

Ocorre que, observando o modo como a Periplo, Compañia Teatral conduz o trabalho com os atores, podemos identificar a recorrência de outras metáforas que não

somente a do passe de mágica. Da prática por ele desenvolvida, emergem outros conceitos metafóricos comumente aplicáveis ao trabalho do ator. Olhando para as metáforas como acionamento da ação, podemos perceber que através delas também acionamos outras estruturas de compreensão concernentes à práxis teatral. A partir dos conceitos metafóricos descritos e organizados por Lakoff & Johnson, traçamos uma aproximação com a práxis do ator em geral, conforme apresentamos abaixo:

- Aquele ator realmente defende seu papel; Para cada ação deve existir uma

reação; Este trabalho deve mobilizar você completamente – A partir da

metáfora “um argumento é uma guerra” formulamos nossos conceitos e nossa compreensão como em uma projeção da batalha física, ou seja, atuamos em relação à guerra sem guerrear propriamente;

- Esta obra alimenta o meu trabalho; É um texto difícil de digerir; Temos que

filtrar estas ações – Na metáfora “as ideias são comida”, utilizamos

conceitos como digerir, degustar, filtrar, experimentar (entre outros) para expressar nossa percepção sobre determinadas coisas, de tal maneira automatizada, que nos é tão orgânico quanto sentar à mesa e fazer uma refeição;

- Ele agiu de maneira insuficiente; É necessário esgotar todas as suas opções; Aquela cena tem algo incomum – Aqui temos a metáfora “tempo é dinheiro” que representa um ponto chave em nossa cultura se pensarmos que muitas de nossas atividades cotidianas são mensuradas sob este conceito como, por exemplo, os minutos em uma ligação telefônica, o salário pago de acordo com horas ou dias trabalhados, etc;

- Esta é a base de todo o nosso trabalho; Aquela cena está pouco sólida; Não tente imaginar a forma da ação – Em “as teorias são edifícios”, identificamos um léxico muito viável em nossa comunicação cotidiana, seja em casa ou no trabalho. Compreendemos este conceito metafórico, pois é um modo já muito arraigado – incorporado, pois – de falar sobre determinados assuntos;

- Os pais-mestres do Teatro; Ações bem executadas geram cenas consistentes; O trabalho com as ações deve estar bem enraizado no ator; A cena nasceu defeituosa – Nesta metáfora, “as ideias são organismos”, percebemos como determinados conceitos nos indicam ciclos, carregam a ideia de vida e morte, requerem um amadurecimento, um cuidado e um cultivo constantes;

- Esta é uma cena bruta que precisa ser lapidada; Produzimos impulso para criar ações; Precisamos compartilhar cada impulso em nosso processo criativo – A partir da metáfora “as ideias são produtos ou recursos”, nossa percepção indica também a noção de repertório além de, naturalmente, aproximar de conceitos como distribuição, compartilhamento, armazenamento (guarde este momento!) e categorização, entre outros. O uso deste conceito metafórico requer a noção de feitura, manufatura, elaboração, ao passo que solicita a compreensão no sentido de possibilidades, variáveis, quantidade, manutenção, etc.;

- Esta ação está vazia; Sua partitura está cheia de possibilidades; Posso ver que há muito que fazer em seu trabalho; Isto cabe no espetáculo; O caminho é converter o gesto em ação; O que ele fez não tem muito conteúdo – Nestes exemplos, “a vida é um recipiente” e, por isso, o conceito metafórico onipresente é o de conteúdo. Os autores atentam para o fato de que nossa experiência física nos impele a, mesmo imaginativamente, projetar limites, fronteiras e profundidade nas coisas pois nos percebemos a nós próprios como seres “separados do mundo pela superfície de nossa pele” (LAKOFF; JOHNSON, 2009, p. 67) e, por isso, vivemos nossas experiências como algo que está fora de nós. Segundo Sandra Meyer Nunes, “dos comportamentos da vida cotidiana aos cênicos, toda coisa inicia ou está sempre dentro ou fora de um determinado contexto, no interior ou no exterior ou, no máximo, na fronteira entre ambos” (NUNES, 2009, p. 90).

Nas expressões expostas aqui, entendemos o conceito viagem no sentido de progressão que pressupõe um desencadeamento mais no sentido de espaço que propriamente de tempo. O conceito edifício diz respeito às estruturas, aos alicerces e, assim, é importante para dar fundamento ao trabalho em questão. Já o conceito metafórico recipiente é o de maior relevo de acordo com os autores (LAKOFF; JOHNSON, 2009, p. 139), pois provém dele a noção de conteúdo.

Muitas ainda são as metáforas que poderíamos aplicar neste estudo. Quando consideramos que por meio de significados imaginativos compreendemos determinados conceitos em virtude de uma ideia figurada, compactuamos com os autores aqui requisitados a noção de que tal compreensão se apoia em nossa experiência física: “a metáfora passa a ser entendida não somente como padrão de pensamento e organização

da linguagem, mas como estruturadora da própria atividade cognitiva, proporcionando ignição aos atos do corpo” (NUNES, 2009, p. 42).

Então,

para compreender as coisas e agir no mundo categorizamos experiências, objetos e pessoas e estas categorias, antes de serem conceitos estabelecidos, emergem diretamente de nossa experiência na interação de nossos corpos com o ambiente. A estruturação de nossa experiência por meio da metáfora se manifesta nas ações cotidianas e nas ações ficcionais da arte. (NUNES, 2009, p. 43).

Portanto, o que difere uma atuação, digamos, cotidiana de uma atuação teatral é que no caso da segunda a estrutura metafórica é mais claramente percebida, aplicada como um princípio de trabalho em várias instâncias, na poética da criação artística, já que no teatro há uma situação ficcional. Através das metáforas, o ator pode traduzir a forma como ele compreende suas experiências. Dito de outro modo, ele pode canalizar sua experiência para o acontecimento criativo, acionando suas percepções e seu modo singular de articular um conhecimento artístico.

Já que “a metáfora é um de nossos instrumentos mais importantes para tratar de entender parcialmente o que não se pode entender em sua totalidade” (LAKOFF; JOHNSON, 2009, p. 236), fica claro que atribuímos noções metafóricas em nosso comportamento seja ele cotidiano ou ficcional.

Sandra Meyer Nunes ainda alerta que

a própria noção de expressão é vista comumente como exteriorização de um impulso interno do sujeito, por meio das extremidades de seu corpo. A discussão sobre a interioridade, o poder deste mundo de dentro e sua relação com o fora legitima níveis de dramaticidade e expressividade do corpo. (NUNES, 2009, p. 91).

Em se tratando da poética estabelecida pela Periplo, Compañia Teatral, sempre há aí um componente de trabalho que busca a organicidade através do binômio

precisão/espontaneidade, pois nesta intersecção entre um pretenso dentro/fora ainda

circulam potencialidades de um espaço desconhecido que o ator pode acessar através de um passe de mágica: se deter ali um instante e construir uma ação teatral que não adentre um domínio puramente mecânico mas, antes, possibilite novas respostas em um nível mais aprimorado de expressão. Uma ação que seja, de fato, transformadora.