MATERIELS ET METHODES
2.1 Epidémiologie descriptive .1 Incidence .1 Incidence
2.3.4 Autres affections acquises
“O termo Dislexia refere-se a um conjunto de alterações que têm em comum uma perturbação ou atraso na aquisição, aprendizagem ou processamento da leitura, na ausência de qualquer outra limitação ou alteração das capacidades intelectuais” (Habbib, 2000 e Démonet, Taylor & Chaix, 2004, cit. por Carreteiro, 2009).
Dislexia consiste num termo que se relaciona com distúrbios na leitura e/ou linguagem e que, ao longo dos tempos, tem vindo a ser associado a dificuldades de ordem diversa, tendo-se desenvolvido no seio de distintos contextos, que vão desde a Medicina e a Neurologia até à Psicologia e Neuropsicologia, e cuja conceção não é consensual entre a comunidade de autores que se dedicam ao seu estudo.
Num passado não tão longínquo quanto isso, a Dislexia era entendida como uma perturbação comportamental, que tinha fundamentalmente implicações na leitura, considerada “invisível”, na medida em que, a sua natureza orgânica não era conhecida nem identificada sendo apenas percetível a forma através da qual se manifestava. Esta ambiguidade e o desconhecimento em que se encontrava envolta esta perturbação tiveram como implicação o surgimento de diversos mitos (Teles, 2008).
“A tomada de consciência desta dificuldade, inesperada e incompreensível, incentivou a realização de inúmeras investigações com o objectivo de encontrar uma explicação cognitiva e neurocientífica para os processos mentais envolvidos na aprendizagem da leitura e da escrita. Desses estudos emergiu a recém designada “Ciência da Leitura (…)” (Teles, 2010:2)
Etimologicamente, o termo Dislexia deriva do prefixo grego “dys”, “distúrbio” ou “dificuldade”, e do sufixo “lexia”, “leitura” no latim e “linguagem” no grego (Teles, 2010; Cruz, 2007), sendo que Dislexia se entende por uma “dificuldade com a palavra escrita”.
66 Partindo desta raiz etimológica, uma grande parte dos autores defende que o termo Dislexia está diretamente relacionado com dificuldades na aquisição da leitura, no entanto, Torres & Fernández (2001) vão além destas conceções. Na sua opinião, a etimologia deste conceito refere-se a uma “dificuldade de fala ou dicção”, referindo também que, o mesmo, tem implicações tanto na leitura como na escrita. Estas dificuldades resultam de especificidades que o conceito tem vindo a assumir recentemente e que se traduzem por manifestação de dificuldades nos processos de distinção/memorização de letras/grupos de letras e dificuldades de ordenação, ritmo e estruturação de orações.
A Dislexia, enquanto desordem foi inicialmente identificada por Berklan (1881), datando o início do seu estudo nos finais do século XIX, mas foi Rudolf Berlin, oftalmologista alemão, que em 1987, utilizou o termo “Dislexia” para se referir às grandes dificuldades evidenciadas no processo de aprendizagem da leitura e da escrita por parte de um jovem que nas restantes áreas académicas revelava capacidades intelectuais dentro da média normal. Este médico considerou esta perturbação como uma “doença cerebral” (Teles, 2008).
Após Berlin, os conhecimentos em torno deste novo conceito começaram a tomar forma a partir de estudos levados a cabo por dois oftalmologistas ingleses, Hinshelwood (1917) e Morgan (1896), a crianças com sérias dificuldades na aprendizagem da leitura, ainda que possuidoras de uma inteligência normal, atribuindo-lhe a classificação de “cegueira verbal” (Hennigh, 2003). Assim, os artigos publicados, baseados nos estudos de caso de ambos os médicos, expunham a teoria da associação das dificuldades de leitura a problemas visuais: a divisão do cérebro em três tipos de memórias visuais distintas (memória visual de tipo geral, de letras e de palavras) fazia com que a dificuldade em ler tivesse origem em danos congénitos no cérebro que teriam implicações na memória visual das palavras (idem). Contrariamente a esta teoria da denominada “cegueira verbal” surge mais tarde, partindo de pesquisas e estudos elaborados por Samuael T. Orton (1928), a teoria da “dominância mista, segundo a qual a Dislexia seria causada pela insuficiente dominância de um hemisfério cerebral sobre o outro” (Hennigh, 2003), sendo que a Dislexia não era sinónimo de lesão ou insuficiência cerebral mas antes uma desordem de carácter essencialmente psicológico, relacionado com o desenvolvimento mental, não congénito. Segundo esta teoria, a Dislexia teria origem na insuficiente dominância de um hemisfério cerebral sobre
67 o outro, sendo que um mesmo símbolo seria descodificado de forma independente por ambos os hemisférios direito e esquerdo (idem).
Este autor, tido como o investigador mais proeminente no campo dos estudos da Dislexia, partindo das suas experiências de diagnóstico para com vítimas de traumatismo, concluiu que as dificuldades de leitura não se encontravam relacionadas com traumatismos neurológicos nem com dificuldades estritamente visuais, associando a perturbação a uma falha na lateralização do cérebro (Hennigh, 2003). As competências linguísticas (ler, escrever, falar, ouvir) não eram encaradas de forma independente e, centrando-se na base unitária do sistema linguístico, Orton destaca que um atraso no domínio das competências de leitura poderia ser um indicador de um atraso no desenvolvimento de todo o sistema dedicado à produção linguística (Orton, 1937; Richardson, 1989, cit. por Hennigh, 2003, cit. por Teles, 2008).
Estudos póstumos (entre 1980 e 1990) à hipótese de Orton, relativa à especialização dos hemisférios cerebrais, concluíram que “o lado esquerdo do planum temporale, uma região cerebral associada ao processamento da linguagem é fisicamente maior que a região direita nos cérebros de pessoas não disléxicas; nas pessoas disléxicas, contudo, essas regiões são simétricas ou mesmo ligeiramente maior no lado direito do cérebro” (Wikipedia).
O termo “Dislexia de Desenvolvimento” foi atribuído pela primeira vez no ano de 1968, pela Federação Mundial de Neurologia (FMN), a “um transtorno que se manifesta por dificuldades na aprendizagem da leitura, apesar de as crianças serem ensinadas com métodos de ensino convencionais, terem inteligência normal e oportunidades socioculturais adequadas” (FMN, 1968, Cit. Por Teles, 2004). Posteriormente, em 1970, o presidente desta mesma federação, Dr. McDonald Critchley, propôs um reforço à definição sugerida inicialmente acrescentando que esta se deve “a uma incapacidade cognitiva fundamental, frequentemente de origem constitucional (Critchley, 1970, cit. por Torres & Fernández, 2001).
No seguimento desta revisão histórico-conceptual, ainda que breve, em torno de algumas das mais proeminentes referências relativas ao estudo da Dislexia, é de realçar um certo paralelismo relativamente à evolução histórica das dificuldades de aprendizagem, sendo possível a distinção de três períodos históricos distintos (Rueda, 1995 cit. por Valente, 1999):
68 1) Período da Fundamentação (final do século XIX)
Este período é marcado por estudos ligados à Medicina e à Neuropsicologia que introduzem o conceito e o estudo da Dislexia (Hinshelwood e Orton).
2) Período da Transição (entre as décadas de 40 e 50)
Este período é marcado por uma transição entre a tradição médico-neurológica e o protagonismo de psicólogos e educadores que explica o surgimento, nesta fase, de uma quantidade considerável de estudos resultantes em teses e programas de recuperação. Autoras como Marianne Frostig 17 e Loreta Bender18, entre outros, atingem posição de destaque em estudos que contrapõem as disfunções percetivas e as lesões cerebrais defendidas anteriormente.
3) Período da Integração (entre as décadas de 60 e 70)
Este período é marcado pelo surgimento de teorias que propõem a influência de fatores de ordem múltipla nas dificuldades de aprendizagem da leitura e as contribuições da psicologia no que concerne a Dislexia se vêm influenciadas por investigações relativas à inteligência artificial, ao impacto do enfoque biológico da obra de Piaget (análise de processos externos subjacentes às mudanças evolutivas do desenvolvimento) e à análise de estruturas subjacentes à compreensão e produção da fala realizadas por Chomsky19.
No ano de 1978, Critchley e Critchley, fazem um estudo comparativo entre as denominadas Dislexia desenvolvimental e Dislexia adquirida, concluindo que a primeira surge/tem lugar no seguimento de um problema de maturação concreto, podendo este ser contornado através da aplicação de estratégias de reeducação ajustadas na fase inicial do processo de aprendizagem (Torres & Fernández, 2001).
Este estudo comparativo, relativamente às Dislexias adquiridas e evolutivas/desenvolvimentais, é reforçado por Citoler (1996), que considera as primeiras
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Autora americana, muito conhecida na área das dificuldades escolares e com estudos incidentes na questão da perceção visual enquanto fator condicionante da leitura.
18 Psicóloga que defende que as dificuldades de leitura provêm de disfunções percetivas (visuais) e não de
lesões cerebrais.
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Linguista, filósofo e ativista político americano que levou a cabo investigações e ensino no âmbito da linguística,
69 como fruto de uma alteração resultante de um acidente registado que afeta o cérebro e as segundas como fruto de causas desconhecidas (Cruz, 1999).
Ainda neste contexto, Torres & Fernández (2001) entendem a Dislexia adquirida, enquanto fruto de um traumatismo/lesão cerebral, como um problema que surge à posteriori, ou seja, o sujeito que aprendera a ler e escrever de forma correta, após uma lesão ou trauma pode perder essa capacidade, contrariamente à Dislexia evolutiva/de desenvolvimento que, enquanto défice de maturação neurológica20 e das funções psicológicas21, surge à priori, levando o sujeito a manifestar dificuldades na aquisição da leitura e da escrita desde o seu início. Neste sentido, segundo os autores supramencionados, estas duas formas de Dislexia distinguem-se essencialmente pela influência a que são ou não sujeitas por parte de fatores externos, sendo que a perturbação de leitura não pode ser explicada através de um fator externo, como uma lesão cerebral, que veio afetar negativamente um bom domínio prévio da leitura.
Na Dislexia de desenvolvimento, a perturbação afeta o próprio processo de aprendizagem e não é explicável (como acontece noutras desordens), assentando na exclusão de um conjunto de fatores que possam originar a perturbação e classificando como disléxico somente aquele individuo em que as dificuldades de leitura não podem ser atribuídas à deficiência intelectual, à falta de estimulação do meio ou às más condições socioeconómicas a que possa estar sujeito (idem). Neste contexto, o processo de avaliação e intervenção apresenta-se mais facilitado na medida em que a Dislexia é encarda como uma perturbação evolutiva e não patológica, em que pode existir um atraso na aquisição de determinadas competências mas não uma perda total/definitiva, défice ou incapacidade, na qual pode ser trabalhada uma intervenção/treino a partir da delimitação das áreas a trabalhar (idem).
Ainda neste contexto, também Ellis (1984 cit. por Serra, 2008) categoriza a Dislexia enquanto adquirida (inserida no quadro geral das afasias) ou evolutiva/do desenvolvimento
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Atrasos evolutivo-funcionais do hemisfério esquerdo que produzem alterações percetivas nos processos simbólicos e atrasos no desenvolvimento do hemisfério esquerdo por anomalias neuroanatómicas/malformações do tecido neural.
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Atrasos no desenvolvimento da coordenação dinâmica, no desenvolvimento percetivo-visual, na aquisição do esquema corporal e no desenvolvimento dos processos psicolinguísticos básicos.
70 (manifestada através de défices mataturiais). No âmbito da Dislexia adquirida a referida autora, categorizou cinco subcategorias:
1) A Dislexia Periférica, que ocorre quando a lesão se encontra ao nível do módulo de processamento percetivo-visual e que, por sua vez se subdivide enquanto Dislexia atencional, visual ou letra a letra.
2) A Dislexia Fonológica, pode ser superficial ou profunda e pertence ao subgrupo das Dislexias centrais, sendo que a alteração por ela provocada é produzida devido a um défice nas rotas de acesso ao significado.
3) A Dislexia Superficial, que afeta a rota visual, sendo que os indivíduos não revelam dificuldades de leitura em palavras regulares e procedem à leitura das irregulares recorrendo às regras de conversão grafema/fonema.
4) A Dislexia Semântica, que surge quando se verifica um défice na conexão entre o léxico visual e o léxico semântico, sendo que o indivíduo lê as palavras pela rota visual mas não entende o seu significado.
5) A Dislexia Profunda, que se traduz pela dificuldades nas rotas visual e fonológica e onde é sugerida (Fonseca, 1999) a subdivisão nas categorias de Dislexia visual e Dislexia auditiva.
Todos os estudos realizados ao longo dos tempos a crianças/indivíduos que revelassem sérias dificuldades ou incapacidades de aprendizagem no âmbito das PLE, permitiram constatar que este não constitui um problema exclusivo daqueles que apresentem um QI inferior ou problemas neurológicos ou físicos. Pelo contrário, estes estudos permitiram comprovar o facto de que esta problemática pode também surgir em sujeitos com inteligência normal ou até mesmo superior, sem problemas de cariz físico ou neurológico aparentes, não se revelando também como relevante o estatuto socioeconómico e cultural e a qualidade do meio de ensino. Neste contexto, a definição de Dislexia não é ainda clara, tendo-se vindo a desenvolver durante muito tempo mais pela exclusão de hipóteses do que propriamente por um conhecimento cientifico comprovado.
Nesta linha de pensamento, Vítor da Fonseca (1999) entende a Dislexia enquanto uma dificuldade duradoura no que diz respeito à aprendizagem da leitura e à aquisição do seu
71 mecanismo, que pode surgir em crianças inteligentes e escolarizadas que não revelem qualquer tipo de perturbação sensorial e/ou psíquica já existente.
A Associação Portuguesa de Dislexia entende a Dislexia enquanto uma dificuldade duradoura da aprendizagem da leitura e seus automatismos em crianças inteligentes, escolarizadas e sem quaisquer perturbações sensoriais e psíquicas diagnosticadas.
Presentemente, a Dislexia é entendida, segundo Teles (20048), como uma “incapacidade específica de aprendizagem, de origem neurobiológica, parcialmente herdada, com manifestações clínicas complexas, incluindo défices na leitura, no processo fonológico, na memória de trabalho, na capacidade de nomeação rápida e na automatização” e encontra-se incluída, desde 1994, no Manual de Diagnóstico e Estatística de Doenças Mentais (DSM IV), no âmbito das perturbações de aprendizagem, com critérios de diagnóstico estabelecidos e sendo denominada como “Perturbação da Leitura e da Escrita”.
Segundo a autora supramencionada, esta perturbação segue uma linha contínua de dificuldades crescentes (desde as menos às mais severas), sendo que o seu modelo de distribuição é o de curva normal, permitindo uma continuidade entre as populações disléxica e não disléxica e não se verificando a possibilidade de estabelecimento de limites precisos no seu grau de severidade.
Por sua vez, em 2003, a Associação Internacional de Dislexia, definiu Dislexia enquanto: “(…) uma incapacidade específica de aprendizagem, de origem neurobiológica. É caracterizada por dificuldades na correcção e/ou fluência na leitura de palavras e por baixa competência leitora e ortográfica. Estas dificuldades resultam de um Défice Fonológico, inesperado, em relação às outras capacidades cognitivas e às condições educativas. Secundariamente podem surgir dificuldades de compreensão leitora, experiência de leitura reduzida que pode impedir o desenvolvimento do vocabulário e dos conhecimentos gerais” (Teles, 2004:4).
Esta constitui, atualmente, a definição aceite pela grande maioria da comunidade científica. Em retrospetiva, pode assim verificar-se unanimidade quanto a um conjunto de fatores em torno desta PLE. A Dislexia é entendida como uma incapacidade específica que se repercute no processo de aprendizagem da leitura, da escrita e da linguagem, ainda que surja num contexto de inteligência normal ou acima da média, caracterizando-se como um distúrbio da linguagem que se traduz por uma dificuldade em reconhecer e ler palavras (Paiva, 2009). Estas dificuldades no processo de aquisição da leitura podem subdividir-se
72 em dois tipos, sendo que as consideradas gerais ou atrasos na leitura são fruto tanto de fatores intrínsecos como extrínsecos ao individuo e as dificuldades específicas de aprendizagem são fruto de questões de carácter cognitivo e neurológico, tendo uma explicação evidente (Morais, 1997, Caldas, 2002 e Das et al. 2001 cit. por Cruz, 2007). Esta é uma perturbação que se evidencia mais na fase de alfabetização, no entanto, alguns dos sintomas a ela associados estejam já presentes nas fases antecessoras, nomeadamente em falhas no processo de aquisição da linguagem, independentemente de fatores intelectuais, emocionais ou culturais com possível interveniência (instrução convencional, inteligência normal, inexistência de distúrbios cognitivos fundamentais, adequada oportunidade sociocultural…) (Teles, 2004).