e sobrevive aos diferentes níveis de explicação presentes nessa área. Em 1918 Thomas e Znanieck apresentam o conceito de atitude sugerindo uma associação dos valores sociais e das atitudes psicológicas, ou seja, elementos que são próprios ao modo de vida de um grupo e as
disposições para agir próprias dos indivíduos. Em 1935 Allport afirmou que o conceito de atitudes era o mais distintivo e indispensável na psicologia (Jesuíno, 2011), e descreveu a atitude não como um comportamento, uma resposta, mas como uma “influência” sobre o comportamento do indivíduo. Face ao destaque que o constructo recebeu, inúmeras foram as definições propostas, porém, a partir do surgimento de instrumentos de medida para as atitudes por volta dos anos 30, observa-se uma ênfase nas diferenças individuais com o intuito de situar diferentes indivíduos em relação a objetos específicos em detrimento aos valores sociais (Doise, 2001).
Thurstone ,em 1946, considerou a atitude como a intensidade de afeto positivo ou negativo dirigido a um objeto psicológico. Na mesma época, Doob e Lott conceituaram a atitude como uma resposta avaliativa em relação a um objeto (Fishbein & Azjen, 1975). Wicker (1969), após uma revisão sobre o conceito de atitude, constata duas concepções gerais de atitude: a) são respostas mais ou menos consistentes com um grau de organização e previsibilidade; e b) são variáveis latentes subjacentes, processos internos que dão sentido e consistência às respostas de uma pessoa.
Rodrigues, Assmar e Jablonski (2002), a partir da compilação de várias definições, afirmam que a maioria dos estudiosos das atitudes considera que tal constructo é composto por três componentes ou dimensões: cognitivo, afetivo e comportamental. No componente cognitivo temos as crenças, o preconceito, o conhecimento. As crenças podem ser informacionais, se indicam o que a pessoa acredita sobre os fatos de uma situação; e avaliativas, quando indicam o que a pessoa acredita sobre o lado bom, lado mau, lado justo, lado injusto de diferentes situações. O componente afetivo aponta características nítidas das atitudes sociais, porque implica em sentimento pró ou contra; e, o componente comportamental, refere-se às tendências para ação que decorre da interação entre o cognitivo e o afetivo, prevendo a ação do indivíduo na intenção de adotar um comportamento.
As atitudes continuam a ser alvo de investigação e é possível observar a existência de algumas diferenças entre as definições mais antigas, como as de Thomas e Znaniecki em 1918 e Allport em 1935, e as definições mais recentes, como as de Fishbein e Ajzen em 1975, ou Fazio em 1990. Nas primeiras definições é destacada a vertente da atitude individual e a sua influência na orientação para a ação. Nas definições mais atuais destaca-se essencialmente um componente avaliativo, como também o conceito passa a permitir uma melhor compreensão do social. Para Fishbein e Ajzen (1975), a atitude consiste
numa predisposição para responder de forma favorável ou desfavorável em relação a objetos, pessoas, instituições ou acontecimentos. Já para Fazio (1990) o conceito de atitude envolve uma associação entre um objeto (situações sociais, indivíduos, problemas sociais, etc.) e uma avaliação relativa a esse objeto, que se encontra armazenada na memória.
A atitude não é diretamente observável, ela é uma variável latente explicativa da relação que o indivíduo estabelece entre a situação em si e seu comportamento. Ou seja, para Lima (2006) a atitude seria uma inferência sobre os processos psicológicos e sua expressão se dá através de um julgamento avaliativo. Esse julgamento possui três características: a sua direção (favorável ou desfavorável), a sua intensidade (forte ou fraco) e a sua acessiblidade, que se refere à probabilidade da atitude ser ativada automaticamente na memória.
A possibilidade de previsão do comportamento a partir da atitude desperta o interesse nos principais focos de estudo da Psicologia Social. Nesse sentido, a teoria da ação refletida (Fishbein & Ajzen, 1975) ao proporcionar um modelo que permite correlacionar, de forma consistente, a atitude e o comportamento, tem sido usada com frequência na explicação e descrição do comportamento nas mais variadas situações, assim como a teoria do comportamento planejado (TpB), que surgiu como um desenvolvimento da teoria anterior (Ajzen, 1985).
A TpB (Ajzen, 1985, 1991, 2001) aponta para o fato de que as pessoas agem conforme suas intenções e percepções de controle sobre o comportamento e que, portanto, as intenções são influenciadas pelas atitudes frente ao comportamento, pelas normas subjetivas percebidas e também pela percepção do controle comportamental. Como regra geral, quanto mais favorável a atitude e a norma subjetiva no que se refere a um comportamento, e quanto maior for a percepção do controle comportamental, maior será a intenção de um indivíduo de realizar um comportamento.
O presente estudo adota a proposta de Ajzen (2001) quanto à definição de atitude e a sua relação com o comportamento. De acordo com essa proposta, as pessoas podem apresentar simultaneamente duas atitudes diferentes para um determinado objeto no mesmo contexto: uma atitude implícita ou habitual, a outra explícita. Isso dependerá da crença associada ao objeto com um determinado atributo, pois a atitude global da pessoa em direção a um objeto é determinada pelos valores subjetivos dos atributos do objeto em interação com a força das associações. Embora as pessoas possam formar diferentes crenças sobre
um objeto, presume-se que apenas crenças que são facilmente acessíveis na memória influenciarão a atitude a qualquer momento.
A TpB é uma teoria voltada para prever e explicar comportamentos humanos em ambientes específicos e é uma extensão da teoria da ação refletida proposta por Fishbein e Ajzen (1975). Tal qual a teoria da ação refletida, o fator central da TpB é a intenção de realizar determinado comportamento. A intenção seria então determinada por três construtos: a atitude, a norma subjetiva e a percepção de controle comportamental (Ajzen, 1991).
Tanto a atitude, como a norma subjetiva e a percepção de controle comportamental, consideradas medidas diretas da intenção comportamental, possuem subcategorias ou medidas indiretas: as crenças comportamentais, as crenças normativas e as crenças controle (Ajzen, 2002).
O diagrama da figura 1 apresenta o modelo da TpB.
Figura 1: Modelo da Teoria do Comportamento Planejado (Ajzen, 1991).
A atitude para com o comportamento é o grau em que o desempenho do comportamento é avaliado positiva ou negativamente. Por exemplo, o comportamento de realizar atividade física irá diminuir o risco de complicações para o DM 2 é avaliado de forma positiva ou negativa e diminuir complicações é desejável/indesejável. As crenças
comportamentais indicam os prováveis resultados do comportamento e avaliações destes resultados.
A norma subjetiva origina-se da percepção do indivíduo a respeito da aprovação ou não de determinado comportamento por pessoas importantes para ele. Ou seja, é a percepção sobre as pressões sociais sofridas pelo indivíduo para realizar ou não uma ação. Caracteriza-se pelos aspectos da influência social sobre a intenção comportamental. As crenças normativas referem-se àquilo que o indivíduo acredita que irá acontecer caso ele se comporte de um jeito, ou seja, a avaliação das conseqüências do comportamento; originadas das pressões sociais presentes no grupo ao qual o indivíduo pertence e a motivação para concordar com essas pessoas importantes para ele.
A percepção de controle comportamental seria os recursos e as oportunidades disponíveis para um indivíduo e que, de certa forma, ditam a probabilidade de realização comportamental. Porém, mais importante do que um controle real, é a percepção de controle comportamental. Este se refere à percepção da facilidade ou da dificuldade em realizar um comportamento de interesse, podendo variar entre situações e ações. Nesse sentido, a perspectiva da percepção de controle comportamental é compatível com o conceito de auto-eficácia de Bandura (Ajzen, 1991). As crenças controle indicam a presença de fatores que podem facilitar ou dificultar o desempenho do comportamento ou da percepção sobre o poder desses fatores.
As crenças desempenham um papel central na TpB. Elas fornecem o funcionamento cognitivo e afetivo que serve de base para as atitudes, as normas subjetivas e a percepção de controle comportamental (Ajzen, 2006).
Na TpB, a intenção seria a indicação de que uma pessoa está pronta para desempenhar um determinado comportamento, e é considerada como o antecedente imediato do comportamento (Ajzen, 2006; Francis et al, 2004). A intenção é baseada na atitude para o comportamento, norma subjetiva e percepção do controle comportamental. Embora não exista uma perfeita relação entre a intenção comportamental e comportamento real, a intenção pode ser usada como uma medida de comportamento proximal. Esta observação foi uma das mais importantes contribuições da TpB, em comparação com anteriores modelos que relacionavam comportamento e atitude. Assim, as variáveis apresentadas na TpB podem ser usadas para determinar a eficácia da implementação de intervenções, mesmo que não haja uma medida do comportamento real disponível (Francis et al, 2004).
A aplicação da TpB na área da saúde pode ser observada em vários estudos que mostram a eficiência do modelo para explicar e predizer comportamentos relacionados a saúde. White, Terry, Troup e Rempel (2007) analisaram as crenças entre os adultos diagnosticados com DM 2 e doença cardiovascular que aderem ou não a uma dieta com baixo teor de gordura e a atividade física regular. No estudo, 192 participantes responderam um questionário sobre seu comportamento, crenças normativas e crenças em relação ao controle regular ou moderado da atividade física, bem como ingerir alimentos com baixo teor em gorduras saturadas. Os resultados revelaram que, em geral, as crenças comportamentais são importantes determinantes tanto para a atividade física como para o consumo de alimentos com baixo teor de gordura. Alguns indícios sugerem que a pressão de outros significativos é uma consideração importante para o baixo consumo de gordura.
Outro estudo entrevistou 36 pessoas diagnosticadas com várias doenças crônicas e a análise de conteúdo das respostas identificaram como determinantes a atitude negativa para a adoção de comportamentos de saúde, tanto em termos de incentivo como desencorajamento para a adoção. As principais referências que influenciaram a adoção de comportamento saudável foram: os membros da família, as redes sociais, e os profissionais de saúde (Hwu & Yu, 2006).
Sjoberg, Kim e Reicks (2004) aplicaram a TpB para a ingestão de frutas e verduras entre os adultos mais velhos. O questionário foi aplicado a 205 idosos. Através das análises de regressão que a teoria constrói, constatou-se que mais de 40% relataram a intenção de ingerir frutas e verduras. A percepção de controle comportamental foi a mais importante para explicar tanto a intenção e a ingestão, seguido de atitudes e normas subjetivas. O estudo aponta que o controle das crenças estava relacionado à conveniência, preferências, tempo, disponibilidade e fazer refeições fora de casa.
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