Simon é um grande fã de Harry Potter, ao ponto de, como mencionado, ter fantasias sexuais com o ator que protagoniza a adaptação cinematográfica da narrativa. Assim como Simon, uma série de jovens iniciou a sua trajetória leitora a partir da grandiosa saga de J.K.
Rowling. Responsável por tornar a autora a primeira bilionária apenas com a venda de livros30,
a história do jovem bruxo originou sete livros e oito filmes sobre a franquia, sem contar em inúmeros produtos inspirados na trama, fanfics, peças, outras obras feitas por fãs e, recentemente, uma nova leva de filmes baseados no universo do filme. Essa comercialização gigantesca das obras se materializa no que Benjamin (1994) chama de reprodutibilidade técnica, conceito que faz possível um vislumbre da situação da arte – como a literatura – na contemporaneidade.
Durante séculos, houve uma separação rígida entre um pequeno número de escritores e um grande número de leitores. No fim do século passado, a situação começou a modificar-se. Com a ampliação gigantesca da imprensa, colocando à disposição dos leitores passado, a situação começou a modificar-se. Com uma quantidade cada vez maior de órgãos políticos, religiosos, científicos, profissionais e regionais, um número crescente de leitores começou a escrever, a princípio esporádica. No início, essa possibilidade limitou-se à publicação de sua correspondência na seção ‘Cartas dos leitores’. Hoje em dia, raros são os europeus inseridos no processo de trabalho que em princípio não tenham uma ocasião qualquer para publicar um episódio de sua vida profissional, uma reclamação ou uma reportagem. Com isso a diferença essencial entre autor e público está a ponto de desaparecer. Ela se transforma numa diferença funcional e contingente. A cada instante, o leitor está pronto a converter-se num escritor. Num processo de trabalho cada vez mais especializado, cada indivíduo se torna bem ou mal um perito em algum setor, mesmo que seja num pequeno comércio, e como tal pode ter acesso à condição de autor. O mundo do trabalho toma a palavra. Saber escrever sobre o trabalho passa a fazer parte das habilitações necessárias para executá-lo. A competência literária passa a fundar-se na formação politécnica, e não na educação especializada, convertendo-se, assim, em coisa de todos. (BENJAMIN, 1994, p. 184).
Na concepção de Benjamin, há duas marcas interessantes no que tange à produção escrita atual. A primeira delas é o fato de a escrita não ser mais uma ferramenta ao alcance de pequenos grupos, e sim, cada vez mais, um recurso que abrange grande parte dos grupos sociais e dão a esses possibilidade de voz. É lógico que, no entanto, por diversas razões sociais, alguns escritos ganharão mais visibilidade do que outros, mas é inegável a multiplicação dos potenciais escritores. A segunda questão que urge da discussão é a consequência desta primeira; sendo a escrita um recurso mais facilitado entre os grupos, há o que Benjamin chama de reprodutibilidade técnica, pois se multiplicam as produções artísticas e ampliam, de forma exponencial, as possibilidades de coleções. Não há mais um único grupo de produtores de artes, há diversos outros, e os consumidores vão montando suas coleções de acordo com seus interesses. Dessas duas marcas, surge a problemática da aura. “Retirar o objeto do seu
30 Informação disponível em: <http://jovem.ig.com.br/cultura/livros/jk-rowling-nao-e-mais- bilionaria/n1597692129997.html>. Acesso em: 29 abr. 2019.
involucro, destruir sua aura” (BENJAMIN, 1994, p. 170) nada mais é do que o resultado desse processo que alarga as formas de produção de arte e reproduz seus produtos à exaustão como forma de angariar lucro. A obra de arte perde seu caráter único, inalcançável e quase mágico, na medida em que os sujeitos a subverte, compram cópias e reproduzem enunciados novos a partir do enunciado matriz. A partir da concepção de Benjamin, é evidente que ao tratar dessa literatura juvenil fora do cânone, estamos em uma dimensão periférica do além arte. Ou seja, sem aura, essas obras não poderiam ser consideradas arte. O que, ao mesmo tempo, não quer dizer que são cultura inferior ou produção para o mero entreter, mas produções que se concretizam para além dos limites da academia e que buscam sua validação a partir de outros públicos. Nessa interdependência, essas obras não estão submetidas ao querer ser cânone, mas se estruturam e se situam em um espaço do fânone31, no qual seus leitores e produtores é que
estebelecem o que é aura e reprodutibilidade em uma outra dimensão. Benjamin conclui, também, que a mania de colecionar “já não é do nosso tempo”32, abrindo caminho para o que
Canclini (2015) chama de descolecionar.
Ao contrário do que o termo sugere, descolecionar não é o oposto de colecionar. Isto é, Canclini não está propondo que o nosso tempo já não suporta qualquer tipo de coleção, mas que essas coleções não são como as de outrora, fechadas, advindas de um único lugar, sagradas, cercadas pela aura já mencionada anteriormente. As coleções são fragmentadas, reúnem livros, filmes, músicas, álbuns e diversos outros artefatos artísticos, que, por sua vez, têm origens variadas, reunindo o que é dito clássico – e pertencente à noção de coleção – e o que é dito popular ou de massa. Assim, os descolecionamentos fazem com que não se permita vincular rigidamente as classes sociais com os estratos culturais – estes estão despertos, presentes nas prateleiras, playlists e lista de canais de streamings dos mais variados sujeitos. Sendo o mundo um local de práticas culturais gradativamente mais fragmentadas, as noções monológicas e absolutas caracterizam, cada vez mais de forma superficial, os sujeitos e suas práticas.
Essa questão pode ser melhor contextualizada ao levarmos em consideração o comentário de Jenkins (2015) sobre os desdobramentos de uma cultura de fã.
Embora a aculturação de determinados gostos seja tão potente que muitas vezes ficamos inclinados a descrever nossas preferências culturais não apenas como naturais, mas como universais e eternas, o gosto está sempre em crise; o gosto nunca
31 Termo utilizado para se referir ao que seria o cânone de obras que estão fora da vertente artística, mas da
reprodutibilidade técnica do capital.
32 BENJAMIN, Walter. Desembalo mi biblioteca: discurso sobre la bibliomania. Punto de Vista, ano IX, n. 26,
pode permanecer estável, dado que é desafiado pela existência de outros gostos que muitas vezes parecem ‘naturais’ por aqueles que os propõem. Os limites do ‘bom gosto’, portanto, devem ser constantemente policiados; gostos apropriados devem ficar à parte de gostos impróprios; aqueles que possuem o gosto errado devem diferenciar-se daqueles cujos gostos conformam-se mais de perto a nossas expectativas. Já que o gosto do indivíduo está tão entrelaçado a todos os outros aspectos da experiência social e cultural, o desgosto estético traz consigo a força da excomunhão moral e da rejeição social. O ‘mau gosto’ não é apenas indesejável; é inaceitável. Dessa forma, os debates a respeito das opções estéticas ou das práticas interpretativistas necessariamente possuem dimensão social importante e geralmente apoiam-se em categorias sociais ou psicológicas para embasar sua justificativa. Conteúdos vistos como indesejáveis segundo uma estética particular geralmente são acusados de efeitos sociais danosos ou influências negativas para quem os consome. Preferências estéticas são impostas por meio de legislação e pressão pública; por exemplo, quando se trata de proteger as crianças da influência ‘corruptora’ do conteúdo cultural indesejável. Quem gosta desses textos é visto como intelectualmente inferior, psicologicamente suspeito ou emocionalmente imaturo. (JENKINS, 2015, p. 35-36).
O pensamento dos dois teóricos, Jenkins (2015) e Canclini (2015), contribui para a compreensão de um processo de descolecionar que assim surge dado o caráter múltiplo dos sujeitos a partir da seleção de artefatos de cultura variados que constituem suas práticas e identidades e, em caráter mais específico, a forma com a qual essas escolhas podem ser problemáticas na prática social, posto que, a depender dos constituintes da coleção de um sujeito, a formatação desta pode se mostrar um modelo incômodo para o sistema e para aqueles que seguem a matriz por ele construída. A cultura situada na convergência possibilita, então, diversos modos de se colecionar aquilo que represente o sujeito. Essas atividades de formação de identidade estão, quase sempre, ligadas a uma atividade que gere prazer (GÁRCIA CANCLINI, 2015), já que são nesses momentos que se tem espaço para uma certa subjetividade e criação de valores. Em paralelo a isso, explicam-se as coleções particulares de cada sujeito e a posterior formação de comunidades. Uma vez que esses produtos da cultura de convergência representam, de alguma forma, os sujeitos que os consomem, é evidente um laço entre produto e consumidor. Como já evidenciado nesta seção, o caso dos leitores juvenis é explicado pela abundância de personagens na literatura dita best-seller ou de entretenimento que tanto se assemelham a esse sujeito leitor. As coleções, desse modo, revelam muito sobre os seus donos.
Seguindo ainda essa linha de pensamento, é notória a repulsa a diversos tipos de coleção, como já citado por Jenkins (2015). Aqueles que consomem a literatura fora do cânone sofrem represálias por estarem consumindo algo dito alienatório, fraco esteticamente e com o único objetivo de vender. O discurso que depreda essas obras parte, em grande maioria, da própria escola que esses sujeitos frequentam. Sendo a responsável por cuidar da formação de leitores – ainda que esse papel tenha sido cada vez mais suprimido na escola brasileira ao longo do tempo
–, ao utilizar esse discurso, a escola acaba não só coibindo a leitura desses livros mas também afastando os sujeitos da própria literatura, já que deixam de ler os seus favoritos e ainda rechaçam aquilo que a escola lhes propõe – justamente porque não conseguem atribuir sentido a essas obras, ou melhor, estabelecer laços de alteridade entre si e os sujeitos representados na trama. Ademais, a própria crítica advinda da escola ou das universidades se mostra ainda mais irresponsável quando aqueles que a fazem sequer leram as obras que tanto criticam, somente o fazendo como forma de garantir o seu lugar como leitor de obras mais “complexas” e, consequentemente, manter um ethos de mais culto por estar atrelado a literaturas nas quais a aura dita por Benjamin parece se quebrar a todo momento em que um best-seller ou livro de banca é lido. Esse tipo de literatura finda, quase sempre, sendo julgada por aquilo que deixa de ser, e não pelo que efetivamente é.
A literatura YA tem em si uma característica interessante que vai totalmente de encontro a uma das principais críticas à literatura dita de entretenimento. O entretenimento do gênero não é mero passatempo ou possui uma narrativa conformativa a qual não gerará questionamentos no leitor e edificação de um pensamento crítico. Na realidade, essa percepção por si só já é falha por desconsiderar a individualidade de cada sujeito, que pode muito bem se desenvolver com inúmeras narrativas, por mais que sejam desprovidas de grandes efeitos linguísticos/discursivos, ao ligar essa literatura ao seu conhecimento de mundo (um efeito dialógico) e produzir novos conhecimentos. O YA, especificamente, traz os discursos dessas identidades constantemente apagadas das narrativas sociais e tenta demonstrar – claro que em uma perspectiva ainda juvenil e frágil – a realidade quando se assume publicamente determinados posicionamentos sociais. Daí surge o fato de ele ser o gênero de maior consumo entre jovens leitores após os sucessos de fantasia (Harry Potter e Crepúsculo) e distopia (Jogos Vorazes)33. Os sujeitos que cresceram lendo essas obras amadureceram e suas questões mais
profundas ligadas ao universo da sexualidade, do espaço social e da trajetória em um mundo real, sistemático e, por vezes, opressor não têm tanta representação nessas obras quanto no Young Adult. Nesse prisma, percebe-se uma das motivações para a criação de comunidades de leitores. Acuados por serem diferentes, tendo como único companheiro, muitas vezes, os próprios livros de suas coleções, os jovens sentem a necessidade de estarem em um lugar onde são aceitos, no qual suas respostas são respondidas e onde não são etiquetados como estranhos. 33 Como pode ser visto nos resultados da pesquisa Retratos da leitura no Brasil (edição 3 e 4), na qual fica evidente,
na terceira edição, o aparecimento de Crepúsculo em sétimo lugar dos mais lidos, aparecendo Harry Potter em seguida. Por sua vez, a quarta edição traz A culpa é das estrelas como quarto livro mais lido e como segundo mais marcante para os leitores, ficando atrás apenas da bíblia nessa última categoria.
Assim, surgem as comunidades, os clubes, os fandoms e diversas outras formas de organização grupal. No meio de vários, o sujeito participante busca aquilo que lhe é mais caro: a si mesmo. Nesse processo, ao interagir e produzir práticas de linguagens baseadas nessas obras, esses sujeitos iniciam um processo de corrosão de determinadas verdades estabelecidas e constroem outras possibilidades de valor para as questões do mundo que os cercam.
O gênero Young Adult é um reflexo da vida desses sujeitos, em consequência de suas narrativas oferecerem flashes que representam, por vezes de forma fiel até demais, a realidade de cada um. As leituras feitas, por eles, dessas obras influenciam um processo de acabamento identitário responsável por, a partir da relação entre o eu leitor e o ele personagem, propiciar acabamento estético nesse que lê e, ao final da leitura, está mais próximo daquilo que é. Esse sujeito leitor não se contenta em ser no silêncio e quer compartilhar seu processo de acabamento com outros reais, o que também aprofunda esse processo identitário, nascendo, assim, as comunidades. Em torno dos livros, jovens leitores fomentam, sem perceber, um processo de corrosão social que coloca em xeque velhos valores sociais preestabelecidos e constroem um processo discursivo que, como participantes, ainda não entendem, mas perceberão a importância em si mesmos ao longo da vida. Como diria Mário Quintana, tantas vezes revozeados em eventos de literatura e camisas de aficionados por leitura, “os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”.
3 AMANHECER ENTRE AS FRESTAS DO CLOSET: implicações teórico-metodológicas
A saga Crepúsculo surge no fim do auge da série Harry Potter e consegue angariar muitos dos fãs do jovem bruxo e conquistar um público ainda não explorado. A jornada da jovem Bella Swan, após se apaixonar por um vampiro, revela uma trama que acompanha o crescimento de Bella e uma série de aventuras fantásticas que a cerca. Crepúsculo começa a corroer a higienização presente em Harry Potter, mesmo que de forma muito lenta. A sexualidade começa a ser mais explorada, o papel de Bella como mulher entra em evidência e o fantástico começa a dividir espaço com adolescentes que possuem questões juvenis. Esse processo ainda é tímido e não é suficiente para criar personagens inacabados e em processo de mutação ao longo da narrativa, porém, já foi o início de uma mudança que ganharia acabamento definitivo no Young Adult.
Nesta seção, em referência ao último livro da saga Crepúsculo, Amanhecer, apresentamos os pressupostos teórico-metodológicos que fornecerão explicação e modos de análise para o nosso corpus. Entender a concepção de linguagem adotada por este trabalho é fundamental para compreender como se dará o processo de análise e o que foi considerado para chegar às conclusões da pesquisa. Diante disso, evidenciamos aqui a área a que este trabalho se filia, a Linguística Aplicada, e, em seguida, apresentamos os pressupostos que nos guiam nessa área, advindos do Círculo de Bakhtin. Em seguida, elencamos as categorias de pesquisa e abordamos a problemática de cada uma em relação à pesquisa.