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3. RÉSULTATS

3.2 ANALYSE THÉMATIQUE DES ENTRETIENS

3.2.1 Histoire de la pratique

3.2.1.2.2 Apparition de nouvelles motivations

Quando se trata do trabalho com leitura literária com o objetivo de formar leitores, podemos dizer que a prática da leitura como uma atividade permanente diária em sala de aula tem valor inquestionável. Segundo Kátia Lomba Bräkling (2008)29, a nomenclatura “atividade permanente” é inspirada em Lerner (2002) e é uma modalidade organizativa que otimiza a utilização do tempo na organização do trabalho do ensino de linguagem. Segundo Bräkling (2008), a atividade permanente é um tipo de atividade independente que

A orientação em relação à realização da proposta de leitura diária na sala de aula se evidencia nos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) de Língua Portuguesa para o Ensino Fundamental (BRASIL, 1997), em que, na apresentação de blocos de conteúdo e tratamento didático, no caso da língua escrita e, mais especificamente, prática de leitura, a expressão

29 Disponível em

http://www.itanhaem.sp.gov.br/teleduc4/cursos/diretorio/atividades_26_19/MODALIDADES%20ORGANIZAT IVAS%20MODALIDADES%20DIDATICAS%20DE%20ENSINO%20E%20TIPOS%20DE%20ATIVIDADE S.pdf. Acesso em 26 jan. 2015.

“uma prática constante de leitura na escola” (p. 43) aparece mais de uma vez nos comentários sobre o aprendizado inicial da leitura. Em sugestões para o trabalho com os alunos, a primeira delas é a leitura diária. A este respeito, o documento traz a seguinte orientação: “o trabalho com leitura deve ser diário” (p. 44).

Lucy Calkins, pesquisadora americana, também ressalta a importância da leitura frequente para os alunos: “A percepção mais clara de um professor em termos de leitura é de observar como as crianças gastam tempo30 com isso no currículo” (CALKINS, 2001, p. 327, tradução nossa).

A prática da leitura diária em sala de aula era um ponto considerado como pré- requisito para a seleção das escolas, pois, caso as leituras não ocorressem com frequência, não teríamos material para ser coletado. Assim, ao selecionar as instituições, tivemos o cuidado de perguntar para quem nos recebeu se a atividade de leitura era realizada diariamente. Sabíamos, porém, que não havia garantias, pois, independente da afirmativa no primeiro contato, as propostas realizadas em sala de aula e a frequência com que acontecem ficam sempre, de alguma forma, nas mãos do professor.

Durante as entrevistas, as professoras destacaram que é um trabalho diário que em alguns momentos em função do cronograma escolar, acaba sendo adiado ou não acontecendo, ocasiões em que os alunos se queixam:

Escola 1

Professora - A gente tenta fazer a leitura todos os dias. É um trabalho diário. Quando a gente não lê, eles falam: Ah, a gente não conseguiu ler hoje! E ficam [chateados]... Porque já faz parte da rotina. Eles sabem que a gente vai ler todos os dias.

Escola 2

Professora - É permanente! É permanente! É diário isso! E eles já sabem. Primeiro, eu faço primeiro a correção da lição de casa e aí eu comento, às vezes até no dia anterior, até eu comento: Olha, amanhã, nós vamos ter tal texto!

Professora - Professora, você passou... Não! A professora vai dar daqui a pouquinho! [Exemplifica seu diálogo com os alunos.] Porque às vezes tem uma prova, tem uma atividade valendo nota e que tem que ser dada no começo, né, da aula, então fica para depois. A professora já... Nós já vamos fazer a leitura, então eles adoram!

30 Importante ressaltar que a expressão “gastam tempo” utilizada pela autora deve ser entendida com um sentido

A leitura é então reconhecida como uma proposta que deve estar presente na sala de aula cotidianamente. De alguma forma, as professoras buscam garantir que assim aconteça e

os alunos também esperam o mesmo. No caso dos comentários em destaque, a professora da Escola 2, utiliza inclusive o termo permanente, referindo-se à modalidade organizativa atividade permanente, citada anteriormente como uma das formas de organizar o tempo pedagógico (BRÄKLING, 2008).

A professora da Escola 1 deu como exemplo uma situação em que deixou de realizar a leitura e isso provocou incômodo nos alunos. Já a professora da Escola 2 fez referência a uma ocasião em que precisou mudar o horário da proposta, apesar de não deixar de fazê-la, e também nesse caso relata a queixa dos alunos, o que evidencia que percebem interesse dos alunos pela atividade. Entretanto, na observação da sala de aula na Escola 1, os alunos, ao contrário, manifestaram estranhamento diante da repetição da proposta de leitura.

Na Escola 1, a atividade de leitura se realizou em todas as visitas que fizemos durante nosso tempo de observação. Sem dúvida, isso estava, de alguma forma, garantido pela maior facilidade de comunicação com a professora, que entrou em contato por telefone a tempo de avisar sobre a suspensão da atividade. Além disso, ao contrário do que foi percebido na Escola 2, o trabalho da Escola 1 parece ter uma relação direta e declarada com o que é determinado pelo currículo e até mesmo pelas demandas de pais e alunos. Foram constantes as situações em que a professora, em conversas informais antes ou depois da realização da proposta de leitura, contava a quantidade de capítulos e de dias letivos até o final do semestre, no intuito de garantir que se concluísse a leitura do livro no período. Essa situação não foi percebida na Escola 2, onde, como se verá mais adiante, a leitura aparecia na rotina como atividade constante mas sem vínculo ou preocupação com o término do semestre letivo31.

Na Escola 1 foi possível inclusive ouvir comentários como: “Vamos ler hoje de novo?”, revelando certo estranhamento com a frequência constante da realização de leitura, a qual acreditamos que estivesse acontecendo mais em função da nossa presença, previamente agendada na sala de aula. Essas poucas manifestações aconteceram por alunos que se sentavam na parte da frente da sala e que, imaginamos, não percebiam nossa presença. Parece-nos que, para outros, o fato de estarmos lá para observar a situação de leitura já justificava, de alguma forma, a realização da atividade. De certa maneira isto evidencia que a

31 Vale destacar que essa situação específica também pode ter sido beneficiada pelo fato de que as leituras

aconteceram na Escola 2 após a realização das avaliações e da entrega das notas para os alunos, como mencionado anteriormente. Isto é, numa época em que praticamente não há cobranças em relação ao cumprimento de tarefas e conteúdos.

situação de leitura não era tão constante assim e provavelmente não fazia parte da rotina diária dos alunos.

Apesar de a professora da Escola 1 ter mencionado na entrevista apenas uma situação da rotina em que deixou de realizar a leitura e a da Escola 2 ter feito referência a um momento em que somente precisou mudar o horário da realização da proposta, estes aspectos, atrelados a outros percebidos durante o período de observação nas escolas, nos levam a crer que não há grandes diferenças em relação à frequência com que as leituras acontecem nas duas instituições. As particularidades ficam mais evidentes quando consideramos os elementos aos quais a realização ou não dessas leituras estão relacionadas: no caso da Escola 1, um currículo fechado, controlado pela direção do colégio e, de alguma forma, pelo público ao qual a escola atende e, no caso da Escola 2, as demandas da rede pública, como a realização do SARESP e de outras atividades que fazem parte, a nosso ver, da rotina de qualquer escola, como formatura, comemoração do Dia das Crianças, entre outras.

De qualquer forma, ao identificarmos esses contextos e as particularidades a respeito da periodicidade com que a leitura acontece na rotina desses alunos, revela-se a valorização ou não da atividade de leitura, em alguns momentos deixando de acontecer e em outros se mantendo na rotina em detrimento de demandas que fazem parte do cenário de todas as escolas.

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