II. Vie et mort d’une cellule cancéreuse
1. En quoi une cellule cancéreuse se distingue-t-elle d’une cellule normale ?
A forma como o conflito se manifesta durante a SD é, geralmente, a consequência de padrões de interação anteriormente estabelecidos durante o período em que o casal se mantinha unido. Através de diversos estudos com casais Gottman (1993) identificou cinco tipos de casais que designou por casais envolvidos, voláteis, validadores, hostis e hostis/separados. O autor comparando esta tipologia de casais com a tipologia identificada por Fitzpatrick’s (1988, cit. por Gottman, 1993) que, consiste em casais tradicionais, independentes e separados, observou que às características dos casais tradicionais equivalem os casais validadores; aos casais voláteis correspondem os casais independentes e os casais separados coincidem com os casais hostis.
De destacar, que da tipologia formulada por Gottman (1993) sobressaem dois tipos de casais a que correspondem formas de elevado conflito – os casais voláteis e os casais hostis/separados (Anderson, et. al., 2011). Segundo Gottman (1993), os relacionamentos voláteis caracterizam-se pela instabilidade das interações com muito envolvimento na expressão emocional e com coexistência de afetos positivos e negativos, bem como, mensagens recíprocas em que cada um tenta persuadir o outro que está errado; por sua vez, nos conflitos hostis/separados, as pessoas não têm envolvimento emocional, sendo comuns generalizações e ataques recíprocos por motivos frequentemente triviais e com escuta exclusivamente direcionada para a defensividade.
19 De acordo com a tipologia de casais enunciada por Gottman (1993) os casais voláteis e hostis espelham interações de elevado conflito, em que prevalecem os quatro cavaleiros de discórdia referidos pelo autor: criticismo, defensividade, desprezo e obstrução, os quais, se expandem rapidamente e são exacerbados aquando da SD (Anderson, et. al., 2011).
Certamente que o conflito, em regra, não é uma catástrofe, contudo o elevado conflito tem frequentemente efeitos devastadores para as pessoas envolvidas (e.g. pais, crianças, a família, relações de amizade).
Haddad, et. al., (2016) definem elevado conflito como sendo um processo com duração superior a dois anos, caracterizado por um alto grau de raiva, hostilidade, desconfiança, intensa litigação sobre a regulação das responsabilidades parentais e dificuldades de comunicação apresentando taxas mais elevadas que o normal de incumprimento da prestação de alimentos.
Anderson, et. al. (2011) refere que as situações de elevado conflito refletem um processo crónico, com um grau alto de reatividade, de protestos, de maledicência e de incapacidade para assumir a responsabilidade pelo respetivo papel no conflito.
De salientar, que o alto nível de conflito entre os pais frequentemente desenvolve- se em torno do tema das responsabilidades parentais, durante ou após a SD, tem um impacto significativo, nas crianças, designadamente ao nível do stress, depressão, isolamento social, dificuldades académicas e auto estima, assim como, no seu desenvolvimento e funcionamento psicológico (e.g. Beck & Sales 2001; Haddad, et al. 2016; Kelly & Emery, 2003).
Por outro lado, o conflito elevado tem sido relacionado em alguns estudos com alienação parental e com desordens da personalidade, especificamente com personalidade
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borderline (Anderson, et. al. 2011; Haddad, et. al., 2016). Assim, é forçoso questionar a
eficácia dos modelos comuns de mediação familiar, concretamente o modelo Linear de Harvard para abordar os casos de SD com elevado conflito, considerando, entre outros aspetos, os fatores de risco a que as crianças ficam expostas, os quais, também dependem da duração e da forma como o conflito elevado é abordado ou resolvido (Haddad, et al.2016).
Anderson et. al. (2011), com base em trabalho clinico com população com elevado conflito e numa abrangente revisão de literatura em vários campos, forneceu uma definição conceptual de elevado conflito que compreende dois clusters que descrevem as características interacionais, emocionais e intrapessoais de elevado conflito: cluster 1) Pervasividade e intercâmbios negativos; cluster 2) hostilidade, insegurança e ambiente emocional.
Segundo Anderson et. al., a pervasividade compreende a característica nuclear do cluster 1, a qual, consiste numa invasão penetrante e entrincheirada do conflito, com escalada rápida para comunicação destrutiva e persistente, não raras vezes, materializada em litigância judicial prolongada durante dois a três anos de (Beck & Sales, 2001). As interações defensivas, as agressões, as atribuições negativas e a escalada do conflito, completam o conjunto de características em presença neste cluster. Por sua vez, o cluster 2, caracteriza-se através da presença de fortes afetos negativos; reatividade; insegurança emocional, desconfiança mutua e triangulação.
Assim, a definição de elevado conflito, se observada pelos mediadores familiares, permite-lhes considerar indicadores extremamente úteis, concretamente em duas áreas específicas da mediação familiar, que são: a determinação do grau de agressão e a triangulação.
21 No que concerne à determinação do grau de agressão importa considerar a distinção entre violência severa física e psicológica e agressão em casos de elevado conflito. A agressão ou violência em caso de elevado conflito caracteriza-se por apresentar um grau não percetível de controlo, intimidação, medo e manipulação, assim como, é situacional, bilateral e encaixa-se na interação conflituosa, enquanto a violência grave se caracteriza por ser unilateral e por apresentar padrões de comportamento, de controlo, manipulação e dominação perpetrados contra a vitima de forma severa e frequente.
Por sua vez, a triangulação ocorre quando a atmosfera do conflito entre duas pessoas é tão tensa e insuportável que uma das partes para aliviar a ansiedade trás uma terceira pessoa para a relação a quem se lamenta, pede conselhos, etc. (Anderson et.al. 2011). Consiste numa dimensão chave que impõe a necessidade de compreender como é que ambas as partes triangulam advogados, família, profissionais do tribunal, terapeutas, escola e os seus filhos no conflito (Anderson et.al. 2011). O processo de triangulação verifica-se quando os pais têm dificuldade em diferenciar as suas próprias necessidades das necessidades dos seus filhos confundindo-as com as suas, o que permite a passagem das suas emoções negativas e distress para as crianças que, desta forma, ficam desprotegidas. Tais situações ocorrem, nomeadamente quando os pais utilizam os filhos como mensageiros ou espiões e nos casos de alienação parental em que um dos pais cria obstáculos aos convívios, exagera as falhas do outro ou denigre a sua imagem perante a criança. De salientar, ainda que a triangulação do sistema de justiça ocorre mediante o recurso aos tribunais com o objetivo de controlar, punir ou obter a condenação pública do outro.
Por outro lado, embora os casos de SD com conflito elevado serem estatisticamente minoritários, são os mais dispendiosos em termos de tempo de tribunal,
22 de recursos profissionais e financeiros (e.g. Andersen, et. al. 2011; Haddad, et. al.2016). De facto, é crucial compreender as características e implicações práticas da definição de elevado conflito de forma a otimizar o processo de Mediação Familiar e fornecer um apoio eficiente às famílias que, no curso da SD, ficam enredadas e presas nas teias da dinâmica do conflito elevado, tendo em conta a proteção das crianças relativamente ao impacto devastador deste género de conflito sobre o seu bem-estar (Haddad, et. al.2016). As áreas de foco evidenciadas por Anderson et.al. (2011) relativamente a situações de elevado conflito fornecem aos mediadores familiares indicações que podem ajudar a determinar quais são estratégias mais apropriadas para intervir em tais situações. Assim, nas situações do cluster 1, em que surgem atribuições negativas e pensamentos contraditórios, o uso de estratégias narrativas, de aceitação individual e recíproca e de responsabilização pela mudança podem ser apropriadas; mas se o conflito se apresenta em desenvolvimento do cluster 1 para o cluster 2, é útil utilizar, entre outras, estratégias destinadas a gerir a excitação emocional e a auxiliar as pessoas a se serenarem, nomeadamente através de pausas durante as sessões, Andersen, et. al.(2011). Desta forma, a definição de elevado conflito, entre outros aspetos, fornece indicações guia para a intervenção em mediação familiar.