À medida que os clínicos e os investigadores procuraram entender a relação entre a obesidade e as perturbações mentais, também tentaram avaliar se a obesidade constitui ou não uma perturbação mental, ou seja, se existe algo patológico no comportamento alimentar dos indivíduos obesos (Dobrow et al., 2002). Diversos estudos e pesquisas mostraram que os indivíduos obesos comem mais e de acordo com as suas maiores dimensões corporais (Black et al., 1992a). No entanto, existe um subgrupo de indivíduos obesos que possuem padrões anormais de alimentação, os obesos com a perturbação de ingestão compulsiva (PIC). Os obesos com comportamentos compulsivos na alimentação podem constituir uma subcategoria na população obesa (Napolitano, Head, Babyak, & Blumenthal, 2001), diferenciando os pacientes obesos com características alimentares específicas (Zwaan, 1997).
A PIC, também conhecida por Binge Eating Disorder desde 1994, encontra-se sob profundas investigações e carece de melhor sistematização (Dias, 2008). A compulsão alimentar foi descrita pela primeira vez por Stunkard (1959), como uma forma patológica de
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hiperfagia que ocorria em alguns pacientes obesos. Actualmente, encontra-se reconhecida pela APA (2002) no DSMIV-TR, no apêndice B, propostas de categorias diagnósticas que necessitam de estudo. Também tem sido referida na literatura como perturbação compulsão alimentar periódica, devido as suas características. Diferentes estudos já demonstram alguns sinais e critérios sugestivos de um diagnóstico. No entanto, ainda persistem incertezas quanto aos seus parâmetros diagnósticos, relativamente à caracterização da quantidade de alimentos ingeridos, duração de um episódio de comer compulsivo, ou mesmo do valor da perda de controlo sobre a ingestão alimentar, tornam difícil a homogeneização desta síndrome (Azevedo, Santos, Fonseca, 2004). Deste modo, os estudos epidemiológicos podem revelar diferentes dados de caracterização da população portadora desta perturbação. Infelizmente, percebe-se que há uma limitação nas pesquisas sobre a PIC, na sua maioria são realizadas entre indivíduos obesos que procuram tratamento em instituições especializadas, conhecendo- se pouco das características desta perturbação entre os indivíduos da população em geral (Johnsen, Gorin, Stone, Grange, 2003).
A PIC é caracterizada pela ingestão de grande quantidade de alimentos em curtos períodos de tempo (até duas horas), acompanhado da sensação de perda de controlo sobre o que comem ou a sua quantidade. Para caracterizar o diagnóstico, esses episódios devem ocorrer pelo menos durante dois dias por semana nos últimos seis meses, associados a algumas características de perda de controlo e não acompanhados de comportamentos compensatórios dirigidos para a perda de peso (APA, 2002; Azevedo et al., 2004; Spitzer, Yanovski, Wadden, Wing, Marcus, Stunkard et al., 1993), sendo o ritual alimentar acompanhado, na maioria destes pacientes, por reacções emocionais de irritabilidade, desinibição e raiva (Lang, Hauser, Sclumpf, Klaghofer, & Buddeber, 2000), assim como por sentimentos de angústia subjectiva, incluindo vergonha, nojo e/ou culpa (Azevedo et al., 2004). Os estudos demonstraram variabilidades consideráveis no comportamento alimentar de comedores compulsivos tanto durante os episódios de compulsão alimentar como nos intervalos (Azevedo et al., 2004). Kaplan e colaboradores (1997) descrevem comportamentos, como por exemplo, espalhar alimentos pela casa ou colocá-los em bolsos e mochilas, durante a refeição dispensarem a comida e, se necessário, escondem-na, cortam os alimentos em pedaços minúsculos e demoram muito tempo para terminar a refeição.
Apesar do diagnóstico de PIC não estar vinculado ao peso corporal, já que pode ocorrer também em indivíduos com peso normal (Azevedo et al., 2004), existe uma nítida associação entre o PIC e a obesidade (Coutinho, 1999), sendo bastante frequente entre os pacientes obesos (Coutinho, 2000; Grilo & Masheb, 2004; Siqueira, Appolinário & Sichieri,
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2005), principalmente quando estão em tratamento para a redução do peso (Coutinho, 2006). A prevalência de PIC varia entre 2% a 3% na população em geral (Marchesini, Natale, Chierici, Manini, Besteghi, Di Domizio et al, 2002; Spitzer et al., 1993), nos pacientes que procuram tratamento clínico para emagrecer os valores encontrados variam entre os 5% e 30% (Cordás, 2001), valores estes que variam entre 27% a 50% nos pacientes que procuram tratamento cirúrgico para a obesidade (Adami, Gandolfo, Bauer & Scopinaro, 1995; Hsu et al., 1996; Saunders, Johnson & Teschner, 1998; Smith, Marcus, Lewis, Fitzgibbon, Schreiner, 1998; Souza, Oliveira & Motta, 2006; Wadden, Sarwer, Womble, Foster, McGuckin & Schimmel, 2001; Zwaan, 2001). Um estudo no Brasil de Petribu e colaboradores (2006), com 400 pacientes a aguardar cirurgia bariátrica verificou a existência de uma prevalência de 56.7% de PIC, dos quais 25.4% era moderada e 31.3 % grave. Estima- se a prevalência da PIC numa dimensão variada, em parte devido às diferentes definições de compulsão alimentar (Stunkard & Allison, 2003), assim como devido as diferentes metodologias utilizadas.
Existem evidências de que os pacientes com PIC possuem uma auto-estima mais baixa (Bonfà et al., 2010), preocupam-se mais com o peso e com a forma física (Zwaan, 1997), ingerem significativamente mais alimentos (Goldfein, Walsh, LaChaussée, Kissileff & Devlin, 1993), apresentam um início mais precoce de obesidade, maiores índices de obesidade, maior flutuação de peso, pior resposta aos regimes de tratamento e dispendem mais tempo com dietas (Azevedo et al., 2004; Dobrow, et al., 2002; Napolitano et al., 2001), do que outros indivíduos que também possuem excesso de peso sem terem a PIC. A própria restrição alimentar é propícia ao aparecimento da PIC (Morgan, Vecchiatti & Negrão, 2002). Deste modo, as dietas alimentares constituem um factor precursor no desenvolvimento de uma perturbação alimentar (Morgan et al., 2002). No entanto, as dietas alimentares não são suficientes para desencadear uma PIC, sendo necessário a interacção entre factores de risco e outros acontecimentos precipitantes (Souza et al., 2006). Deste modo, a PIC apresenta uma etiologia multifactorial, composta por predisposições genéticas, socioculturais e vulnerabilidades biológicas e psicológicas (Morgan et al., 2002).
Os pacientes com PIC apresentam níveis mais elevados de psicopatologia comparativamente com outros obesos, não apenas a que está relacionada com o comportamento alimentar, mas também com outros sintomas psiquiátricos em geral (Azevedo et al., 2004; Coutinho, 2000; Napolitano et al., 2001; Telch & Agras, 1994). Os dados sugerem que os níveis de psicopatologia exibidos pelos pacientes com PIC estão associados
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ao número de episódios de compulsão alimentar e não ao seu grau de obesidade (Dobrow et al., 2002; Hay & Fairburn, 1998).
Frequentemente a PIC encontra-se associada a depressão (Jones-Corneille, Wadden, Sarwer, Faulconbridge, Fabricatore, Stack et al., 2010) ansiedade e abuso de substâncias (Bulik, Sullivan & Kendler, 2002; Fontenelle, Mendlowicz, Menezes, Papelbaum, Freitas, Godoy-Matos et al., 2003; Napolitano et al., 2001). A frequência de PIC aparenta ser maior nos pacientes com alto grau de ansiedade como traço de personalidade (Matos & Zanella, 2002). Estudos mostram que existe uma associação positiva entre as perturbações da ansiedade e as perturbações alimentares, sendo que alguns sugerem que as perturbações da ansiedade precedem as perturbações alimentares (Matos & Zanella, 2002; Thornton & Russel, 1997). A PIC tem sido referida como um potencial factor de risco para a depressão e a obesidade (Friedman & Brownell, 1995; Simon et al., 2006). Assim como, os sintomas depressivos podem tornar os pacientes mais vulneráveis a apresentarem compulsão alimentar ou uma recidiva da compulsão alimentar após um tratamento para perda de peso (Sherwood, Jeffery, Wing, 1999; Wardle, Waller & Rapoport, 2001). As perturbações da personalidade são frequentes em pacientes com PIC (Specker, Zwaan, Raymond & Mitchell, 1994). Em pacientes com perturbações da personalidade, a impulsividade pode desencadear episódios PIC (Steiger, Lehoux & Gauvin, 1994). Deste modo os pacientes com perturbações de humor e perturbações da personalidade podem ter mais dificuldade em controlar o seu peso corporal (Sansone et al., 2001; Stunkard, Fernstrom, Price, Frank & Kupfer, 1990).
Apesar de menos frequente a bulimia nervosa (BN) também pode estar presente em pacientes propostos para a cirurgia bariátrica (Fandiño, Benchimol, Coutinho, Appolinário, 2004). Hsu e colaboradores (1996) realizaram um estudo de acompanhamento longitudinal, com uma amostra de 120 pacientes obesos mórbidos, constataram que no momento da avaliação para a cirurgia bariática 20.8 % apresentavam critérios para a BN.