A definição de gênero discursivo para Bakhtin é, por vezes, reduzida a já desgastada frase feita de que gêneros discursivos são tipos relativamente estáveis de enunciados. É óbvio que essa máxima não deixa de ser verdadeira, mas ela é deveras superficial em face do vasto estudo feito tanto por Bakhtin quanto pelo Círculo na construção de uma teoria que dê conta de sistematizar os estudos dos gêneros. Para ampliar essa visão, faremos apontamentos a partir de pontos abordados por Medviédev (2016) e pelo próprio Bakhtin (2016; 2015; 2015b) no que tange à relação dos gêneros com o mundo da vida, sua arcaica e sua devida sistematização.
Nas discussões sobre gêneros discursivos do Círculo de Bakhtin, é possível apreender que esses são ferramentas de comunicação essenciais para a interação com o outro e são heterogêneos e multiformes, como são as nossas práticas sociais. A língua, em um ponto de vista metalinguístico e estrutural, é inundada de valor e ideologia quando se concretiza no meio social por meio de enunciados (sejam orais, sejam escritos) concretos, únicos, singulares, produzidos por sujeitos de determinado campo da atividade humana, deixando de ser mero artefato metalinguístico e se transformando em linguagem. A variedade e a riqueza dos gêneros são exorbitantes, visto que, segundo o próprio Bakhtin (2011, p. 12), “são inesgotáveis as possibilidades da multiforme atividade humana e porque em cada campo dessa atividade é
integral o repertório de gêneros do discurso, que cresce e se diferencia à medida que se desenvolve e se complexifica um determinado campo”. Os gêneros, pois, consistem na arquitetônica que sustenta, organiza e gera acabamento para um enunciado. É a percepção da ligação indissolúvel dos três elementos elencados pelo teórico – conteúdo temático, estilo e forma composicional – que sustenta essa noção de estabilidade. Os enunciados particulares são, por natureza, individuais. Entretanto, cada campo de utilização da língua elabora os seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros discursivos” (BAKHTIN, 2011, p. 12).
Nessa perspectiva, compreende-se que o gênero discursivo é composto por um conteúdo temático, o que nos revela a função discursiva de tal enunciado, estilo, relacionado às escolhas de linguagem que o gênero permite que sejam utilizadas e, por fim, à forma composicional, a qual diz respeito à organização dessa linguagem ao longo do texto.
Por sua natureza mesma, o gênero literário reflete as tendências mais estáveis, ‘perenes’ da evolução da literatura. O gênero sempre conserva os elementos imorredouros da archaica. É verdade que nele essa archaica só se conserva graças à sua permanente renovação, vale dizer, graças à atualização. O gênero sempre é e não é o mesmo, sempre é novo e velho ao mesmo tempo. O gênero renasce e se renova em cada nova etapa do desenvolvimento da literatura e em cada obra individual de um dado gênero. Nisto consiste a vida do gênero. Por isso, não é morta nem uma
archaica com capacidade de renovar-se. O gênero vive do presente mas sempre
recorda o seu passado, o seu começo. É o representante da memória criativa no processo de desenvolvimento literário. É precisamente por isto que tem a capacidade de assegurar a unidade e a continuidade desse desenvolvimento. (BAKHTIN, 2011, p. 106).
A partir da discussão proposta pelo teórico, nota-se o caráter dialógico tão característico da sua teoria ao notar o gênero como parte de um processo de elos no qual ele está ligado ao que o antecedeu e se ligará ao que vier após ele. Essa característica é fundamental para compreender que nenhum gênero ligado à literatura surge como o Adão mítico e será o primeiro a dizer algo ou tratar sobre determinada ética, ele, na verdade, nada mais é do que aquele que falou de uma forma diferente o que outros já tiveram a oportunidade de dizer. Nisso, reside outra característica dos gêneros: sua íntima ligação com o tempo e o espaço em que são produzidos. Sobre isso, Medviédev (2016, p. 195) argumenta que
[...] a obra se orienta para os ouvintes e os receptores, e para determinadas condições de realização e percepção. Em segundo lugar, a obra está orientada na vida, como se diz, de dentro, por meio do seu conteúdo temático. A seu modo, cada gênero está tematicamente orientado para a vida, para seus acontecimentos, problemas e assim por diante. [...] a obra entra em um espaço e tempo real: para ser lida em voz alta ou em silêncio, ligada à igreja, ao palco, ou ao teatro de variedades. Ela é uma parte das
festividades ou simplesmente do lazer. Ela pressupõe um ou outro auditório de receptores ou leitores, esta ou aquela reação deles, esta ou aquela relação entre eles e o autor. A obra ocupa certo lugar na existência, está ligada ou próxima a alguma esfera ideológica.
Uma vez que a obra se dirige a um determinado público, e ao longo do tempo, mudam- se as questões, os valores, as realidades e, por consequência, os sujeitos, as produções literárias passam por pesadas mudanças de estilo na medida em que seus possíveis leitores se transformam e transformam o mundo ao seu redor. Nesse aspecto está a problemática apresentada no início desta seção. Talvez tenha sido a falta de compreensão das temporalidades e de suas questões que aparecem na literatura que tenha feito com que muitos pais e professores se preocupassem com as leituras juvenis como a mencionada. Na contemporaneidade, como já foi situado na primeira seção, questões e demandas da juventude se alteram e a literatura, assim como outros artefatos da cultura de convergência, reflete essas questões ao longo de seus enredos, suas letras e suas pinturas. O gênero discursivo é um evento com data e local, por isso é preciso situá-lo antes de estudá-lo. Compreender o Young Adult com a larga lente dos estudos da literatura infantojuvenil, por exemplo, poderia gerar afirmações generalizadas e pouco situadas das obras apresentadas nesta pesquisa. É por isso que nos propomos a estudar o Young Adult pelo que ele de fato é; em razão disso, iniciaremos nossa análise na próxima seção construindo exatamente a organização arquitetônica do gênero seguindo os pressupostos teórico-metodológicos advindos de Bakhtin e do Círculo.
Sobre esses pressupostos teórico-metodológicos, vale resgatar a questão dos gêneros primários e secundários para que dela se retire uma categoria que nos será bastante cara ao longo da discussão: a reelaboração36. Bakhtin (2011) afirma que os gêneros primários podem
ser aglutinados pelos secundários em diversas ocasiões para que estes cumpram, de forma mais completa, suas intenções comunicativas e se complexifiquem. A esse processo o autor dá o nome de reelaboração, e é por meio dele que não apenas estruturas linguísticas, como a do diálogo, da carta e da ordem militar, vão para os gêneros secundário mas também diversas questões axiológicas dos sujeitos, construindo, pois, o elo entre o discurso na vida e o discurso na arte (VOLÓCHINOV, 2013). Desse modo, é mediante essas eventicidades imediatas dos gêneros primários que gêneros secundários conseguem construir a realidade do mundo da vida
36 A reelaboração foi chamada em traduções anteriores de transmutação e tem sido estudada somente do ponto de
vista estrutural, analisando gêneros que aparecem de forma híbrida ou intercalada. Nesta pesquisa, tentamos ir além considerando uma outra dimensão desta categoria que tem como fim a materialização das questões sociais por meio dos enunciados concretos dos sujeitos representados na literatura.
e 80epresenta-la. É o que acontece, por exemplo, com o romance. Na visão de Volóchinov (2017, p. 105),
[...] está claro que entre as mudanças econômicas na vida da nobreza e o surgimento do ‘homem supérfluo’ no romance existe um caminho muito longo que passa por uma série de esferas qualitativamente distintas, cada uma das quais com suas próprias leis específicas e singularidades. É evidente que o ‘homem supérfluo’ não surgiu no romance de modo independente, sem nenhuma ligação com os outros elementos da obra; ao contrário, o romance inteiro foi reconstruído como um todo único e natural com suas leis específicas. Do mesmo modo, todos os outros elementos do romance – sua composição, seu estilo e assim por diante – foram reconstruídos.
Além disso, Bakhtin vai além nas suas observações e discute a existência dos gêneros primários – considerados mais simples esteticamente por surgirem de situações discursivas mais imediatas, como o diálogo e a carta – e dos secundários – considerados mais complexos por demandarem mais trabalho em sua produção, muitas vezes, inclusive, fazendo uso dos gêneros primários para isso. Para o teórico,
[...] o romance permite que se introduzam em sua composição diferentes gêneros tanto literários (novelas intercaladas, peças líricas, poemas, cenas dramáticas, etc.) como extraliterários (retóricos, científicos, religiosos, narrativa de costumes, etc.). Em princípio, qualquer gênero pode ser incluído na construção do romance, e de fato é muito difícil encontrar um gênero que não tenha sido introduzido algum dia e por alguém no romance. Os gêneros introduzidos no romance costumam conservar nele a elasticidade de sua construção, sua autonomia e sua originalidade linguística e estilística. (BAKHTIN, 2011, p. 108).
A noção do teórico é facilmente observada nas obras romanescas, em razão de ser comum nessa estrutura a utilização de diversos outros enunciados, principalmente o diálogo, que é algo fundamental para a interação das personagens na trama em que se situam. Ademais, muitos desses gêneros engolidos pelo romance, por vezes, definem o próprio romance, como é o caso da confissão, do diário, da biografia e de muitos outros que, uma vez engolidos, alteram significamente o conteúdo, o estilo e a forma do romance. Cada um desses gêneros selecionados para a estrutura romanesca tem suas formas verbo-semânticas de assimilação de diversos aspectos e singularidades da realidade (BAKHTIN, 2015b). Portanto, “o romance usa esses gêneros exatamente como formas elaboradas de assimilação verbal da realidade” (BAKHTIN, 2015b, p. 109). A reelaboração pode ser entendida, então, como a ponte responsável por edificar a ponte que liga o mundo discursivo da vida e o da arte.
Inicialmente, é perceptível a presença de diversos gêneros primários ao longo do romance, sendo o diálogo o exemplo mais significativo, posto que é por meio da construção de
enunciados arquitetados em gêneros primários que os valores do mundo da vida são transportados para o mundo da arte. É a partir da conversa entre personagens, entre a troca de cartas, entre qualquer processo de interação ou mesmo pelo próprio pensamento da protagonista que os valores e as questões de quem escreve – e do mundo no qual esse sujeito está inserido – penetram no mundo da arte e se alojam lá. Assim, a reelaboração, mais do que permitir a réplica de estruturas linguísticas, permite que os valores do mundo da vida penetrem o da arte e a torne heterodiscursiva, na medida em que aquele local passa a não ser mais um campo neutro e oco ideologicamente. Com base na questão abordada por Volóchinov anteriormente, é possível perceber a íntima relação entre vida e arte, já que as questões e problemáticas dessa – resultantes da dialética entre a base e a superestrutura, como já mencionado – acabam influenciado a reflexão dessas questões em personagens ficcionais que, ali refratados, representam aspectos e planos de fundo sociais correspondentes a realidades imediatas de quem produz o enunciado.
A importância da orientação da palavra para o interlocutor é extremamente grande. Em sua essência, a palavra é um ato bilateral. Ela é determinada tanto por aquele de quem ela procede quanto por aquele para quem se dirige. Enquanto palavra, ela é justamente o produto das inter-relações do falante com o ouvinte. [...] Na palavra eu dou forma a mim mesmo do ponto de vista do outro e, por fim, da perspectiva da minha coletividade. A palavra é uma ponte que liga o eu ao outro. Ela apoia uma das extremidades em mim e a outra no interlocutor. A palavra é o território comum entre o falante e o interlocutor. (VOLÓCHINOV, 2017, p. 205).
Entender a reelaboração como um processo para além de sua função estrutural e metalinguística é ponto de partida para que compreendamos como a obra de arte, assim como o mundo da vida, pode ser o objeto de estudo das ciências da linguagem. Aliás, a grande maioria dos estudos de Bakhtin tiveram como objeto a literatura, e isso não causa qualquer estranhamento a partir do momento em que percebemos a ponte entre os dois universos; ao contrário, parece um erro gigantesco pensar os dois como espaços separados e isolados. Antes, estão em constante processo de relação dialógica. Logo, a partir dessa relação entre o eu e o outro traçada por Volóchinov (2019), é evidente a relação, construída a partir da palavra, entre as construções de si e o processo de alteridade. A relação com o outro me ajuda a me enxergar melhor, e essa relação se dá por meio da palavra, ou da linguagem, ou do enunciado. Tendo derrubado a noção de mundo da vida e da arte como separados, é imaginável, então, o processo de alteridade tecido entre sujeitos concretos e sujeitos ficcionais, na medida em que um lê o
outro, observa em uma tela de cinema ou na tela do celular enquanto navega por streamings37.
O nosso acabamento está no outro (BAKHTIN, 2011). É nessa perspectiva que compreendemos, pois, que, ao contemplar uma literatura contemporânea, as realidades ali presentes, muito provavelmente, estarão de acordo com as de muitos dos seus leitores.
É notória a inseparabilidade das questões sociais que rondam o mundo dos enunciados que são produzidos nesse mundo. Não é que os planos de fundo sociais influenciam essas construções de enunciados, antes, eles são constituintes e estão imbricados nessas produções. Além disso, desconsiderar essa ligação é adentrar em uma análise vazia situada em um vácuo social que ignora o solo fértil em que brotam os enunciados e fazer a pura e simples metalinguística (BAKHTIN, 2008). Essa discussão é importante para que se perceba os enunciados existentes na estrutura do romance – sobretudo, o diálogo – como ligados, necessariamente, à realidade da qual surgiram, não porque o texto artístico simplesmente reflete a realidade, mas porque ele foi produzido em um dado tempo e lugar, e como o próprio Volóchinov (2019) descreve, o plano de fundo no qual a produção se construiu é parte integrante dela, sendo reconhecida e percebida justamente a partir dos gêneros primários reelaborados para o romance, visto que é no diálogo, ou seja, na interação com o outro e com o mundo, que as questões do romance vão se revelando e o leitor constrói inteligibilidade para ela. Logo, a reelaboração é responsável por, a partir dos gêneros do cotidiano, intensificar a representação dos valores axiológicos presentes nas tramas e, além disso, promover, de forma efetiva, o heterodiscurso38 do romance, tendo em vista que é por meio desse efeito de trazer
outros gêneros para o romance que se permite que as diversas e variadas vozes do meio social se materializem pela linguagem na literatura, efetivando o processo de reflexão/refração das ideologias cotidianas.
Todos esses gêneros que integram o romance inserem nele suas linguagens, e por isso estratificam a sua unidade linguística e, a seu modo, aprofundam a sua natureza heterodiscursiva.
As linguagens dos gêneros extraliterários que integram o romance ganham amiúde tal importância que a introdução de um gênero correspondente (do epistolar, por exemplo) cria uma época não só na história do romance, mas também na história da linguagem literária. (BAKHTIN, 2015b, p. 109).
37 Forma de distribuição de mídia tecnológica que envia informações multimídia, por meio da transferência de
dados, utilizando redes de computadores, especialmente a internet, a qual foi criada para tornar as conexões mais rápidas e sem a necessidade de arquivamento definitivo de dados.
38 O heterodiscurso na concepção bakhtiniana pode ser compreendida como pluralidade de vozes e, como Bakhtin
empreende seu estudo a partir de romances, é importante lembrar que as vozes não são de figuras específicas do romance: autor, narrador e personagens. A grande questão dessa categoria é compreender como diversas vozes do mundo social (ou do mundo da vida como o autor se refere) são representadas no romance justamente por essas vozes do romance.
Assim, é evidente a singularidade obtida pelo YA a partir desse processo de reelaboração. À medida que o romance reflete e refrata as questões referentes à realidade juvenil contemporânea, faz com que se registre, no curso da linguagem literária, um modo peculiar de falar sobre determinado recorte temático, a partir de um determinado estilo e regido por uma certa forma composicional. Logo, a reelaboração permite mais do que apenas o aparecimento de gêneros do cotidiano no romance, permite que adentrem na estrutura romanesca os modos, a história, os valores, as identidades e todos os construtos sociais edificados pelo homem a partir de seus usos discursivos. Para além disso, esse processo possibilita o encadeamento do heterodiscurso, posto que, por meio dessa ponte entre arte e vida, faz com que os diferentes discursos sociais habitem e circulem o romance, como bem aponta Bakhtin (2015b, p. 76-77):
o prosador romancista não expurga de suas obras as intenções alheias da linguagem heterodiscursiva, não destrói aqueles horizontes socioideológicos (mundos e minimundos) que se escondem atrás das linguagens integrantes do heterodiscurso – ele os introduz em sua obra. O prosador usa linguagens já povoadas de intenções sociais alheias e as obriga a servir às suas novas intenções, a servir a um segundo senhor. Por isso, as intenções do prosador se refratam, e se refratam sob diferentes ângulos, dependendo do grau de alteridade socioideológica, de encorpadura, de objetificação das linguagens que refratam o heterodiscurso.
O heterodiscurso introduzido no romance, a partir de fenômenos como a própria relaboração39, faz com que as vozes históricas e sociais que povoam a língua “forneçam-lhe
percepções concretas, organizam-se no romance em um harmonioso sistema estilístico que traduz a posição socioideológica diferenciada do autor e de seu grupo no heterodiscurso da época” (BAKHTIN, 2015b, p. 78). Dessa maneira, ao analisar o Young adult, perceber o processo de reelaboração como propulsor da reflexão e refração das questões juvenis é importante para compreender como se dá o processo de interação entre leitor e personagens, afinal, esse é o elemento principal que chama a atenção para essas leituras e o processo de acabamento que gera partir do processo de leitura.
O excedente da visão é o broto em que repousa a forma e de onde ela desabrocha como uma flor. Mas para que esse broto efetivamente desabroche na flor da forma concludente, urge que o excedente de minha visão complete o horizonte do outro indivíduo contemplado sem perder a originalidade deste. Eu devo entrar em empatia com esse outro indivíduo, ver axiologicamente o mundo de dentro dele tal qual ele o vê, colocar-me no lugar dela e, depois de ter retornado ao meu lugar, contemplar o horizonte dele com o excedente de visão que desse meu lugar se descortina fora dele,
converte-lo, criar para ele um ambiente concludente a partir desse excedente da minha visão, do meu conhecimento, da minha vontade e do meu sentimento. (BAKHTIN, 2011, p. 23).
Durante sua obra, Bakhtin discute a noção de alteridade, aspecto importantíssimo para a sua visão de linguagem dialógica, visto que a interação se dará necessariamente a partir do contato com o outro e, por meio desse contato, eu e o outro construímos diversos valores e questões a partir da simples interação com o diferente que está exterior a mim. Nesse processo, dá-se o que Bakhtin chama de excedente de visão. Ao me permitir deixar momentaneamente o meu eu para contemplar e vivenciar a realidade do outro – o que pode ser facilmente imaginado ao se pensar uma situação de leitura –, eu experencio o mundo a partir da visão do outro. Ao voltar para a minha própria visão, trago algo de novo, o que foi aprendido com o outro, e esse algo a mais, esse excedente que foge a minha forma original, brota como uma flor me trazendo outra realidade, outras indagações e, consequentemente, a oportunidade de acabamento para o meu eu em constante fluxo de transformação. Quando o romance propicia o contato com os outros – ainda que fictícios –, acaba por promover a capacidade do excedente de visão e do próprio acabamento. Situaremos agora, com base no corpus desta pesquisa listado até então no início de cada seção, momentos dessas narrativas em que fica evidente a entrada das questões sociais no romance a partir dos gêneros primários, ou seja, em decorrência do processo de reelaboração.
Ao ler narrativas como as elencadas, o leitor juvenil experimenta uma interação com o outro fictício que, por vezes, refletirá muitas das questões desse sujeito jovem. Nesse momento,