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I.7. Visualisation graphique 1. Opérateur F m

O debate em torno da relação entre a ciência e as sociedades em que é e para quem é criada, parece-nos assaz interessante e pertinente, particularmente se observada essa relação do ponto de vista da interdependência que a caracteriza e como se assume central no processo evolutivo das sociedades e da própria ciência.

Sendo a ciência uma actividade cognitiva humana, realizada por e para humanos (e os cientistas são homens e mulheres – seres sociais e socializados como os demais, fazendo portanto parte das sociedades em que vivem e trabalham), é admissível que tenha sido desde sempre, inevitavelmente, influenciada e condicionada pelas sociedades da época em que espacial e temporalmente se tem vindo a desenvolver, não só nas interrogações levantadas mas também nas soluções encontradas. Assim como será crível que essa relação entre ciência e sociedade se caracterize por uma reciprocidade, na

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medida em que os conhecimentos científicos que a ciência permite alcançar podem também eles próprios influenciar o pensamento das sociedades em que se desenvolvem.

No fundo, tal como indicado por Caraça (2001), a ciência e as suas aplicações apresentam-se como recursos básicos para o desempenho económico e social das sociedades modernas, sendo simultaneamente impulsionadas e condicionadas pelos processos da sua utilização e difusão societal.

A ciência moderna, como vimos, surgiu na Europa durante o século XVII e apresenta uma abordagem inovadora de busca do conhecimento: a verificação metodológica e observacionalmente sustentada de hipóteses. Sendo apontada pelos seus pioneiros como modo de progresso material e cultural das sociedades humanas. Todavia, nem todos compreenderam e aceitaram a sua utilidade, tendo recebido aceitação relativa apenas em círculos restritos.

Durante o século XVIII, os instrumentos científicos suscitaram atitudes de fascínio nas sociedades da época; sendo apresentados de forma lúdica a audiências exteriores ao meio científico, encantaram-nas e proporcionaram a sua aceitação social. Assim, os conhecimentos científicos entretanto desenvolvidos estiveram na base do crescimento económico e de boa parte da transformação social ocorrida desde então, tornando-se elementos de base nas sociedades modernas.

A interacção entre ciência e sociedade ganhou importância sobretudo a partir do século XIX. Com efeito, crê-se que terá sido apenas a partir do final desse século que a ciência começou a estar associada de forma consistente à vida social e económica das sociedades humanas, desempenhando a partir daí um papel de inegável valor e incontornável relevo; sendo o crescente impacto da ciência na vida quotidiana de todos os cidadãos um reflexo da sua influência desde então nas sociedades desenvolvidas.

Com o seu surgimento, a ciência inicia um processo próprio de institucionalização (Caraça, 2001), que se deu em momentos diferentes em várias partes do mundo. A institucionalização da ciência, por sua vez, estimulou a profissionalização da ciência, criando novas exigências à educação científica, imprescindível ao exercício de novas profissões científicas (tema que retomaremos adiante). Tendo o século XX conhecido um alargamento sem precedentes da diversidade e quantidade de instituições científicas63, fruto das crescentes implicações que à ciência e à tecnologia foram

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Dando-se uma expansão dos espaços próprios, organizados e formalizados nos quais a comunidade científica cria conhecimento no decurso da sua actividade profissional institucionalizada. E também de

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atribuídas no que concerne ao desenvolvimento económico e social das comunidades humanas(Pereira, 2007).

O século XX foi palco de um enorme desenvolvimento em termos de conhecimentos científicos e das suas aplicações, nomeadamente das associadas ao desenvolvimento tecnológico. Mas foi também precisamente no início desse século que, pelo impacto social de algumas das suas aplicações militares, se desmitificou a ideia da neutralidade da ciência. Tornava-se então óbvio que a ciência permitia não apenas levantar questões e apresentar soluções, mas que a sua utilização podia igualmente levantar novas questões problemáticas e comportar riscos. Passando-se assim, de forma mais ou menos célere, de uma fase de deslumbramento com a ciência, que caracterizou o século XIX64, para um estado de desconfiança e apreensão, em função da dureza da realidade que as aplicações bélicas65 haviam potenciado aquando dos conflitos mundiais, dado a sua capacidade de destruição maciça (Caraça, 2001).

A ideia da ciência e do desenvolvimento tecnológico imaculados66, exclusivamente como factores de progresso social e económico das sociedades, sofre o primeiro abalo aquando da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), nomeadamente com o lançamento de gases venenosos e com os ataques aéreos levados a cabo. A Segunda Grande Guerra viria a abalar inevitavelmente esta concepção imaculada da ciência e do desenvolvimento tecnológico, sobretudo com os ataques nucleares perpetrados contra as

sociedades científicas disciplinares e de associações de difusão de cultura científica. Para mais detalhes, v. por exemplo, Caraça (2001: 83 e ss) e Conceição (2011).

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Em boa parte devido aos avanços na área da medicina que caracterizam este século, com a criação de meios de diagnóstico e de tratamento revolucionários, com efeitos práticos consideráveis no combate mais eficaz a muitas doenças que até então não tinha sido possível debelar de forma minimamente satisfatória. Falamos, por exemplo, da utilização bem-sucedida de transfusões sanguíneas (James Blundell, 1818) – que viriam a permitir salvar por exemplo muitas mulheres com hemorragias pós-parto; de desenvolvimentos notáveis na área da anestesiologia – baseada em éter (William Thomas Green Morton, 1846); ou de instrumentos de observação do interior do corpo humano vivo, como o endoscópio (com protótipos – ainda que sem essa designação – que remontam aos períodos grego e romano da Antiguidade e a Pompeia, mas cuja primeira observação do corpo humano vivo por via de um tubo que ele próprio criou é atribuída a Philip Bozzini – 1805). Para mais detalhes ver, por exemplo: Verger- Kuhnke, Reuter e Beccaria, 2007; Goerig e Wulf, 2013; Welck, Borg e Ellis, 2010; http://www.olympuslatinoamerica.com/portuguese/ola_aboutolympus_endo_port.asp [consultada em 05/08/2014]).

65 Ironicamente, o aperfeiçoamento e o desenvolvimento de novos e mais poderosos materiais bélicos, adveio justamente do clima social favorável que se vivia face ao progresso da ciência e ao desenvolvimento tecnológico.

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cidades nipónicas de Hiroxima e Nagasáqui em 194567, consolidando o desencantamento e até desconfiança face ao progresso científico e tecnológico.

A política e a ciência viviam tempos de aparente promiscuidade68, associada a factores de defesa e estratégia militar que, como vimos, trouxeram algum desprestígio e até descrédito à ciência69. O aproveitamento político da ciência e da tecnologia foi, e continua a ser, uma realidade em muitos países, de regimes autoritários ou democráticos, que colocam a ciência e a tecnologia ao serviço da guerra70. Ou mesmo o aproveitamento político da imagem de credibilidade da ciência e do método científico para fazer valer doutrinas pseudo-científicas71.

67 Cujas estimativas apontam para um número total de vítimas mortais nas duas cidades que ascendeu a 220 mil em poucos segundos. Muitos mais viriam a perecer na sequência de doenças causadas pelo contacto com as radiações nucleares libertadas nos bombardeamentos.

68 Bernardo, 2013.

69 Porventura, mais assentes na falta de confiança no sistema político para planear e gerir questões de interesse geral, do que na natureza do conhecimento científico ou nas possibilidades que pode abrir em termos de progresso do conhecimento do mundo e do universo em que vivemos.

70 Bernardo, 2013. Segundo o autor, a ciência alemã acabou por transformar-se de novo [na II Guerra Mundial, como havia sido no primeiro conflito mundial] em propaganda política e doutrinação nacionalista, a que se juntaram a charlatanice e a barbárie. O que desqualificou a ciência não foi a sua introdução na cultura pangermanista, mas a sua aculturação, realizada por cientistas dominados por um nacionalismo fanático, que esqueceram ou conscientemente rejeitaram os valores da ciência universal. Cf. p.34 e ss.

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Sendo um dos casos mais paradigmáticos a doutrina “anti-judaísmo científico”, de que Adolf Hitler viria a tornar-se o expoente máximo em termos políticos. O “anti-semitismo” (expressão surgida na década de 70 do século XIX), tem o mesmo significado que “anti-judaísmo científico”, ou “racialista”, e remete-nos para uma doutrina assente no princípio da raça. Teoria segundo a qual o potencial inato das raças é o factor determinante da humanidade, potencial esse que degenera com o cruzamento com raças inferiores. Sendo que apenas a raça branca é detentora das perfeições do ser humano – inteligência, beleza, talento e aptidão para criar a civilização. Cf. Arthur de Gobineau (1855), Essai sur l‟Inegalité des Races Humaines, citado por Léon Poliakov (1987), Le Myte Aryen: essai sur les sources du racisme et des nationalismes, Bruxelas, Éditions Complexe. Atribui-se a Arthur de Gobineau, ao preconizar diferenças entre as raças humanas (brancas, amarelas e negras), a criação de um dos mitos do racismo (que persiste até aos nossos dias): o da superioridade ariana.

Como discutido por Miedzianagora e Jofer, a doutrina racialista foi reforçada pela interpretação dita social-darwinista da selecção natural das espécies. Enunciando-se, a partir daí, princípios de protecção dos melhores e de destruição dos inaptos. Cf. Miedzianagora, G. e G. Jofer (1995), Objectivo Extermínio, Lisboa, Vega. Importante será ainda salientar que, longe de se tratarem de atitudes de importância secundária e escassa, as teorias racialistas constituíam uma crença largamente partilhada pelo pensamento europeu dos séculos XIX e XX, tanto mais que os métodos da ciência procuravam ser experimentais e quantitativos, gozando de credibilidade pública, e que essas teorias iam buscar os seus principais elementos constitutivos aos conhecimentos já estabelecidos (Poliakov, op. cit., pp.289 e ss). A par disso, à época fazia-se a divisão das culturas e das civilizações entre arianas e semitas, sendo esta divisão era aceite de forma quase dogmática por todos os europeus cultos (Miedzianagora e Jofer, op. cit.). A teoria racialista apresentava-se então, de acordo a convicção dos seus adeptos, não como a enunciação de um conjunto de teses razoáveis mas com a força imbatível dos teoremas científicos e das leis da natureza. Em suma, tratava-se de ciência. E estabelecida que estava a verdade teórica, uma nova doutrina científica podia ter lugar : o anti-semitismo. Nenhum trabalho de prova suplementar era exigido. Tudo estava provado (Miedzianagora e Jofer, op. cit., p.14).

Adolf Hitler, tornou-se também um adepto da verdade científica do anti-semitismo. Nas suas próprias palavras, o anti-semitismo enquanto movimento político não pode nem deve ser determinado por elementos sentimentais, mas sim pelo conhecimento dos factos. Os factos são: primeiro o Judaísmo é absolutamente uma raça e não uma associação religiosa. (...) A sua acção [do Judaísmo] torna-se,

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O clima pós-guerra e a Guerra Fria (1945-1991) impulsionaram de forma decisiva e a um ritmo sem precedentes o progresso científico e tecnológico, passando este a fazer parte da estratégia económica, política e militar das nações, de que é exemplo maior e prova inequívoca a publicação, em 1945, do célebre relatório de Vannevar Bush72, Science, the Endless Frontier73, no qual se preconiza um completo programa de desenvolvimento científico para o período pós-guerra.

A ciência faz-se, aplica-se e utiliza-se todos os dias em todo o mundo. Para o seu avanço trabalham centenas de milhares de trabalhadores (investigando, aplicando, ensinando, comunicando), cada vez mais especializados, no sentido de contribuir para a continuidade da aventura do conhecimento humano no futuro (Caraça, 2001). Uma ideia contemporânea acerca da ciência assenta, nos seguintes princípios (Cachapuz et al. 2002):

 A ciência é um empreendimento humano, cultural e socialmente contextualizado, perpassado por factores de natureza diversa, nomeadamente ética, económica e política;

 Os cientistas estudam um mundo do qual são parte integrante;

 O conhecimento científico não se arroga equiparado ou equiparável à verdade absoluta; atinge-se por tentativa e erro e apresenta um estatuto temporário;

 A observação, só por si, não pode dar origem a conhecimento científico, de uma forma indutivista simples. É orientada pela teoria resultante de conhecimento prévio;

 O conhecimento científico é um saber explicativo, progressivo e sujeito à crítica dos pares. A sua construção é um processo dinâmico, não através das suas consequências, uma tuberculose para a raça dos povos (Adolf Hitler em Eberhard Jäckel e Axel Kuhn (eds.) (1980) Sämtliche Aufzeichnungen 1905-1924, Stuttgart, Deutsche Verlags- Anstalt, citado por Miedzianagora e Jofer, 1995: 15).

Na doutrina que Eugen Dühring havia publicado em 1881, na sua obra A Questão Judaica Enquanto Questão de Raça, Costumes e Cultura. Com uma resposta histórico-mundial (na qual se encontrava já realizado o estatuto científico do anti-semitismo e a assunção do movimento anti-semita como detentor de uma teoria científica de suporte), o filósofo e economista expunha que o sentimento, o pensamento e o comportamento do homem estavam racialmente determinados e que as raças existentes deviam ser entendidas como sendo um dado natural inalterável. (...) o modo de proceder das ciências naturais é então pertinente neste caso. Miedzianagora e Jofer, op. cit., p.17. Todos os teóricos do anti- semitismo posteriores se basearam neste modelo de base de Dühring. Deste e de outros autores enriqueceu, sistematizou e reforçou Adolf Hitler as suas convicções anti-semitas, e levou a cabo a política de extermínio que o mundo conhece.

72 Director do Gabinete de Investigação Científica e Desenvolvimento, e Conselheiro Científico do então presidente do Estados Unidos da América, Franklin Delano Roosevelt.

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definitivo ou absoluto. A predisposição, ou melhor, a condição inabalável, do empreendimento científico para a refutabilidade do seu saber é, aliás, uma das suas marcas distintivas;

 O consenso da comunidade científica tem um papel determinante na aceitação de teorias, leis ou factos científicos.

A ciência e a tecnologia são, nos nossos dias, reconhecidamente apontadas como factores imprescindíveis do progresso económico, financeiro, social e cultural das sociedades avançadas. São igualmente motivo de reacções de rejeição e contestação, cujos motivos, em última instância, se prenderão com uma deficiente compreensão do que é o empreendimento científico74. Nas palavras de Luís Miguel Bernardo75:

Quando uma sociedade exige à ciência que realize “milagres” com ferramentas intelectuais ou experimentais que não possui, demonstra não entender as limitações da ciência. Quando uma sociedade tem comportamentos irracionais, onde imperam a superstição e o obscurantismo, torna-se evidente que há uma deficiência de cultura científica. Só uma educação científica contínua e cuidada – tanto na escola como fora dela – poderá fazer alterar estes comportamentos. (...) Todos os cidadãos deverão possuir as bases científicas para as entender, discutir e influenciar [as decisões políticas com vista à resolução dos problemas das sociedades]. (...) A promoção da cultura científica no seio das classes mais desfavorecidas contribuirá, sobretudo, para uma maior democratização da ciência e a consciencialização de que os benefícios da investigação científica pertencem a todos e não apenas a alguns.