2- Deuxième axe : les technologies, leurs expérimentations, leur développement socio-économique
2.4 Chute, perte de mobilité et troubles de l’activité Les détecteurs de chutes
Resumo
Recorte de uma dissertação de mestrado em educação, fruto de pesquisa qualitativa e compreensiva que investigou relações entre a escolarização de jovens rurais em escolas urbanas do território Alto Sertão Sergipano e suas identidades culturais – com amostra de 194 fi lhos de produtores familiares e de assentados da reforma agrária, na faixa etária de 14 a 29 anos, pesquisados por meio de questionário –, este artigo apresenta discussão se os jovens rurais, em um contexto escolar urbano, sentem-se forçados a optar entre a cultura urbana e a cultura rural, se são híbridos ou se vivem em uma encruzilhada cultural. Com base na análise dos dados, evidenciou-se que os jovens transitam bem entre os dois mundos e, nesse processo, desconstroem suas identidades rurais, constroem identidades mais urbanas e se reconstroem, como jovens de origem rural, mas que agora se encontram no nível médio de escolaridade, com a perspectiva de cursar o ensino superior. Não parece haver fortalecimento das identidades locais pois, quanto aos gostos pessoais, preferem mais o que “vem de fora” em relação ao tradicional do local. Assim, criam novas identidades, culturalmente híbridas, embora com certa preferência pela cultura urbana.
Palavras-Chave: Ensino médio. Escolarização. Identidades. Juventude rural.
Introdução
N
ão é tão simples tratar de fl uxos e deslocamentos dos jovens rurais dentro de seu próprio país quando existe a noção de que um mesmo território guarda em si uma identidade coesa e fechada, assim como de que entre o urbano e o rural já não há uma forte diferenciação, mas sim um enfra- quecimento de fronteiras em direção a um continuum enquanto, por outro lado, certas diferenciações persistem, pois os sujeitos continuam a ser identifi cados como rurais, urbanos, nordestinos e sertanejos, dentre outras denominações.* Mestrado em Educação pela Universidade Federal de Sergipe (Brasil), sob orientação do Professor Dr. Bernard
Charlot. Doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Sergipe, com doutorado intercalar no Institu- to de Educação da Universidade de Lisboa. Bolsista CAPES. E-mail: [email protected]
Os jovens desta pesquisa vivenciam tais situações, algumas contraditórias; porém, aparentemente transitam entre estas sem grandes problemas. O lo- cal onde moram está localizado no território Alto Sertão Sergipano, em um dos Estados do Nordeste, consequentemente, são sertanejos e nordestinos ou nordestinos sertanejos. O que os diferencia de outros jovens também nordestinos e sertanejos, mas que moram na cidade onde estudam, é o fato de viverem no campo e, desse modo, passam a ser diferenciados como “jovens rurais”.
Em sua vida escolar, fazem o percurso campo-cidade, daí surge a questão se haveria uma infl uência dessa experiência em suas identidades, mas não sem deixar de considerar que outros fatores estão presentes, tais como o acesso a meios de comunicação, os modos de escolarização e a cultura escolar, além de levar em conta que a própria juventude é tida como uma transição da infância para a fase adulta.
Ao mesmo tempo em que se afi rma – conforme expresso por Carneiro (2002) em relação ao Brasil –, que na região desta pesquisa ainda não se confi gura um continuum rural urbano a ponto de se dizer que ocorreu uma homoge- neização, também não podem ser negadas algumas mudanças nos modos de vida tradicionais, por exemplo, na alimentação, nos falares e no vestuário, sobretudo dos mais jovens.
Valendo-se da literatura para dar uma ideia dessas novas situações, em uma viagem de retorno às suas origens no interior do sertão pernambucano, o narrador do romance Galileia presencia o ensaio de uma banda de forró que utiliza teclado, guitarra, baixo, sanfona e bateria, enquanto seu vocalista tem os cabelos “pintados de louro, endurecidos pelo excesso de gel fi xador” e “usa três argolas na orelha esquerda, um piercing no nariz e roupa preta brilhosa” (Brito, 2009, p. 34). De igual modo, os jovens rurais sertanejos desta pesquisa também apreciam esses tipos de bandas e, nas escolas onde se realizou esta pesquisa, observou-se que pelo menos uma das jovens rurais tinha tatuagem e usava piercing.
Essas transformações são em decorrência da facilidade de comunicação entre campo e cidade, do acesso a transportes – como a motocicleta – e de meios de comunicação, como a televisão e os celulares. Esta pesquisadora teste- munhou, na zona rural do sertão sergipano, um jovem a tocar o gado de moto, enquanto na garupa outro rapaz de bermudas, camiseta e boné, conversava ao celular. Em Galileia, o narrador desenha um quadro semelhante: “mulher em motocicleta carrega uma velha na garupa e tange três vacas magras. Dois mitos se desfazem diante dos meus olhos, num só instante: o vaqueiro macho, encourado, e o cavalo das histórias de heróis, quando se puxavam bois pelo rabo” (Brito, 2009, p. 8).
Com efeito, no processo de mudança que tem ocorrido no mundo rural, podem ser destacados aspectos bastante signifi cativos e que merecem ser estudados, como as mulheres que, cada vez mais, ocupam papéis até então atribuídos aos homens; a busca da identidade por meio do consumo e até mesmo a delinquência juvenil. Diante de um mundo rural sertanejo de tradi- ção patriarcal, o narrador de Galileia constata que “as mulheres romperam as prisões simbólicas, saíram para o mundo, quebraram as paredes do gineceu e as portas que as isolavam no claustro sombrio” (Brito, 2009, p. 60).
Quanto ao consumo, motocicletas e celulares são um fetiche para os moradores do meio rural, especialmente os jovens. Um dos personagens de Galileia conta a história de seu fi lho, um jovem rural que estudava na cidade, mas que foi preso por roubar um celular. O depoimento desse per- sonagem sertanejo demonstra que o mundo rural convive, de um lado, em descompasso com a modernidade do mundo urbano, com as tradições do passado, como as crendices e, de outro, com a exacerbada exposição de mercadorias e o apelo ao consumo. Mas não se pode deixar de reconhecer que foi por intermédio da moto e do celular que os moradores da zona rural ganharam liberdade de mobilidade e de comunicação que não tinham há até poucos anos. Paralelamente, a televisão trouxe o mundo das informa- ções e do entretenimento, atingindo localidades isoladas. O narrador do romance Galileia, ao entrar em um boteco de beira de estrada e perceber a televisão ligada, refl etiu:
[...] todo boteco possui uma, ligada no mais alto volume. O sotaque brasileiro que se impôs ao restante do país entra pelos ouvidos, contamina o jeito das pessoas falarem, a música de cada região. A nova língua geral do Brasil é esse arremedo de fala que todos copiam. Não há rapaz ou mocinha que não tente falar igual aos artistas da TV, envergonhados por serem diferentes (Brito, 2009, p. 232).
O próprio narrador, de origem sertaneja, foi morar em uma grande cidade onde se formou em medicina, mas confessa: “vago numa terra de ninguém, um espaço mal defi nido entre campo e cidade. Possuo referências do sertão, mas não sobreviveria muito tempo por aqui. Criei-me na cidade, mas também não aprendi a ginga nem o sotaque urbanos. Aqui ou lá me sinto estrangeiro” (Brito, 2009, p. 160). Vê-se, neste caso, um jovem desencaixado e, a partir deste exemplo, questiona-se: os jovens rurais do Alto Sertão Sergipano, estudantes do ensino médio regular, em um contexto escolar urbano, sentem-se forçados a optar entre a cultura urbana e a cultura rural, são híbridos ou se vivem em uma encruzilhada cultural?