3. DEVELOPMENT OF QCMS UNDER SCENARIO 2: VALIDATED METHOD
3.3. Detailed considerations of steps recommended for the development of in-house
3.3.4. Classification of characterization/certification schemes
É fato que alguns jornais paulistas tiveram uma importante participação no processo de “engavetamento” da proposta idealizada pela Equipe Técnica de História, assessorada por Déa Ribeiro Fenelon e Marco Silva. Pois, como Martins constatou, a
[...] crítica mais severa, essa por parte dos jornais de São Paulo, favoreceu o processo de engavetamento da proposta. Essa fôra identificada como uma propostade esquerda, alguns chegavam a identificá-la com o Partido dos
Trabalhadores, acusavam a equipe técnica de valorizar demasiadamente o tema “Trabalho” como eixo norteador da proposta208
.
Partindo da leitura do trabalho de Dênis de Morais, que faz referência às contribuições conceituais encontradas nas obras de Antonio Gramsci, concordamos com a premissa que os jornais representam um importante instrumento de consolidação e manutenção da “hegemonia cultural, na sociedade civil”209. Esses componentes da “grande” imprensa constituem-se, segundo Gramsci, como “aparelhos privados de hegemonia”210
.
As historiadoras Heloísa Cruz e Maria do Rosário complementam este debate em relação à importância da imprensa na consolidação dos ideais hegemônicos que compõem a sociedade civil. Avançando para a perspectiva historiográfica de compreender os jornais como um importante campo de pesquisa. Isso porque a
o sobre a historicidade da Imprensa, problematizando suas articulações ao movimento geral, mas também a cada uma das conjunturas específicas do longo processo de constituição, de construção, consolidação e reinvenção do
208 MARTINS, Maria do Carmo. A CENP e a criação do currículo de História: a descontinuidade de um projeto
educacional. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 18, n. 36, p. ??-??, 1998. p. 1. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01881998000200003&script=sci_arttext>. Acesso em: 22 mai. 2015. p. 6
209 MORAES, Dênis. Comunicação, Hegemonia e Contra-Hegemonia: a contribuição teórica de Gramsci.
Revista Debates, Porto Alegre, v. 4, n.1, p. 54-77, jan.-jun. 2010. p. 54
210 MORAES, Dênis, op. cit. Segundo definição apresentada por Dênis de Morais, baseando-se nas obras de Antonio Gramsci, aparelhos privados de hegemonia consistem em “organismos relativamente autônomos em face do Estado em sentido estrito, que desejam somar consensos e consentimentos em torno de suas proposições. Criados na intensificação das reivindicações sociais, estes aparelhos congregam a imprensa, os partidos políticos, os sindicatos, as associações, os movimentos sociais, a escola e a Igreja. São os agentes da hegemonia, os portadores materiais das ideologias que buscam consolidar apoios na sociedade civil, seja para manter a dominação, seja para contrariar seus pressupostos. [...] Em qualquer caso, os aparelhos de hegemonia atuam como difusores e sustentáculos de concepções particulares de mundo, que almejam legitimar-se na sociedade civil”.
poder burguês nas sociedades modernas, e das lutas por hegemonia nos muitos e diferentes momentos históricos do capitalismo. Pensar a imprensa com esta perspectiva implica, em primeiro lugar, torná-la como uma força ativa da história do capitalismo e não como mero depositário de acontecimentos nos diversos processos e conjunturas211.
As constatações que as historiadoras nos apresentam evidenciam a importância de problematizar as notícias disseminadas nos jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo, referentes à reorganização educacional paulista. Isso porque as posições ideológicas assumidas por ambos estavam Imersas em intencionalidades, que se vinculavam a interesses, aos quais estes jornais representavam.
A atuação de ambos os jornais ao longo da história política brasileira, e principalmente no período da ditadura civil-militar, já foi objeto de um considerável número de pesquisas historiográficas. Por tal, não é intenção deste trabalho retomar este debate, que já foi exaustivamente realizado em outros momentos212. Contudo, é importante evidenciar o perfil político que estes possuíam no contexto do processo de redemocratização; com ênfase em evidenciar o interesse de qual classe social eles legitimavam.
Para compor o perfil do jornal paulista Estado de São Paulo, utilizamos a entrevista213 do diretor da empresa Estado de São Paulo, Rui Mesquita214, à revista “Lua Nova: Cultura e Política”. Como as questões que orientam esta faz referência à relação do jornal com o golpe civil-militar, cometido em 1964, foi possível tecer um perfil mais enxuto.
A partir da narrativa de Rui Mesquita é possível constatar que o jornal Estado de São Paulo era propriedade de Júlio Mesquita, empresário assumidamente defensor da vertente política liberal. Fato que faz com que o jornal assuma esta tendência política, e seja direcionado para o interesse da burguesia e classe média alta. Outra informação importante na composição ideológica do jornal consiste no fato de, ao longo de sua fala, Rui Mesquita sempre fazer referência negativa ao regime político comunista; ou a qualquer fala política que assuma uma perspectiva social.
211
CRUZ, Heloisa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Na oficina do historiador: conversas sobre História e Imprensa. Projeto História, São Paulo, n. 35, p. 253-270, dez. 2007. p. 257.
212Como referência para a temática indico os trabalhos: SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no
Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1999; CAPELATO, Maria Helena Rolim; PRADO, Maria Lígia Coelho. O Bravo Matutino: imprensa e ideologia no jornal O Estado de S. Paulo. São Paulo: Alfa-Omega, 1980.
213 Essa entrevista foi realizada por José Álvaro Moisés e Maria Vitória Benevides. A entrevista na íntegra pode ser consultada na obra MOISÉS, José Álvaro; BENIVIDES, Vitória. A Imprensa e a História. Revista Cultura e
Política - Lua Nova, São Paulo: Editora Brasiliense, v. 1, n. 2, p. 26-36, set./1984.
214 Por se tratar de uma entrevista feita para outros fins, que não sanar as questões desta pesquisa; farei a interpretação da entrevista, tentando extrais os elementos necessários para contribuir com este trabalho.
Em entrevista consentida à Revista Lua Nova: Cultura e Política215, no ano de 1984, o então secretário do Conselho Editorial do jornal Folha de São Paulo, Octávio Farias Júnior, evidenciou elementos que possibilitaram fazer a composição do perfil, pelo menos dos elementos interessantes a este trabalho, do jornal em que trabalhava.
Quando questionado em relação ao projeto editorial do jornal Folha de São Paulo, Octávio Farias Júnior respondeu, de forma direta, afirmando que o projeto consistia, basicamente, em
[...] fazer um jornal liberal, burguês, preocupado com a defesa do direito do cidadão, preocupado com os direitos que os grupos sociais têm de se organizar, de se mobilizar, de ter o peso e a presença no Estado, preocupado em democratizar a estrutura do Estado, preocupado em introduzir algumas reformar sociais na estrutura do capitalismo216 (grifos nossos).
Iniciar a afirmativa evidenciando o perfil liberal e burguês possui uma forte intencionalidade, pois consistem nos dois elementos mais fortes, quando se observa algumas reportagens publicadas no período. A afirmativa referente à atenção dada à democratização da estrutura do Estado também é bastante coerente com o momento pelo qual o jornal passava; pois este estava engajado na organização das reinvindicações populares pela redemocratização do país, e pela abertura política para o voto direto.
Todavia, a afirmação de que o jornal possuía preocupação para com os direitos dos grupos sociais de reivindicar seus direitos, e de legitimar “algumas” reformas sociais no sistema capitalista vigente, consistem em afirmativas que podem ser questionadas. Pois ao observar o editorial do jornal, é perceptível que realmente o jornal faz cobertura de greves importantes para a história nacional; mas nem sempre para evidenciar a perspectiva dos trabalhadores.
Não é possível afirmar, certamente, que a intenção de fazer cobertura, e legitimar as causas trabalhistas, são inverdades ditas pelo secretário do Conselho editorial. Contudo, a fala dele, como um todo, deixa evidente que o interesse de seus leitores e assinantes, a burguesia,
215
A entrevista foi realizada por Edilson Júnior, Hamilton Cardoso e Marília Garcia, dos quais a formação não foi informada na edição. A entrevista na íntegra pode ser consultada em MOISÉS, José Álvaro; BENIVIDES, Vitória. A Imprensa e a História. Revista Cultura e Política - Lua Nova, São Paulo: Editora Brasiliense, v. 1, n. 2, p. 26-36, set. 1984.
216 MOISÉS, José Álvaro BENIVIDES, Vitória. A Imprensa e a História. Revista Cultura e Política - Lua Nova, São Paulo: Editora Brasiliense, v. 1, n. 2, p. 26-36, set. 1984. p. 34.
consistia no princípio a ser defendido. Isso fica evidente quando ele afirma que “o nosso compromisso [do jornal] é com os nossos leitores”217
.
Em outro momento da entrevista é possível perceber a dimensão da influência dos interesses dos assinantes e leitores do jornal, em relação à organização do jornal. O entrevistador deixa isso evidente, na construção de sua pergunta; quando ele diz “Se eu entendi bem, em algum momento você disse que o público queria uma posição mais doutrinária da Folha. Como é que vocês perceberam isso?”218. A resposta a esta pergunta foi bastante esclarecedora:
[...] Na verdade, se concluiu, na base da capacidade de avaliação pessoal de cada pessoa, de cada um dos integrantes das reuniões do Conselho Editorial, editores e editorialistas. E um pouco na base de algumas pesquisas de opinião e algumas sondagens que a gente faz junto aos leitores e assinantes219.
As afirmações feitas por Octávio Farias Júnior, referentes à importância da opinião do público para o jornal, remetem a constatações feitas por Gramsci em relação à questão. Pois, como o filósofo nos lembra, os jornais são parte de uma empresa, e que essa, enquanto parte do sistema capitalista, possui como intenção principal obter lucro:
Para ele [Gramsci], a função dos jornais transcende a esfera ideológica e embute as determinações econômico financeiras das empresas jornalísticas, que as impelem a atrair o maior número possível de leitores para assegurar- lhes rentabilidade e influência. Ele enfatiza que a imprensa burguesa se move em direção ao que possa agradar o gosto popular (e não ao gosto culto ou refinado), com o propósito de atrair “uma clientela continuada e permanente220:
As notícias selecionadas para compor este trabalho serão apresentadas seguindo a cronologia em que foram publicadas, independente do jornal. A primeira matéria a ser trabalhada é do jornal Estado de São Paulo, no dia 25 de julho de 1987, com o título
217
MOISÉS, José Álvaro BENIVIDES, Vitória. A Imprensa e a História. Revista Cultura e Política - Lua Nova, São Paulo: Editora Brasiliense, v. 1, n. 2, p. 26-36, set./1984. p. 35.
218 MOISÉS, José Álvaro; BENIVIDES, Vitória, loc. cit. 219
MOISÉS, José Álvaro; BENIVIDES, Vitória, loc. cit.
220 MORAES, Dênis. Comunicação, Hegemonia e Contra-Hegemonia: a contribuição teórica de Gramsci.
“Proposta politiza o currículo escolar”221
. A apresentação da página em que a reportagem foi publicada tem como intenção deixar evidente a forma como a matéria foi disponibilizada, pois isso já é carregado de intencionalidades do editor.
É perceptível que, nesta página, a reportagem referente à reorganização curricular paulista possui destaque, se comparado às demais. Contudo, ao convergir isso com o fato de a mesma estar disponível na página 46, de uma edição que possuiu 68 páginas, nos mostra que a reportagem não obteve grande destaque no jornal, como um todo.
O texto de legenda das imagens cria a ideia que a proposta curricular já foi aprovada, pois os alunos “irão discutir nas aulas de História”222
as temáticas apresentadas. Contudo, ao iniciar a leitura da matéria, nos deparamos com a informação que os “Professores da rede estadual de ensino estarão reunidos de segunda a quarta-feira [da próxima semana] para discutir e aprovar uma ‘proposta curricular’ para as crianças de 7 a 14 anos”223
. É evidente que esta reportagem não foi publicada dois dias antes do início da discussão dos professores, em relação à validade da proposta curricular, de forma desinteressada.
221 Proposta Politica o Currículo Escolar. Estado de São Paulo. São Paulo, 25 jul. 1987. Ano 108, n. 34.480. p. 46.
222
Proposta Politica o Currículo Escolar. Estado de São Paulo. São Paulo, 25 jul. 1987. Ano 108, n. 34.480. p. 46.
Figura 1 – Proposta politiza o currículo escolar – de 25 de julho de 1987
Por tal, Cláudia Ricci considera que alguns posicionamentos contrários à proposta, assumidos por professores, não consiste em uma opinião definida autônoma e individualmente, exclusivamente baseada no texto da Proposta Curricular; mas que foi bastante influenciada pelas opiniões e questionamentos disseminados na imprensa. Como a autora diz em seu trabalho, não podemos “esquecer como a proposta ‘chegou’ aos professores: a polêmica suscitada pela imprensa antecipou preconceitos e idéias sobre algo que muitos ainda nem tinham visto”224.
O material da proposta curricular é literalmente taxado de esquerdista radical. A partir da afirmativa de que “alguns professores garantem que não é preciso mais do que ler a bibliografia da cadeira de História para comprovar que a proposta foi preparada segundo o discurso da esquerda radical”225. Ao concluir a leitura desta frase, sou acometida pelas perguntas: quem são estes professores citados? E por que só foi mencionada a fala dos docentes insatisfeitos com a proposta? Pois é certo que existem aqueles que concordam com esta, nem que sejam exclusivamente os seus redatores.
A bibliografia “de esquerda radical”226
à que fazem referência é citada na reportagem, a partir dos textos “Tradição, revolta e consciência de classe; A condição operária e outros estudos sobre opressão; O feminismo e a construção do socialismo; marxismo e literatura; expropriação e violência; anarquismo: roteiro da liberdade social; A terra para quem nela não trabalha; Da senzala à colônia”227
. Os textos mencionados, a maioria consiste nas mais recentes obras, e traduções, da historiografia, que datam do final da década de 1970 e início de 1980; e a perspectiva marxista faz parte desta conjuntura.
A apresentação dos títulos dos trabalhos retirados da bibliografia da Proposta Curricular, e apresentada como de esquerda radical, é passível de questionamento. Pois, porque o jornal colocou apenas o título das obras, e não fez referência aos seus autores? Autores esses muito importantes para a historiografia nacional e internacional, como Edward P. Thompson, Simone Weil, Sheila Rowbotham, Reymond Williams, José de Souza Martins, Edgard Levenroth, Alcir Lenharo, Emília Viotti da Costa.
Todavia, consiste excesso da reportagem taxar a proposta de radical esquerdista, citando apenas sete trabalhos, que compõem uma bibliografia de mais de duas páginas. Pois a
224
RICCI, Cláudia Sapag. Da intenção ao gesto: quem é quem no ensino de História em São Paulo. São Paulo: Annablume, 1999. p. 77.
225 Proposta Política o Currículo Escolar, loc. cit. 226
Proposta Política o Currículo Escolar. Estado de São Paulo. São Paulo, 25 jul. 1987. Ano 108, n. 34.480. p. 46.
forma como esta questão foi apresentada, remete à ideia de que o material era baseado exclusivamente em obras marxistas e/ou esquerdistas; contudo, ao longo texto é possível encontrar referência a autores como Michel Foucault, Jacques Le Goff, que consistem em referenciais da historiografia, sem ligação direta com a perspectiva marxista.
A segunda reportagem a ser trabalhada foi publicada pelo Jornal Folha de São Paulo, no dia 29 de julho de 1987, com o título “História será reduzida a ‘dominação e resistência”228. Neste número, a reportagem referente à Proposta Curricular de História foi acompanhada, na mesma página, por uma reportagem sobre a Proposta Curricular de Geografia, sob o título “Proposta limita Geografia à política; desaparece estudo dos aspectos físicos”229
.
A reportagem referente ao ensino de Geografia não será problematizada neste trabalho, por nossa problemática estar centrada na organização do ensino de História, especificamente. Contudo, a existência desta reportagem merece ser mencionada por representar o espaço consentido pelo jornal aos debates das novas propostas curriculares desenvolvidas pela CENP, independente da disciplina. Lembrando que este editorial foi lançado no último dia de discussões dos professores, em relação à aceitação, ou não, dos materiais propostos pelas Equipes Técnicas.
A matéria, referente ao ensino de História, é iniciada com uma breve apresentação daquilo que o redator entendeu como principal característica da proposta curricular, desenvolvida pela Equipe Técnica de História. Afirmando que “o novo guia curricular para o ensino de História, em debate na rede estadual de ensino, propõe como eixo do processo de ensino o tema ‘trabalho’, visto através das noções de ‘dominação e resistência’”230
.
Esta apresentação feita pela reportagem é bastante simplista, quando comparada a toda a Proposta Curricular para o ensino de História. Martins evidencia que esta possuía uma perspectiva mais ampla, ao afirmar que a “proposta visava adequar os conteúdos escolares ao aluno que frequentava a escola pública naquele momento. O aluno pobre, de um país que passava por transformações sócio-políticas e econômicas rápidas”231. E os conceitos
228 História será reduzida a “dominação e resistência”. Folha de São Paulo. São Paulo, 29 jul. 1987. Caderno Cidades, ano 67, n. 21.301. p. 14.
229
História será reduzida a “dominação e resistência, loc. cit.
230. História será reduzida a “dominação e resistência”. Folha de São Paulo. São Paulo, 29 jul. 1987. Caderno Cidades, ano 67, n. 21.301. p. 14.
231 MARTINS, Maria do Carmo. A CENP e a criação do currículo de História: a descontinuidade de um projeto
educacional. Revista Brasileira de História, São Paulo, v. 18, n. 36, p. ??-??, 1998. p. 1. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01881998000200003&script=sci_arttext>. Acesso em: 22 mai. 2015. p. 5.
“dominação e resistência” entrariam neste trabalho, por compor parte da realidade cotidiana destes estudantes.
Esta reportagem não apresenta um perfil tão tendencioso e doutrinário, quando comparado à reportagem232 publicada pelo Estado de São Paulo, apresentada anteriormente. Isso porque o editorial da Folha de São Paulo apresenta falas de professoras que defendem diferentes opiniões, em relação à Proposta Curricular de História.
A professora vinculada à rede estadual paulista de ensino, Lídia Santos, afirma que “a nova proposta está preocupada em trabalhar com os ‘diferentes modos de produção’ que, segundo a professora, que também é socióloga, é muito mais importante do que perder tempo com os ‘mártires’ da independência”. Mas são as preocupações da professora Maria Helena Scotton que representam as de muitos professores da educação básica, que se colocaram contrários à Proposta Curricular:
Analisando as propostas de mudanças, a professora Maria Helena Scotton, 42, resiste a esse convite. A proposta pode ser correta, diz Maria Helena, mas segundo ela exige muito mais trabalho do professor. “Teremos que pesquisar e elaborar textos específicos para cada aula”, diz a professora, que trabalha em dois períodos, tem seiscentos alunos233 (grifos nossos).
Outro professor convidado a comentar as mudanças propostas no material da CENP foi “Marco Antonio da Silva, 36, professor da Universidade de São Paulo que participou da elaboração dos guias curriculares”234. O espaço consentido à fala de Marco Silva, nesta reportagem, merece destaque porque este foi negado dias depois, quando os editoriais começaram a tecer críticas mais duras à Proposta Curricular para o ensino de História. Marco Silva diz que conhecer História “é ‘uma infinita articulação entre interpretações’, influenciadas pela dominação e lutas sociais”235.
A terceira reportagem selecionada intitula-se “A ignorância no poder”236, e foi publicada no jornal Folha de São Paulo, no dia 30 de julho de 1987. Em síntese, o texto pretende criticar as mudanças propostas para o ensino paulista, como um todo. Afirmando que
232
. Proposta Politica o Currículo Escolar. Estado de São Paulo. São Paulo, 25 jul. 1987. Ano 108, n. 34.480. p. 46.
233 Proposta Politica o Currículo Escolar, loc. cit.
História será reduzida a “dominação e resistência”. Folha de São Paulo. São Paulo, 29 jul. 1987. Caderno Cidades, ano 67, n. 21.301. p. 14.
235 Ibid., p. 14.
“vai-se criando uma contraditória mistura de espontaneísmo intelectual e doutrinação ideológica, de desprezo pela informação científica e de insistência na conscientização política”237
.
A reportagem também afirma que “as propostas de reforma curricular na rede de ensino estadual poderiam servir como um verdadeiro documento de época, como perfeito registro de uma mentalidade arraigada em alguns meios intelectuais e políticos”238
. O uso da expressão “mentalidade arraigada”239
em uma reportagem que pretende apresentar críticas às propostas de mudança curricular para o ensino, soa um tanto contraditório. Pois os debates e estudos por parte dos professores, que resultaram nas propostas em questão que, mesmo não representando o ensino ideal, simbolizavam um avanço para a educação; não podemos esquecer que este debate estava substituindo as imposições curriculares da ditadura civil-militar. Nesta perspectiva, por manifestação de uma “mentalidade arraigada” entendemos esta tentativa de sabotar as propostas de mudanças já iniciadas, por não concordar com os preceitos ideológicos que esta legitimava.
A reportagem ainda avança na sua interpretação degradante das propostas, ao afirmar que
a base de informação que o ensino público deveria assegurar se vê mergulhada num pântano em que, ao fim e ao cabo, não se distingue mais uma aula de Geografia, de Ciências ou de História, todos servindo como pretexto para estes objetivos de conscientização social, numa espécie de Educação Moral e Cívica de sentido inverso. Se se trata disso, haveria