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Chapitre 4 Essais de traction

4.5 Approximation de la vraie relation contrainte-déformation

Uma história de Dom Quixote Moacyr Scliar Quando se fala num quixote, as pessoas logo pensam num desastrado, num sujeito que não consegue fazer nada direito; que tem boas ideias, mas sempre quebra a cara. E até repetem aquela história que o escritor espanhol Cervantes contou sobre o Dom Quixote.

Ele era um daqueles cavaleiros andantes que usavam armadura, lança e escudo; percorria as planícies da Espanha num cavalo muito magro e muito feio, chamado Rocinante, procurando inimigos a quem pudesse desafiar em nome da moça que amava, e que ele chamava de Dulcineia. Pois um dia este Dom Quixote avistou ao longe uns moinhos de vento. Naquela época, vocês sabem, o trigo era moído desta maneira: havia um enorme cata-vento que fazia girar a máquina de moer. Pois o Dom Quixote viu, nesses moinhos, gigantes que agitavam braços, desafiando-o para a luta.

Sancho Pança, seu ajudante, tentou convencê-lo de que não havia gigante nenhum; mas foi inútil.

Dom Quixote estava certo de que aquele era o grande combate de sua vida. Empunhando a lança, partiu a galope contra os gigantes...

O resultado, diz Cervantes, foi desastroso. A lança do cavaleiro ficou presa nas asas do moinho, ele foi levantado no ar e depois jogado para longe. Para Sancho, e para todas as pessoas que ali viviam, uma clara prova de que o homem era mesmo maluco.

Essa era a história que Cervantes contava. Já meu tatara-tatara-tataravô, que também conheceu Dom Quixote, narrava o episódio de uma maneira inteiramente diferente. Ele dizia que, de fato, Dom Quixote viu os moinhos e que ficou fascinado com eles, mas não por confundi-los com gigantes. “Se eu conseguir enfiar minha lança naquelas asas que giram”,

pensou, “e se puder aguentar firme, terei descoberto uma coisa sensacional”.

E foi o que ele tentou. Não deu completamente certo, porque nada do que a gente faz dá completamente certo; mas, no momento em que a asa do moinho levantava o Dom Quixote, ele viveu seu momento de glória. Estava subindo, como os astronautas hoje sobem; estava avistando uma paisagem maravilhosa, os campos cultivados, as casas, talvez o mar, lá longe, talvez as terras de além-mar, com as quais todo o mundo sonhava. Mais que isso, ele tinha descoberto uma maneira sensacional de se divertir.

É verdade que levou um tombo, um tombo feio. Mas isso, naquele momento, não tinha importância. Não para Dom Quixote, o inventor da roda-gigante (PRIETO, 2001).

Uma leitura atenta do texto, considerando a Teoria de Argumentação na Língua, levará o leitor à construção de sentidos diferentes para Dom Quixote a partir dos encadeamentos da narrativa do texto Uma história de Dom Quixote que abre a unidade estudada no livro didático.

Assim, construímos os seguintes encadeamentos: Dom Quixote DC desastrado

Dom Quixote DC cavaleiro andante Dom Quixote DC maluco

Dom Quixote DC inventor da roda-gigante

Esperamos que esse conhecimento teórico possibilite ao professor um olhar diferenciado e mais apurado no seu planejamento quanto às atividades de leitura. Ao trabalhar nessa perspectiva, as questões propostas explicitam as relações linguísticas do texto. A seguir apresentamos algumas sugestões de leitura que poderiam ser propostas a alunos do 6º ano da Educação Básica.

Em relação ao primeiro encadeamento, baseado na argumentação interna de quixote, poderíamos solicitar a análise do primeiro período do texto:

1) Como definir “um quixote” a partir da colocação abaixo?

“Quando se fala num quixote, as pessoas logo pensam num desastrado, num sujeito que não consegue fazer nada direito; que tem boas ideias, mas sempre quebra a cara.”

2) Observe os segmentos destacados no período e responda:

Qual a possível relação de sentido entre eles? Procure demonstrá-la a partir de um esquema.

3) Em um segundo momento, Quixote é apresentado como aquele “que tem boas ideias, mas sempre quebra a cara”. “Ter boas ideias” nos leva a pensar em “quebrar a cara”? Como foi

possível estabelecer essa relação pelo uso da língua?

Todas as atividades encaminham para a presença de orientação argumentativa na língua. Quixote traz como possibilidade de argumentação interna “desastrado”, por isso a colocação as pessoas logo pensam num desastrado presente no discurso. Já a questão (2)

remete à formação dos seguintes encadeamentos: “desastrado (DC) não faz nada direito; não

faz direito (PT) tem boas ideias, tem boas ideias (PT) quebra a cara”. Por fim, na questão (3) a

conjunção “mas” revela o sentido dos dois encadeamentos; articula a expressão “boas ideias” com “quebrar a cara” com a presença de (PT). Isso é necessário no momento em que há uma

quebra de expectativa, pois se espera que aquele que tem boas ideias não quebre a cara.

Os demais encadeamentos sobre os possíveis sentidos para “quixote” poderiam sugerir

4) Podemos dizer que o “cavaleiro andante” é apresentado no texto sob dois aspectos. Qual a

alternativa que explicita esses sentidos? ( ) usar armadura- maluco

( ) usar armadura- inventor ( ) maluco- lutar com moinhos ( ) inventor- momento de glória ( ) maluco- inventor

Na sugestão acima, trabalha-se com orientações diferentes de sentido, ou seja, o

locutor faz, diante da mesma ação de “jogar-se contra os moinhos de vento”, duas escolhas:

uma pessoa maluca e um inventor. Mais uma vez, trabalhamos com o princípio de interdependência semântica, em que o sentido do enunciado será a partir da relação de dependência estabelecida entre os segmentos, que só estarão completos de sentido na relação.