5.4 Analyse de la base de donn´ ees LSPIV
5.4.2 Analyse de la qualit´ e des estimations de d´ ebit par LSPIV
A técnica de grupo focal foi preferida por ser adequada aos objectivos da presente pesquisa, pela relevância dos dados que se pretendia obter, principalmente, porque esta técnica dá lugar à construção de saberes no processo de investigação, o que com outros procedimentos seria muito difícil.
Ademais do que já se disse, a opção por grupos focais como técnica de recolha de informação, resultou da necessidade de esclarecer algumas nuances identificadas na literatura consultada e de actualizar dados factuais e qualitativos apresentados por outros estudos sobre a mesma temática no país.
A metodologia baseada na técnica de grupo data dos anos 40 do séc. XX e os grupos focais teriam sido usados em diferentes disciplinas de Ciências Sociais desde essa altura. Durante a Segunda Guerra Mundial os grupos focais foram utilizados para examinar os efeitos persuasivos da propaganda política e avaliar a eficácia do material de treinamento de tropas, assim como os factores que afectavam a produtividade nos grupos de trabalho (Bedford e Burgess, 2001).
Acrescenta-se ainda que desde cerca dos anos 70 do séc. XX o grupo focal tem sido parte da metodologia de pesquisa de mercado e desde essa altura tem sido usada como um mecanismo para explorar as atitudes e preferências dos consumidores. Em 1952, Thompson e Demerath usaram a técnica de grupo focal num estudo sobre os factores que influenciavam a produtividade nos grupos de trabalho, ao mesmo tempo em que Paul Lazarsfeld e outros adaptaram o grupo focal para pesquisas em Marketing (De Antoni et.al., 2001).
Sublinha-se, que a partir da década de 80 do mesmo século, os grupos focais foram utilizados em diferentes Ciências Sociais. Nomeadamente em estudos nas áreas da Saúde, para entender as atitudes de doentes, o uso de contraceptivos e também para avaliar a interpretação da audiência em relação às mensagens da comunicação social. Bedford e Burgess (2001) acrescentam que já nos anos 90 do séc.XX, os grupos focais se tornaram numa técnica importante para aumentar a participação pública em debates políticos.
Na presente pesquisa, as entrevistas com recurso à técnica de grupos focais, foram realizadas em dois conjuntos distintos de intervenientes por cada Localidade/Aldeia, sendo um composto por Líderes Comunitários e outro por elementos da comunidade sem funções de liderança.
A separação em dois conjuntos foi baseada na necessidade de garantir a liberdade de expressão por parte dos membros das comunidades locais. Experiências anteriores em outras áreas geográficas no país, mostraram que a presença de um líder num grupo pode afectar a qualidade de intervenções, devido ao temor de represálias, caso o cidadão revele algo a desfavor da vontade das lideranças, ou que aponte certa fragilidade do líder no exercício das suas funções.
A figura 8 apresenta exemplo de um grupo focal seleccionado no seio das comunidades locais, entre residentes (mulheres e homens) que não sejam líderes formais.
Figura 8 - Grupo focal da Comunidade de Nacololo; Nairoto, 10/08/2012
Os participantes foram seleccionados, entre homens e mulheres, evitando-se que fossem membros da mesma família. Considerou-se ainda que estes fossem seleccionados por apresentar certas características em comum, tais como: ser membro da comunidade entrevistada e depender das florestas para a sua subsistência.
Salienta-se, que o número de grupos focais realizado não foi rigidamente determinado por fórmulas matemáticas, mas pelo esgotamento dos temas e não se prende a relações de amostragem. Este enunciado implica que não houve necessidade de recrutar todas as pessoas que compõem o público-alvo e que jamais se poderia inferir que as informações obtidas fossem válidas para todo o universo da pesquisa (Cruz, 2002).
O número de pessoas constituintes de um grupo é um aspecto a ser destacado. Não havendo consenso entre os autores, deu-se preferência a grupos pouco
numerosos variando de quatro a dez pessoas. Defende-se que, grupos com mais de dez elementos, tornam difícil o controlo do processo de moderação, especialmente sendo o tema polémico propiciando uma tendência para a polarização e para a entrada em conflito. Se o assunto despertar o interesse de um grupo em particular, os intervenientes terão mais participação, e importa que todos tenham direito à sua palavra.
O exemplo de grupo focal composto apenas por elementos com funções de liderança comunitária e/ou tradicional, foi entrevistado na sede do Posto Administrativo de Nairoto no Distrito de Montepuez (Figura 9).
Figura 9 - Grupo focal de Líderes Comuntários de Nairoto - Nairoto, 10/08/2012
Sublinha-se que enquanto alguns dos homens são líderes políticos e/ou líderes tradicionais, categorizados em diferentes escalões, em função da dimensão territorial que lideram e do tamanho da população sob sua tutela, as mulheres representadas neste grupo focal de líderes desempenham funções de “Rainhas”.
Os grupos focais, regra geral, reuniram-se durante cerca de 90 a 120 minutos. É considerada uma forma dita interessante para explorar em termos sociológicos, a compreensão sobre os modos nos quais as pessoas constroem o ambiente e os problemas sociais, compartilham os seus conhecimentos, experiências e prejuízos, e se questionam sobre os seus diferentes pontos de vista (Bedford e Burgess, 2001).
Algumas das regras que se teve em conta no uso de grupo focal foram: (i) respeito pela privacidade dos outros participantes e não divulgar o que foi abordado durante as reuniões fora do grupo focal; (ii) cada pessoa devia falar apenas na sua vez; (iii) respeito pela opinião dos outros – não rejeitar ou criticar os comentários dos demais participantes; (iv) cada participante teve a mesma oportunidade de comunicar na discussão.
Para o êxito dos grupos focais, foi necessário o desempenho de seis funções, distribuídas e organizadas em dois macro-momentos: (i) Mediador, Relator, Observador e Operador de Gravação, exercidas durante a realização do Grupo e (ii) Transcritor de Fitas e Digitador, que dizem respeito ao pós-grupo.
Esta exigência afigura-se usual nas pesquisas de mercado nas quais, a empresa ou grupo interessado na venda dos seus produtos em geral recrutam especialistas para esse efeito, tendo por base os objectivos propostos pelos clientes (Cruz, 2002).
No uso desta técnica, o próprio pesquisador realizou os grupos focais, uma vez que a proximidade, o estudo e o conhecimento do objecto de investigação são de fundamental importância para o bom desenvolvimento da técnica, da mesma maneira que a participação no processo de debate é vital para a interpretação das informações obtidas.
Em relação ao roteiro de questões-chave para debate no grupo focal, foram concebidas de forma a propiciarem o levantamento e a obtenção de informações elucidativas acerca dos objectivos específicos propostos pela pesquisa. Para determinar o número de questões, usou-se como referencial o tempo de duração dos
grupos focais, que oscilou de uma a duas horas, sendo que o debate de cada questão durou entre 15 a 20 minutos.
O pesquisador/mediador teve total domínio do Roteiro de Debate, utilizando-o de forma discreta e preferencialmente, apenas para controlo dos temas já abordados bem como dos que ainda seriam discutidos. Ao final de cada sessão, era destinado cerca de um minuto a cada participante para que pudesse manifestar suas impressões sobre o evento.
Um aspecto importante no uso da técnica de grupo focal foi o facto de o moderador estar apto para orientar o diálogo, permitindo a troca livre de opiniões e garantindo que os participantes se sintam confortáveis em expressar pontos de vista discordantes. Teve ainda, que incentivar os membros do grupo a descrever e comparar as suas experiências e opiniões com outros membros do grupo para permitir descobrir o grau de consenso ou de diversidade sobre o tema.
Nos grupos focais o moderador permitiu uma interacção em que todos os participantes, um de cada vez, fizessem perguntas e expressassem dúvidas e opiniões, apesar de o pesquisador ter pouco controlo sobre a interacção, que não seja geralmente, manter os participantes concentrados sobre o tema. Pela sua natureza, o foco da pesquisa esteve em aberto e não podia ser inteiramente pré-determinado.
Na condução do debate, a transição de uma questão-chave, para outra, foi a mais subtil possível, procurando sempre seguir o rumo natural das discussões. Se porventura no decurso de determinados grupos o moderador alterasse a sequência das questões previstas, por exemplo, se a última questão-chave fosse abordada na primeira, o mediador teve como função incorporá-la ao debate, evitando assim que a discussão fosse desviada da questão central.
No decurso dos grupos focais as expressões de cada indivíduo que participou da dinâmica sofreram a intervenção dos demais sujeitos, permitindo que a colecta dos dados também apresentasse modificações, enquanto se realizava a actividade. Isso fez com que o processo de interacção grupal se desenvolvesse, de modo a favorecer
trocas, descobertas e participações comprometidas e tanto mais que as pessoas se sentiram mais à vontade para expressar suas opiniões em grupo do que individualmente (Lopes et.al., 2010).
Pode afirmar-se que a essência do grupo focal foi a clareza de propósito na interacção entre os participantes e o pesquisador, que tem por fim colher dados a partir da discussão focada em tópicos específicos e directivos. Esta clareza influenciou na composição dos grupos, no número de elementos, na homogeneidade ou heterogeneidade dos participantes, no recurso tecnológico empregue, na decisão dos locais de realização, nas características que o moderador viria a assumir e no tipo de análise dos resultados.
A colecta de dados através do grupo focal teve como uma das suas maiores riquezas o facto de se basear na tendência humana de formar opiniões e atitudes na interacção com outros indivíduos. Ele contrasta, nesse sentido, com dados colhidos em questionários fechados ou entrevistas individuais, onde o indivíduo é convocado a emitir opiniões sobre assuntos que talvez nunca tenha pensado anteriormente.