Chapitre 4. Les représentations chorographiques de Rhodes :
4.1 La chorographie à la Renaissance
No fim da década de 1950, algumas famílias de retirantes chegaram à Riacho da Pedras, no município de Santa Quitéria, em busca de um melhor terreno, menos acidentado e mais plano para o cultivo de feijão, milho, mamona, algodão e criação de algumas ovelhas; eles nada sabiam sobre as reservas de minério de urânio.
O riacho que dá nome à comunidade rural faz referência a um dos grandes atrativos para a fixação das famílias que lá chegaram. Eles moravam não muito distante e, em uma de suas passagens e andanças com o gado e com os filhos, arrancharam embaixo de uma árvore às margens do riacho para passar as horas de meio-dia. Outras vezes, ali pararam para dormir e dar comida aos animais. Nesse descanso iam imaginando uma vida melhor, com mais água e mais fartura que veio em parte se concretizar. Nas lembranças de Seu Chico, um dos moradores mais antigos de Riacho das Pedras:
Naquela época nós fazia muita fartura de tudo isso que eu acabei de dizer, principalmente no algodão, que era o ouro branco daquele tempo, a gente plantava, o tempo da gente angariar pessoa de longe para nos ajudar a colher algodão, porque dava muito, e era o que a gente tirava a sobrevivência, financeiramente era do algodão. (Informação verbal)45
Assim Seu Chico constituiu sua família e a comunidade foi ganhando novos moradores, que também tiravam seu sustento da agricultura e da pequena criação de
45 Entrevista com Francisco Paiva Filho (Seu Chico), 76 anos e morador de Riacho das Pedras, em 23 de setembro de 2014.
ovelhas e cabras, sem saber nada sobre o “dragão que se escondia logo mais ali”. É
assim que alguns moradores se referem às ameaças que representa a mina de Itataia e todo o PSQ. Enquanto a mina não era alvo de interesse de uma rede de atores, formada por burocratas e empreendedores que têm a tarefa de expandir o sistema capitalista, funcionando com sua capacidade plena de “promover o desenvolvimento”, o dragão não ameaçava. Mas quando acordado, pode literalmente cuspir para as comunidades todos os males previstos.46
Até que nos anos de 1970 começaram a chegar na região de Itataia os primeiros pesquisadores da Companhia de Pesquisa em Recursos Minerais (CPRM). Ainda segundo Seu Chico, não se sabia ao certo naquele tempo o que eles faziam. O contato ocorreu aos poucos, quando os pesquisadores iam a Riacho das Pedras, que então contava apenas com a casa de Seu Chico e de seus irmãos, espaçadas uma das outras e intercaladas com uma ou outra casa de taipa, em busca da água corrente no Riacho mais limpa para beber, porque desde aquela época os pesquisadores achavam a água próxima à jazida de urânio ruim e salobra. Na verdade, o que se constata a partir deste depoimento e de outros colhidos em campo é que as pesquisas, a fim de confirmar as reservas de urânio, se estendiam desde a fazenda Itataia, passando por morrinhos e chegando a Riacho das Pedras. Entre um copo de água e um café, eles explicavam à comunidade suas atividades. Segundo Seu Chico:
Eles repassaram algumas coisas pra gente sobre os trabalhos deles, e a gente acompanhou de perto, perguntando como funcionava e tudo, eles fizeram umas pesquisas, fazendo umas perfurações de seiscentos metros de profundidade, caçando urânio, dizendo eles, eles diziam sempre pra gente que nessas perfurações, tinha delas que começava no barro, logo mais dava no urânio, antes de cem metros, quando chegava nos seiscentos inda ia no urânio. Outras começavam já no urânio e logo mais deixava de urânio e seguia em outra matéria-prima diferente. (Informação verbal)47
Dessa forma, as comunidades de Riacho das Pedras e Morrinhos tomaram conhecimento do urânio a partir da relação com os pesquisadores da CPRM e passaram a se apropriar, à sua maneira, da história da jazida sem compreender o
46 Esta forma de se referir à mina de Itataia corrobora a análise de Giddens (1995, p. 85) que defende que a questão ecológica se transformou em um drama universal. Neste teatro da vida real, os papéis são bem definidos. Existem aqueles que poluem e aqueles que se transformam em heróis. O autor assim se expressa: “[...] os estágios culturais da questão ecológica modernizam o arcaísmo. Aqui há dragões e matadores de dragões, odisseias, deuses e demônios, exceto pelo fato de que estes são representados, divididos, designados e recusados com papéis compartilhados em todas as esferas de ação e na política, no direito, na administração e menos nos negócios. ”
47 Entrevista com Francisco Paiva Filho (Seu Chico), 76 anos e morador de Riacho das Pedras, em 23 de setembro de 2014.
furor que causava à época os rumores que a apontavam como a maior reserva de urânio do país. Obviamente a disseminação desse conhecimento não se deu de forma homogênea. Há moradores, mesmo aqueles mais velhos, que afirmam nunca terem visto urânio. Seu Chico viu e pensou tratar-se naquele momento de um passatempo:
Eu acompanhei sim, assim por informações dos outros né, porque a gente não tem conhecimento avançado né, nem entende muito bem, por essa razão nem interessava. Pensando até que esse minério era simplesmente como uma coisa qualquer que não tivesse impacto ambiental, que não tivesse condição de atrapalhar a convivência do pessoal sabe, não interessava, eu pensei que era simplesmente um passatempo, sem precisar da gente se preocupar né, mas depois pelo que a gente ouviu falar das outras reservas de urânio que tem no caso do Caitité, e nos outros países, a gente achou que ela pode contaminar alguma coisa que prejudique os habitantes da região. (Informação verbal).47
Essa passagem da entrevista de Seu Chico é interessante por revelar quanto tempo levou para que as lideranças e os moradores mudassem suas percepções sobre a mineração do urânio e fosfato, identificando-a como um agente poluidor. A sua avaliação anteriormente despretensiosa do trabalho dos pesquisadores é reavaliada nos termos de uma linguagem ambiental, acionando casos de comunidades impactadas pela mineração do urânio tratadas nos diálogos travados com os movimentos sociais de maneira mais intensa, como já escrevi, nos últimos cinco anos.
Cabe salientar que a incorporação, por Seu Chico, de conceitos-chave da política ambiental relaciona-se a tantos outros, como o de organização, mutirão, defesa e direitos com os quais operou nos anos em que foi membro ativo da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Ceará (FETRAECE).
Uma leitura possível dessa passagem nos remete a uma ideia de passatempo que pode ser mais bem compreendida quando se coteja essa informação com o tempo da pesquisa geológica, e aquele que se estende para que a mina de fato passe a operar. De fato, Seu Chico levou algum tempo para “acreditar” que havia urânio nos arredores de sua terra e mais um pouco para duvidar das benesses da exploração desse minério.
Um intervalo de tempo intensificou a estruturação e a vontade política em construir o complexo mínero-industrial. O relato abaixo, de Seu Chico, abarca o período em que Cesar Cals foi ministro de Minas e Energia e fala um pouco sobre
uma visita que o referido ministro fez à região de Itataia, quando o urânio ficou exposto para o conhecimento da população:
Teve uma exposição desse minério aqui na fazenda de Itataia né, eles localizavam lá, quando os pesquisadores vinham para ver o material, via lá e muitas vezes ficava a exposição para quem quisesse ver, uma das vezes foi uma chamada de atenção para quem quisesse ver lá, tudo bem exposto em um determinado dia, por sinal o representante maior da pesquisa estava lá, e o ministro de minas e energia estava lá também na época era o doutor Cesar Cals de Oliveira Filho. Nós podemos observar pelo dizer deles que a jazida era muito urânio, por sinal, o doutor-chefe da pesquisa disse para o ministro, eu escutei ele dizendo que de todas as jazidas de urânio que existiam no Brasil, somando as demais, a mina de Itataia superava a soma total das outras, por isso que a gente achou que era uma reserva de urânio muito grande. Dizendo ele que essa reserva vinha do município de Canindé, atravessava o município de Itatira, e chegava aqui em Santa Quitéria, ia muito além, apesar que só fizeram a jazida até aqui, (se corrige) a pesquisa até aqui no riacho das pedras, mas dizendo eles que ela ainda continuava para frente. É por isso que a gente achou que é muito grande essa reserva de urânio, pro dizer não de uma pessoa que não tinha experiência, mas sim do chefe, dizendo para o ministro de minas e energia, doutor Cesar Cals de Oliveira Filho. (Informação verbal)48
Nessa narrativa, observamos como Seu Chico recorre à autoridade técnica que possuía o chefe das pesquisas minerais para de fato crer que a reserva de urânio de Itataia não somente existia, mas era uma das maiores. Na verdade, suas percepções sobre o urânio acionam a suas lembranças, que se confundem com os dados trazidos por uma “autoridade” ou representantes das falas autorizadas, como, por exemplo, membros da Articulação Antinuclear do Ceará ou das Indústrias Nucleares do Brasil, conformando um pensamento que não mais carece de
“conhecimento”. Não obstante, as percepções dos meus interlocutores de ambas
comunidades aqui tratadas sobre a mina e seus efeitos colocam-se sempre em um lugar da ambivalência em que se pode encontrar percepções conflitantes sobre a
mineração e seus “benefícios”.