• Aucun résultat trouvé

5.3 Retour sur le lien micro /méso

5.3.3 Choix de la friction

A trajetória do valor no capitalismo contemporâneo não coincide com a financeirização e o papel do crédito por acaso. Isso se dá porque a financeirização

contemporânea é o ápice da trajetória de autonomização do capital, que ocorre justamente quando o valor se glocaliza. A título de lembrança, a civilização glocal avançada é aquela em que a experiência antropológica padrão não está referenciada mais na materialidade da existência, mas na mescla entre esta e o fluxo comunicacional-mediático. A condição glocal na cibercultura oferece ao capital novo estágio na sua trajetória de valorização. O fato de o capital financeiro ter migrado para esse fluxo o coloca em posição autônoma em relação à economia produtiva, para além de todo esse processo. Com a sua circulação incessante nos mercados financeiros e a interdependência de empresas, megacorporações e países, o capital escapa ao controle de qualquer instância. O que ocorre, então, é que o capital adentra a fase da satelitização, em que se põe como entidade autônoma, orbitalizada, como se estivesse a dirigir a vida humana a distância, e toda a economia capitalista contemporânea se abstratifica (MARCONDES FILHO, 2004, p. 102).

É importantíssimo situar a perda de referência do capital financeiro no âmbito da transformação do valor em signo mediático. É quando o valor, autonomizado da produção e articulado em tempo real, converte-se em signo mediático que o capital concretiza seu distanciamento em relação à economia produtiva.

Como signo mediático, o valor subsidia a desaparição do dinheiro como tal. Mesmo o ato frugal de consumar compra e venda testemunha a esse respeito. O uso de cartões, sejam eles de débito ou crédito, e das correspondentes máquinas de leitura situa o processo de compra e venda em patamar de abstratificação inédito.17 Até então exclusivamente local, embora sempre articulada por uma forma de relações sociais mais ampla, a troca transcende a dimensão espaço-temporal clássica e passa a se dar com o concurso do tempo real. A informação (a respeito da posse de dinheiro virtual) é solicitada à rede pela máquina, que em tempo real responde com a autorização ou não para realizar a troca. Concluída a operação, naquele mesmo instante, a rede providencia a transação – que pode ser imediata ou não, não

17 O processo de compra e venda torna-se mais abstrato do que já o é na troca calcada no papel-moeda, que em si já é uma abstratificação das relações econômicas.

importa nesse caso, porque o que realmente está em jogo é que, ao autorizar a negociação, o banco assegura o pagamento.

O fenômeno glocal fatia o processo de compra e venda, já que a entrega ocorre presencial e imediatamente18 enquanto o pagamento ocorre em algum outro lugar – ou melhor, em um não lugar [na acepção de Augé (1994)] – e com um ritmo exclusivo. A troca é realizada mediante uma informação instantânea que vem de alhures. A certeza da apreensão do valor como signo mediático, comentada anteriormente, cauciona o desaparecimento físico do dinheiro, de forma que mesmo objetos materiais com valor de troca hiperinflacionado podem ser trocados sem que o papel-moeda esteja presente. Esse é um exemplo claro de como o capital foi alçado a uma esfera acima da vida cotidiana, não se restringindo mais aos aspectos locais, mas colocando-se em um não lugar ao redor do qual a vida humana orbita. Com isso, radicaliza-se a abstratificação da economia.

A economia depende do crédito, e não mais do dinheiro, porque o dinheiro – entendido como papel-moeda – tornou-se desnecessário a partir do processo de digitalização. É isto que o crédito é na contemporaneidade: valor glocalizado. Sem perceber, a economia depende na verdade do glocal, porque o valor só funciona a partir de agora com o glocal. O valor não está mais na materialidade; ele está no signo e na sua relação com o código. A valorização do capital se constitui a partir da relação entre signos na cultura mediática, ou seja, através da subjetividade glocalizada. O glocal torna corrente o viver sem o valor de uso da materialidade. Se o consumo é feito com base no código comunicacional, e não mais na materialidade do objeto e das necessidades – glocalização da subjetividade –, a posse de valor pode também ser confiada ao virtual. O vínculo com a materialidade se corroeu, a subjetividade assume como natural o hibridismo da condição glocal e, portanto, reconhece que o valor seja forjado no âmbito mediático. Nessas condições, o papel-moeda não tem mais prerrogativa de signo exclusivo de valor. Em seu lugar, aparece o dígito-moeda – crédito, para todos os efeitos – como signo mediático de valor. E o próprio fato de se depositar dinheiro no banco, trocando a materialidade do papel-moeda pela virtualidade do dígito, é uma evidência de como toda a subjetividade está glocalizada, a ponto de legitimar tal

18 Evidentemente, pode haver atraso na entrega do produto adquirido, mas este não estará condicionado a problemas de pagamento, que é avalizado virtualmente, e sim a condições materiais, exclusivamente locais. Curiosamente, se houver algum problema na entrega, este não terá relação com o processo virtual glocalizado que se desencadeou, mas o será de ordem material, local, reforçando o estigma que a época faz recair sobre a materialidade da existência.

transação. A vida a crédito é sustentada pela confiança das subjetividades glocalizadas no dígito-moeda, por isso a abstratificação da economia é calcada na glocalização dos valores.

A glocalização da existência é condição sine qua non para as estratégias de valorização no capitalismo contemporâneo. Não resta alternativa a não ser reconhecer que a glocalização da vida humana, como condição sine qua non para a geração de valor, é o próprio modus operandi de reprodução social-histórica do capitalismo avançado. A glocalização cibercultural é, assim, o modus operandi de criação de valor no capitalismo contemporâneo e da sua reprodução no social-histórico. É, portanto, vetor reprodutivo das desigualdades e injustiças centradas na competitividade e na exclusividade típicas dessa forma social. A glocalização dos valores é a forma pela qual a tecnociência penetra na economia e a articula, em prol da reprodução da condição glocal cibercultural como único horizonte para a vida humana.