AUTHOR'S BIOGRAPHICAL STATEMENT
Step 11: Resets ; REPEAT
8. AN EXAMPLE OF USING THE REJECTABILITY GRAPH
O que é a literacia tecnológica? Depois de abordarmos a literacia científica e a literacia matemática, resta-nos compreender o conceito de literacia tecnológica essencial numa sociedade dominada pelas tecnologias da informação e comunicação. Fais (n.d.) considera a literacia tecnológica como a apropriação “significativa dos recursos tecnológicos (...) incorporada ao cotidiano de forma criativa, influente, inovadora”. Wonacott (2001), também, reporta que, na sua perspetiva e de muitos outros autores, a literacia tecnológica vai muito além da aptidão para a utilização técnica dos recursos tecnológicos envolvendo a compreensão do desenvolvimento tecnológico, bem como a compreensão da influência da tecnologia na sociedade (p.1). Um iliterado tecnológico não é apenas aquele indivíduo que não é capaz de trabalhar com as tecnologias, é também o indivíduo que não compreende a dimensão do papel das tecnologias no mundo atual. Uma vez que muitos dos investigadores associados à literacia tecnológica são investigadores da área da educação, este conceito surge, muitas vezes, associado a uma aprendizagem ao longo da vida pois a familiarização com os instrumentos tecnológicos e a compreensão da sua importância na vida atual do mundo desenvolvido não é uma aprendizagem pontual mas sim uma aprendizagem que se desenrola ao longo da vida. Como abordam Hasse e Wallace , o conceito CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade), apesar de não referir expressamente a literacia tecnológica, promove discussões críticas no sentido da compreensão das relações que se estabelecem entre as tecnologias e a nossa vida do dia a dia.
No âmbito do nosso estudo, a literacia tecnológica refere-se à capacidade de
adaptação às novas tecnologias compreendendo a sua importância na sociedade atual e identificando as vantagens da sua correta utilização que permite a minimização dos riscos que lhes estão associados.
Dentro das novas tecnologias encontram-se tecnologias disponíveis sobretudo para utilização em ambiente escolar e tecnologias utilizadas por todos os cidadãos em geral. No que se refere às primeiras, temos tecnologias como as calculadoras gráficas ou os sensores. São recursos com funcionalidades próprias e normalmente orientadas para determinadas situações. Deste modo, cabe aos professores das disciplinas nas quais se pretende a utilização destas tecnologias, a disponibilização de formação de
base aos alunos para a utilização das mesmas. Os professores deverão, portanto, prever nas suas planificações momentos para formar os seus alunos na utilização técnica do recurso de forma a que estes conheçam todas as potencialidades do mesmo e que dele possam tirar proveito da melhor forma possível. Os alunos que não conhecerem bem os recursos tecnológicos que têm ao seu dispôr, além de poderem apresentar dificuldades no manuseamento dos mesmos, acabam por não compreender as possibilidades de utilização que esse recurso lhe apresenta. E nestas possibilidades não se incluem apenas aquelas que os professores pretendem explorar em sala de aula. O jovem deve ter acesso a todas as potencialidades de forma a que, em situações distintas, possa optar pela tecnologia ou pela funcionalidade mais adequada.
Mas outras tecnologias, apesar de também utilizadas em meio escolar, são sobretudo recursos que o jovem acede fora da sala de aula e fora da escola, como é o caso do computador e da internet. A internet oferece um manancial de oportunidades mas o cidadão tem de saber trabalhar com essas mesmas oportunidades de forma a poder tirar o maior proveito possível destas novas tecnologias disponíveis. Assim, não é suficiente que os recursos tecnológicos estejam à disponibilidade do cidadão, é fulcral que ele compreenda as melhores formas de com eles trabalhar.
Computadores e internet, com todas as oportunidades que lhes estão inerentes, estão à disposição das comunidades para aquisição a preços cada vez mais convidativos mas também, gratuitamente, em espaços públicos como as bibliotecas municipais. Nestes espaços, os frequentadores que tiverem algumas dificuldades na utilização dos recursos podem até solicitar o apoio de bibliotecários. Contudo, a utilização consciente e responsável destes recursos tecnológicos implica muito mais do que apenas o conhecimento das suas funcionalidades técnicas.
Deste modo, uma das principais funções da escola tornou-se, com o apogeu das tecnologias digitais, promover a info-inclusão. Assim, a escola não pode permitir que os alunos a abandonem sem os conhecimentos básicos da utilização das tecnologias de informação e comunicação. Com a consciência desta necessidade de resposta por parte da escola, os currículos escolares passaram a integrar, no final do século passado, disciplinas vocacionadas para a prática destas tecnologias. Com o decreto- lei 74/2004 de 26 de março, a disciplina de TIC passou a ser obrigatória para todos os alunos de 10º ano. Este nascimento de uma nova disciplina contribuiu para o surgimento de outras novas formações em tecnologias, nomeadamente a licenciatura
em Ensino de Informática. Inicia-se a formação de professores especificamente nesta área assumindo a importância que ela tem não só enquanto meio de recurso na educação mas sobretudo como ferramenta de integração dos jovens na sociedade. Mais tarde, com a perceção de que os jovens começavam a utilizar estas tecnologias cada vez mais novos e que eram capazes de as dominar em tenra idade, a disciplina de tecnologia deixa o ensino secundário e passa para os primeiros anos da então escolaridade obrigatória que se desenrolava apenas até ao 9º ano Com o decreto-lei 272/2007, a disciplina de Tecnologias de Informação e Comunicação deixa de ser lecionada no ensino secundário e ocupa então lugar nos currículos do 7º e 8º anos do ensino básico. Assim, passamos a ter a disciplina de educação tecnológica integrando as TIC no 3º ciclo e, mais tarde, no 2º ciclo. Em julho de 2012 foram publicadas novas orientações curriculares que não especificam já a obrigatoriedade da lecionação das novas tecnologias no 2º e 3º ciclos do ensino ásico ficando essa decisão à responsabilidade de cada escola. Contudo, hoje em dia a disciplina de TIC é já lecionada em muitas escolas do ensino básico permitindo às crianças entre os 6 e os 10 anos o acesso supervisionado e orientado às tecnologias de informação e comunicação em ambiente de sala de aula.
Mas o que se pretende com a formação global dos jovens nestas tecnologias? Como defende Pereira (n.d.):
“começou-se por uma versão hardware, traduzida por blocos de iniciação à informática que procuravam explicitar os mecanismos do hardware, passou-se depois a um movimento software, aglutinando espaços de iniciação a ferramentas computacionais utilitárias e o desenvolvimento de programas didácticos para auxílio da aprendizagem em diversos domínios do Saber (estando agora a) encaminhar-se para um movimento de inclusão digital”. (p. 1)
Não há dúvidas de que os jovens compreendem o funcionamento técnico do computador, sobretudo quando nos referimos à internet. A função da escola na formação em tecnologias e na promoção da literacia tecnológica orienta-se em duas vertentes, na vertente técnica e na vertente crítica.
No que se refere à vertente técnica, o computador, como muitas outras tecnologias, é mais um recurso físico que encerra um sem número de possibilidades. Sendo que é da responsabilidade da escola formar os jovens para a utilização dos recursos tecnológicos que estão à sua disposição, a disciplina de tecnologias diretamente e
todas as outras disciplinas de forma indireta devem dar a conhecer aos jovens todas as potencialidades dos recursos ao seu dispôr. A tecnologia permite inúmeras criações com diferentes aspetos e os jovens devem ter a possibilidade de explorar, de forma orientada, todas as capacidades do computador de forma a que, a qualquer momento no futuro, possam recorrer a essa tecnologia e dela obter o que mais precisam. Como refere Miranda, as tecnologias apresentam-se como “sistemas de tratamento e representação da informação e de comunicação, [com o quais] os professores podem desenvolver com os alunos actividades que favoreçam a aquisição de conhecimentos disciplinares significativos” (p. 45). Naturalmente, os softwares informáticos estão em constante evolução e todos os anos o computador apresenta novas e diversas funcionalidades. Deste modo, a formação para a literacia tecnológica não pode ser estática, restrita a um momento no tempo, tem de ser uma formação contínua, para jovens e adultos, que permite a constante atualização do conhecimento.
No que se refere à vertente crítica, a tarefa pode ser ainda mais complicada. Pássamos, como referia Majó em 2001, de uma sociedade onde se associa a falta de conhecimento à falta de informação para uma sociedade onde o excesso de informação e, sobretudo, o indevido tratamento da informação pode originar a falta de conhecimento. A internet é, sem sombra de dúvidas, uma fonte de informação rica e privilegiada que permite a transmissão de informação ao longo de todo o globo terrestre sem restrições de espaço (na maioria dos casos) nem de tempo.
A maioria dos jovens portugueses conhece os motores de busca e, na necessidade de uma pesquisa, opta hoje em dia pela internet em detrimento da literatura em livros. A informação existente na internet é inúmera mas é, igualmente, dúbia. A partir do momento em que entrámos na web 2.0., a internet recebe todo o tipo de informação e qualquer pessoa pode publicar informação neste espaço sem que esta informação seja fidedigna. Espaços como a wikipédia permitem quaisquer publicações alertando apenas os leitores para as publicações que não apresentam referências bibliográficas de suporte. Todos nós conhecemos informações divulgadas sobretudo em redes sociais que se provaram verdadeiras fraudes. A formação em literacia tecnológica integra, também, a formação na capacidade de distinguir entre a informação que é fidedigna daquela que é dúbia. Os jovens devem ser educados na capacidade de compreender os fundamentos que suportam uma informação verdadeira e cientificamente aceite bem como os processos de encontrar esse tipo de informação
na internet. Os cidadãos em geral e os jovens em particular devem ser, igualmente, alertados para os perigos das tecnologias de informação e comunicação. O conhecimento destes perigos tem dois efeitos positivos que se prendem com a utilização mais segura da internet. Por um lado, podem evitar-se ou minimizar as consequências de determinados perigos associados sobretudo à comunicação online, por outro, promove-se a utilização da internet por aqueles que, por receios infundados, se recusavam a interagir com estas tecnologias. É necessária a consciencialização de todos os utilizadores da internet de algumas premissas básicas. Tudo o que colocamos na internet fica disponível para outras pessoas pelo que é preciso ter muito cuidado com os registos, de texto, imagem ou vídeo, disponibilizados online que eventualmente podem ficar disponíveis para pessoas a quem não queríamos permitir o acesso. Por outro lado, o que é colocado online fica na web para sempre. Mesmo que coloquemos um registo e depois o eliminemos, esse registo já está no sistema, algures, e pode ressurgir. Existem também os riscos associados à identidade. Não sendo uma comunicação real mas sim virtual, a comunicação através da internet permite mudanças indetetáveis de personalidade. Assim, as caraterísticas pessoais dos indivíduos com quem comunicamos online podem não ser aquelas que nos são fornecidas. A identidade é, sem dúvida, um dos principais motivos de risco associados à internet. No espaço virtual, a identidade pode mais facilmente ser forjada ou mesmo roubada sem que a pessoa a quem essa identidade foi usurpada facilmente se aperceba disso. O roubo de identidade permite a comunicação sob falsa identidade mas pode ter consequências mais graves quando associado a serviços do Estado ou contas bancárias, por exemplo. Assim, para a promoção da literacia tecnológica, exige-se também uma formação no conhecimento sobre os processos seguros de transferência de dados online bem como sobre a perceção de riscos inerentes a determinadas interações.
A promoção da literacia tecnológica para a eliminação da infoexclusão não é, como podemos facilmente compreender, um processo simples, rápido ou facilmente concluído. Pelo contrário, é um processo complexo, que envolve formações a vários níveis e uma formação ao longo da vida.