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betabloqueadores devem permanecer na lista de inquietações das pesquisas em performance musical, pois fica a impressão de que sua utilização tem sido negligenciada por muitos performers e motivada por tarefas e situações específicas de cada indivíduo, mas que, além da redução de alguns sintomas físicos pode prejudicar o funcionamento expressivo durante a performance.

Na tentativa de reduzir a APM, vale tentar experimentar abordagens naturais (não medicamentosas) como as já citadas neste capítulo, porém, essas abordagens se referem a hábitos praticados no dia a dia e possivelmente não terão um efeito instantâneo, mas, com disciplina e treinamento, é provável que se otimize tanto a qualidade de vida quanto a qualidade da performance a longo prazo, mas será uma questão de experimentar durante o processo de preparação para a performance musical.

3.5 Substâncias auto-administradas

Álcool

O álcool é o combustível para muitos artistas, atores e músicos. Embora hajam evidências de pesquisas de que muitos artistas usam o álcool e a maconha para gerenciar a ansiedade na performance, não houve estudos formais sobre os efeitos dessas substâncias na qualidade do desempenho musical. É suficiente dizer que os milhares de estudos disponíveis sobre os efeitos prejudiciais dessas substâncias em muitos aspectos da função cognitiva, como a resolução de problemas e comportamentos complexos, como dirigir, indicam que os músicos não podem esperar benefícios positivos para o desempenho musical ou a saúde em geral do uso freqüente de tais substâncias. Os efeitos prejudiciais do álcool são bem conhecidos, tanto a curto prazo, após consumo excessivo ou intoxicação, como a longo prazo, por habituais usuários. Os déficits a curto prazo incluem decréscimos na fluência verbal, habilidades visoespaciais, componentes da memória declarativa e velocidade psicomotora, que, com o uso a longo prazo, podem se tornar permanentes (GREEN et al., 2010). O uso excessivo de álcool a longo prazo danifica irreversivelmente os órgãos do corpo, particularmente o fígado e o cérebro (KENNY, 2011, p. 223-224).

Nicotina

Uma vez iniciado, fumar é um hábito notoriamente difícil de perder (HEISHMAN, KLEYKAMP & SINGLETON, 2010). Dentre os riscos à saúde provocados pela nicotina, encontram-se: cânceres em múltiplos órgãos, doenças cardíacas, doenças pulmonares, doenças vasculares, riscos para bebês em gestação e envelhecimento prematuro da pele (WORLD HEALTH ORGANIZATION STUDY GROUP, 2007). Em doses baixas, a nicotina estimula a liberação de beta-endorfinas, que estão associadas a uma sensação de calma e bem-estar. Em altas doses, ela estimula a liberação de noradrenalina, adrenalina e dopamina, que aumentam tanto o estado de alerta quanto o estado de relaxamento.

A nicotina melhora a memória através da liberação aumentada de dois neuro- transmissores envolvidos com a função de memória, a acetilcolina e a vasopressina, porém sua abstinência causa dificuldade de concentração e isso é acompanhado por déficits no desempenho da tarefa (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2000). Tais efeitos foram observados em laboratório entre 30 e 120 minutos após o início da privação do tabaco (HEISHMAN et al., 2010, apud KENNY, 2011, p. 224).

Para Heishman et al. ( 2010, apud KENNY, 2011, p. 224) os efeitos agudos da nicotina e do tabagismo sobre o desempenho humano são positivos nas habilidades motoras finas, alertando a precisão da atenção e o tempo de resposta, orientando o tempo de resposta de memória episódica e memória de trabalho.

Embora hajam efeitos positivos no uso da nicotina, Kenny (2011) comenta não ter conhecimento de estudos que documentem o seu uso em músicos ansiosos, particularmente em momentos pré-performance, em contrapartida, reforça-se a prática de exercícios aeróbicos regulares, que também aumentam a liberação de beta- endorfinas, acetilcolina e adrenalina. O exercício aeróbico produz um estado de alerta relaxado semelhante ao conseguido pela ingestão de nicotina; mas, ao contrário do fumo, o exercício não carrega simultaneamente os sérios riscos de danos causados pelo fumo (RENDI et al., 2008, apud KENNY, 2011, p. 225).

Cafeína

A cafeína é um químico psicoestimulante encontrado no café, chá, refrigerantes e bebidas energéticas. Através de uma série de estudos foi constatado que a cafeína tem

um impacto positivo no humor, função cognitiva, particularmente para tarefas mais longas e difíceis envolvendo baixa excitação (LARA, 2010), mas também incluindo atenção seletiva, memória imediata e operacional (ADAN E SERRA-GRABULOSA, 2010; ADDICOTT & LAURIENTI, 2009), processamento visual rápido e desempenho, incluindo destreza manual, desempenho psicomotor como indicado por uma tarefa de finger-tapping (HARRELL & JULIANO, 2009) (KENNY 2011, p. 225).

A cafeína, portanto, passou a ser considerada como uma ferramenta farmacológica para aumentar a energia e o comportamento de esforço nas atividades diárias (LARA, 2010 apud KENNY, 2011, p. 225). No entanto, sob condições e tarefas variadas, pode ter efeitos facilitatórios ou inibitórios sobre memória e aprendizado, ou seja, em doses baixas, a cafeína melhora o humor e reduz a ansiedade, mas, em doses elevadas, aumenta a excitação, incluindo a ansiedade (NEHLIG, 2010, apud KENNY, 2011, p. 225).

Outro fato observado é que, como a maioria das drogas, a cafeína também tem demonstrado efeitos adversos, pode piorar condições como hipertensão e arritmias cardíacas, pode induzir ansiedade (LARA, 2010) ou exacerbar os sintomas dos transtornos de ansiedade e interferir na eficácia dos medicamentos (HAMMOND & GOLD, 2008).

Os músicos ansiosos precisam considerar os efeitos amplificadores da ansiedade através da ingestão de cafeína, particularmente antes do desempenho, e o fato de que a cafeína pode interferir na eficácia de seus medicamentos ansiolíticos (ansiolíticos) (KENNY, 2011, p. 225).

Cannabis

Sabe-se que alguns músicos, artistas e atores fazem uso de substâncias ilícitas como forma de se desinibir ou afastar o medo do palco, porém este assunto torna-se complexo devido a individualidade de cada pessoa. Estudos observacionais em animais e humanos mostram que a maconha e outras substâncias derivadas da cannabis afetam o humor e a reatividade emocional que são dose-dependentes. Devido aos efeitos observados, e devido o sistema canabinóide (CB) ser um mediador neuroquímico da ansiedade e do medo no aprendizado tanto em animais quanto em humanos (PHAN et al., 2008), pesquisadores investigaram os possíveis usos terapêuticos da cannabis e seus derivados. Destas pesquisas verificaram-se duas abordagens: uma, foi amplificar os

efeitos dos canabinóides endógenos (EC), chamados anandamida, que provocam efeitos semelhantes a ansiolíticos e semelhantes a antidepressivos em ratos e camundongos (GAETANI et al., 2009). Os efeitos ansiolíticos do canabidiol também foram demonstrados em outros estudos (JIANG et al., 2005; MOREIRA et al., 2006). Esses pesquisadores argumentaram que o sistema EC desempenha um papel importante nos transtornos de ansiedade e de humor, e que futuras pesquisas poderiam investigar as possíveis implicações farmacológicas para o desenvolvimento de medicações ansiolíticas e antidepressivas; a outra abordagem foi investigar o uso de canabidiol (CBD), um importante constituinte não-psicotrópico da cannabis. Seguno Kenny (2011, p. 227), pesquisadores como Mechoulam et al. (2002), afirmam que há muito interesse nesta substância devido aos seus muitos efeitos terapêuticos, que incluem propriedades anti-convulsivas, ansiolíticas, antipsicóticas, anti-náuseas e artríticas anti-reumatóides. Em estudos com humanos, o delta (9) tetrahidrocanabinol (THC), o principal ingrediente psicoativo da cannabis, reduziu significativamente a reatividade da amígdala (uma região cerebral crítica para a percepção de ameaça) aos sinais sociais de ameaça, mas não prejudicou a atividade nos córtices visual e motor primário, demonstrando assim a função ansiolítica do THC (PHAN et al., 2008) sem comprometimento em outros sistemas cerebrais. Phan et al. (2008) sugeriram que as terapias direcionadas ao sistema canabinóide podem ser eficazes para o tratamento dos transtornos de ansiedade, incluindo a ansiedade social (KENNY, 2011, p. 227).

Como já exposto anteriormente, este é um assunto complexo, os pesquisadores anteriormemte citados, mostraram que talvez seja possível desenvolver tratamentos com estas substâncias, claro que de forma controlada e acompanhada, pois sabe-se que o uso de drogas autoadministradas, pode trazer sérios problemas, principalmente a dependência. Para Cury (2016, p. 111), pessoas que usam drogas depositam bombas no solo de seu córtex cerebral. Segundo o autor, o uso de drogas é uma das mais importantes causas sepultadoras dos sonhos da juventude mundial. O autor (ibid., 2016) coloca que, há cerca de 8 milhões de usuários de drogas lícitas e ilícitas no Brasil, e 30 milhões de pessoas são afetadas diretamente pela farmacodependência. Em contradição aos pesquisadores apresentados por Kenny (2011), Cury (2016, p.114), afirma que, o tetraidrocanabinol, substância psicoativa da maconha, demora mais tempo para instalar a dependência, porém o grande problema está no fato de que a maconha afeta a cognição, a memória e a motivação.

4 METODOLOGIA

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