3. RAPPORTAGE AU NIVEAU DE LA MASSE D'EAU SOUTERRAINE
3.5. État chimique des eaux souterraines et dérogations
Lopes lança em 1995 o seu único livro de contos: O Navio Morto e Outras Tentações
do Mar. Essa obra traz nove contos sendo sete deles de temática marítima. Os contos “Mar
Morto” e “Tiros de Luz” foram publicados anteriormente12 e coletados para o livro de contos. Um traço que aproxima as narrativas é o caráter do mistério e do fantástico, revelando as histórias de navios fantasmas, de naufrágios e lendas.
No conto intitulado “O mar devolverá o corpo de Clarissa”, o tom de mistério, poesia e fantasia é decisivo ao representar a imagem da mulher que se refugia em uma vila de pescadores para tentar dar um novo rumo à vida, mas se encontra com a estranha presença da figura do Marinheiro, “uma misteriosa entidade encarnando o mar” (LOPES, 1995, p.11) e que passa a ser responsável pela abundância de peixes no vilarejo. Depois de sumir misteriosamente, Clarissa sente o chamado para ir ao seu encontro e acaba transformando-se também em uma verdadeira entidade marinha, absorvendo o vento e o mar e trazendo novamente prosperidade e fartura para os pescadores: “o mar voltara a ovular peixes em profusão” (LOPES, 1995, p.18).
Nos contos “O suicídio do encouraçado São Paulo” e “A alma e a aura da corveta Jaceguai”, os navios são personificados e revelam características de navios fantasmas. No primeiro conto13 existe a descrição da história do encouraçado São Paulo, navio encomendado pelo governo brasileiro a um estaleiro inglês, “o maior vaso de guerra do mundo” (LOPES, 1995, p.24). Depois de cumprida sua missão foi ignorado e, estando prestes a ter o aço de sua estrutura transformado em “lâminas de barbear”, misteriosamente mergulha nas profundezas do oceano depois de conseguir arrebentar reforçados cabos de aço que o prendiam aos
12 Essa informação sobre as publicações anteriores dos contos pode ser encontrada no estudo final presente no
livro O Navio Morto e Outras Tentações do Mar (1995).
13 O conto traz um compilado de histórias de navios fantasmas, um acumulado de lendas e histórias do mundo
rebocadores, recusando ser dilacerado e transformado em ferro: “o São Paulo morrera íntegro” (LOPES, 1995, p.29).
Chama atenção no conto o modo como o navio é retratado de forma personificada e a retomada da imagem do destino do navio atrelado ao destino do marinheiro. O navio sofre pela sua degradação e por ser substituído por navios melhores, recusando-se a se deixar sucumbir: “ele sozinho arrebentaria as amarras que o prendiam, suas caldeiras moveriam os motores, seu leme se manobraria sem mãos de timoneiro e ele se libertaria para navegar orgulhoso por grandes mares” (LOPES, 1995, p.28).
Em “A alma e aura da corveta Jaceguai” encontra-se a referência à história de Rosana que ganhara o navio como herança do pai, apaixonando-se por um poeta que é assassinado dentro do barco. A moça se suicida e passa a ser a alma do navio: “a corveta Jaceguai era Rosana. Rosana era Jaceguai” (LOPES, 1995, p.141). Depois de certo tempo, a corveta passa a ser utilizada nas operações de guerra e um marinheiro chamado Bernardo percebe Rosana vagando pelo navio. Após o fim da guerra, as corvetas foram substituídas pelos novos navios e a Jaceguai destinada ao cemitério. Bernardo nunca abandonou a corveta. Antes de ser afundada para sempre no fundo do mar, os marinheiros decidem vistoriar o navio e encontram um corpo de homem nu que morrera há poucas horas com marcas de amor recente na cama, como a denunciar que acabara de viver a sua última posse com Rosana.
Os dois contos trabalham com características do insólito e fantástico, destacando a caracterização do navio de forma enaltecida e personificada. Os navios incorporam os seus destinos aos de sua tripulação e ganham características humanas, passando a serem vistos como aqueles que não podem perder sua integridade e razão de ser ao deixar de navegar. Nesse sentido, é preferível o “suicídio” através do lançar-se nas profundezas do mar, transformando-se em navio fantasma: “um corpo vivo como tantos outros navios fantasmas, habitando para sempre os oceanos, porque seu destino é navegar” (LOPES, 1995, p.29).
No conto “O farol dos condenados” aparece a história da explosão do barco Ventania que levava suprimentos para Pedro Faroleiro e sua família no Atol das Rocas. Com o acidente, a família de Mestre Oliveira é dizimada e a de Pedro Faroleiro sofre a agonia de dias sem suprimentos, ocasionando a morte de um por um. Leonardo, único filho de Mestre Oliveira a sobreviver, consegue chegar ao Atol das Rocas ainda a tempo de encontrar Rosana, sua amada, a única sobrevivente da família de Pedro Faroleiro. Os dias torturantes e o desfecho trágico com a morte das famílias são amenizados com o encontro dos dois amados sobreviventes.
Em “O suicida” sobressai-se a história de companheirismo e amizade entre Gerson e Holanda, companheiros de profissão como marinheiros, servindo no mesmo navio durante a guerra e pedindo baixa ao mesmo tempo. Holanda “medindo sua vida” pela de Gerson é capaz de buscar o suicídio junto com o amigo sem demovê-lo da tentativa, mas apenas ligando o destino de um ao do outro. Tomam o veneno juntos, mas descobrem que a porção era um engano e acordam vivos. A segunda chance dada aos dois faz com que Gerson retome a vontade de viver e recomeçar, mas Holanda se nega a isso, pois não teria espaço para ele na vida de Gerson.
O conto “Mar Morto”, como já anunciamos anteriormente, foi escrito em 1975 como preparação ao romance Belona, Latitude Noite, destacando a história do navio vagando sem rumo, perdido sem encontrar o porto.
Em “Tiros de luz”, escrito em 1977, existe a retomada da história de uma personagem retratada em Cais, Saudade em Pedra, o náufrago louco Coroa. Fato interessante é o modo como a narração é estruturada a partir de uma perspectiva metalinguística. Existe a voz de um narrador que parece se autonomear como Moacir Lopes, o autor do romance, falando sobre a personagem Coroa que criou e externando o desejo de dissertar mais sobre ele a fim de conhecê-lo melhor. Este conto traz as histórias de guerras em alto-mar, faz menção aos naufrágios dos navios de guerra e busca retratar a imagem de Coroa, narrando a sua morte com tiros de luz. Todavia, ao mesmo tempo, desconstrói a imagem do marinheiro ao determinar que nos documentos da Marinha não havia o registro de nenhum sobrevivente de naufrágio com o nome de Coroa e nem tampouco de várias outras personagens citadas em
Cais.... Desfaz, assim, a imagem das personagens, brincando com a narração e misturando as
esferas entre realidade e ficção de forma muito efetiva.
Podemos notar que, em termos de temática, esse livro de contos traz de forma muito expressiva, ainda não trabalhada desse modo na literatura de Lopes, a imagem da personificação do navio quando assume a sua condição de navegar:
Na sua estrutura, navio é, em princípio, um ser inanimado, arcabouço de madeira ou de aço, com sua quilha e falsaquilha, carlingas e alefrizes, seu casco, leme e timão (...) E quando faz soar o apito de sua primeira partida anunciando que irá rasgar caminhos no mar, começa a comportar-se como organismo vivo, a adquirir personalidade, introjetar-se de uma alma própria, individual, íntima, à qual irá incorporar-se a aura de cada um dos marinheiros e tripulantes que nele irão conviver (LOPES, 1995, p.20).
O navio é caracterizado a priori como um “ser inanimado”, apenas “madeira e aço” com todas as características e aparatos próprios de uma embarcação. Todavia, quando começa a navegar, transforma-se em “organismo vivo”, descrito como tendo personalidade e características humanas com “alma própria”, mas ganhando ainda maior sentido por ter sua vida ligada a dos seus tripulantes.
Essa personificação tão bem acentuada no conto “O suicídio do Encouraçado São Paulo” ganha relevo no modo como são descritos o seu suplício e morte, sofrendo e gemendo de agonia, lutando como um guerreiro contra o seu trágico destino e se jogando nas profundezas do oceano: “em defesa do seu amor-próprio e orgulho de um guerreiro decrépito mas ainda vivo e em contorções de agonia” (LOPES, 1995, p.29).
Esse livro de contos pode ser visto como uma mistura de características das duas fases da produção literária de Lopes, já que retoma temas e motivos da fase inicial, destacando a conjuntura de guerra, os navios naufragados e até personagens descritas na segunda obra,
Cais, Saudade em Pedra. Ao mesmo tempo, traz para a narrativa as histórias lendárias, dos
navios fantasmas, com o caráter do insólito que compõe a segunda fase de sua ficção. Nessa mistura que, em proporção maior revela os traços da segunda fase, temos a reiteração da imagem do marinheiro como integrado ao mar e ao seu navio, a personificação do barco, o contexto dos naufrágios e da solidão no mar, a referência ao sexo como algo necessário e instintivo, em uma técnica narrativa que mistura tempos, pontos de vista e trabalha de forma relevante com o traço do mistério, brincando com as esferas “ficção e realidade”.
Consideramos ainda, o seu décimo romance, Onde Repousam os Náufragos, como uma obra que traz muitas das características da sua fase inicial e reforça as características da fase mais madura. Nessa obra existe a exploração de temáticas como a descrição da conjuntura de guerra, dos naufrágios em alto-mar, a visão do marinheiro apegado ao navio e do sofrimento quando tem que o abandonar, ao lado do caráter fantástico tão decisivo na obra madura de Lopes. A história narra o reboque do navio Jaraguá, encalhado no rio Beberibe em Recife, e a volta de muitos marinheiros e tripulantes que já fizeram parte do navio, com o intuito de reviver lembranças e retomar fatos passados: “o faremos reviver como se novo fosse” (LOPES, 2003, p.53).
Nessa narrativa vemos duas das mais basilares características presentes na obra de Lopes: a mistura entre o real e o imaginário e a instauração do mistério, pois a narração brinca com as irrealidades. Os vários tripulantes do Jaraguá voltam ao navio antes do afundamento com o intuito de realizar um jantar de despedida, mas aos poucos não se sabe mais quem realmente está vivo ou morto, pois essas duas esferas misturam-se. Essa referência aparece
descrita na voz de uma das personagens que problematiza a condição dos tripulantes: “se vivos ainda estamos” (LOPES, 2003, p.226), ou ainda, quando fica patente a afirmação de que o navio está entregue ao seu destino: “Ninguém mais embarcará. Nem desembarcará” (LOPES, 2003, p. 87).
A própria construção temporal ricamente trabalhada na obra reforça essa tensão, temos o tempo cronometrado do relógio, separado por capítulos que vão da hora zero a hora zero, computando vinte e quatro horas em uma estrutura que imita o traço do documentário jornalístico, mas dentro dessas vinte e quatro horas, o tempo se expande pela instauração do tempo subjetivo e psicológico determinado pelo voltear nas reminiscências das personagens da história.
Além disso, encontra-se a referência às várias personagens caracterizadas de forma grandiosa em seus anseios, sonhos e frustrações, os indivíduos solitários buscando retomar fatos passados. Os marinheiros se ligam às várias personagens sempre referendadas dentro do contexto das pessoas simples e solitárias que necessitam de amor, os anônimos da rua que têm seus destinos associados com os marinheiros e que revelam o olhar de identificação para com esses seres: “coitadinhas das Marias, tão desengraçadas e solícitas, cada uma com seu sorriso acanhado de quem não sabe o que está se passando, tão solitárias” (LOPES, 2003, p.54).
Na obra, existe novamente a representação de duas personagens que aparecem nas primeiras narrativas de Moacir: o náufrago Coroa e a prostituta Chalana. Eles fazem parte das pessoas que voltam ao navio prestes a ser afundado no mar, para retomarem suas vidas: “Coroa era a alma errante das ruas daqueles bairros” (LOPES, 2003, p. 126). A obra narra novamente a morte de Coroa como foi retratada no conto “Tiros de luz”, mas agora ela acresce-se do caráter fantástico, deixando dúvidas sobre se de fato aconteceu.
Em Onde Repousam os Náufragos é importante mencionar que Moacir Lopes parece querer retratar o navio como o grande palco em que os fatos acontecem na vida daqueles marinheiros e da tripulação em geral. O navio é viagem e a viagem é a vida. As personagens retornam ao navio, a sua verdadeira casa e o lugar onde suas vidas ganharam significado, para em uma atitude simbólica de extrema entrega permanecerem como eternos habitantes daquele lugar, mesmo depois do afundamento.
Aparece também na obra, com rica expressividade, a retomada da imagem do Comandante que tem sua vida presa ao navio através da representação da personagem Dario. Ele impossibilitado de voltar a navegar, pois seu barco fora encalhado às margens do Beberibe, desaparece pelas ruas de Recife “carregando apenas trapos de sua vida dentro de um saco de marinheiro” (LOPES, 2003, p.37). Todavia, se recusa a abandonar sua
embarcação e passa a voltar toda noite durante a madrugada para viver alguns minutos na sua verdadeira casa, o seu Jaraguá. Nessa referência, a obra trabalha de forma rica com a imagem do apego ao navio e o modo como o marinheiro tem sua vida integrada a dele:
Aquele navio que também é parte de nós, foi a alma dele, seus compartimentos, seus nervos, sua mente, onde embarcou como simples marinheiro de convés (...) Mais de quarenta anos embarcado nele, a seu bordo viveu amores e desamores, luzes e trevas de momentos sublimes ou obscuros. Sei que ele continua a ser parte daquela carcaça enferrujada, de uma ferrugem que o contaminou (LOPES, 2003, p. 38).
O Comandante Dario é descrito como tendo a alma do navio, onde serviu durante quarenta anos, passando em seu interior uma vida inteira de momentos felizes ou tristes. Chama atenção como a narração evidencia a forma com que o Comandante iguala sua vida ao do Jaraguá, evidenciada na homologia criada entre a ferrugem do barco deteriorado pela passagem do tempo e a do marinheiro contaminado pela mesma ferrugem. Tal deterioração pode ser observada no fato de o marinheiro perder o sentido da existência quando se enxerga impossibilitado de navegar.
Na volta ao Jaraguá, antes do seu afundamento, os marinheiros e tripulação têm suas histórias recontadas, apresentando o resumo da existência de cada um, em seus dramas, sonhos e aspirações. Cada personagem tem sua vida ligada ao navio, reforçando a imagem do apego ao barco e da recusa de abandoná-lo mesmo diante da aproximação do fim:
São vinte e duas horas e doze minutos da noite de 30 de março de 1997. O Jaraguá agoniza nos extertores de sua morte temporária. Eu, seu Comandante, meus marinheiros e convidados sequer pensamos em abandoná-lo, preferindo continuar residindo nele, nas profundezas do mar (LOPES, 2003, p.305).
Ressalta-se, assim, que esse romance representa o reforço das características difundidas pela produção de Moacir Lopes. Nele encontramos a temática marítima, o mar sempre presente e a identificação dos marinheiros com o navio, conhecemos as várias personagens deslocadas, naufragadas, o povo marginalizado e simples, tentando retomar coisas perdidas, reviver fatos passados, entender sua própria existência humana, deparamo- nos com o homem necessitando de amor, os indivíduos isolados, solitários que procuram resgatar as relações humanas. Mais que isso, observa-se o manejo dos recursos novelísticos que engrandecem o escritor Moacir Lopes, a linguagem poética, lírica, a exploração dos
pontos de vista, da introspecção psicológica das personagens, dos fluxos de consciência, do trabalho diferenciado dado ao tempo em seus romances, do gosto pelas imagens oníricas, da instauração do mistério e da peculiar exploração da narrativa fantástica, onde o real e o imaginário se mesclam de forma tão intrínseca que o leitor não consegue definir seus limites precisos.
Depois dessa tentativa de mapear os temas e motivos do universo literário de Moacir Lopes torna-se evidente a eleição da temática marítima como a razão de ser de sua obra. Um escritor que, marcado pelo mar e pelos anos de navegança, traz para a sua produção ficcional a autenticidade das histórias marítimas construídas por meio de uma estruturação ricamente trabalhada de obra a obra
Vemos essa manipulação dos recursos narrativos através do trabalho elaborado da construção formal, de forma mais evidente, no tratamento da técnica do ponto de vista, conjugando os vários ângulos de visão, somando as perspectivas, utilizando a onisciência para encaminhar as mentes das personagens, em um discurso introspectivo de viés psicológico. Dentro desse contexto, chama atenção, ainda, o modo como estrutura o tempo no romance em uma oscilação evidente, somando passado, presente e futuro, de forma fragmentada.
Outra característica relevante e peculiar dos escritos de Lopes é o modo como vai oferecendo as informações de forma parcelada, interrompendo o relato em alguns momentos e passando a narrar outros fatos para retardar o desfecho dos acontecimentos. Em narrativas que se definem pelo caráter do mistério e do fantástico, esse recurso ajuda a reforçar o mistério trazendo expectativa para o desfecho.
As produções de Lopes se caracterizam também pelo caráter de final aberto, o desfecho nem sempre será capaz de saciar a curiosidade do leitor, pois as leituras nunca são dadas “de pronto”. A narrativa trabalha com insinuações e possibilidades de leitura, não existe uma preocupação com a delimitação precisa dos fatos.
Nesse sentido, pode-se considerar que toda a obra de Lopes apresenta características da narrativa moderna, onde o enredo quebra com a linearidade, o tempo se fragmenta, a focalização assume a consciência das personagens, tornando-se mais introspectiva e de teor psicológico.
No seu universo marítimo é pertinente observar também o modo como configura personagens grandiosas destacadas em sua ternura, pureza e simplicidade, os seres prenhes de amor. A partir dessas personagens temos a imagem do marinheiro que guarda amor pelo navio e que é incapaz de abandoná-lo sem estar marcado para sempre por ele, mas também do marinheiro náufrago ou do marinheiro errante que busca encontrar o seu espaço marcado
pelas frustrações e desencontros que a vida no mar provocou, encontrando os seus semelhantes em cada anônimo da rua que compartilha da mesma existência. Assim, na sua obra, não existe apenas a caracterização da imagem do marinheiro, mas uma variedade de personagens que passam ao longo das linhas, distinguindo os seres que vivem nas ruas, que buscam a quem oferecer amor e que anseiam com quem compartilhar sua existência.
Isso pode ser evidenciado na imagem de duas personagens retomadas em vários romances: o náufrago Coroa e a prostituta Chalana. Coroa representa o homem perdido, sem rumo, mas que tem sempre amor para doar e é capaz de entender e viver a solidariedade de náufragos. Representa o amor puro de alguém marcado pela morte, com sua companheira Chalana, a prostituta velha que busca a quem dar amor e não tem quem queira receber.
Em uma das passagens mais ternas das obras de Moacir Lopes e rica em significado, encontramos a solidariedade e o amor, como uma mensagem sempre defendida, na tocante narração do casamento entre Chalana e Coroa em Cais, Saudade em Pedra:
— Marinheiro Coroa, que um dia amaste o mar e a luz e hoje foge de ambos, recebe esta mulher, a Chalana, que estando acabada para os homens, recolhe-se no quarto escuro de um casarão velho da Rua da Guia, e dorme sozinha porque não encontra mais um homem que a acompanhe para desgastar os restos de luxúria em seu corpo cansado. Tu, irmão Coroa, procura sombras, e sombras há no quarto solitário de Chalana (...)
— E tu, Chalana, que anseias por um homem, homem ainda há no corpo deste velho náufrago. Estejam, pois, casados. E que Coroa se mude para o sobrado de Chalana para habitar sua solidão, e para nunca mais ser perturbado pelos tiros de luz (LOPES, 1973, p.184).
Dois seres solitários e marcados pelo tempo, capazes de se enxergar nas suas deficiências e nas suas necessidades, em uma completude que considera o que falta em um e sobra no outro. Chalana desejosa por um corpo masculino que a veja como mulher nos seus “restos de luxúria” e Coroa que foge dos tiros de luz e encontrará no sobrado solitário e escuro de Chalana um lugar para se esconder da luz.
Através dessas personagens tão relevantes existe o enaltecimento dos valores humanos, como o amor e a solidariedade. O amor é uma temática com grande força e aparece