5.2 Du solvant continu au modèle de di ffusion/réaction
5.2.5 États libre et lié
O valor não se encontra mais atrelado necessariamente à produção e ao trabalho. Conforme os apontamentos anteriores mostram, ele parece ser forjado na própria cultura. Ou seja, para o êxito no processo de criação de valor, o capital deve criar uma cultura que sirva de referência para a vida, legitimando e deslegitimando práticas, procedimentos e discursos. A natureza dos elementos específicos dessa cultura não é importante; ela serve apenas como álibi do processo. Como foi dito acima, o capital é indiferente em sua varredura em busca de oportunidades. Para ele, o que importa é que exista a cultura em si, o código; importa que flua, em permanente mutação, e que seja inserida no cotidiano. No movimento inverso, importa ainda que cada aspecto da cotidianidade seja integrado ao código cultural, para que o mercado possa valorizar aquela variável, independentemente de seus atributos objetivos e materiais. Isso é o suficiente para a valorização do capital, porque o consumo irá se realizar independentemente da materialidade do objeto.
Dessa forma, o que o capital precisa para a sua reprodução é enquadrar todo o social em sua cultura global e torná-la a referência do social. O social, o cotidiano – em tantas práticas quanto for possível –, deve ser percebido pelo ente humano como estando permanentemente relacionado ao universo do capital. A valorização do capital depende, agora, de vincular todo o social a uma cultura referencial, e não a necessidades intrínsecas.
Sem dúvida, a superprodução de objetos no mundo do consumo, em resposta às necessidades reprodutivas dos sistemas tecnocientífico e econômico, contribuiu de forma bastante significativa para a mudança do estatuto do valor. Entretanto, há aspectos que são melhor compreendidos a partir da ideia específica de que o desenvolvimento tecnocientífico
culminou no enraizamento da condição glocal na cibercultura. A estetização da mercadoria, sua culturalização, se dá com a glocalização da vida humana. A condição glocal do ente humano – a condição antropológica de hibridação entre experiência local e fluxo sígnico global por meio das máquinas capazes de rede – significa que a existência se legitima com base em parâmetros muito diversos daqueles com os quais historicamente se está acostumado a pensar, sempre relacionados com a experiência sensível no tempo e no espaço em que o corpo está e a consciência atua (TRIVNHO, 2007).
Ler o valor no capitalismo atual através do conceito de glocal significa dar o tiro de misericórdia na noção clássica de necessidade, segundo a qual esta última estaria atrelada a alguma dimensão material, biológica ou física. As próprias necessidades não se encerram mais localmente, mas se relativizam quando defrontadas com uma cultura expandida, a mediática, de circulação diuturna. Elas são alçadas à cadeia global de signos, tornam-se um deles (signos), passam a se relacionar com outras – também convertidas em signos – e se põem num jogo de eterna flutuação, trocando-se umas pelas outras. Dessa forma, o capital – através das demandas de mercado – pode propor novos signos a todo instante, com os quais, inevitavelmente, vidas glocalizadas terão de se haver e negociar.
Como Marcuse (1973) postulou, a noção clássica de necessidades se tornou ideológica nas sociedades articuladas pelo progresso tecnológico; está aí para justificar a reprodução do pacto entre produção e consumo da civilização tecnológica no capitalismo pós-guerra. No exemplo de Marcuse, o sujeito entende que necessita de um apartamento. Na realidade, o que ocorre é que o contexto sociopolítico e econômico vigente cria e legitima tal necessidade. Isso significa que há uma cultura em que as necessidades se ancoram. Mas não apenas a civilização tecnológica opera tal invenção; ela oferece a possibilidade de preenchimento da necessidade através da adesão ao modus vivendi da produção e do consumo, isto é, ela oferece um bem de consumo que pode ser adquirido através de dinheiro, desde que o indivíduo participe do sistema produtivo. Portanto, é inconcebível falar, nesse contexto, em
reais necessidades que justificariam o consumo. Mais do que nunca, é impossível afirmar tal coisa, tendo em vista que o êxito do glocal ao articular toda uma era à sua imagem, firmando a própria noção típica do que é ser humano na época, testemunha inequivocamente da arbitrariedade do processo de referencialização da necessidade.
O valor que realmente importa para o capitalismo atual passa a se constituir a partir da esfera mediática, a partir do que nessa cultura considera-se importante.
Graças à nova rede de “autoestradas da informação”, cada indivíduo [...] é convidado (ou, mais que isso, obrigado, dada a notória libertinagem, onipresença e impertinência dos meios de comunicação) a comparar sua própria sorte individual à de outros indivíduos, e em particular ao consumo esbanjador dos ídolos (celebridades constantemente sob os holofotes, em telas de televisão e nas primeiras páginas de tabloides e revistas elegantes), e a medir os valores que fazem a vida valer a pena pela
opulência que tão ostensivamente eles agitam diante dos outros. (BAUMAN, 2010b, p.
60).
Pode-se dizer que as relações de dominação contemporâneas de que Baudrillard fala são tecidas a partir de uma estratificação cultural glocalizada, segundo a qual os indivíduos são identificados pelos signos que portam, lidos, interpretados e consumidos de acordo com a sua equivalência no código mediático.
Portanto, se o valor glocalmente produzido não encontra correspondente imediato na economia produtiva, isso se dá primordialmente pelo fato de ele estar ancorado na própria cultura mediática. Ele já é da ordem do signo que se define não em virtude da relação com o referente externo, concreto, mas pela sua relatividade com os demais signos da cadeia de significantes. Assim, é possível dizer que o desatrelamento do valor em relação à produção material e a ascensão da cultura como esfera de valorização devem ser entendidos como aspectos da própria glocalização da existência, a partir da generalização da experiência antropológica instaurada pelos media.
Se o valor é entendido como tal, a produção artificial de escassez abordada por Gorz (2005) – mencionada no item 1.2 deste capítulo – ganha sentido ainda mais expressivo. Inovações tecnológicas como o glocal reduzem o custo do funcionamento da economia (GORZ, 2005), o que teoricamente levaria à abundância, e não à escassez. Sobre essa premissa
repousa boa parte do ciberufanismo jornalístico, publicitário e mesmo acadêmico no que tange à liberação do esforço humano a que as revoluções tecnológicas poderiam levar. É bem verdade que o problema da economia atual não é a falta, já que, nunca antes uma civilização possuiu tantos bens materiais. O problema é que a afluência permanece endemicamente concentrada. Entretanto, se, de fato, a produção dos bens socialmente necessários viesse a ter custo zero, isso seria a crise inescapável do capitalismo, pois o valor de troca estaria irremediavelmente morto. É por isso que o capital precisa criar artificialmente uma escassez simbólica necessária para sustentar o valor de troca dos produtos. Banalizado o valor de utilidade (ligado à materialidade) em função da superprodução de objetos, a personalização simbólica é o caminho adotado para a criação de um valor artificial. O valor dos objetos de
consumo não tem nada que ver com o custo social para a sua produção, mas com um valor simbólica e socialmente atribuído a ele como signo. É como signo que a mercadoria sobrevive, a partir de então partícipe da disputa agônica por visibilidade no caldo mediático. É nessa disputa que os novos valores da época são urdidos, dando vantagem a tal ou qual mercadoria-signo que consiga canalizar os desejos dos consumidores em dado momento. O usufruto da vitória na disputa sígnica é garantido pelos monopólios artificiais sobre patentes e marcas, avalizados pelo sistema jurídico liberal (GORZ, 2005, p. 36-37).
É assim que a civilização tecnológica avançada, em que a cultura mediática se torna a experiência típica de cada ser humano, constitui-se exatamente no tipo de mundo que o valor precisa para se autonomizar da produção e do trabalho. O consumo é estetizado e a “necessidade” (ligada ao valor de uso) que daria base ao valor se corrói. Quando a noção de valor é definida a partir de aspectos tão subjetivos, perdem-se os parâmetros para a sua valorização. Além disso, quando se constitui a partir da cultura mediática, ele se põe como uma construção tecnocultural do tempo real e, como tal, sua reprodução significa ao mesmo tempo o enraizamento da condição glocal e de tudo o que ela acarreta na vida humana.