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Hoai Thu Thai A-41 Bootstrap methods for estimating uncertainty of parameters in mixed-effects models

Os espaços marginais, bem como o modo de focalizá-los, seriam um lócus de ocorrência do novo, e com eles poderíamos aprender a ‘ver com outros olhos’. As opções políticas envolvidas nessa ótica têm implicações para a construção do presente e de futuros sociais possíveis, menos aprisionadores e mais comprometidos com a transformação da situação de exclusão social em diversas áreas, causadoras de sofrimento humano. É em razão dessas possibilidades que as escolhas temáticas e teóricas se justificam, e não em razão de uma superioridade epistemológica. Haveria nesses ‘territórios subestimados’ e nas práticas sociais neles desenvolvidas, bem como na maneira híbrida de construí-las teoricamente, um campo criativo fértil, porque mais liberto de modos de vida consagrados e de sentidos consensuais, para a experimentação do ainda não aventado e do ainda não concebido pelos discursos que circulam no ‘primeiro’ mundo europeu e anglo-saxão. (FABRÍCIO, 2006, p. 52).

A partir da fala de Fabrício, fica evidente a escolha do objeto de pesquisa deste estudo e tem-se as pistas que levam à justificativa de ter sido a área da Linguística Aplicada a mais coerente para sua realização. A Linguística Aplicada compreende o mundo como em constante processo de movimento. Afinal, essa ideia de movimento não é inaugurada por Bauman (2001), ela já vem sido discutida desde os filósofos mobilistas34 que valorizavam a experiência sensível

e alertavam para o aspecto transitório da realidade, problematizando os ideais de permanência e estabilidade nos construtos sociais (FABRÍCIO, 2006). Isso implica uma ciência que se preocupa com a realidade em que seus sujeitos estão inseridos, criando não só maior inteligibilidade para as práticas sobre as quais se debruça, como também uma série de categorias teóricas e metodológicas que não se manterão estáveis ao longo do tempo, antes estarão em constante processo de mutação para melhor se adequarem àquela realidade que tentam construir e investigar. Isso não quer dizer que todo o conhecimento teórico da Linguística Aplicada se

34 Filósofos como Heráclito defendiam um mundo contínuo, onde nada permanece idêntico a si mesmo. Aqueles

transforma em algo diferente constantemente, como se em cada recorte temporal da disciplina já não fosse possível estabelecer ligação com o que veio antes. Na realidade, o que acontece é um processo de mutação, conforme já foi citado em alguns momentos deste trabalho. Velhas teorias coexistem com novas e, à medida que interagem, novas formas de pesquisa surgem e o conhecimento da área segue em constante reconstrução, suturando ideias antigas em novas e construindo novas inteligibilidades para a área.

Nessa perspectiva, a Linguística Aplicada tem tido contemporaneamente como objetivo principal “focalizar a linguagem como prática social e observá-la em uso, imbricada em ampla amalgamação de fatores contextuais" (FABRÍCIO, 2006, p. 48). As práticas sociais dos sujeitos, próprios fatores de construção da linguagem nessa perspectiva, não podem ser estudadas em recortes a vácuo que ignorem suas realidades sociais, à parte das especificidades temporais e espaciais e sem a compreensão de que todo discurso é carregado de posicionamento e ideologia. Nesse sentido, o estudo de determinada prática discursiva demanda uma ampla investigação dos fatores discursivos envolvidos em tais ações, desde a prática de linguagem em si, os sujeitos que as produzem e o plano de fundo (histórico, temporal e espacial) ao qual estes estão sobrepostos.

É possível, a partir de articulações de Moita Lopes (2002; 2006; 2013) e sustentação de outros teóricos da LA (FABRÍCIO, 2006; PENNYCOOK, 2006; KUMARAVADIVELU, 2006; KLEIMAN, 2013) construir o que seria a agenda da LA contemporânea e suas implicações para este estudo. Moita Lopes (2006) define quatro pontos essenciais para a construção da agenda da Linguística Contemporânea, a qual ele nomeia de indisciplinar, a saber: a imprescindibilidade de uma LA híbrida ou mestiça; a LA como uma área que explode a relação entre teoria e prática; a necessidade de a LA ter um olhar mais atento para as vozes do Sul; e a necessidade da ética e do poder como novos pilares da LA.

Na tentativa de construir uma LA responsiva à vida social, é fundamental que se compreenda a área de estudo como híbrida/mestiça – ou, como o próprio Moita Lopes (2006) define, indisciplinar. Tal prerrogativa se sustenta uma vez que os limites da LA começam a se alargar, bem como os limites da humanidade e das ciências sociais, dado que tenta compreender as práticas discursivas dos sujeitos e tem, com efeito, a necessidade de entender a história desses sujeitos, as questões políticas que os atravessam, as estruturas sociais e uma série de questões que a LA, por si só, não possui respostas, mas as pode conseguir ao dialogar com áreas circunvizinhas. O alargamento da disciplina só tem sido possível, na realidade, graças a esse diálogo com outras disciplinas, construindo a ideia de uma área com algo a dizer à vida social

e possibilitando estudos mais profundos sobre determinados aspectos sociais. Mesmo assim, é preciso saber que a LA não possui respostas para todas as questões que envolvem a linguagem, o que, de forma alguma, deve ser visto como um revés da área, e sim como parte do processo natural das ciências. Quando ela não tiver respostas, as outras componentes da grande árvore que a linguística se tornou entram em ação.

A questão chave para se compreender a necessidade de uma área indisciplinar é “a compreensão de que uma única disciplina ou área de investigação não pode dar conta de um mundo fluido e globalizado para alguns, localizado para outros, e contingente, complexo e contraditório para todos” (MOITA LOPES, 2006, p. 99). Nesse sentido, para compreender um mundo em que a distância espacial e a temporal estão diminuindo e as fronteiras têm, cada vez mais, desaparecido, em consequência de um processo de deslocamento do temporal para o espacial (KUMARAVADIVELU, 2006; PENNYCOOK, 2006), é fundamental o diálogo entre as diferentes áreas para, de fato, edificar uma pesquisa que é, entre outras coisas, um modo de construir a vida social ao tentar entendê-la (MOITA LOPES, 2006).

Uma das leis mais difundidas e antigas do fazer científico é a máxima de que os pesquisadores e seus objetos de pesquisa precisam estar a uma distância segura um do outro, de modo a permitir uma imparcialidade sobre o que se analisa e uma investigação pura e livre de qualquer envolvimento com o objeto – já que isso pode comprometer o resultado, segundo essa corrente. Ao se propor a uma explosão entre teoria e prática em seu fazer científico, essa é uma das primeiras grandes verdades que a LA refutará, afinal, a compreensão de um conhecimento apolítico e não-ideológico é impensável para uma área que aposta justamente no envolvimento com as práticas dos sujeitos na tentativa de verdadeiramente compreendê-las e construir inteligibilidade sobre o que se observa.

Em uma LA que quer falar à vida contemporânea é essencial não a teorização elegantemente abstrata que ignora a prática, mas uma teorização em que teoria e prática sejam conjuntamente consideradas em uma formulação do conhecimento na qual a teorização pode ser muito mais um trabalho de bricolage, tendo em vista a multiplicidade dos contextos sociais e daqueles que os vivem. Arrolo motivos de natureza epistemológica, mas que, claramente, tem implicações de natureza ética ao integrar ‘as vozes do sul’, embora seja possível nos questionar também se é possível separar epistemologia e ética. (MOITA LOPES, 2006, p. 101).

A partir da fala de Moita Lopes, é possível quebrar uma ideia que persiste de que a Linguística Aplicada seria a parte prática dos estudos linguísticos. Na realidade, o trabalho da LA tem sido pautado substancialmente por teorizações, o que difere para esta área é que “o conhecimento que não considera as vozes daqueles que vivem a prática social não pode dizer

nada sobre ela” (MOITA LOPES, 2006, p. 101). A distinção entre teoria e prática precisa ser apagada justamente para que se tenha uma proximidade crítica que revele o que já foi incansavelmente mencionado aqui: a linguagem produzida pelos sujeitos pouco tem fundamento social sem o conhecimento dessas produções em um contexto específico de linguagem.

O terceiro ponto que Moita Lopes chama atenção é para a necessidade de a LA ouvir as vozes do Sul, discussão abordada inicialmente por Boaventura (2014), o que está intimamente ligado à questão anterior. Afinal, quem é o sujeito pesquisador? Na tentativa de manter uma pesquisa “neutra” e “apartidária”, cria-se um processo de descorporificação do sujeito pesquisador, como se ele não tivesse identidade, questões axiológicas e qualquer vínculo histórico-social. Na realidade, quem escreve é um sujeito único, com acabamentos específicos e singularidade no mundo. Por mais que tente se apagar, a escrita desse sujeito deixa rastros de sua ideologia por onde quer que apareça, o que demonstra que esse apagamento só tende a criar pesquisas as quais, na realidade, não dizem tanto quanto poderiam sobre os sujeitos que as escrevem e os sujeitos que são observados.

Ao considerar que a LA tem como “objetivo fundamental a problematização da vida social, na intenção de compreender as práticas sociais nas quais a linguagem tem papel crucial” (MOITA LOPES, 2006, p. 102), é mister entender que não há lugar fora da ideologia, nem conhecimento desinteressado. Ao contemplar as vozes do Sul, a quebra entre teoria e prática fica mais visível em consequência de se rasgar o pacote a vácuo em que os sujeitos são, por vezes, colocados, resultando no apagamento de suas questões axiológicas.

Qualquer possibilidade de desessencializar teoricamente nossas sociabilidades vai na contramão de metodologias que operam como padronizações, significância estatística, variáveis dependentes e independentes etc., uma vez que tal metodologia necessariamente inclui essencializações dos sujeitos sociais e padronizações de variáveis para as pesquisas serem levadas a efeito, o que descortina, portanto, incoerências teórico-metodológicas. (MOITA LOPES, 2013, p. 231).

O fazer científico na LA tem, tanto em termos teóricos quanto metodológicos, a necessidade de buscar, contemplar e construir os corpos daqueles que se pesquisa – moldados a partir de um corpo pesquisador diferente e singular que os observa –, evidenciando suas questões axiológicas a fim de, qualitativamente, construir os sujeitos de pesquisa e, assim, poder entender, de fato, as práticas discursivas por eles construídas. Ouvir as vozes do Sul é mais do que dar visibilidade para um grupo de sujeitos que, por muito tempo, tiveram suas produções e questões ignoradas pelo fazer científico, é compreender que, nas interações e práticas

discursivas desses grupos, reside o que há de mais fértil e profundo para quem estuda a linguagem. Afinal, é nas periferias, nas comunidades de leitores de literatura fora do cânone, nas praças públicas e nos fandoms, por exemplo, que se gestam as práticas discursivas que nunca foram alvo principal da linguística e os modos de ser e de escrever as próprias narrativas que são repulsados dos espaços hegemônicos. Ouvir as vozes do Sul é, de forma ainda inédita, enxergar o mundo com possibilidades outras de ser, propiciando questionamento de categorias epistemológicas do Norte e coibindo apagamentos, dicotomias e neutralizações (KLEIMAN, 2013).

Por fim, o último ponto da agenda da LA contemporânea seria a visão de uma área em que a ética e o poder são os pilares de sustentação.

Esse princípio ético é parte da constituição de uma coligação anti-hegemônica que colabora na construção de significados oriundos de outras vozes (daqueles marcados pelo sofrimento às margens da sociedade), assim como na construção de outro mundo social, construindo outra globalização, como acho que diria Milton Santos (2002), e reinventando a emancipação em nossos dias. (MOITA LOPES, 2006. p. 103-104).

Ainda na voz de Moita Lopes (2006, p. 103), “normas e valores refletem posições discursivas específicas, o que, de modo algum, implica relativismo ético”. Tendo em vista a vastidão de valores e normas em diversos campos de significação, cabe a nós, linguistas aplicados, fazermos usos daqueles significados que não se baseiam na exclusão ou resultam em sofrimento humano. É preciso que o olhar do pesquisador se aproxime ao máximo da voz dos atores sociais do grupo social interessado, a fim de compreender suas questões, os processos de exclusão a que esses grupos podem estar submetidos e sua situação uma vez inserido em uma realidade local específica. Essa questão é de extrema importância em uma pesquisa que tem a leitura como protagonista, visto que as concepções de linguagem adotadas pela escola e pelas instituições em que circulam os jovens leitores são determinantes para se compreender os sentidos que são dados às práticas de leitura e a seus desdobramentos no meio social.