GRIEFS
C. Appréciation de la Cour
I. LES CIRCONSTANCES DE L’ESPECE
Para Auad (2006) uma das missões primordiais à condição humana é aprender a ser menino ou menina. Tarefa determinante na formação de cada um e que, às vezes, pode causar desencontro e frustração. Desta forma, comportamentos e aptidões por determinadas áreas do
conhecimento seriam inerentes ao sexo. Por outro lado, de acordo com a autora, sociólogos defendem que tais características são construídas a partir do modo como cada sociedade interpreta e conceitua o que é de cada gênero. O fato é que, a partir do momento em que as diferenças biológicas se convertem em desigualdade; estereótipos e preconceitos são gerados. Em uma análise, percebe-se que meninos e meninas sofrem igualmente com a maneira de como o masculino e o feminino é ensinado na escola, que poderia se tornar um ambiente de encontro entre eles e transformá-los em pluralidade, mas onde na verdade se prolifera aquilo que culturalmente é aceito: as atitudes que são consideradas femininas e aquelas ditas do universo masculino. Nessa perspectiva, pode-se fazer uma análise do quanto a cultura que é reforçada em nossas casas, depois reproduzida na escola e que influencia e atravessa a vida das pessoas, é fator determinante na vida profissional e no mundo do trabalho.
De acordo com Calás e Smircich (1998) faz mais de trinta anos que as mulheres estão tentando demonstrar que também são pessoas, pois percebe-se que a norma cultural impõe desigualdades no local de trabalho em termos remuneratórios e carreiras também. As autoras argumentam que a subordinação da mulher se enraíza nos processos reprodutivos biológicos e reforçados pelas instituições sociais, especificamente as práticas sexuais e de educação infantil, que ressaltam a dominação masculina.
A inserção da mulher no mundo de trabalho remunerado, que foi por volta do século XX, provocou profundas transformações no mercado e na família. Para Castells (1999), a transformação do trabalho feminino é explicada considerando-se quatro elementos. O primeiro se refere ao crescimento da economia informacional global, que proporcionou oportunidades para as mulheres no campo da educação. O segundo reporta-se às mudanças tecnológicas, através de contraceptivos eficazes no processo de reprodução da espécie, que permitiram um controle com eficácia crescente sobre a gravidez e a reprodução humanas. O terceiro foi o desenvolvimento do movimento feminista, que teve como pano de fundo a transformação econômica e tecnológica, e por fim, a rápida difusão de ideias em uma cultura globalizada.
A partir da globalização, o envolvimento da mulher na força de trabalho toma outra dimensão. De um modo geral o grupo feminino não é tão afetado pelo desemprego quanto o masculino, pois se acredita que a mão-de-obra feminina é mais atraente, não por questões
biológicas, por exemplo, nem pela destreza ou a dedicação a detalhes, ou por sua menor participação sindical, mas sim, em razão de fatores sociais (CASTELLS, 1999).
O primeiro desses fatores diz respeito à possibilidade de se pagar menos pelo mesmo trabalho - embora se notem pequenos avanços na redução da diferença salarial, devidos ao crescimento do nível de instrução feminina, principalmente nos países mais desenvolvidos. Castells (1999) afirma que o segundo fator refere-se às habilidades de relacionamento, mais desenvolvidas na mulher e cada vez mais necessárias em uma economia informacional em que o gerenciamento de recurso é menos importante do que o gerenciamento de pessoas. As mulheres se colocam muitas vezes numa posição de iniciativa de buscar soluções para os conflitos, como também se constata que as mulheres estão mais conscientes da necessidade de se prepararem para buscar espaços na empresa e estão mais dispostas a aprender.
Um terceiro fator e o mais importante é a flexibilidade feminina como força de trabalho; isto é, a nova economia exige flexibilidade quanto ao horário e à entrada e saída do mercado de trabalho. Logo, o tipo de trabalhador exigido pela economia informacional em rede ajusta-se às necessidades de sobrevivência das mulheres que, sujeitadas às condições ditadas pelo sistema patriarcal, procuram compatibilizar trabalho com família (CASTELLS, 1999).
Para Betts (2000), outro aspecto influencia a ascensão das mulheres nas empresas. O ambiente empresarial apresenta transformações devido à sensibilidade da mulher para determinadas questões, especialmente no que se refere ao afeto e a sua preocupação maternal apresentando uma postura mais conciliadora, em detrimento do confronto, o que não significa abrir mão de suas convicções e valores.
O autor aponta que muitos atributos pelos quais a liderança feminina é elogiada têm raiz no papel tradicional da mulher, cuja capacidade de tolerar a ambiguidade e fazer muitas coisas ao mesmo tempo é a ordem do dia, é uma habilidade atual para o gerenciamento. O valor feminino de cuidar dos outros, promovendo sua capacitação continuada, é a base da habilidade de gerenciamento, de apoiar e estimular as pessoas e conseguir delas o máximo. Nesse sentido, estudos mostram que a maternidade está sendo reconhecida como uma excelente escola para gerentes, exigindo muitas das habilidades de gestão como: organização,
regularidade, equilíbrio em momentos de conflito, ensino, orientação, liderança, supervisão, manejo de problemas e transmissão de informações.
O estilo feminino de liderança tende a deixar de lado a cadeia hierárquica, substituindo-a pelo conceito de gerenciamento em rede de trabalho, preferindo as líderes colocar-se no centro das coisas e não no topo, pois, desse modo, conseguem entrar em contato com qualquer ponto da rede mais facilmente do que na posição solitária e desconectada do topo da hierarquia. Ou seja, as habilidades domésticas e maternas transpõem os muros da vida privada e conquistam o mercado, revolucionando os modelos de gestão, ganhando valor e reconhecimento, pois agregam mais valor ao que produzem e dão bem mais lugar à produção da subjetividade que o modelo patriarcal de liderança e gerenciamento (BETTS, 2000, p. 103).
Muraro (1969) contribui com essa afirmação quando menciona que a experiência biológica da maternidade condiciona várias atitudes psicológicas da mulher. Enquanto o homem tem mais agressividade, maior capacidade de generalizar e abstrair, a mulher apresenta maior emotividade, maior atenção aos detalhes, mais sensibilidade, e mais tendência a exercer profissões que lidem diretamente com a pessoa.
Wood citado por Menda (2004) relata que as mulheres avaliam mais significativamente os valores intrínsecos do trabalho tais como desafios, oportunidades de desenvolvimento, qualidade no reconhecimento e autonomia, enquanto que os homens se preocupam mais com fatores extrínsecos tais como a remuneração, os benefícios e a segurança no trabalho. Costa (1995) afirma que os homens e mulheres desenvolvem perfis psicológicos diferentes, tornando-se a mulher menos acostumada a processos competitivos e relações de poder e o homem menos sensível e intuitivo devido aos processos educativos diferentes que recebem ao longo da vida.
Albrecht (2006) confirma que as hierarquias parecem ser mais atraentes para os homens que para as mulheres, que normalmente o formato de uma estrutura organizacional
top down não é por escolha feminina. De acordo com o autor, sociólogos e antropólogos
acreditam que a sociedade, para atingir um grau de estabilidade capaz de levar ao desenvolvimento deve primeiramente controlar e canalizar a agressão masculina, já que os homens são mais violentos e fisicamente mais agressivos que as mulheres. Portanto, uma das
mais importantes funções das estruturas de poder hierárquicas é justamente impedir que os homens ataquem uns aos outros, proporcionando suficiente controle e previsibilidade com relação ao comportamento masculino. Dessa forma, os sociólogos mencionam que a organização masculina apresenta um empreendimento baseado na autoridade e as mulheres tendem a um networking multidimensional (ALBRECHT 2006).
Cohen (2003) aponta que o mundo corporativo apresenta a tendência a caminhar para valores considerados femininos, acreditando que esses valores tidos como femininos, tais como sensibilidade, flexibilidade e habilidade em cuidar de pessoas são os mais requeridos no mundo corporativo moderno.
Capelle et al (2006) salientam a crescente inserção do contingente feminino nas organizações e que isto tem alterado o comportamento das pessoas e das relações de trabalho. As mulheres estão conquistando espaço, em praticamente todas as atividades, mas, apesar dessa conquista e de possuírem os mesmos ou melhores níveis de escolaridade que os homens, ainda existem grandes disparidades. Há uma série de estudos relacionados à gestão, no qual as mulheres cultivam um clima mais brando, preocupado com os relacionamentos interpessoais, com contatos diretos e com mais emoção, diferentemente dos homens que são mais agressivos. Esse é considerado o jeito feminino de comandar, que não é exclusividade das mulheres, mas elas o praticam em maioria. Portanto, o jeito feminino de liderar, encorajando a participação, dividindo informações e poder, além de encorajar a auto-estima dos outros é uma vantagem. Porém, Costa (1995) reconhece que apesar de as mulheres terem competências requisitadas no mundo do trabalho, os padrões de avaliação ainda são ditados pelos homens, no qual a assertividade e a competitividade masculina são mais recompensadas e valorizadas que a dedicação e a seriedade feminina.
Friedann citado por Calás e Smircich (1998) menciona que a compreensão dos problemas em um mundo social dinâmico requer um novo paradigma de política social, pois buscar interesses separados das mulheres não é a forma mais adequada, provocando, até mesmo, mais divisão. É necessário uma nova postura que contemple uma noção de comunidade que possa unir a todos como seres humanos, buscando através de uma reflexão mais ampla da realidade organizacional, desafiar a ética e valores e mudar o discurso dominante e colonialista tantas vezes quantas for necessária.