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PERMETTANT LE SUIVI D ’ UN DOIGT À DISTANCE

3. S OLUTION TECHNIQUE RETENUE

3.7. É LECTRONIQUE DE MESURE

Como já referido (ver § 3.3), espaço-tempo (T) e sujeito (S) são parâmetros enunciativos de natureza teórica, decorrem de uma necessidade teórica, pelo que não correspondem a dados fenomenológicos, isto é, a um tempo ou a um sujeito historicamente determinados, participantes do universo extralinguístico162. Estes

primitivos teóricos constituem, em bloco, a situação de enunciação (Sit), parâmetro também de natureza teórica163.

161 Conforme referimos já, a atribuição de índices na notação proposta por Culioli

permite distinguir os estatutos, neste caso, do parâmetro S, mas também do parâmetro T e, naturalmente, da classe de Sit assim parametrizadas.

162 De natureza híbrida, os parâmetros da enunciação constituem uma articulação

entre o linguístico e o extralinguístico o que, por vezes, à semelhança do que se passa a respeito da noção, justifica a utilização de “majuscules bouclées” (ver § 3.3). Conforme se comenta em Bouscaren; Chuquet (1987) a propósito do conceito de sujeito enunciador: “ Le sujet énonciateur [...] se situe à la croisée du linguistique et de l‟extralinguistique” (idem,

ibidem: 180), por ser o reflexo construído (pelo próprio enunciador) deste dado

extralinguístico.

163 Como os conceitos de sujeito e tempo-espaço da enunciação, seus parâmetros

constitutivos, o conceito de situação de enunciação – notada Sit (S,T) ou, simplificando, apenas Sit – não é, na TFE, um elemento do “mundo real”, uma situação de enunciação empírica (não se confunde com o conceito de contexto, conforme definido em diversos estudos enunciativos e pragmáticos). Corresponde a um primitivo teórico, a uma abstracção operatória, a um conceito metalinguístico.

A introdução de parâmetros enunciativos - sujeito e espaço-tempo da enunciação -, na descrição formal dos enunciados, constitui um dos aspectos originais da teoria de Culioli e está na base da, também original, definição de modalidade por si proposta. Benveniste (1966), por exemplo, socorre-se dos parâmetros enunciativos exclusivamente a propósito da deixis, e Bally ([1932]

41965), a propósito da modalidade. Contrariamente a outras abordagens

enunciativas, a teoria enunciativa de Culioli visa, aliás, descrever e explicar, não apenas determinados fenómenos locais, mas a generalidade dos fenómenos linguísticos, subordinando toda a construção metalinguística à enunciação164.

Todo o enunciado é o produto de um encadeamento de operações de localização, sendo os parâmetros enunciativos sujeito e espaço-tempo da enunciação, simultaneamente, termos localizados e termos localizadores nessa mesma cadeia de operações.

A origem enunciativa participa, como localizador absoluto, da construção da determinação dos enunciados, isto é, na construção da sua significação. Pela e na enunciação, qualquer “sujeito”, ao instanciar-se como sujeito enunciador, define, como tal, um tempo-espaço enunciativo, isto é, constrói um sistema referencial. O sistema de referência é, assim, construído por um sujeito que, pela enunciação, é parte integrante desse sistema. Isto é, constituindo-se como origem do sistema referencial, conforme se afirma em Culioli (1993), o sujeito enunciador não é “[...] un observateur extérieur, muni d‟un référentiel objectivable” (idem, ibidem: 167). Consequentemente, sendo o sistema referencial localizador das estruturas abstractas que o sujeito enunciador constrói pela e na enunciação, é, em simultâneo, consequência e condição de toda a enunciação.

Ora, a complexidade deste mecanismo decorre fundamentalmente do carácter intersubjectivo da actividade linguística, consubstanciado no facto de o

164 Em Cervoni (1987), comenta-se que a perspectiva enunciativa presente nas

abordagens de alguns autores (que não Culioli) se faz incidir exclusivamente no tratamento de um tema, tido como central – por exemplo, a subjectividade ou a pragmática -, ou privilegia um conjunto bem delimitado de problemas - por exemplo, a argumentação, o implícito, o discurso relatado.

sujeito construir o sistema referencial em relação a um outro sujeito, com quem partilha a representação165. O sistema referencial construído deve ser, por isso,

simultaneamente estável e ajustável: “Il faut donc construire un système de référence stable et ajustable [...]” (idem, ibidem). Estabilidade, por um lado, e ajustabilidade por outro, permitem que, a partir dos enunciados, o sujeito interlocutor reconstrua o sistema de referência e que, pela operação de referenciação, haja interpretação e atribuição de valores referenciais à representação linguística.

A origem do sistema referencial – Sit0 (S0, T0) -, localizador absoluto dos

valores construídos, é também de natureza ajustável (ver idem, ibidem). Deste facto decorre a sua complexidade: o sistema referencial é um sistema complexo de coordenadas enunciativas, constituído por um conjunto de situações de enunciação com diferentes estatutos teóricos. É a partir da origem absoluta - localizador absoluto ou último na cadeia de localizações - que se constrói um sistema de coordenadas enunciativas: uma situação de locução Sit1, definida pelas

coordenadas S1 e T1, uma situação Sit2, definida pelas coordenadas do

acontecimento linguístico, S2 e T2.

O carácter ajustável do sistema referencial não é compatível com uma estabilização definitiva, pelo que o sistema acima descrito – afirma Culioli – é o sistema referencial mínimo: “Ce système est minimal est peut être enrichi de façon

165 A intersubjectividade radica na concepção da linguagem como actividade dupla de

produção e de reconhecimento. O carácter assimétrico da enunciação é teoricamente representável precisamente na parametrização do sistema de coordenadas enunciativas por S, parâmetro em relação ao qual – afirma Culioli - se constrói um sujeito origem e uma relação inter-subjectiva (“[...] S (construction d‟un sujet origine et d‟une relation inter-subjective) [...]” (Culioli, 1993: 167). Sobre a complexidade inerente a esta partilha de uma representação com um outro sujeito (o co-enunciador), comenta Culioli que “[...] dehors du pointage (lorsqu‟on a affaire à du visible et que l‟interlocuteur est présent), nous ne possédons pas de référentiel externe et pré-ajusté qui fonctionnerait de sujet à sujet” (idem,

ibidem). Aliás – refere este autor, noutro momento - “Comme les choses seraient claires si les opérations de référence se ramenaient à la désignation ostensive que l‟on touche ou que l‟on pointe le référent” (idem, 1986b: 3).

réglée par la construction d‟autres repères” (idem, 1982: 17)166. Constituído por um

encadeamento de operações de localização em cascata, a localização situacional pode ser representável pela seguinte expressão metalinguística (ver Culioli, 1982: 17):

< Sit2 (S2, T2) є Sit1 (S1, T1) є Sit0 (S0, T0) >

As coordenadas enunciativas assim construídas localizam-se em cascata: Sit2

(S2, T2) é localizado em relação a Sit1 (S1, T1), que, por seu turno, é localizado em

relação a Sit0 (S0, T0).

Retomando o enfoque particular que pretendemos dar à coordenada subjectiva do sistema referencial, não há, portanto, um sujeito enunciador único, mas uma classe de sujeitos enunciadores, sendo o sujeito enunciador origem (S0) o

localizador último, em relação ao qual são localizados - e, portanto, construídos – os restantes elementos da classe: sujeito da locução, ou locutor (S1)167, e sujeito do

acontecimento linguístico, ou do enunciado (S2).

Depois de localizada no sistema referencial, da relação predicativa deriva o enunciado. Isto é, pela localização da relação predicativa na cadeia de situações de enunciação (sujeitos e tempos de enunciação) – globalmente, pela sua localização

166 Sobre o que Culioli diz serem as possibilidades de enriquecimento deste sistema

referencial pela construção de outras origens – “origines dérivées” (Culioli, 1993: 167) -, ver Culioli (1978, 1988, 1993 e 1994). Retomaremos este aspecto adiante (ver § 5).

167 Por locutor entende-se, não simplesmente o “emissor” enquanto responsável pela

produção material (fonético-fonológica) dos enunciados, mas sim o sujeito construído pelo enunciador origem como suporte da modalização que incide sobre uma relação predicativa: “En début d‟énoncé, l‟origine du système de repérage sera S0, puis, par translation, la

nouvelle origine, en cours d‟énoncé, sera S1, lui-même repéré par rapport à S0” (Culioli,

em relação a Sit168 -, a relação predicativa, na sua totalidade e cada um dos seus

termos, adquire valores referenciais das diferentes categorias gramaticais de determinação nominal, tempo-aspecto, modalidade. Constitui-se, assim, um enunciado, que corresponde à construção de uma ocorrência linguística da noção complexa subjacente à relação predicativa em causa.

Ora, a construção do enunciado, como construção de uma ocorrência, - referimo-lo já - decorre dos dois parâmetros de diferentes naturezas: qualitativa (Qlt) e quantitativa (Qnt) (ver § 2.3.1). Construído em relação a uma situação de enunciação munida das duas coordenadas, subjectiva e espacio-temporal, implica, enquanto construção de uma ocorrência, por um lado, o parâmetro Qlt, por outro lado, o parâmetro Qnt.

A dimensão qualitativa prende-se com o facto de toda a ocorrência se definir como uma ocorrência da noção /P/, isto é, como uma ocorrência que tem, aos olhos do enunciador, a propriedade P. Esta operação (mediante a qual se situa a ocorrência no domínio nocional associado à noção em causa) está intrinsecamente ligada à subjectividade do enunciador, de quem depende um processo de validação da ocorrência em relação ao centro organizador (é uma verdadeira ocorrência de /P/? tem todas as propriedades da noção?), podendo “deslizar” para uma avaliação ou apreciação (é uma boa ocorrência? desejável?)169. A dimensão quantitativa

prende-se com o facto de o espaço enunciativo em que toda a ocorrência é obrigatoriamente situada ser munido de coordenadas espacio-temporais. Esta delimitação espacio-temporal da ocorrência corresponde a uma delimitação fundamentalmente existencial.

Assim, se, por um lado, é em relação à coordenada espacio-temporal que são calculados os valores temporais-aspectuais que caracterizam os enunciados

168 Simbolizando a relação predicativa por <r>, o enunciado é representado pela

expressão metalinguística < a r b > є Sit (S, T) ou pela sua forma abreviada << r > є Sit > (ver § 4).

169 Numa referência à possibilidade de construção de uma avaliação apreciativa,

comenta-se em Gilbert (2001a): “On passe alors du cognitif à l‟affectif qui [...] joue un rôle important dans certaines des interprétations des modaux” (idem, ibidem: 25) (ver § 9.1.1).

dotando-os de uma dimensão quantitativa, por outro, é em relação ao sujeito enunciador, origem enunciativa estável e centro organizador do acontecimento enunciativo, que são calculados os valores modais desses enunciados, dotando-os de uma dimensão qualitativa. Como dizíamos acima, é da localização da relação predicativa em relação à classe de coordenadas subjectivas (localizadas, por sua vez, em relação ao sujeito enunciador origem) que se constroem valores referenciais da categoria modalidade.

No quadro da Teoria Formal Enunciativa, a categoria da modalidade, como qualquer outra categoria, não funciona de forma estanque. Há interdependência na construção dos valores referenciais das diferentes categorias gramaticais, sendo na relação que estabelece com as outras categorias gramaticais que a modalidade converge para a significação do enunciado170.