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3. L ES INTERFACES DEXTRES À RETOUR D ’ EFFORT

3.2. É TUDE DES INTERACTIONS DEXTRES

Conforme vimos no capítulo precedente, aos três modos de construção de ocorrências de uma noção correspondem três estratégias112, três modos de

construir referência e, portanto, de enunciar. Tendo presente, de modo particular, as várias observações a propósito do sujeito gramatical, ou sujeito do enunciado, que pode variar de estatuto, de acordo com o tipo de configuração construída, pode fazer-se corresponder à tipologia discreto – denso – compacto três diferentes processos enunciativos.

A pertinência do paralelismo, atrás referido, entre dois destes três tipos de construção de ocorrências e as categorias propostas por Benveniste (1966) - “Histoire” e “Discours” – comprova isso mesmo. Também o, atrás referido, estabelecimento de uma correspondência, em de Vogüé (1989; 1998), entre os três tipos discreto, denso e compacto e, diferentes estruturas sintácticas - tripartida, no caso do funcionamento discreto, monopartida, no caso do funcionamento denso e bipartida, no caso do funcionamento compacto - constitui uma evidência das implicações desta tipologia ao nível da descrição das estruturas predicativa e enunciativa dos enunciados.

A estrutura tripartida que, em de Vogüé (1989; 1998), se considera estar associada ao funcionamento discreto, compreende um agente, o processo em causa e a operação de mira. Enquanto localizador da ocorrência construída e

112 O recurso ao termo “estratégia” não tem, neste contexto, como noutros

subsequentes, qualquer afinidade com o conceito consagrado pelos estudos pragmáticos e discursivos de “estratégia ilocutória” ou de “estratégia discursiva”. Fala-se em estratégia enquanto modo de construir referência, enquanto possibilidade de estrutura enunciativa, definida em termos de operações ao nível nocional, como ao nível predicativo e enunciativo.

localizada situacionalmente, cabe ao argumento em posição de sujeito (C0) um

estatuto de agente ou de paciente, isto é, uma característica definida em termos de agentividade, que decorre de uma operação de mira. Devendo-se ao argumento em posição de objecto (C1), e não a uma localização espácio-temporal, a fixação dos

limites quantitativos e qualitativos da situação em causa, este (C1) corresponde a

um objecto interno, em função do qual a validação da formatação intrínseca às ocorrências nocionais de tipo discreto se constitui como mira.

É à formatação extrínseca característica do funcionamento denso que se deve a estrutura monopartida que lhe está associada. Neste caso, dá-se a verificação, pura e simples (isto é, sem preponderância de uma delimitação qualitativa), de uma situação, através da sua especificação espácio-temporal, ou seja, através da sua especificação operada em relação a localizadores situacionais. A estrutura enunciativa característica do funcionamento denso compreende, assim, a localização do processo em causa em relação aos termos localizadores situacionais. Neste caso, o predicado não define um objecto interno, nocionalmente determinado. Por conseguinte, tratando-se de um objecto externo, o argumento em posição de objecto (C1) não contribui para a construção e quantificação da

ocorrência. A possibilidade de se omitir o sujeito quando se glosa um enunciado em que a ocorrência de uma situação é construída como densa atesta que este corresponde simplesmente a uma das coordenadas que definem a situação de enunciação e que servem de localizadores.

Finalmente, a estrutura bipartida a que corresponde o funcionamento compacto define-se pela atribuição de uma propriedade a um suporte. Os dois termos desta estrutura são, portanto, o sujeito gramatical e uma propriedade que lhe é atribuída. Quando ocorra, o argumento em posição de objecto (C1)

corresponde a um objecto externo, portanto, não construtor nem especificador de uma ocorrência (daí a correlação existente entre o funcionamento compacto e o funcionamento intransitivo do predicado). Neste caso, a localização espácio-temporal da noção deve-se, pois, ao suporte através do qual se apreende a propriedade - suporte que, por conseguinte, corresponde a uma ocorrência quantificada, por oposição à propriedade, delimitada apenas qualitativamente.

A predicação de uma propriedade sobre um sujeito que, não tendo qualquer função agentiva, é o suporte mediador da localização situacional de uma noção, condiciona, como vimos, a estrutura do enunciado, cujo predicado apresenta, assim, um funcionamento compacto. Com a predicação de uma propriedade sobre um sujeito, como em toda a actividade enunciativa, está em causa uma operação de validação que é, por excelência, uma operação modal. A atribuição de uma propriedade é, pois, uma operação modal, cujo localizador, o sujeito enunciador enquanto fonte de um juízo, se compromete, portanto, com a validação, em diferentes graus, ou com a não-validação da relação predicativa113. Mais

propriamente, dir-se-á que os valores modais construídos correspondem às diferentes “avaliações” (ou juízos modais) possíveis que a atribuição de uma propriedade a um sujeito pode assumir.

A validação - que, enquanto estratégia enunciativa (ou modo de construção de ocorrências) característica das situações de tipo compacto, corresponde a uma estrutura sintáctica bipartida (ver de Vogüé, 1989; 1998) – define-se, pois, ao nível enunciativo. Focando a nossa atenção nos predicados cujos verbos pretendemos estudar neste trabalho - pensar, julgar, crer, achar, supor, acreditar, duvidar, saber,

ignorar -, a localização do seu complemento predicativo114 faz-se directamente

113 A partir da observação do facto de a atribuição de uma propriedade ser a operação

modal por excelência, em de Vogüé (1989: 36), retira-se, como consequência importante, a hipótese de a categoria modalidade ter uma dimensão pré-enunciativa, por via da qual “le modal [...] est déjà intégré dans le lexique” (idem, ibidem). Esta hipótese está perfeitamente consonante com a forma como, no quadro da Teoria Formal Enunciativa, se concebe o léxico: conforme atrás referido, enquanto um esquema de regulação das construções sintácticas e enunciativas, uma vez que, pelas suas determinações internas, condiciona parcialmente os planos sintáctico e enunciativo. Os termos lexicais são, assim, concebidos não como dados, mas como entidades construídas, não sendo evidente a destrinça entre os níveis lexical, sintáctico e enunciativo.

114 O funcionamento predicativo de um complemento, implica – como veremos adiante,

mais detalhadamente (ver, em particular, § 7.2) – uma dissociação entre a construção da propriedade predicada e a construção do termo sobre o qual recái essa propriedade e que constitui o seu suporte. Se, por um lado, o complemento é objecto de uma determinação quantitativa (Qnt) independentemente do enunciado em curso, por outro, a operação que consiste na atribuição de uma propriedade a um suporte é de natureza qualitativa (Qlt) (ver Franckel; Lebaud, 1990; Valentim, 1998).

sobre um suporte - a saber, o sujeito destes predicados -, à maneira de uma predicação de propriedade.

Como referimos atrás (ver § 2.2), a descrição sintáctica proposta para estes verbos enquanto verbos que seleccionam uma estrutura de complementação verbal contempla a sua possibilidade comum de realização sob a forma de uma completiva com o complementador que e também, no caso de alguns, de uma completiva infinitiva ou ainda de uma interrogativa indirecta. Resultam destas configurações sintácticas o que, sintacticamente, se define como frases complexas que comportam uma subordinada genericamente dita com a função de complemento de objecto.

De modo consensual para a generalidade dos sintacticistas, com esta descrição sintáctica, contempla-se, assim, o facto de as construções de complementação consistirem no estabelecimento de uma relação entre o verbo introdutor e um complemento proposicional. Daí o reconhecimento de uma relação de subordinação na base do processo sintáctico em causa. Mais propriamente, em comum para os verbos em análise, temos estruturas de subordinação que integram uma proposição subordinante e uma proposição subordinada de natureza completiva-nominal (que tem, portanto, a função de complemento de objecto), com a forma verbal finita, ou infinita, em alguns casos. Estas subordinadas são genericamente classificadas como subordinadas nominais introduzidas por que, ou completivas.