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O tratamento historiográfico dado ao registro da arquitetura e da arte em um primeiro momento seguiu normas comuns de apreciação devido à aparente semelhança entre seus objetos de estudo e suas condições temporais e atemporais. Outra característica que permitia essa mesma análise era uma periodização que englobava as duas disciplinas, definindo estilos comuns resultados de uma visão compartilhada (WAISMAN, 2013, p.20), como a narração contida na arquitetura e nas artes góticas e o uso da espacialização em perspectiva renascentista também pela pintura. O processo até então artesanal dessas artes também possibilitava a associação entre suas concepções, e somente a partir da Primeira Revolução Industrial que seus caminhos se separam. No aspecto técnico, Waisman define que o paralelismo com as artes se manteve pela produção e escalas artesanais, mas a partir do momento das transformações nos meios de produção industrial, as técnicas construtivas e a escala produtiva da arquitetura diferenciam a concepção e a execução técnica do objeto arquitetônico por meio de relações muito mais complexas entre o urbano, o humano, o econômico e o social.

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Em um primeiro momento, na Alemanha, inicia-se a conceituação teórica acerca da história da arte como uma disciplina autônoma acadêmica para depois se disseminar a outros países europeus e aos Estados Unidos (TOURNIKIOTIS, 1999, p. 21). Ocorre uma mudança entre referenciais, no que antes se escrevia sobre o ‘presente’ do autor historiador, como no século XVI em que Vasari publica seus textos críticos acerca da vida de artistas de seu próprio tempo ou Ruskin escreve sobre a arquitetura veneziana; a partir do século XVIII, alemães e depois ingleses voltam seus olhos às referências do passado como indício narrativo. O que segue são mudanças no gênero literário, da biografia do artista para a escrita de uma história da arte e da arquitetura "científica", convenções do final do século XIX, ‘à medida que as obras de arquitetura ficaram sujeitas a leituras formais e iconográficas’ (LEACH, 2010, p. 10).

Johann Joachim Winckelmann (1717- 1768) é considerado como ‘pai da história da arte moderna’ por alguns autores (WATKIN, 1980, p.01) com sua obra

Entwurf einer historischen Architektur1 (Viena, 1721), com textos originais em alemão

e francês e traduzida ao inglês em 1730 por Thomas Lediard com o título de A Plan

of Civil and Historical Architecture, in the representation of the most noted building of foreign nations, both ancient and modern. Sua importância no contexto das

publicações de arquitetura é a de, segundo Watkin, possuir a pretensão de ‘ser a primeira história comparativa do mundo da arquitetura’, inaugurando ilustrações de edifícios do Egito, da China e do Islã por meio de 86 imagens em páginas duplas que combinavam, para a interpretação do leitor, imaginação e ‘ecletismo criativo’. Suas fontes históricas consideravam investigações acadêmicas, publicadas por autores antigos, além de moedas, escritos de arqueologistas modernos e viajantes, e evidências contidas nos edifícios sobreviventes ou em suas ruínas.

Outra obra importante do mesmo autor é Geschichte der Kunst des Alterthums2

(Dresden, 1764) traduzido por G.H. Lodge como The History of Ancient Art (Boston 1880). Aqui Winckelmann, através de uma interpretação cíclica entre as artes e dando ênfase ao conceito de ‘estilo’ artístico, estabeleceu ‘a noção de história cultural em que a arte de um período é vista como refletindo o espírito da era’ (WATKIN, 1980,

1 Design de uma arquitetura histórica - tradução livre do título para o português 2 História da arte da antiguidade - tradução livre do título para o português

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p.02), portanto um estilo estava conectado às condições sociais, políticas, aos costumes, ao clima e à religião, no caso de seu estudo aplicado à arte grega.

Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) causou impacto principalmente à história intelectual quando seguiu a linha de pensamento onde a arte desempenha um papel necessário na evolução do espírito para uma auto compreensão do seu ser. A arquitetura não era seu interesse primário, mas a influência de sua percepção, onde o espírito de uma época seria fonte de novas formas para se manifestar materialmente.

Carl Schnaase (1798-1875), aluno de Hegel, segue no desenvolvimento interpretativo alemão do estilo arquitetônico como resultado do Zeitgeist - espírito da época - e do Volksgeist - o espírito da nação. Rejeitava a tradição romântica estabelecida no século XIX como base de interpretação de um edifício, negando seu ‘crescimento orgânico’ e a ideia de um ‘funcionalismo puro’ comparado ao de um corpo humano. No pensamento contrário estava Franz Theodor Kugler (1808- 1858), que conforme Pevsner (WATKIN, 1980, p.08) ‘é o primeiro homem a quem nós podemos chamar historiador de arte e que foi [também] professor da História da Arte’ pela Academia de Arte em Berlim em 1833, onde foi o responsável por transpor o domínio pela arquitetura medieval como principal assunto de estudo para os historiadores da arquitetura.

Não obstante, até o final do século XIX as teorias estéticas serviram de referência às análises dos campos de artes plásticas e de arquitetura, como os conceitos de Heinrich Wölfflin (1864-1945)na compreensão dos objetos históricos, onde procurou estabelecer ‘leis’ ou diretrizes que justificassem padrões nas transições de estilos atribuídas à arte em diferentes períodos.

Wölfflin, historiador da arte suíço e professor de história na Universidade da Basiléia, ainda seguia o conservadorismo romântico e via o Renascimento a partir do passado, de um estilo arquitetônico como a melhor forma de seguir com a qualidade da vida moderna: ‘o que importa não é os produtos individuais de uma época, mas o temperamento fundamental que os produziu’.3 Sua grande contribuição se deve à seu

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apreço pela visão da obra de arte individual, pela sua maneira de comparar e contrastar objetos fundamentando o ensino da arte e da arquitetura até os dias atuais, como pela exemplificação de palestras e aulas por técnicas comparativas entre slides e imagens.

Uma menção de pioneirismo na área dos estudos urbanos, onde a cidade é descrita como objeto de arte, é a obra Der Städtebau nach seinen künstlerischen

Grundsätzen4 (Viena, 1889), livro popular e influente em sua época de acordo com

Watkin (1980), e escrita pelo arquiteto e historiador da arte austríaco Camillo Sitte (1843-1903), além de reforçar a apreciação do autor ao planejamento urbanístico Barroco.

Um segundo momento histórico que reforça a importância dos historiadores de arte alemães e austríacos sobre a História da Arquitetura decorre do fato da diáspora ocorrida pelas Grandes Guerras Mundiais. Esses historiadores viram-se obrigados a deixar seus países e sua língua a partir da década de 1930, adotando uma nova nação e mesmo uma nova universidade para o desenvolvimento de um novo sistema entre teoria, metodologia e ensino das disciplinas de história da arte e história da arquitetura. Tournikiotis (1999, p. 48-49) ressalta que esses países de destino ainda ‘não estavam prontos para aceitar uma abordagem tão integrada de uma só vez’, pela não completa autonomia da história da arte, cuja literatura fundamental estava ainda em alemão. Com as publicações e traduções de seus textos e livros na língua inglesa, a disseminação do conhecimento da disciplina impactou de maneira permanente a história da arquitetura por consequência. A partir daquele momento era possível fundamentar a história arquitetônica para um mundo pós-guerra e desenvolver a teoria e a prática do Moderno.

Assim, já no século XX, Wilhelm Worringer (1881-1965) representa as novas concepções de História da Arte da Escola de Viena, pensando na disciplina como ‘científica’ e passível de análises por rigorosos conceitos. Ele escreve Formprobleme

der Gotik5 (Munique 1912), com tradução para o inglês em 1927, onde seu trabalho

4 A Construção das Cidades Segundo Seus Princípios Artísticos - tradução do título para o português como publicado pela editora Ática em 1992.

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passa a ser largamente conhecido sendo um dos únicos representantes dessa nova escola alemã daquele período na Inglaterra. Em sua obra, ele enxerga as vantagens e o potencial da história da arquitetura (p.12):

When we look upon the history of art no longer as a mere history of artistic ability, but as a history of artistic will, it gains a significance in the general history of mankind... For changes in will, whose mere precipitates are the variations of style in the history of art, cannot be purely arbitrary or fortuitous. On the contrary, they must have a consistent relation to those spiritual and mental changes... which are clearly reflected in the historical development of myths, of religions, of philosophical systems, of world conceptions.

No campo da teoria da arquitetura, uma publicação importante é escrita por Adolf Loos (1870 - 1933) com seu ensaio Ornamento e crime (1906) onde, segundo Montaner (2014), concilia as concepções inovadoras do princípio do século XX com os princípios da simplicidade e da construção clássicos.

Aby Warburg (1866-1929) contribuiu com seus textos sobre história da arte e com sua Biblioteca, die kulturwissenschaftliche Bibliothek Warburg6, uma grande

coleção de volumes sobre artes, arquitetura e ciências humanas em geral, iniciada em 1909, e que foi transferida da Alemanha para a Inglaterra em 1933 e fundamentou a criação do Instituto Warburg, associado à história da Tradição Clássica.

O estabelecimento desses historiadores acontece principalmente na Inglaterra, como se observa em torno da biblioteca de Warburg no exemplo acima, e na América do Norte, especialmente em Nova Iorque, com altos índices de população judaica, e o crescimento da quantidade de universidades, museus, bibliotecas e institutos de pesquisa (WATKIN, 1980, p.38). Erwin Panofsky (1892-1968) destaca-se pela influência warburgiana de ver a história da arte em sua obra Classical Mythology in

Mediaeval Art (1933) enquanto professor visitante, em 1931, e depois permanente a

partir de 1934, da Universidade de Nova Iorque. As pesquisas iconográficas aventadas por Warburg recebem particular interesse de Panofsky, que aprofunda a análise da ligação entre forma e conteúdo ao distinguir três camadas de significação da imagem: pré-iconográfica, iconográfica e iconológica. Entre as questões desenvolvidas pelas investigações de Panofsky, E.H. Gombrich (1909 - 2001) se

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interessa particularmente pelos problemas de estilo e desenvolve estudos originais que integram a escola de Warburg, inclusive assumindo a direção do Instituto Warburg entre 1959 e 1976, com destaque à sua obra Arte e Ilusão7 (Nova Iorque, 1960).

Neste seguimento de estudos iconográficos dentro da história da arte, Rudolf Wittkower (1901-71) soma com sua publicação Architectural Principles in the Age of

Humanism (1949), sobre a arquitetura renascentista italiana em princípios religiosos

e simbólicos. A obra ensina a importância de se voltar às fontes primárias, de dar voz aos autores da época objeto de estudo.

Outros três historiadores da arte, Nikolaus Pevsner, Emil Kaufmann e Sigfried Giedion, também apresentam importantes contribuições desde o início do século XX até o período entre guerras, iniciando um longo caminho para uma fundamentação moderna da arquitetura.

O desenvolvimento da história da arquitetura segue pelo conhecimento alemão quanto às investigações pioneiras do neoclassicismo de Emil Kaufmann (1891- 1953), historiador de arte e arquitetura, que volta sua atenção ao estudo da base conceitual, sua origem francesa, e sua definição do neoclassicismo em contraste com a anterior apreciação do barroco em sua obra Architecture in the Age of Reason:

Baroque and Postbaroque in England, Italy, and France (Cambridge , Massachusetts,

1955). Outra abordagem interpretativa quanto ao desenvolvimento da arquitetura desde o neoclássico é feita pelo arquiteto e historiador da disciplina Peter Collins (1920-1981), de origem inglesa, mas professor da Universidade McGill no Canadá, em seu livro Changing ideals in Modern Architecture 1750-1950 (1956).

Outra figura de destaque, no início do século XX, foi o arquiteto alemão Walter Gropius (1883 - 1969), criou a Bauhaus em Weimar em 1919 na intenção de desenvolver o pensamento teórico arts & crafts de Pugin, Ruskin e Morris baseando- se na interação entre todas as artes, arquitetura e design (MONTANER, 2014). Na década de 1930 emigra aos Estados Unidos também em decorrência da ascensão do nazismo. Suas publicações Internationale Architektur de 1924 (Munique) e Neue

7 GOMBRICH, E. H. Art and Illusion. A Study in the Psychology of Pictorial Representation. The A. W. Mellon Lectures in the Fine Arts, 1956. New York: Pantheon Books, 1960.

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Arbeiten der Bauhaus Werkstätten de 1925 (Munique) seguiam os princípios

racionalistas defendendo a homogeneização e a padronização das necessidades dos indivíduos.

Sigfried Giedion (1893-1968), historiador e crítico da arquitetura, secretário- geral do CIAM (Congresso Internacional de Arquitetura Moderna) em 1928 e professor em Harvard dez anos depois, preocupava-se com a disseminação do projeto do Movimento Moderno. Suas publicações Space, Time and Architecture, the Growth of

a New Tradition (1a. ed. Harvard e Londres, 1941), trata sobre os fundamentos e

protagonistas da arquitetura moderna; e Mechanization Takes Command, a

Contribution to Anonymous History (Nova Iorque, 1948) argumenta sobre a

mecanização e a industrialização do final do século XIX e início do século XX como processos centrais para a interpretação da modernidade, além de analisar ‘as influencias diretas de novos materiais, técnicas e avanços científicos sobre as novas formas, e consideram a estrutura como o subconsciente do arquiteto’ (MONTANER, 2014, p.57).

Sir Nikolaus Pevsner (1902-1983), historiador da arte britânico nascido na Alemanha, escreve Pioneers of Modern Design: From William Morris to Walter Gropius (Londres, 1936), que se converte em um texto básico no ensino de arquitetura do século XX na Inglaterra e um dos que dão base ao estudo da história do desenho industrial. De acordo com Montaner (2014, p.62), ‘é o primeiro texto em que emprega a expressão “movimento moderno”’, e influencia, posteriormente, dois historiadores britânicos – David Watkin e Peter Reyner Banham (1922 - 1988).

Banham, junto a Benevolo, representam dois polos cultuais ativos pós Segunda Grande Guerra no período de reconstrução europeia, com enfoque na fundamentação pela arquitetura moderna através dos avanços tecnológicos e na importância da sociedade na arquitetura. O autor inglês publica Theory and Design in the First

Machine Age (1960) conduzido pelo pensamento de Pevsner e Giedion; New Brutalism (1966) onde inventa o termo ‘novo brutalismo’, defendendo a ideia que ‘a

arquitetura moderna teria dado um novo passo em direção a uma maior contundência estrutural, ao uso dos materiais em seu estado bruto, sem decoração ou tratamento, deixando à mostra todas as instalações do edifício’ (MONTANER, 2014, p. 68). Suas ideias tecnológicas se apresentam em outras duas publicações – Mega-strutctures

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(1977) e A Concrete Atlantis (1986) – que dão suporte teórico à arquitetura high tech, tais quais de Norman Foster, Richard Rogers e Renzo Piano.

Pevsner e Giedion tiveram seus textos traduzidos e publicados em inglês e em sucessivas edições em diversos países, criando uma rede decisiva de transmissão de conhecimento nas seguintes gerações, abrindo caminhos, por exemplo, para estudos e pesquisas da arquitetura moderna.

Conforme análise de Tournikiotis (1999), as obras citadas de Giedion e Pevsner carregam a tradição alemã da história da arte, apresentando características em comum:

• O contraste antagônico entre períodos sucessivos;

• A arquitetura é descrita como uma justaposição de elementos visíveis - volumes e formas - que são reforçados com juízos de valor sociais e morais;

• Centrados em princípios fundamentais da história da arte alemã como: 1. O Zeitgeist - espírito da época, onde a arquitetura e a sociedade estão intrinsecamente ligadas, sendo a primeira o resultado visível da manifestação social; 2. A análise morfológica; 3. Conter uma escala crescente de períodos históricos; 4. A precedência do universal sobre o indivíduo.

Assim a historiografia arquitetônica separa-se da historiografia artística progressivamente, construindo no século XX um campo específico de pesquisa (WAISMAN, 2013, p. 26), onde nos últimos dois séculos enriqueceu-se com a contribuição de novos autores, tais quais Pevsner, Benevolo e Zevi – que assumem maneiras próprias de compromisso com os fatos históricos e com a historiografia arquitetônica.