performance musical
Embora não tenhamos acesso a pesquisas que tratem de abordagens alternativas no tratamento da ansiedade na performance musical, práticas orientais e indígenas que precedem a medicina moderna, podem trazer possíveis benefícios aos performers em razão da sensação de bem-estar e equilíbrio entre a mente e o corpo.
McGrath, Hendricks, Smith (2017), expõem tratamentos não medicamentosos que podem ajudar no processo de redução da ansiedade na performance musical de forma natural, evidenciados pelo notável sucesso em ajudar vários indivíduos a reduzir a ansiedade em geral. Entre estas opções de tratamento encontram-se:
Exercício e dieta;
Acupuntura, acupressão e tapping; Massagem;
Técnica de Alexander; Método Feldenkrais; Yoga;
Meditação.
Para Maciente (2016, p. 124), há várias maneiras de abrandar a ansiedade na performance musical por meio do corpo. A respiração adequada, exercícios físicos, boa postura, hábitos saudáveis, possivelmente contribuirão para uma melhor qualidade de vida e em consequência, contribuirão para a redução da ansiedade principalmente em momentos estressantes.
Complementando as opções de tratamento natural da ansiedade na performance musical, Kenny (2011), acrescenta as seguintes abordagens:
Biofeedback;
Recuperação de recursos ericksonianos; Hipnoterapia.
É importante conhecermos as definições e o funcionamento dessas abordagens naturais, para entendermos como elas podem ser benéficas no enfrentamento da ansiedade na performance musical. Para isso, as descreveremos a seguir, conforme os estudos de McGrath, Hendricks, Smith (2017) e Kenny (2011).
Exercício e dieta
Segundo McGrath, Hendricks, Smith (2017, p. 83), exercício e dieta são duas coisas que artistas performáticos e professores muitas vezes negligenciam, no entanto, os efeitos do exercício na redução da ansiedade são bem conhecidos. De acordo com os
autores (ibidem, 2017), algumas pesquisas sugerem que exercícios aeróbicos podem ser tão efetivos quanto medicação antiansiedade, tornando-se um tratamento promissor, quando praticados pelo menos 150 minutos por semana.
Acupuntura, acupressão e tapping
Segundo McGrath, Hendricks, Smith (2017, p. 86), a acupuntura tem sido utilizada por indivíduos com confirmadas neuroses de ansiedade, especialmente quando combinada com terapia de dessensibilização comportamental, envolve a inserção de agulhas em pontos específicos do corpo, e é recomendada para ser usada apenas por profissionais qualificados, contudo, apesar do seu uso por milhares de pessoas, principalmente no combate a dores no corpo, não há no momento nenhuma pesquisa sobre a efetividade da acupuntura para reduzir os sintomas de ansiedade para a população em geral, portanto, são necessárias pesquisas com grandes amostras.
Se as agulhas lhes causa desconforto, então existem outras opções similares, incluindo acupressão e técnica de liberdade emocional (EFT), ou tapping, a qual, uma vez aprendida pode ser praticada sozinho, sendo uma estratégia para melhorar a saúde emocional e enfrentamento do medo.
Massagem
A massagem é a manipulação terapêutica dos tecidos moles do corpo para promover o relaxamento, a circulação sanguínea, a redução da dor, o estado de alerta e a função imunológica. Entre seus benefícios estão: redução da dor, dores de cabeça e problemas neuromusculares; melhorar a atenção; ajudar com distúrbios imunológicos; e aliviar a ansiedade; redução da pressão arterial; redução dos níveis de cortisol (hormônio do estresse) e aumento dos níveis de dopamina e norepinefrina (MCGRATH; HENDRICKS; SMITH, 2017, p. 86).
Técnica de Alexander
Esta técnica é um método de educação cinestésica em que um novo modelo de equilíbrio está associado a instruções verbais e onde os hábitos de tensão são desafiados com ação intencionalmente dirigida. É um método terapêutico bem estimado por
músicos de orquestra. A técnica foi desenvolvida pela primeira vez pelo ator Frederick Matthias Alexander no século XIX como um meio para lidar com sua rouquidão periódica e problemas respiratórios durante a execução. A Técnica de Alexander, como método, defende a economia de esforço e equilíbrio, ajudando os participantes a substituirem práticas comuns de rigidez e restrição muscular por hábitos mais eficientes e libertadores, que podem então ser mais facilmente canalizados quando estiverem sob estresse (MCGRATH; HENDRICKS; SMITH, 2017, p. 87).
Método Feldenkrais
O Método Feldenkrais é uma "forma de educação somática que usa movimentos suaves e atenção direcionada para melhorar o movimento e o funcionamento humano. A abordagem ajuda os indivíduos a tomarem consciência dos hábitos tensos e desenvolver um repertório expandido de maneiras de se mover livremente e com flexibilidade. Pode levar a uma maior amplitude de movimento e melhor flexibilidade e coordenação ajudando a "redescobrir sua capacidade inata de movimento eficiente e gracioso".
Vários estudos associaram a prática de Feldenkrais à melhoria da saúde e bem- estar, incluindo diminuição da dor e da ansiedade, bem como melhoria da mobilidade, equilíbrio, percepção da qualidade de vida, consciência das atitudes corporais e humor. O saxofonista Stephen Duke observa similarmente a consciência holística que é possível alcançar através da incorporação musical e defende a instrução de Feldenkrais como um meio de promover a liberdade de expressão e performances musicais mais naturais:
Ver uma ação ou uma habilidade como uma extensão da pessoa, troca a lógica tradicional linear, certa ou errada, por uma interação espontânea e não- linear. A qualidade dessa interação é determinada pela consciência do professor sobre a ação sem esforço e a função do movimento. Com essa conscientização, o professor leva o aluno a perceber como atuar com maior facilidade e qualidade, e assim, como fazer melhor o que o aluno pretende.
Duke também descreve a importância do peso e da percepção da respiração no Método Feldenkrais:
Sentir seu peso através dos seus pés no chão e sentir a qualidade de sua respiração é freqüentemente usado no final de uma aula no Método Feldenkrais. Antes de me apresentar, faço questão de verificar como sinto meu peso e minha respiração como formas de me tornar presente e deixar a tensão
de lado. Essa rotina simples explora a consciência que se acumula ao se estudar o método (MCGRATH; HENDRICKS; SMITH, 2017, p. 89).
Yoga
Para McGrath, Hendricks, Smith (2017, p. 89), o Yoga é uma prática espiritual, mental e física que se originou na Índia e ganhou popularidade em todo o mundo por sua capacidade terapêutica de aliviar o estresse, a ansiedade, a perturbação do humor e os problemas musculoesqueléticos. Como a performance musical é amplamente dependente da execução de habilidades motoras, o Yoga oferece um modo de terapia particularmente aplicável para aqueles com ansiedade de performance musical devido à ênfase no equilíbrio físico e no alongamento. Percebe-se então que qualquer terapia que promova a serenidade interior e o equilíbrio psicológico, seria um poderoso benefício para artistas de todas as áreas.
Meditação
A meditação é uma prática enraizada no princípio da auto-regulação da mente. Esta técnica geralmente promove o relaxamento, o equilíbrio espiritual e uma sensação constante de bem-estar, mesmo diante de circunstâncias caóticas ou estressantes, funciona de maneira comparável ao capacitar a mente para administrar intrusões que vão desde a distração trivial à ansiedade, medo, pânico e qualquer coisa que possa comprometer nossa paz interior.
Meditar de forma eficaz, exige um senso de disciplina afiado, obtido apenas por meio da prática diligente, mas mesmo os iniciantes podem se beneficiar do treinamento, especialmente aqueles que enfrentam situações exclusivamente estressantes, como o desempenho. O psicólogo Gary Schwartz concorda, explicando que o estado mental e físico de estar relaxado, mas alerta, conforme alcançado na meditação, é ideal para o desempenho, pois permite que o intérprete se concentre na técnica sem se desvincular do artístico (MCGRATH; HENDRICKS; SMITH, 2017, p. 90).
Biofeedback
É uma técnica que utiliza o feedback eletromiográfico (EMG) para auxiliar executantes ansiosos para reduzir a tensão do músculo. A EMG mede a força dos
impulsos elétricos que ocorrem nos músculos e produz traços desses impulsos em uma impressão que pode ser facilmente visualizada e compreendida. Outros dados fisiológicos podem ser coletados de forma semelhante, incluindo temperatura da pele, freqüência cardíaca (ECG) e pressão arterial. Usando o feedback visual fornecido pelas impressões das máquinas de biofeedback, os indivíduos podem aprender a reduzir a tensão muscular ou a frequência cardíaca ou aumentar a temperatura da pele ou alterar outros parâmetros fisiológicos (KENNY, 2011, p. 196).
Recuperação de recursos ericksonianos
Esta técnica refere-se ao uso de mecanismos inconscientes dentro da história pessoal do indivíduo para se adaptar a um desafio atual da vida. Os recursos são definidos como 'padrões automatizados de sentimento, percepção e comportamento' (LANKTON, 1983, p. 121). A recuperação de recursos é uma intervenção orientada para o processo que se concentra em ajudar a pessoa a acessar seus pontos fortes existentes ao invés de ensinar-lhe novas habilidades (KENNY, 2011, p. 197).
Hipnoterapia
Segundo Kenny (2011), até hoje, apenas o estudo realizado por Stanton (1994), avaliou o efeito terapêutico da hipnoterapia na ansiedade do desempenho musical. Neste estudo, um grupo de estudantes de música que sofrem de ansiedade de performance musical receberam duas sessões de 50 minutos de hipnoterapia, enquanto um grupo de controle de estudantes, discutiu seu desempenho e ansiedade com seu professor por um período similar de tempo. Uma significativa redução antes e depois do tratamento na ansiedade de desempenho musical foi encontrada para o grupo de tratamento, mas não para o grupo de controle, e uma redução ainda mais significativa foi encontrada no acompanhamento de seis meses.
Este estudo foi enfraquecido pelo fato de que os critérios para seleção de sujeitos, eram um tanto subjetivos, pois os alunos selecionados pelo seu professor para inclusão pareciam propensos à APM. Os achados de Stanton sugerem que a hipnoterapia pode ser eficaz no tratamento da ansiedade no desempenho musical, mas estudos adicionais metodologicamente superiores são necessários (KENNY, 2011, p. 197-198).
Intervenções que levem a uma melhoria na qualidade do desempenho, são as mais desejáveis, uma vez que elas terão um efeito de auto-reforço e aumento da confiança nos desempenhos futuros, evitando a necessidade de tratamento adicional (KENNY, 2011, p. 199).
É necessário o aprofundamento em pesquisas que abordem estas alternativas naturais de redução da ansiedade, do pânico etc, uma vez que assim o uso de substâncias químicas, se torne cada vez menos frequente no universo da performance musical.