2.7 La m´ ethode de Gauss Newton
2.7.4 Application de la m´ ethode de Gauss-Newton ` a la localisation d’objets
O trabalho de campo realizado foi, sem dúvida, uma das partes mais complexas desta pesquisa, uma vez que se voltou para as experiências e vivências dos professores que participam da vida e constroem o cotidiano dos cursos de Letras que compõem o corpus deste estudo. Nas visitas aos Cursos para a realização das entrevistas com os professores que se dispuseram a ser copartícipes da pesquisa, elaborei um diário de viagens, anotando as impressões dos lugares, fotografando cenas e ambientes que chamaram à atenção.
Dessa forma, fui estruturando um quadro configurativo da realidade de cada local visitado, tentando costurar/decifrar “retalhos e retratos” da imensa “colcha” que se apresentava em cada universidade, em cada cidade visitada.
Ressalto, aqui, a impossibilidade de neutralidade em toda e qualquer pesquisa e, especialmente, em pesquisas dessa natureza. Chamo também a atenção para determinados momentos em que sujeito e objeto se entrecruzaram, sendo difícil realizar o resgate desse processo, por meio de palavras, uma vez que a convivência dialética sujeito-objeto e a construção dos conhecimentos passam um pouco pelo intangível – é algo como tentar apreender um “peixe escorregadio”. Relacionar-se com o objeto da pesquisa, neste caso, humano e historicamente situado, com toda carga emotiva, cultural, subjetiva, inerente às pessoas, não é um trabalho simples. Ao mesmo tempo em que fui construindo o objeto de pesquisa, fui também construída nesse processo. É exatamente nessa dialética que residem dificuldades, belezas, riscos e as contribuições desse trabalho, porque ele somente foi possível com a disposição e a colaboração de todos os envolvidos no processo para a obtenção do resultado final.
Devido ao caráter subjetivo desta pesquisa, principalmente em relação às entrevistas, procurei uma atitude de “estranhamento”63, um controle contínuo de minha parte para transformar o familiar (o ambiente acadêmico) em algo estranho.
63 Essa atitude de “estranhamento” é uma proposta de antropólogos e sociólogos, conforme explicita Marli
André, in: FAZENDA, Ivani (Org), 2004. O “estranhamento” seria uma atitude ao mesmo tempo teórica e metodológica: por um lado, deve-se jogar com as categorias teóricas para se poder ver além do aparente e, por
Não é fácil entrevistar professores doutores, porque estão sempre muito atarefados, envolvidos em inúmeros trabalhos que compreendem ensino, pesquisa e extensão. Tampouco é simples chegar até o ambiente acadêmico e ter acesso aos materiais necessários para a pesquisa. As primeiras dificuldades encontradas têm relação com o próprio ingresso nas instituições e com a comunicação com os profissionais que nelas trabalham. Em parte, isso causou-me surpresa, afinal, a academia vive sob os três pilares mencionados anteriormente: o ensino, a pesquisa e a extensão. Seria, portanto, natural que houvesse uma abertura para a recepção de uma aluna de um programa de Pós-Graduação de uma universidade federal. Também seria de se esperar um interesse por parcerias entre as universidades: todas públicas e, oficialmente, com os mesmos propósitos, entendido aqui que todas têm como objetivo a excelência no ensino, o desenvolvimento e o aprimoramento da pesquisa e a ponte com a comunidade, através da extensão.
Porém, as dificuldades de comunicação tiveram suas fontes em vários motivos, entre os quais cito a falta de tempo, em razão do número de aulas, da necessidade de participação de reuniões, da orientação de alunos. Além disso, cabe ressaltar que os professores estão submetidos a uma carreira acadêmica que exige um processo de formação contínua, a realização de publicações e a participação em eventos acadêmico-científicos, pois é através desses fatores que o docente é avaliado pelas instâncias avaliadoras, dentre as quais se destaca a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Assim, pode-se dizer que a palavra de ordem para os docentes de instituições de Ensino Superior é Qualis. É nesse sentido, também, que fala Silva (2008, p. 4 )64
:
A sua revista tem Qualis? A primeira vez que me fizeram esta pergunta, a minha reação foi de perplexidade (e, ironicamente, me veio à mente o nome de uma marca de margarina). Respondi de maneira educada e sincera ao meu inquiridor: desconhecia o “qualis”. Admito, no entanto, que este tipo de pergunta me causa certa irritabilidade, imediatamente controlada através do exercício da tolerância acadêmica. Mas como ficar insensível diante dos modismos, mecanismos de controle e das manias classificatórias criadas pela “comunidade acadêmica”, as quais se fundamentam em critérios quantitativos pretensamente objetivos? Como não se irritar quando percebemos que determinados indivíduos se preocupam mais com os meios do que com os fins?
De qualquer forma, logo esqueci a tal pergunta – e o meu interlocutor pareceu satisfeito com a resposta. Recentemente, o “qualis” ressurgiu do recôndito da minha memória, provocada por um diálogo numa dessas reuniões acadêmicas que ocupam boa parte da nossa vida. Fui informado, então, de que a Revista Espaço
Acadêmico (sim, essa mesma, caros leitores!), tem o “qualis”. Que alegria, que
satisfação! Quase que dava um efusivo abraço no amigo que me concedia a graça
outro lado, precisa-se treinar para “observar tudo”, para “enxergar” cada vez mais, tentando vencer o obstáculo do processo naturalmente seletivo da observação (p. 43).
da boa nova. Agora tinha a resposta esperada pelo meu antigo inquiridor e aos que porventura venham a questionar se a revista tem o “qualis” (pelo menos, é claro, até a próxima avaliação das “autoridades competentes”).
Qualis é o conjunto de procedimentos utilizados pela Capes para a diferenciação da
qualidade da produção bibliográfica dos programas de Pós-Graduação. A estratificação da qualidade dessa produção é realizada de forma indireta, pela classificação dos veículos utilizados na sua divulgação. Dessa forma, o Qualis afere a qualidade dos artigos e de outros tipos de produção, a partir da análise da qualidade dos periódicos científicos, jornais, eventos, livros, etc.
O trabalho do docente da Educação Superior, na contemporaneidade, está projetado segundo a lógica da eficácia e da produtividade, assemelhando o professor a um trabalhador de indústria, conforme denuncia Santos (2006). Essa realidade, sem dúvida, refletiu-se neste trabalho. Em Belo Horizonte, capital do Estado, foi impossível reunir as pessoas em um mesmo dia e horário. A coleta de dados foi realizada em diferentes momentos, adequando-se à disponibilidade dos professores.
No interior de Minas Gerais, apenas em São João Del Rei foi possível reunir os docentes em um mesmo dia, aproveitando o findar de uma reunião de colegiado. Mesmo assim, uma docente não pôde comparecer na hora marcada. Em Uberaba, tive que permanecer durante três dias na cidade. Cada professor foi entrevistado em dias e horários diferentes, em razão dos inúmeros compromissos dos mesmos. Ao entrevistar o Coordenador de Curso, este foi interrompido várias vezes por professores que lhe faziam perguntas e pela secretária, que lhe trazia papéis para assinar, demonstrando o quanto este professor vive assoberbado em seu dia-a-dia. Em Ouro Preto, um dos professores não pôde atender-me pessoalmente, em virtude de trabalhos no exterior. Este docente respondeu às questões por correio eletrônico. Em Juiz de Fora e Viçosa, foram necessárias inúmeras correspondências (por correio postal e correio eletrônico) para chegar a um consenso em relação ao dia e ao horário adequados para a realização das entrevistas.
Outro motivo que trouxe dificuldades à pesquisa tem a ver com a própria metáfora de
catedral, atribuída à universidade por Chiappini (1983). E outra obra, Reinvenção da catedral
(2005), a pesquisadora afirma que hoje a universidade está mais aberta à sociedade, está mais preocupada em interferir positivamente na comunidade que a cerca, bem como em promover laços entre o Ensino Superior e o Ensino Básico. Porém, ainda, de acordo com Chiappini, há
muito para se fazer. Reiterando em certa medida essas ideias, a pesquisadora Cademartori (1986, p. 15) afirma que:
A aproximação do ensino superior ao ensino básico é recente. O afastamento entre os dois níveis de ensino – básico e superior – vem de muito tempo e pode ser atribuído a várias causas. A principal entre elas talvez seja a sofisticação do ensino superior de Letras, que passou do culto à erudição histórica e crítica para a intoxicação teórica provocada pela implantação dos cursos de pós-graduação no país.
Para fazer jus a esse “recinto sagrado”, é necessário possuir algumas credenciais. O
capital social é uma dessas “senhas” para se conseguir a entrada nas universidades:
O capital social é o conjunto de recursos atuais ou potenciais que estão ligados à posse de uma rede durável de relações mais ou menos institucionalizadas de interconhecimento e de inter-reconhecimento ou, em outros termos, à vinculação a
um grupo, como conjunto de agentes que não somente são dotados de propriedades
comuns (passíveis de serem percebidas pelo observador, pelos outros ou por eles mesmos), mas também são unidos por ligações permanentes e úteis (BOURDIEU, 2003, p. 67, grifos do autor).
Bourdieu reconhece essas ligações sociais como um capital, porque elas são fundadas em trocas inseparavelmente materiais e simbólicas, cuja instauração e perpetuação supõem o (re)conhecimento entre as pessoas e o (re)conhecimento da proximidade entre elas.
Em virtude dos trâmites inerentes a uma pesquisa que envolve seres humanos como sujeitos do processo, esta teve de ser submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa COEP/UFMG, para ser aprovada.65 Sendo assim, cada Colegiado de Curso envolvido recebeu um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, para repassar aos professores interessados em participar da pesquisa, além de uma cópia do projeto de pesquisa, seguindo as determinações do COEP (Anexo nº 2). Além disso, para o início das visitas às universidades e das atividades de pesquisa, o COEP exigiu as cartas de anuência de cada Instituição (Anexo nº 3). Porém, saber que a pesquisa já havia sido aprovada pela Câmara do Departamento de Métodos e Técnicas de Ensino da FAE/UFMG e que havia recebido o parecer final do COEP, não bastou para a recepção da doutoranda nas universidades.
Na UFOP, de Ouro Preto, meu contato foi intermediado por meio de um amigo, que é professor da área Linguística da instituição. Ele fez os primeiros contatos com o Colegiado de Curso, que já havia recebido todos os materiais e esclarecimentos sobre a pesquisa, via correio. Na UFJF, de Juiz de Fora, contei com os laços de amizade da orientadora desta tese
com uma professora da Instituição, que muito contribui para com os trabalhos do Grupo de Pesquisa GPELL, do qual faço parte.
Minha entrada na UFV foi intermediada pela professora Coordenadora do Curso de Letras da UFJF. A professora que estava coordenando o Curso de Letras na UFV havia sido aluna na graduação e no mestrado na UFJF. A rede de relações que estabeleci na UFJF facilitou o meu acesso em Viçosa. Foram necessárias duas viagens para esta cidade. A primeira viagem foi com o intuito de apresentar-me à Coordenação do Curso, oferecer esclarecimento em relação aos objetivos da pesquisa, à checagem quanto ao recebimento do material encaminhado ao Colegiado de Curso, via correio postal – até então não havia recebido resposta da UFV sobre o recebimento do material. Na minha visita, a professora coordenadora afirmou que os materiais haviam chegado e que seriam analisados. Na ocasião, ela agendou a realização das entrevistas e da coleta dos documentos para alguns meses depois. Na UFTM, de Uberaba, participei do I SELL – Simpósio de Estudos Linguísticos e Literários, em 2007, com apresentação de trabalho. Nesse evento, apresentei-me ao Coordenador de Curso, e firmamos a realização da coleta de dados nessa instituição para 2008.
Na UFMG, de Belo Horizonte, não tive dificuldade para a realização do contato com a Coordenação de Curso. Para as demais entrevistas, porém, tive de valer-me de contatos pessoais com professores que havia conhecido no período de graduação, além de outros contatos mais recentes.
Somente a UFSJ, de São João Del Rei, enviou-me documentos e a matriz curricular pelo correio, em resposta à minha carta. Em todas as outras instituições o “capital social” foi imprescindível para o bom andamento da pesquisa, não obstante ser a universidade uma instituição em cujo tripé esteja a pesquisa. Pareceu-me um paradoxo tamanha dificuldade para chegar aos docentes e aos documentos oficiais dos cursos de Letras, para a realização desta pesquisa, cujo objetivo maior é colaborar para uma ampla reflexão sobre o papel da literatura nos cursos de Letras e a formação do futuro formador de leitores literários (o aluno em curso na licenciatura), tal qual estava explícito nos documentos encaminhados às instituições.
Na UFU, em Uberlândia, não consegui entrada, apesar dos vários contatos realizados. A primeira tentativa deu-se por meio de uma recomendação pessoal da Coordenação de Curso da UFSJ, que conhecia, de longa data, o Diretor de Ensino da UFU. Encaminhei a ele carta com registro de recebimento. O Diretor colocou-me em contato com a Coordenação do Curso de Letras, que afirmou não ser possível fazer a pesquisa no Curso de Letras da Instituição pelo fato de este estar em processo de implementação de novo currículo, o que, no entendimento
do Colegiado, prejudicaria um olhar preciso acerca do Curso, uma vez que o currículo estava muito recente. A coordenação afirmou que estariam praticamente começando um novo curso, em razão das novas Diretrizes. Em resposta, afirmei que compreendia a situação exposta, mas que esse fato não representaria problema para a pesquisa e, ainda, informei que a maioria das Instituições mineiras estava também reformulando seus currículos e, mesmo assim, havia me concedido anuência. Além disso, e, em face da realidade exposta, sugeri que a pesquisa de campo na UFU fosse, então, realizada em data posterior, quando o currículo já estivesse em completo funcionamento. Não recebi resposta dessa comunicação e fiquei, portanto, sem a anuência da referida Instituição.
Em 21 de agosto de 2008, fui à UFU pessoalmente, para uma última tentativa. Não encontrei a Coordenadora, porém obtive a informação da Secretaria do Curso de que a nova matriz curricular já estava em funcionamento, implantada até o 2º período do Curso. Deixei uma carta de próprio punho à docente responsável pelo Curso, alegando que somente a instituição em questão não havia permitido a realização da pesquisa e a entrevista com os professores. Na carta (anexo nº 4) forneci todos os meus contatos – telefone, correio eletrônico –, no entanto também não recebi retorno. Dessa forma, em relação à UFU, trabalho apenas com o material público disponível na Internet, a saber, sua nova matriz curricular.
Outro aspecto conflitante no desencadear deste trabalho diz respeito à própria especificidade da entrevista como instrumento de coleta de dados. Para além de ser “um encontro entre duas pessoas, a fim de que uma delas obtenha informações a respeito de determinado assunto, mediante uma conversação de natureza profissional [que] proporciona ao entrevistador, verbalmente, a informação necessária” (LAKATOS, 1993, pp. 195-196), preferi trazer a entrevista para a seara de conflitos e contradições. Nesse processo, é necessário considerar os critérios de representatividade da fala e a questão da sociabilidade que está em pauta na interação pesquisador-pesquisado, com jogos de poder próprios a qualquer interação entre duas pessoas. Imbuída dessa concepção de entrevista, busquei uma horizontalidade nas relações de poder.
3.2 Retratos 3 x 4: currículos dos cursos de Letras - que revelam sobre o ensino de