Para Maciente (2016, p. 114), o uso de substâncias químicas, permitidas ou não, receitadas ou não, é muito frequente na população mundial, na tentativa de aliviar a ansiedade, a angústia, o medo, o pânico, fobias, timidez e sensações similares. Entre os músicos isto não é diferente, já que nesta profissão o estresse e a ansiedade costumam ser situações corriqueiras.
Supõe-se que o uso de substâncias químicas seja muito utilizado por questões práticas, sensação de alívio instantâneo e são utilizados em momentos específicos como audições, recitais, enfim, de acordo com a situação que o performer vivencia, porém, um detalhe importante que às vezes é ignorado é que devem ser utilizadas com acompanhamento médico.
Segundo Kenny (2001, p. 218), quando as pessoas ficam estressadas, o corpo produz vários hormônios, como noradrenalina e epinefrina (adrenalina), que se ligam aos receptores adrenérgicos, produzindo as respostas fisiológicas típicas de um estado de ansiedade. Existem dois tipos de receptores: receptores alfa, que afetam o músculo liso, como os intestinos e a constrição dos vasos sanguíneos, e os beta-receptores, que afetam o músculo esquelético, causando tremores, aumento da frequência cardíaca e dilatação dos brônquicos e vasos sanguíneos. Existem dois tipos de receptores beta, chamados beta-1, afetando o coração, e beta-2, que afetam a circulação periférica e os brônquios (BRANDFONBRENER, 1990).
Os beta-bloqueadores se ligam aos beta- adrenoceptores e bloqueiam a ligação de noradrenalina e adrenalina a esses receptores, bloqueando assim os efeitos físicos da resposta de luta ou fuga. Os betabloqueadores foram projetados e desenvolvidos para
uso em pessoas com problemas cardíacos ou após infartos do miocárdio (ataques cardíacos) para reduzir ou bloquear os efeitos da excitação simpática do coração, incluindo a redução da pressão arterial e do débito cardíaco, a fim de reduzir a tensão no músculo cardíaco danificado. O efeito dos betabloqueadores está relacionado à dose e sensibilidade individual à medicação. O efeito de pico ocorre de uma a uma hora e meia após o consumo. Os betabloqueadores não têm efeito calmante ou sedativo nos sintomas emocionais ou efeitos psicológicos da ansiedade, como distúrbios do sono (embora possam deixá-lo com muito sono), conversação interna negativa ou preocupação e ruminação (KENNY, 2011, p. 219).
Segundo Kenny (2011, p. 219), existe uma vasta gama de bloqueadores beta disponíveis, e estas diferentes formas do fármaco, têm efeitos diferentes nos diferentes locais dos receptores beta no organismo. Metoprolol (Lopresor) e Atenolol (Tenormin), por exemplo, são beta-1 selectivo, o que significa que eles bloqueiam receptores beta-1, encontrados principalmente no coração, mas não os receptores beta-2 encontrados nos músculos lisos no pulmão e útero. Estes Betabloqueadores beta-1-receptivos, atuam para diminuir a pressão arterial, a frequência cardíaca e a força da contração cardíaca. O Propranolol (Inderal) é um agente bloqueador de beta- adrenorreceptores que age de forma não seletiva nos receptores beta (β1 e β2) (MIMS, 2006). O Inderal atravessa a barreira hematoencefálica mais facilmente que outras formas da droga e, portanto, pode produzir efeitos colaterais do sistema nervoso central, como lassidão leve, insônia e distúrbios visuais em 2% dos pacientes. Efeitos colaterais mais graves incluem pesadelos e alucinações graves. Complicações psiquiátricas (depressão, psicoses, reações psicóticas e estados confusionais agudos) podem ocasionalmente ocorrer, mas é improvável que sejam graves. Seria, no entanto, aconselhável restringir o tratamento em pacientes que sofreram de doença depressiva anterior (MIMS, 2006), (KENNY, 2011, p. 219).
Para a autora (ibid., 2011), como muitos dos sintomas somáticos da ansiedade de desempenho são mediados pela ativação do sistema nervoso simpático, os betabloqueadores têm se tornado cada vez mais populares entre os artistas nos últimos anos. Em pequenas doses, que minimizam os efeitos colaterais, o Inderal parece ser a droga escolhida para o controle da ansiedade de desempenho (BRANDFONBRENER, 1990). Embora agora comumente usado para ajudar pessoas com ansiedade severa de desempenho, esse uso não é listado no MIMS como um indicador. No entanto, a pesquisa disponível mostra que seu uso é generalizado. Uma pesquisa realizada com
2.122 músicos de orquestra conduzida por Lockwood descobriu que 27% usavam o Propranolol para controlar sua ansiedade antes de uma apresentação; 19% desse grupo usaram a droga diariamente (LOCKWOOD, 1989).
Os betabloqueadores parecem ser mais eficazes para os músicos que relatam principalmente manifestações somáticas de sua ansiedade (por exemplo, palpitações, hiperventilação, tremor, lábios trêmulos, palmas das mãos suadas etc.) (GATES et al., 1985; JAMES & SAVAGE, 1984, apud KENNY, 2011, p. 220) e menos eficazes para aqueles que experimentam efeitos cognitivos ou psicológicos, como baixa estima, fobias sociais ou ansiedade generalizada (LEHRER et al., 1990).
Apesar do uso dessas substâncias por músicos, na tentativa de reduzir ou controlar a APM, conforme colocado por Kenny (2011, p. 220), não há indicação clara de que tais drogas melhorem as avaliações de qualidade de desempenho (BRANTIGAN, BRANTIGAN & JOSEPH, 1982; GATES et al., 1985; JAMES, BURGOYNE & SAVAGE, 1983), ou as classificações de medo do palco (NEFTEL et al., 1982).
Betabloqueadores são definitivamente contra-indicados em pessoas com algumas doenças cardíacas, asma e diabetes, por esta razão, reforça-se a prudência em utilizá-los apenas sob prescrição médica, devido aos efeitos colaterais que estas drogas podem causar, dentre eles: tontura, fadiga, dor de cabeça, depressão, perda de memória a curto prazo, boca seca, dores musculares, cãibras e etc.
Kenny (2011, p. 221), faz uma observação importante a respeito de sua utilização:
Os músicos precisam entender que os beta-bloqueadores não melhoram o desempenho musical. Eles aliviam os sintomas somáticos problemáticos que podem prejudicar a qualidade do desempenho, permitindo assim, que o músico desempenhe tecnicamente, aquilo que sua preparação permitiu. Por exemplo, betabloqueadores reduzem a boca seca em músicos de sopro e tremores em músicos de cordas. Estas são manifestações fisiológicas de ansiedade que prejudicam o desempenho. Ao remover ou reduzir esses efeitos problemáticos, os músicos poderão tocar seus instrumentos tão bem quanto em condições menos estressantes, onde tais sintomas não surgem. Por outro lado, o amortecimento da excitação autônoma também pode atenuar a reação emocional da pessoa à música e alguns músicos relatam que não atingiriam o mesmo nível de comprometimento ou intensidade em suas apresentações se tivessem tomado um betabloqueador antes da apresentação. Além disso, músicos cuja ansiedade de desempenho é expressa principalmente através de sintomas emocionais ou cognitivos não podem esperar se beneficiar de betabloqueadores. Eles precisarão realizar alguma forma de terapia psicológica para obter alívio.
Discussões a respeito do uso ou não, das vantagens ou desvantagens de betabloqueadores devem permanecer na lista de inquietações das pesquisas em performance musical, pois fica a impressão de que sua utilização tem sido negligenciada por muitos performers e motivada por tarefas e situações específicas de cada indivíduo, mas que, além da redução de alguns sintomas físicos pode prejudicar o funcionamento expressivo durante a performance.
Na tentativa de reduzir a APM, vale tentar experimentar abordagens naturais (não medicamentosas) como as já citadas neste capítulo, porém, essas abordagens se referem a hábitos praticados no dia a dia e possivelmente não terão um efeito instantâneo, mas, com disciplina e treinamento, é provável que se otimize tanto a qualidade de vida quanto a qualidade da performance a longo prazo, mas será uma questão de experimentar durante o processo de preparação para a performance musical.
3.5 Substâncias auto-administradas
Álcool
O álcool é o combustível para muitos artistas, atores e músicos. Embora hajam evidências de pesquisas de que muitos artistas usam o álcool e a maconha para gerenciar a ansiedade na performance, não houve estudos formais sobre os efeitos dessas substâncias na qualidade do desempenho musical. É suficiente dizer que os milhares de estudos disponíveis sobre os efeitos prejudiciais dessas substâncias em muitos aspectos da função cognitiva, como a resolução de problemas e comportamentos complexos, como dirigir, indicam que os músicos não podem esperar benefícios positivos para o desempenho musical ou a saúde em geral do uso freqüente de tais substâncias. Os efeitos prejudiciais do álcool são bem conhecidos, tanto a curto prazo, após consumo excessivo ou intoxicação, como a longo prazo, por habituais usuários. Os déficits a curto prazo incluem decréscimos na fluência verbal, habilidades visoespaciais, componentes da memória declarativa e velocidade psicomotora, que, com o uso a longo prazo, podem se tornar permanentes (GREEN et al., 2010). O uso excessivo de álcool a longo prazo danifica irreversivelmente os órgãos do corpo, particularmente o fígado e o cérebro (KENNY, 2011, p. 223-224).