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Le Comité interprofessionnel sur la filière riz (c iriz )

Aqui há a necessidade de retornar as coisas mesmas, revisitando um mundo que esteve diante de mim, frente ao que foi dado de significado no ritual sagrado. Retomo a partir daqui novas reflexões sobre o vivido e tomo a Educação Física como área para interpretar as significações simbólicas.

Aponto neste capítulo um afastamento. Esse distanciamento implica na redução como maneira científica de negar nossa familiaridade com o objeto, lançando assim, um olhar isento, fomentado por uma admiração com este. E permeando através disto, novos sentidos e significações, transcendendo sua materialidade no intuito de desvendar sua subjetividade sensível (MERLEAU-PONTY, 1945/1994).

Configurou-se anteriormente história, emoções e depoimentos imbricados no Torém, para então, neste momento refletirmos sobre o corpo e a Educação Física, através de conceitos como cultura, tradição, ritual, símbolo, estesia, estesiologia, e memória oral, que foram elucidados anteriormente e através de novos conceitos que trazemos para esta discussão. Com isso, surge outro questionamento: O que dá para pensar sobre o corpo no Torém através de sua simbologia?

Segundo Novaes (1993, p. 71) “O corpo é o centro do mundo”. E para pensar esse corpo como centralidade, trago a percepção neste capítulo como uma fonte subjetiva de conhecimento, sendo possibilitada através do corpo que ritualiza o Torém; sendo transmutado, imaginado, observado e reflexionado. Essa experiência cultural ocorre sensivelmente a partir da percepção e vivência do mundo que preenche o ritual de significações corporalmente assimiladas, concebendo-o com sentidos emotivos. Pois, “A significação é corporizada. [...] Na verdade, a percepção não é um produto da consciência, mas sim do corpo, não o corpo concebido como uma entidade externa que existe no mundo físico, mas antes o corpo vivo e o vivido” (MERLEAU-PONTY, 1963, p. 211 apud SANTOS, 2019, p. 135).

Segundo Santos (2019), esse caráter corporal do conhecimento coloca muitos desafios, pois os corpos estão em tudo, mas não da mesma forma. Destacamos aqui, que um desses desafios seria o reconhecimento das práticas corporais sofrerem alterações e

transformações dentro de uma mesma cultura, sem com isso haver a descaracterização do grupo étnico. Elencamos que a transformação, recriação ou reelaboração do ritual do Torém ao longo do processo de mobilização étnica dos Tremembé foi crucial para a sua perpetuação e sobrevivência.

No curso desse mergulho significativo, elenco a cultura como uma manifestação/irrupção no seio de uma conexão histórica que permeia a visão cosmológica de mundo para os Tremembé. Pois a cultura é “o fator histórico de unificação das atividades sociais e individuais” (ZUMTHOR, 2010, p. 66).

A cultura parte então das experiências individuais, sendo expandida para o coletivo e vice-cersa. Assim, nos diz Dilthey24, sendo parafraseado por Loriga (2011, p. 124), que “A célula primitiva do mundo histórico é a experiência vivida (Erlebnis), na qual o sujeito tem por meio o conjunto interativo da vida. Esse meio age sobre o sujeito que, por sua vez, age sobre ele”.

Há aqui portanto, a necessidade de (re)conhecer e conceber o corpo como dotado de múltiplas significações. Esse corpo vivo que simboliza e exterioriza-se ao mundo, desencadeando relações que fortalecem esse sentimento de pertencimento étnico dos Tremembé; como nos trouxe a fala do professor José Getúlio em que o Torém é o pilar principal que sustenta a identidade étnica, política, e cultural de seu povo. Através das falas coloco ainda que o corpo se exteriorizou através da voz. Como corpo que foi ecoado pela história.

O ritual é significativamente envolvente. Aqui descortina-se e configura-se uma linguagem sensível marcada por gestos, silêncio, fala, desejo, história, recordações, sentimentos, emoção e pensamentos. Esse olhar sensível desafia uma mera análise objetiva, nos remetendo a uma linguagem corporal poética que é expressa pelo ritual. Entendo aqui que o corpo tem essa dimensão simbólica que é anunciada ao mundo. No Torém, o corpo instaura a intencionalidade não somente no se movimentar, mas no ser

24 Wilhelm Dilthey, L’édification du monde historique dans les sciences de l’espirit (1910), traduzido do

corpo. Expresso sobre esse pensar a reflexão de Silvino Santin (2001), quando nos toca que a Educação Física deve ser uma Educação humana, que valoriza essas concepções de ser; onde o movimento deixa de ser físico para ser humano.

O Torém transpõe nosso imaginário à medida que suscitamos como ele atravessou gerações e resistiu mesmo diante de toda opressão. Há uma razão exteriorizada no ritual expressada no gesto, que é manifestado por sua incrível capacidade de significação, de expressão (re)criadora, e de (re)produzir diversas possibilidades. Nóbrega (2009a, p. 19) compartilha tais reflexões ao afirmar que “a arte, a poesia, a pintura, a dança apresentam-se como conhecimentos cuja racionalidade é marcada pela estesia do corpo, nuançando sentidos amplos para a comunicação, a expressão e os atos de significação”.

Retomo aqui a afirmação de um estudo da cognição aprofundando a experiência perceptiva do outro sobre o vivido, ampliado através da reflexão filosófica. Expandindo o fenômeno de conhecer o objeto, de tornar a compreensão mais clara (NÓBREGA, 2005).

Renovo o olhar deste capítulo para aprofundá-lo no que diz respeito à Educação Física, onde dialogamos ao longo do texto com conceitos que se entrelaçavam a esta área, através dos símbolos do ritual, sendo rememorados tanto através da memória oral quanto expressos corporalmente.

As memórias individuais nos deram os entrecruzares da memória coletiva. Foi através dela que se pôde enlaçar a história documental, os discursos orais e as imagens, através da percepção sensível.

Com esses sentidos sensíveis, os saberes rituais do Torém ancorados na linguagem, nos gestos, movimentos, expressividade, afetividade, história, identidade e espiritualidade que o compõem, fertilizam o campo da Educação Física que atrela a união de saberes corporais, simbólicos e fenomenológicos.

Pauto aqui a experiência simbólica do ritual à uma experiência perceptiva sobre o corpo, este que é o objeto de estudo da Educação Física. Uma experiência entre o eu, os outros e o mundo. Onde

A consciência da distinção entre o eu e o mundo exterior não procede somente de um ato do pensamento, mas da própria vida: a realidade permanece sempre um fenômeno para a simples representação, mas aparece como um dado estabelecido e incontornável no todo de nosso ser que quer, sente e representa. (LORIGA, 2011, p. 126)

Afinal é com o corpo que surgem as significações simbólicas. E o homem como ser corpóreo revela sua própria história através de seus movimentos. Partimos desta afirmação, para dizer que foi, justamente, a partir do Torém que os Tremembé se afirmaram num contexto de emergência étnica.

Para isto, coadunamos também com a afirmação de Santin (1987 p.77), que define que os movimentos humanos ultrapassam

[...] os limites da simples motricidade ou das atividades mecânicas, o movimento humano não pode ser reduzido a deslocamentos físicos, a articulações motoras ou a gesticulações produtivas. Mas é necessário vinculá- lo a todo o seu modo de ser. Não é apenas o corpo que entra em ação pelo fenômeno do movimento. É o homem todo que age e que se movimenta.

Deste modo, a afirmação de Santin, nos conecta justamente num dos objetivos deste trabalho, de que seria muito interessante analisar o Torém, não apenas pelos seus movimentos gestuais e mecânicos, mas pelos aspectos históricos, culturais e simbólicos que ele agrega elencando os seus sentidos para a Educação Física. De como quando, por exemplo, este ritual, na verdade, envolve a história de vida, de luta e resistência deste grupo indígena.

Santin (1987) ainda nos apresenta que

O movimento humano não pode ser limitado a um conjunto de articulações e de forças. Ele precisa ser compreendido no contexto de todas as dimensões humanas. Antes de ser fenômeno físico, o movimento é um comportamento, uma postura, uma presença e uma intencionalidade. Assim, o movimento não só é uma linguagem, mas torna-se fonte inesgotável de simbologia que lhe confere uma grandeza ilimitada. (p. 63)

Envolvo a afirmação acima com a fala de Assman (1996), que nos diz que “estar vivo significa estar em ‘movimento-aprendizagem’, por tanto ‘vida’ é a emergência continuada da motricidade (cognitiva, gestual, aprendente)” (p. 42).

A questão da adornação corporal também expressa o corpo de formas muito singulares. Traz que

Para as crianças e os jovens índios, serem pintados, sentirem e verem seus corpos ostentando linhas ou círculos geometricamente dispostos e outras figuras, como desenhos de seu cotidiano, significa aprender algo sobre si mesmo, sobre seu lugar no mundo e sobre os demais. É um processo de aprendizagem e conhecimento expresso corporalmente. (SILVA, 2002, p. 51)

É preciso considerar o Torém na sua dinâmica social e política. “Enfim, todos os povos indígenas do Ceará fazem parte de um quadro atual de multiplicidade étnica, cuja participação e articulação mútua têm provocado efeitos culturais, simbólicos e políticos de ampla dimensão” (VALLE, 2005b, p. 222).

Situo ainda, o contexto social e político do Torém num contexto de corpo consciente em sua unidade dialética, nessa relação corpo-mundo. O corpo-consciente é desta forma “(consciência intencionada ao mundo, à realidade), o homem atua, pensa e fala sobre esta realidade, que é a mediação entre ele e outros homens, que também atuam, pensam e falam” (FREIRE, 1969, p. 44).

Merleau-Ponty (1962 apud SANTOS, 2019, p. 135) defende que “o sujeito consciente não está separado do mundo. O mundo está inscrito no sujeito”. Afirmo aqui que o Torém está inscrito nos Tremembé; ele é o seu mundo.

Percebemos, a partir deste ponto do trabalho, que a Educação Física se anuncia valorosa nesse entendimento corpóreo, pelo seu sentido de corpo-consciente, de corpo existencial; de contato comigo mesmo, com os outros e com o mundo. O corpo, nesse sentido, considera os diversos saberes, inclusive o simbólico.

A partir da simbologia desse mundo, avultamos a importância do símbolo como unidade significativa a partir de Turner (2005) e Eliade (2010), quando trazemos a fala do entrevistado José Getúlio que nos afirma que o Torém é uma simbologia única para os Tremembé. Notabilizamos que é o corpo que dá essa dimensão simbólica.

Esses corpos descritos materializam sua história através do ritual. Esse olhar sensível desafia uma mera análise objetiva, nos remetendo a uma linguagem corporal poética. Onde a leitura da realidade desse mundo exterior, que nos é dada através do Torém, é dada justamente através da consciência, não sendo deduzida por reflexões puramente intelectuais, mas de operações sensíveis. Onde Goethe (apud LORIGA, 2011, p. 147) nos chama atenção para dizer que “o homem só se conhece na medida em que conhece o mundo, só conhece o mundo em si e só se conhece no mundo”.

Neste mundo revisitado as referências empíricas dialogam com as referências científicas. Pensando, para isto, o corpo e a corporeidade na Educação Física como o logus de interlocução para a consciência de uma dimensão simbólica atribuída ao ritual. Designo aqui a penetração dos sensíveis, onde os Tremembé descrevem as maneiras como vivem e sentem o Torém para exprimir sua experiência de corpo no mundo. Lanço mão da abordagem fenomenológica e de minha própria percepção para descrever e compreender esta experiência vivida pelos sujeitos no ritual abordado. Pois “só penetramos a interioridade do outro por seus efeitos, por causa das manifestações

pelas quais, como diria Hegel, a consciência humana se objetiva” (LORIGA, 2011 p. 149).

Apesar do esforço em empreender a descrição do ritual através dos gestos, das falas, da emoção, e do envolvimento que causa em meu próprio corpo, essa seria, ainda, uma descrição muito simplificada de toda a linguagem corporal e a estesia que o ritual expressa na memória daqueles corpos, na música que louva os seus antepassados (os encantados), os animais, a natureza e a sua história. Esses “fragmentos denotam a possibilidade de novos olhares sobre o corpo, configurando uma nova possibilidade delineada a partir da perspectiva da corporeidade como estesia ou comunicação sensível (NÓBREGA, 2010, p. 31).

O conceito de estesia se anuncia como uma comunicação marcada pelos sentidos e pela historicidade, numa dialética existencial. Esse conceito move o corpo em direção aos outros e ao mundo, numa tese do sensível. A estesia anuncia o corpo como sensação, criação, comunicação e expressão criadora. Pois, “pela estesia do corpo é possível compreender a experiência vivida em suas múltiplas significações. (NÓBREGA, 2010, p. 96).

A significação estésica e simbólica que o Torém exala para a Educação Física compreende um entendimento muito além de apenas movimentos mecânicos e/ou estilizados. Nos remete ao um processo simbólico que liga corporalmente os Tremembé a sua própria história e (re)criação de seu conhecimentocosmológico.

O símbolo revela certos aspectos da realidade – os mais profundos – que desafiam qualquer outro meio de conhecimento. As imagens, os símbolos, os mitos, não são criação da psique; eles respondem a uma necessidade e preenchem uma função: pôr a nu as mais secretas modalidades do ser. Por conseguinte, o seu estudo permite-nos conhecer melhor o homem. (ELIADE, 1991, p. 13)

O símbolo é, portanto, meio de conhecimento. E a simbologia do Torém é o elo entre o passado e o presente através do corpo. O Torém suscita então, a memória corporal dos Tremembé. É através dele que o corpo se anuncia como estofo do mundo, sendo ao mesmo tempo absorvido e exalado pelo ritual.

No ritual, a linguagem corporal se faz tão presente quanto a falada. Os movimentos corporais se enlaçam ao coro das vozes que é entoado, dando vida ao Torém. Para Merleau-Ponty (1945/1994) a linguagem e o pensamento se relacionam com a expressão do ser e estar no mundo. Tendo a palavra e a fala amplas significações, sentidos, atitudes. Quando o autor afirma que a palavra é gesto, amplia uma compreensão da linguagem, interligando-a com as experiências do corpo e da existência.

Compreendemos que o Torém também é fala quando anuncia as vozes dos sujeitos com uma historicidade e implicações simbólicas impetradas. Consideramos assim, como Merleau-Ponty, o corpo numa observação existencial a partir da experiência vivida. Em que o corpo é gesto, desejo, expressão criadora, linguagem, experiência, emoção e sensibilidade. Percebendo-o nos diferentes sentidos, no entrecruzar dos Tremembé com os outros e com o mundo.

O corpo no Torém é entendido aqui como sensível exemplar, ou como afirma Merleau-Ponty (1994) é feito do mesmo estofo do mundo. Onde “a carne, o verbo, o desejo, a linguagem, a história se entrelaçam e constituem o visível e o invisível do corpo.” (NÓBREGA, 2010, p. 96-97).

Le Breton (2007) nos traz que os sujeitos se apropriam do mundo simbolicamente através de suas próprias percepções de significados. Os Tremembé trouxeram a esta pesquisa suas percepções tidas como interpretações pessoais de um sentido de universo, resultante da experiência social e de signos que se compartilham consigo mesmo, esboçando-os para o mundo.

O corpo fala como um todo no ritual do Torém, num processo estésico singular onde é possível compreender experiências vividas e suas múltiplas dimensões e significações. Os Tremembé se corporificam no mundo por meio de seu ritual, de suas danças, pelo modo como se vestem, como andam, como falam, seus modos de trabalho e de lazer, sua adornação... Pois enquanto sujeitos no mundo, somos do começo ao fim relação com este. Assim destaco o corpo numa perspectiva indígena, em que

Segundo os estudos de Viveiros de Castro, Seeger e Da Mata (apud OLIVEIRA FILHO, 1987), é no corpo que os diversos grupos étnicos ameríndios expressam os sentidos e significados de sua cultura. O processo de identificação e pertencimento da pessoa nas sociedades indígenas passa pela construção de uma visibilidade corpórea. A ‘noção de pessoas’ se constitui no grupo corporalmente, pois o corpo é utilizado como ‘matriz de significados sociais e objeto de significação pessoal’. O corpo assume, segundo Seeger. Da Mata; Viveiros de Castro, uma ‘posição central organizadora’ nas sociedades indígenas, a tal ponto que se pode considerar que a ‘fabricação, decoração, transformação e destruição dos corpos são temas em torno dos quais giram as mitologias, a vida e a organização social’. O fato de o corpo ser visto como ‘instrumento, atividade, que articula significações sociais e cosmológicas’, faz dele ‘matriz de símbolos e um objeto de pensamento’. (1987, p.20) Os cuidados que o corpo requer para a ‘fabricação da pessoa’ vai se constituindo culturalmente e historicamente de forma diferente em cada sociedade, com suas técnicas e estéticas corporais passíveis de ser identificadas pelo grupo e também confrontadas nas relações de ‘fronteiras’. (GRANDO; XAVANTE, 2006, p. 19)

A corporeidade entre os Tremembé é expressa de formas gestuais significativas. É uma corporeidade sobretudo de resistência. Resistência corpórea que transcreve marcas de uma cultura, onde os Tremembé se apropriam de um campo semântico particularmente destacado para a definição de sua etnicidade. Onde Oliveira Júnior (1998, p. 31) traz que a questão da etnicidade, sendo definida por Cunha, como uma construção simbólica. Assim,

Nesse caso, qualquer elemento ou conjunto simbólico, seja ele um modo peculiar de se vestir, um cocar, um dialeto, a pintura corporal ou um ritual, poderá ser realçado e utilizado de forma emblemática como referencial da

identidade. É nesse sentido que os símbolos tradicionais passam a ter novo significado, assumindo uma função essencialmente política. (OLIVEIRA JÚNIOR, 1998, p. 31)

O autor ainda esclarece que as finalidades desses elementos culturais do passado que foram reelaborados é justamente para garantir a legitimação e reinvindicações do grupo étnico.

Para isto, apontamos o corpo como vetor semântico da identidade e desta legitimação étnica. E a corporeidade como sendo um campo epistemológico que orienta para as diversas possibilidades multireferenciais de saberes sobre o corpo.

No sentido encontrado em dicionários da língua portuguesa, corporeidade – sinônimo de corporalidade – designa tudo o que é relativo ao corpóreo. O corpóreo, por sua vez, refere-se à existência física, material, palpável, antônimo de espiritual.[...] o sentido da palavra corporeidade, em dicionários da língua portuguesa, expressa uma determinada visão de corpo fortemente marcada pela oposição entre corpo e alma, presente de modo predominante no pensamento ocidental. É preciso avançar nessa compreensão, considerando inclusive novos modos de pensar na ciência, na arte, na educação. A compreensão histórica do conceito é fundamental para reconhecer a descontinuidade do conhecimento e as possibilidades de novas e diversas elaborações conceituais. (NÓBREGA, 2010, p. 18)

Nesse viés, a corporeidade é compreendida aqui com suas múltiplas possibilidades, englobando uma pluralidade de existências. Estas que significam o corpo no Torém como condição existencial para os Tremembé; que emana afetividade, história e simbologia, com suas experiências no mundo, e uma das primeiras referências e de conhecimento próprio a este grupo.

Há assim um horizonte de ideias, representações e categorias que subscrevem a etnicidade. É possível observar ainda a possibilidade do compartilhamento de muitos valores, ideias, símbolos e imagens com os vários grupos sociais

que se relacionavam com os Tremembé, inclusive seus antagonistas. (POVOS INDÍGENAS DO BRASIL, s/d)

É um corpo aberto e inacabado, em constante (re) construção que se (des)constitui conforme suas relações sociais e políticas. Um corpo como sensível arquétipo de uma cultura, que rompe os estereótipos corporais, guiado pela necessidade de uma identidade que seja reconhecida pelos outros.

Descrever, observar, apreciar, sentir e viver este ritual é um processo desafiador. Visto que para pesquisar o corpo e suas linguagens exigem-se interpretações cautelosas, críticas e de uma vasta pesquisa. Assim, os aspectos simbólicos nos deram pistas, e através deles obtivemos respostas para ancorar a corporeidade e a simbologia neste contexto.

A corporeidade está envolvida com a dimensão sensível do mundo vivido entre os Tremembé, envolta em toda a reflexividade e reversibilidade de sentidos. Pois, “é no mundo que podemos ter alguma probabilidade de encontrar uma experiência de outrem.” (MERLEAU-PONTY 2006, p. 538). Assim, como é preciso conceber o mundo para que outrem seja pensável. Parte de uma construção infinita na enação, esta que compreende saberes e fenômenos, como o de conhecer a si mesmo e os outros no contexto de cada realidade. De uma ação guiada pela compreensão da percepção, pela qual o sujeito que percebe consegue guiar suas ações na situação local e estar inscrito num corpo, enfatizando a dimensão existencial do conhecer, emergindo da corporeidade como meio de acesso ao mundo. Na medida em que as situações locais se transformam constantemente devido à atividade do sujeito que percebe o ponto de referência necessário para compreender a percepção não é mais um mundo dado anteriormente (VARELA et al, 2003). Com isto, percebemos como os Tremembé conseguiram reelaborar sua própria identidade guiados através do ritual.

Ressalta-se então, uma dimensão do corpo na fenomenologia, buscando também a autopoiésis, como teoria epistemológica, trazida aqui para o campo étnico e cultural,

como uma teoria que ressalta a dinâmica do ser vivo, enquanto unidade (autopoiética), e a interação com o mundo em que vive. Fazemos aqui um paralelo da autopoiésis com a Educação Física, quando consideramos a experiência manifesta na corporeidade. Pois