Ao longo do desenvolvimento desse trabalho, cujo aporte teórico metodológico principal repousa nas reflexões de Henri Lefebvre sobre o espaço, nos deparamos com várias indicações suas sobre o êxito do método de pesquisa em sociologia urbana, desenvolvido e aplicado pelo Instituto de Sociologia Urbana da França (ISU) entre 1964 e 196616 (RAYMOND, 2001). A aproximação com o trabalho dos pesquisadores, por meio da leitura e da análise das principais publicações disponíveis, nos instigou a experimentar o método, fazendo as adaptações necessárias à realidade brasileira e aos nossos objetivos de pesquisa, conteúdo desenvolvido no capítulo que segue.
A escolha da metodologia de pesquisa é um processo que começa junto com a disposição inicial em se pesquisar um determinado tema e se desenvolve por um conjunto de métodos e técnicas de análise e produção de novos conhecimentos (Oliveira, 2013). Assim, a investigação das relações entre a palavra do habitante e a apropriação do habitat em locação social, entre o espaço concebido, vivido e percebido, entre o habitat e o habitar, entre apropriação e dominação, conceitos inseridos na problemática urbana pioneiramente por Lefebvre, segue, experimentalmente, o caminho metodológico indicado pelo autor.
Conforme discutido no primeiro capítulo, Henri Lefebvre (1970) afirma que o habitar é constituído de um conjunto de obras e produtos que fazem parte de um conjunto, e carregam sua marca. Se exprime por meio de um conjunto de palavras, constituindo um sistema dual: objetal e semântico que, em princípio, devem se corresponder, ainda que seja difícil que isso aconteça de forma exata.
Nesse sentido, Lefebvre observou que grande parte das pesquisas sociológicas desenvolvidas no contexto francês da segunda metade do século XX, fizeram uso de questionários direcionados e construídos com base em sistemas de significações dos próprios sociólogos/entrevistadores/ pesquisadores. Isso acarretou na perda da espontaneidade do discurso do habitante/entrevistado a quem, neste caso, coube apenas responder às perguntas com base nesse sistema já pré-estabelecido. Para o autor, ao contrário, ao discurso do entrevistado deve ser dado papel de destaque, já que expressa, de sua própria maneira, o sistema de palavras e objetos
16As obras que tratam da pesquisa divergem no que se refere à sua datação e duração. Aqui ulilizamos a referência de
RAYMOND (2001), no entanto, Haumont (2001) menciona que o trabalho se desenvolve entre 1965 e 1966 enquanto RAYMOND et al. (2001) se refere aos anos de 1964 e 1965.
que lhe é significativo. Ao partir dessa concepção, em seu texto Introduction a l’Etude de l’Habitat
Pavillonnaire (LEFEBVRE, 1970) ele referencia como exitosa a metodologia de trabalho desenvolvida
pelo Instituto ISU entre 1964 e 1966 que, sob a coordenação17 dos pesquisadores Nicole Haumont e Henri Raymond, busca estudar o conjunto do habitat pavillonnaire na França e compreender a preferência dos franceses pela habitação em pavillon ou casa individual.
As reflexões e os resultados construídos pela equipe do ISU sobre a prioridade dada pelos franceses ao pavillon foram publicados na obra L’habitat Pavillonnaire (RAYMOND et. all, 2001), cuja primeira edição data de 1966. Na referida obra, além de considerar o ponto de vista dos entrevistados sobre a casa individual, os autores se referem, ainda, à visão de técnicos e especialistas da época, que associaram este modo de habitat à utopia da casa individual e a hábitos que alienaram seus habitantes às benfeitorias do habitat coletivo, constituído pela política de habitação social na França, a partir de 1950.
Ainda em 1966, Nicole Haumont apresenta a metodologia de trabalho do grupo e uma síntese dos resultados na obra Les pavillonnaires: etude psycosociologique d’um mode d’habitat18. A partir daí, diversos artigos são publicados em periódicos franceses, dedicando-se exclusivamente à discussão do método de análise do discurso, nomeado Paroles d’habitants, o qual é editado sob a forma de livro apenas em 2001 pelo pesquisador Henri Raymond, sob o título Paroles d’habitants:
une méthode d’analyse.
Como dito, o ISU tinha como principal procedimento de coleta de dados a prática de entrevistas abertas, o que possibilita dar voz aos mais interessados: os habitantes, “[...] orientando a entrevista sobre à atividade específica que o entrevistador estuda (o habitar), mas deixando livre a expressão do entrevistado” (LEFEBVRE, 1970, p. 168, tradução nossa). Ao fazer uso desse argumento de Lefebvre, justificamos nossa preferência por uma abordagem de pesquisa qualitativa, centrada na percepção dos sujeitos investigados, ou “nativos”, conforme nomeia Cliford Geertz (1997), quando disserta sobre sua experiência com os habitantes de Java, Bali e Marrocos (tratando-os, neste caso como o homem diferente da aldeia: o exótico, o estranho). No entanto, não nos limitamos ao conhecimento fruto dessa experiência-próxima, conceito utilizado por Heinz Kohut e apropriado por Geertz (1997) para definir as informações, observações e palavras utilizadas
17Segundo Lefebvre (1970, p. 170) uma “enorme quantidade” de informações sobre o pavillon foi reunida sob orientação
e coordenação da pesquisadora Nicole Haumont, enquanto Henri Raymond esteve a frente do desenvolvimento e apli- cação do método de análise do discurso das entrevistas realizadas com os habitantes.
18O contato com esta obra é realizado a partir de sua primeira edição, publicada ainda em 1966, mas, sobretudo, pela a
naturalmente pelos sujeitos a quem se entrevista, “[...] para definir aquilo que ele próprio entenderia facilmente, se outros utilizassem de outra maneira” (GEERTZ, 1997, p. 87).
Paralelamente ao cenário desenhado pela fala dos habitantes, fazemos uso das informações oriundas da experiência-distante, conceito complementar ao de experiência-próxima, que se refere aos subentendidos e premissas utilizadas pelos pesquisadores para alcançar seus objetivos científicos. Em nosso caso, se refere à hipótese (retomar p. 16) que formulamos para responder à questão problema dessa pesquisa, às observações que realizamos em campo, aos trabalhos publicados por outros pesquisadores que se dedicam ao estudo da habitação de interesse social e mesmo à divulgação de resultados do Programa de Locação Social (PLS) pela Prefeitura Municipal da São Paulo (PMSP) e outros órgãos governamentais e não governamentais.
Assim, em nossa releitura do método de pesquisa do ISU, consideramos a utilização de dados secundários e rediscussão de outras pesquisas desenvolvidas sobre o tema, o que é uma prática considerada comum no desenvolvimento do trabalho intelectual e, sobretudo, conforme Henri Mills (1986, p. 218) do “bom trabalho na ciência social de hoje, [que não é] feito de uma ‘pesquisa’ empírica claramente delineada. Compõe-se, antes, de muitos estudos bons, que em pontos chaves encerram observações gerais sobre a forma e a tendência do assunto”.
Portanto, buscando entender a relação entre a palavra do habitante e a apropriação do habitat concebido pelo PLS, priorizamos, em um primeiro momento, o que é e de quais são as relações desenvolvidas naquele habitat sob o ponto de vista dos entrevistados, observando, registrando e interagindo com a sua percepção sobre o habitat. Em seguida, a relacionamos ao conhecimento e aos dados produzidos em outras esferas sociais, sobretudo do conhecimento específico do campo da arquitetura e urbanismo. Só então compomos nossa interpretação das possibilidades de apropriação do habitat em locação: nem restrita à visão dos habitantes, nem abstraída pela lógica institucional e buscando, conforme Geertz (1997, p. 105), “saltar simultaneamente de uma visão da totalidade através das várias partes que a compõem, para uma visão das partes através da totalidade que é a causa de sua existência, e vice-versa, [...]” , e conforme Lefebvre, por sua vez:
A compreensão da totalidade não pode excluir que a parte e o elemento têm também uma existência distinta [...] O todo não é sensível, tangível, não se oferece à investigação empírica imediata [...] só um pensamento animado pelo método dialético permite, segundo parece, captar essa interação específica das partes no todo (LEFEBVRE, 1970, p. 147 e 148, tradução nossa).
A utilização do referencial francês como modelo metodológico não é, no entanto, acrítica e por isso apresentamos a seguir os procedimentos utilizados pela equipe do ISU, nossas considerações, releituras e aplicação da metodologia, a partir da síntese Les Pavillonnaires (HAUMONT, 2001) e, sobretudo, a partir da obra Parole d’Habitants (RAYMOND, 2001).
METODOLOGIA DA PESQUISA FRANCESA
Esclarecido o objetivo da pesquisa desenvolvida pelo Instituto, apresentamos as questões que orientam seu trabalho (HAUMONT, 2001, p.9-10, tradução nossa):
Existe um sistema simbólico tal como o pavillon, que com suas partes, significa para o habitante do pavillon outra coisa que não um simples modo de habitar? Neste sistema, o simbolismo não estaria organizado de tal forma que as partes do pavillon e os componentes que lhe são associados, têm significações que conectam o habitante a um modo de vida ideal, apresentando características suficientemente completas para ser descrita como uma ideologia?
Em que medida a falta de tal sistema de símbolos, de uma possibilidade de investir no e para o habitat, pode constituir um incômodo para o habitante da habitação coletiva? Por exemplo, se o pavillon é citado como “um objetivo na vida”, o fato de não ter como objetivo a habitação coletiva pode constituir um impedimento à aceitação profunda de seu habitat pelo usuário?
Para esclarecer e ilustrar as tipologias de habitações a que se refere nossa pesquisa guia, mais adiante apresentamos alguns exemplos. Ressaltamos que, do ponto de vista do pavillon na França, trabalhamos com a definição utilizada por nossos autores de referência (conforme p.30). No entanto, entendemos que a caracterização do tipo pavillonnaire, cujo nascimento remonta aos anos de 1830 e que permanece até os dias atuais, sofre significativas mudanças no que se refere ao seu posicionamento no tempo e no espaço. Tendo nascido no contexto de forte urbanização, início da industrialização - e a consequente necessidade de alojar a mão-de-obra que migra do campo às cidades - o pavillon foi construído e/ou autoconstruído em suas periferias e inicialmente ocupado por indivíduos cuja atividade (artesãos, comerciantes, aposentados) lhes permitia a habitação fora do centros. A partir de 1870, com o desenvolvimetno dos transportes naquele país, o estabelecimento de indústrias nas áreas mais periféricas e com a pressão demográfica nos centros das cidades, se estende até onde os caminhos de trens/tramways o permititiram (RAYMOND et al., 2001).
Até meados do século XX, a estrutura das habitações populares na França, principalmente do tipo pavillonnaire, permanece precária, elas “[...] se desenvolveram de maneira selvagem a
medida em que foram construídas sem regulamentação, sem água sem esgoto, sem destinação adequada de resíduos” (RAYMOND et al., 2001, p. 34). Somente a partir da década de 1920, conforme veremos no capítulo 3, as legislações foram encaminhadas para melhorar a qualidade de construção e implantação dos loteamentos pavillonnaires.
Assim, com a análise da amostragem e resultados da pesquisa do ISU, entendemos que a partir de um determinado momento, que estimamos os anos 1960, a nomeclatura pavillon não mais designa essa tipologia precária, passando a ser sinônimo de casa individual. Nesse momento, a caracterização do tipo pavillonnaire se fez por elementos como o gabarito e tratamento de fachadas, por exemplo, que variavam em função da época da construção, do local de implantação e também da categoria sócioprofissional dos proprietários (operários, funcionários públicos de diferentes cateogorias). Esse último fator passou a ser determinante na medida em que o status social definia o tamanho da casa e a riqueza das ornamentações.
Ao contrário dos pavillons, a tipologia HLM é predominantemente constituída por apartamentos (figura 2) inseridos em edifícios verticais (torres e barras, figura 1) de habitação coletiva que, por sua vez, acompanham equipamentos de uso comum como creches, escolas, postos de saúde, parques, jardins e quadras de esportes, resultando nos chamados grands ensembles (grandes conjuntos). Esses, foram o resultado da política de habitação social empreendida pelo Estado francês na década de 1950, conforme trataremos no capítulo 3. Numa escala muito menor do que as edificações coletivas, também foram construídas casas individuais (figura 3) para atender aos mesmos requisitos da política HLM.
Figura 1: Vista de HLM construídos na década de 1950-1960 em Aulnay-sous-Bois (20km de Paris)
Por fugir do escopo do nosso trabalho, não nos dedicamos à análise e caracterização das edificações apresentadas, nos limitando a apresentação de exemplares de pavillon (figuras 4, 5 e 6) os quais, juntamente com os apartamentos HLM, são o campo empírico da pesquisa francesa.
Figura 2: Planta baixa de um apartamento HLM (90m²) construído em Enghein, França, em 1956
Fonte: HAUMONT, 1990, p.111, digitalizado pela autora.
Figura 3: Planta baixa de uma casa individual HLM (90m²) construída Grigny, França, em 1971
Figura 4: Vistas de um loteamento de pavillons em Bray-sur-Seine (109km de Paris)
Fonte: La vie rêvée des pavillons, 2015.
Figura 5: Vistas de um loteamento de pavillons em Bray-sur-Seine (109km de Paris)
Fonte: La vie rêvée des pavillons, 2015.
Figura 6: Planta baixa de pavillon (84m²) construído em Saint Michel sur Orge, 1968
Para responder às questões de pesquisa anteriormente colocadas, a equipe do Instituto entrevistou duzentos e sessenta e cinco famílias de oito cidades francesas19. Sobre a composição da amostragem, Henri Raymond (2001) nos conta que, a princípio, o grupo entrevistaria apenas famílias habitantes de pavillons. No entanto, ao longo do processo, realizaram um conjunto de entrevistas de “controle” nos habitats coletivos (cidades de Aulnay, Enghien, Bron e Crépy), totalizando cento e noventa e cinco entrevistas em pavillons e setenta entrevistas em apartamentos, sendo quarenta e sete locatários do setor de locação social (HLM)e vinte e três coproprietários.
Como se verá com mais detalhes no capítulo 4, as habitações em locação social são construídas por entidades públicas ou privadas de habitação social e se destinam às famílias ou indivíduos cujos rendimentos não permitem o acesso à habitação por meio do mercado formal, necessitando de subsídios do Estado. As habitações, que podem ser coletivas ou individuais, respondem às características técnicas, custos e regimento determinados pelo Código da Construção e da Habitação francês20.
Dentro do sistema de locação social francês, a lei de 10 de julho de 1965 permite e reconhece o direito de venda dos imóveis HLM aos seus antigos locatários, resultando na modificação de seu status para coproprietário. É interessante notar que a nomeclatura não passa a proprietário já que, no caso da venda de unidades habitacionas localizadas em edifícios verticais, o edifício permanece de propriedade dos órgãos públicos ou privados HLM e somente21 a unidade habitacional é financiada e passa a ser propriedade da família compradora, antiga locatária.
Sobre a falta de equidade dos quantitativos entre os diversos públicos que compõem a amostragem da pesquisa, Raymond (2001, p.9, tradução nossa) a justifica, em função de que
[...]supúnhamos (por muitas razões) que a linguagem própria do habitat pavillonaire não se detinha em suas fronteiras. Se o objetivo determinado para a pesquisa (explicação de uma atitude geral) fosse justificado, encontraríamos, de uma forma mais ou menos parecida, o mesmo simbolismo tanto junto aos locatários ou co-proprietários, quanto junto aos habitantes de pavillon.
19A cidade de Enghien-les-Bains, localizada na região metropolitana de Paris, a uma distância 11km da capital francesa; a
cidade de Aulnay-sous-Bois, também na região metropolitana parisiense, a 19km de seu centro; a cidade de Bron, locali- zada na região metropolitana de Lyon, a 10km de seu centro; a cidade de Lens, localizada no estado Pas-de-Calais, no extremo norte da França; a cidade de Ronce-les-Bains, localizada no estado Charente-Maritime, no sudoeste francês; a cidade Antibes e Cannet, ambos na região de Côte d’Azur, no litoral mediterrâneo da França; e a cidade Crépy-en-Valois, localizada a 60km ao norte de Paris.
20Disponível em: <https://www.legifrance.gouv.fr/affichCode.do?cidTexte=LEGITEXT000006074096>. Acesso em: 24 jul.
2016.
21Os coproprietários são também proprietários de uma porcentagem das áreas comuns do prédio como elevadores,
Sobre a etapa das entrevistas, estas foram direcionadas apenas por uma questão: “Você poderia falar sobre sua habitação?” e, apesar de sua característica “aberta”, não direcionada e, portanto, da ausência de um roteiro, a equipe de entrevistadores selecionados para atuar na coleta de dados é instruída a manter um padrão de comportamento, a fim de obter testemunhos passíveis de comparação. Nesse sentido, as orientações são: acompanhar o raciocínio do entrevistado; deixá- lo falar; interagir com suas formulações, manifestando interesse; em momentos de silêncio ou pausas dos entrevistados, repetir as últimas palavras ou frases, a fim de fazê-los recuperar a linha de raciocínio ou partirem para outros tópicos com mais segurança.
Sobre a iniciação e condução das entrevistas com apenas uma questão inicial, Nicole Haumont (2001, p.14) nos revela que as análises dos primeiros encontros com os habitantes demonstram aos pesquisadores que os entrevistados pouco falam de sua intimidade, ainda que se refiram a ela de maneira indireta. Assim, ao fim de cada entrevista, os pesquisadores inserem algumas questões extras, que fazem com que as pessoas tragam o tema à conversação, como: “Você poderia me dizer qual é o cômodo mais íntimo da casa?” e/ou “O que você fez/faz para torná-lo mais íntimo?”.
Com a etapa de coleta de dados finalizada, seguiu-se a tabulação dos dados obtidos por meio das transcrições das gravações de cada uma das entrevistas e a análise dos discursos propriamente dita, fragmentada em três etapas e centrada nas relações de oposição entre a série espacial e a série simbólica do habitat; ou seja, entre suas partes (cômodos) integrantes e o significado que lhes atribuem seus habitantes.
A primeira etapa se constitui na seleção de todos os enunciados suscetíveis de significação contidos na fala dos entrevistados (chamados de significantes), organizando-os em uma espécie de catálogo. Na segunda etapa, os elementos do catálogo são relacionados aos seus significados: cada enunciado significante com seu respectivo significado, observando a possibilidade de diferentes significantes terem diferentes significados, bem como dos diferentes significantes se vincularem a um mesmo significado. Além disso, ainda nessa etapa, são traçadas as relações de oposição entre os diversos significantes.
O quadro 1 exemplifica dois significantes: pavillon e apartamento, recorrentemente colocados em oposição durante as entrevistas francesas, oposição esta sustentada pela possibilidade e impossibilidade, dentre outros aspectos, de reforma do habitat.
Quadro 1: Relação entre os enunciados significantes e seus significados
SIGNIFICANTE (série espacial) SIGNIFICADO (série simbólica) OPOSIÇÃO
Pavillon Poder reformar Se sentir em casa
Apartamento Não poder reformar Não se sentir em casa
Fonte: HAUMONT, 2001, p. 16, tradução e digitalização da autora.
Fica claro, portanto, que “poder reformar” e “não poder reformar” permite aos habitantes se sentirem (ou não se sentirem) em casa, reforçando a oposição entre os dois significantes selecionados. A coluna que evidencia a oposição entre os significantes e seus respectivos significados está colocada aqui somente como contribuição ao entendimento do método, porém, na apresentação de nossos resultados (capítulo 5), apenas as duas primeiras colunas estão postas. A identificação das séries as quais pertencem os significantes também não é prática do ISU que elabora apenas uma série, a espacial, sempre oposta à sua série simbólica, ou seja, ao seu significado. Em nosso caso, como será visto mais adiante, identificamos outras séries de análise no discurso dos habitantes. Portanto, para melhor compreensão do método e dos resultados apresentados, identificamos a qual série pertencem os significantes relacionados nos quadros resultantes. Por fim, a análise e explicação das relações de oposição, são expostas por meio dos quadros com auxílio dos fragmentos das entrevistas com os habitantes, conforme a figura 7.
Figura 7: Fragmento da análise de entrevista realizada pelo ISU
Fonte: HAUMONT, 2001, p.91.
A terceira e última etapa da análise das entrevistas, denominada simbolismo geral, trata de reintegrar as falas dos entrevistados, desmembradas para análise nas duas etapas anteriores. Seu objetivo é compreender como os significados circulam por estas partes, construindo um simbolismo comum sobre o modo de habitar pavillonnaire, conclusivamente interpretado pela equipe francesa
por meio de três “níveis”: a apropriação do espaço, a socialização do espaço e a ideologia
pavillonnaire.Mais do que apresentar os níveis de resultados sistematizados pelos pesquisadores,
comparativamente apresentados junto aos nossos no capítulo 5, nos interessa o caminho metodológico por eles trilhado.
Do ponto de vista metodológico, um dos principais méritos da pesquisa conduzida por Nicole Haumont e Henri Raymond é o de fugir do tradicional método de questionário direcionado, lançando mão de entrevistas abertas e utilizando a expressão espontânea dos habitantes, em uma época no qual a sociologia quantitativa domina o enfoque das pesquisas desenvolvidas na França (FERRAND-BECHMANN, 2007). Além disso, do ponto de vista do arquiteto e urbanista, entendemos que esse método possibilita a descoberta dos sonhos, desejos e preferências dos habitantes: as categorias e variáveis julgadas importantes por eles, na produção do habitat.
Assim, os elogios de Lefebvre ao desenvolvimento do método da pesquisa Les
pavillonnaires, se referem à aproximação entre pesquisa e descoberta, na busca de um caminho no