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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 28-33)

Há, em minha opinião, três condições que devem ser consideradas para compreender o interesse de Gramsci pela cultura das classes subal- ternas: a) seu caráter de militante político interessado na construção de uma “nova sociedade” socialista; b) a derrota do movimento operário italiano, que revelou a incapacidade proletária de converter-se e apresen- tar-se como alternativa hegemônica ao conjunto das classes dominadas; e c) a particular conformação da sociedade italiana de sua época, alta- mente desenvolvida e industrializada no norte e com um grau ínfimo de desenvolvimento no sul. Ele condicionava, por um lado, a existência de grandes massas campesinas católicas portadoras de uma cultura tenaz- mente arraigada e tradicional que De Martino tem qualificado como “miséria psicológica”,20 correlativamente, por outro lado, assinalava o tra- jeto à incipiente formação de uma cultura operária que, proveniente do campo, conservava muitos elementos tradicionais e, da mesma maneira, 19 Existem várias publicações em diversos idiomas que se têm dedicado à difusão da obra de Antonio Gramsci. Entre os principais, citarei: Pietro Rossi (comp.), Gramsci e la cultura comtemporanea, 2 tomos, Roa, Instituto Gramsci/Riuniti, 1975; Umberto Cerroni, Lessico gramsciniano, Roma, Riuniti, 1978 (há tradução em espanhol: Mexico, El Colegio de Sociólogos, 1982); Dominique Grissoni e R. Maggiori, Leer a Gramsci, Madrid, Zero, 1974. 20 Ver Ernesto de Martino, “Miseria psicológica e magia in Lucania”, em Diego Carpitella,

Folklore e analisi diferenziale di cultura, Roma, Bulzoni, 1976, p. 103-125. Ver, também, Joseph Lopreato, Peasants, no more, San Francisco, Chandler, 1967.

mostrava particularidades e possibilidades de organização e crescimento totalmente novas.

Essas condições, sobretudo a segunda delas, fizeram com que Gramsci, no cárcere, amadurecesse, gradativamente, a ideia da “necessi- dade de que a conquista do poder político fosse acompanhada de uma reforma intelectual e moral que modificasse radicalmente o ‘sentido comum popular’” (GRISSONI; MAGGIORI, 1974, p. 20). Dentro de sua obra, um antecedente da reflexão carcerária é sua análise inconclusa da questão meridional, de onde já assinalava que

o proletariado pode se converter em classe dirigente e domi- nante na medida em que consiga criar um sistema de alianças de classes, que lhe permita mobilizar contra o capitalismo e o estado burguês à maioria da população trabalhadora, o que se refere na Itália, dadas às relações de classe existen- tes, na medida em que consiga obter o consenso das amplas massas campesinas (GRAMSCI, 1978, p. 192-193).

Assim sendo, o interesse de Gramsci pelas culturas subalternas é, sobretudo, político: é necessário conhecer a espessura cultural do povo para “elevá-lo” a uma concepção do mundo integral e crítico: a filosofia da práxis.

Já dentro do desenvolvimento teórico de seu pensamento, a proble- mática que nos ocupa encontra em Gramsci seu lugar específico dentro da teorização sobre a ideologia e, mais amplamente, na hegemonia. É, tam- bém, bastante conhecido o fato de que Gramsci, por toda sua experiência teórica e prática, opera uma ruptura com as concepções limitadas e eco- nomicistas da ideologia.21 Para ele, uma ideologia no sentido mais amplo 21 Veja Chantal Moufle, Hegemonia e ideologia em Gramsci, em Arte, Sociedad e Ideología, num. 5. México, 1978, p. 67. Sobre o conceito gramsciano de hegemonia, veja: Antonio Gramsci,

significa “uma concepção do mundo que se manifesta implicitamente na arte, no direito, na atividade econômica, em todas as atividades de vida individuais e coletivas” (GRAMSCI, 1976, p. 10-11).

Para entender melhor sua proposta global, me permito interpretar e resumir, de modo esquemático, os principais pontos de sua reflexão teó- rica sobre as ideologias (GRAMSCI, 1975, p. 3026):

a) as ideologias não são um fenômeno puramente superestrutural, posto que não há ação social sem representação dela. As forças materiais não seriam historicamente concebidas sem ideologia e esta seria um mero capricho individual sem a força material. b) As ideologias possuem existência material nos aparelhos, nas

instituições (materiais ideológicos e estrutura ideológica) e em tudo aquilo que possa influir sobre a opinião pública, como bibliotecas, escolas, círculos de amigos, clubes, arquitetura, dis- posição das ruas e até seus nomes.

c) As ideologias têm uma função prático-social, pois organizam as massas humanas, formam o terreno onde os homens se movem, tomam consciência de sua posição e lutam.

d) A hegemonia de um bloco de classes se conquista principal- mente na luta ideológico-política.

e) Por isso mesmo, num período histórico (formação social num momento de hegemonia) coexistem diferentes “concepções do Quaderni Del Carcere, 4 tomos, Turín, Einaudí (edição crítica do Instituto Gramsci), 1975, p. 3191-3192. Veja, também, Luciano Gruppi, II concetto di egemonia in Gramsci, Roma, Riuniti, 1977 (há tradução para o espanhol: México, ERA). Uma interpretação similar à de Mouffe pode ser encontrada em Ernesto Laclau, Política e ideologia de la teoria marxista, Madrid, Siglo XXI, 1978, cap. III e IV. Uma crítica muito severa a esses dois últimos autores pode ser encon- trada em: Atilio Borón e Oscar Cuéllar, Apuntes críticos sobre La concepción idealista de La hegemonia, documentos de trabalho do programa de mestrado, Universidad Iberoamericana, Departamento de Ciencias Sociales y Política, mimeografada, maio, 1980.

mundo” com diversos graus de elaboração; essa coexistência, longe de ser harmônica, se caracteriza pela dominação política e pela direção cultural de um bloco de classes que tem conse- guido historicamente o consenso (ativo ou passivo) das classes subordinadas ao converter sua ideologia em ponto de referência comum dos demais grupos sociais.

f) As ideologias estão condicionadas pelo lugar que ocupam na estrutura social.

g) Cada grupo social tem uma visão de mundo específica (isso não significa que todo elemento cultural seja necessariamente classista, nem que toda a ideologia de uma classe seja sempre autoelaborada e repelente às de outras classes).

h) As ideologias em um período histórico estão estratificadas e possuem diversos graus de complexidade e coerência.

Não pretendo insinuar, com o que foi dito anteriormente, que Gramsci tenha elaborado uma teoria geral e sistemática das ideologias, mas sustento que em suas aparentemente dispersas anotações se encon- tram sugestões, cuja coerência é suficiente para que, a partir delas, o caminho até essa teoria geral se mostre pelo menos esboçada.22

Dentro desse quadro hipotético geral, Gramsci realiza sua apro- ximação às culturas populares e rompe, de maneira polêmica, com as pré-noções “elitistas” e “intelectualistas” de tipo etnocêntrico e sociocên- trico dos eruditos e com as aproximações dos românticos ao seu objeto de estudo:

22 Veja nessa mesma linha o sistemático e sugestivo intento de Robert Fossaert, La societé, t. VI, Les structures idéologiques, Paris, Seuil, 1983.

Pode-se dizer que, até agora, o folclore tem sido estudado, preferencialmente, como elemento ‘pitoresco’ (na reali- dade, até hoje só se tem recolhido material de erudição e a ciência do folclore tem consistido, sobretudo, nos estu- dos do método para a coleta, a seleção e a classificação de tal material, ou seja, no estudo das cautelas práticas e dos princípios empíricos necessários para desenvolver, de maneira proveitosa, um aspecto específico da erudição, não querendo desconhecer, com isto, a importância e o significado histórico de alguns grandes estudiosos do fol- clore). Pelo contrário, é necessário estudá-lo como uma ‘concepção do mundo e da vida’, implícita, em grande medida, de determinados estratos da sociedade (deter- minados no tempo e no espaço), em contraposição (também no geral implícita, mecânica e objetiva) com as concepções de mundo ‘oficiais’ (ou o sentido mais amplo das partes cultas da sociedade historicamente determina- das), que se tem sucedido no desenvolvimento histórico [...] Concepção de mundo, não somente sem elaboração e assistemática, porque o povo (ou seja, o conjunto das classes subalternas e instrumentais de toda forma de socie- dade que tem existido até agora) por definição não pode ter concepções elaboradas, sistemáticas e politicamente organizadas e centralizadas em seu já também contraditó- rio e múltiplo desenvolvimento, não somente no sentido de diverso e justaposto, senão também grosseiro, se é que diretamente não deveria falar-se de um aglomerado indi- gesto de fragmentos de todas as concepções de mundo e da vida que se tem sucedido na história, da maior parte das quais somente no folclore se encontram sobreviven- tes, documentos mutilados e contaminados.23

23 Veja Antonio Gramsci, Arte e folklore, 1976, p. 229-230; Quaderni del carcere, 1975, p. 2312 e ss. (Edição no espanhol: Literatura y vida nacional, México, Juan Pablos, 1976, p. 239 e ss.).

Permito-me reproduzir grande parte do texto, pois nele, de maneira condensada, se encontra a maior parte de sua reflexão sobre as culturas populares. Dessa caracterização, ressaltam várias coisas de importância que em continuação destaco:

a) Gramsci outorga o estatuto de “concepção de mundo” à cultura das classes subalternas. Logo, apresenta com ele uma configu- ração complexa do espaço superestrutural (formação cultural global) do bloco histórico, no que coexistem diferentes culturas ou ideologias.

b) A coexistência dessas ideologias se realiza em termos não-har- mônicos, mas não necessariamente conflitivos.

c) Mesmo que as diferentes ideologias coexistam no seio de uma sociedade, essa coexistência, além de não ser harmônica, é des- nivelada e está sob a dominação de uma delas.

d) Pelas mesmas características da formação cultural, ou ideo- lógica,24 o estudo das culturas deve explicitar sempre essa contraposição. Isso não implica necessariamente que as cultu- ras estejam implicitamente em contraposição, senão que esta constitui um princípio metodológico que vem dialetizar a inves- tigação e aponta até a detecção dos mecanismos e estratégias históricas da construção da hegemonia. Agora, se a contra- posição do folclore (como cultura das classes subalternas) é geralmente passiva, mecânica, assistemática etecétera, isso não significa que seja fatalmente assim.

Algumas páginas adiante, e em outros cadernos, Gramsci reconhece que o folclore pode ter (e tem) elementos tenazes, criativos e inclusive

progressistas que, em determinados momentos, podem tornar ativa e poli- ticamente orientada a práxis social das classes subalternas.25

a) A simples contraposição entre duas culturas, “oficial” versus “fol-

clore” (popular), de modo nenhum deve entender-se como se existissem somente dois grandes blocos culturais, um coerente e legitimado e o outro desagregado e arbitrário, imputáveis mecanicamente a duas únicas classes opostas. Quando realiza- mos análises concretas, detectamos, além disso, a complexidade da estratificação social, a diversidade contraditória dos proces- sos culturais. Da mesma maneira, encontramos neles certos elementos culturais transclassistas que conformam, por assim dizer, o discurso social comum de uma determinada sociedade. (“O folclore tem sido sempre relacionado à cultura das classes dominantes e, ao seu modo, extraído motivos que têm sido inse- ridos na combinação com as tradições precedentes.”)26

b) Quando fala das características do folclore (caráter fragmen- tado e contraditório), Gramsci emprega um conceito de cultura tipo Tylor, ou seja, a cultura é igual aos produtos intelectuais e manuais compartilhados por um mesmo grupo social. Mas em outros textos, creio que – ainda que não sistematizada – se encontra uma concepção praxeológica da cultura que pode ser traduzida pelos termos de “habitus de classe” de Pierre Bourdieu ou da “ideo-lógica” de M. Augé.27 “O que distingue o canto popular, no quadro de uma nação e de sua cultura, não é o feito 25 Antonio Gramsci, Arte e folklore, 1976, p. 264. Veja “Folklore”, em Quaderni del carcere, 1975, p.

3197.

26 Antonio Gramsci, Arte e folclore, 1976, p.180.

27 Veja Jorge A. González, 1990, cap. I, p. 197; Gilberto Gimenez, Cultura popular y religión en el Anahuac, Mexico, Centro de Estudios Ecuménicos, 1978, p. 350.

artístico, nem a origem histórica, senão seu modo de conceber a vida no contraste com a sociedade oficial” (Gramsci, 1976). Ele nos mostra que as culturas populares, ainda que em sua rela- tiva assistematicidade e fragmentaridade, possuem (como toda cultura) uma característica geradora e distintiva, um modo de percepção e produção simbólica que funciona como matriz dis- criminadora do possível, do provável e até do perceptível; uma certa lógica das representações, que outorga uma coerência aos conteúdos dispersos da popular. Fica por explicar o porquê no terreno das práticas observáveis as culturas populares são tão diversas e inclusive contrapostas entre si.28

De maneira sintética, reproduzimos a interessante esquematização da concepção gramsciniana das culturas subalternas que realiza Alberto M. Cirese (1976, p.89).

A concepção folclórica é a oficial

Como a classe social subalterna é a hegemônica

Como a categoria intelectual simples é a cultivada

28 Alberto M. Cirese, Intellettualli, folklore, istinto di classe, Turin, Einaudi, 1976, p. 95. Neste ponto, não compartilho totalmente da explicação de Cirese nessa obra, a respeito do amplo uso gramsciano da “concepção de mundo”, para designar tanto a cultura oficial e cultivada como a enorme inorganicidade da cultura popular; “assim, toda combinação de elementos culturais de um grupo social qualquer vem a constituir uma série de ‘unidade de fato’, que pode ser observada a partir do ponto de vista do grupo que nelas se reconhece e que, portanto, pode ser chamada legitimamente ‘concepção de mundo’, porque ainda não sendo para nós, o é para outros” (p. 103). Se assumirmos o anterior, poderia parecer que se deixa no terreno da empatia e da intersubjetividade o caráter relativamente unitário e contraditório dos modos de construção e reinterpretação semiótica que o povo-classe tem dada sua situação (como trajetória como ponto) em um determinado lugar na divisão social do trabalho. Isto é, quem sabe, efeito do conceito “tyloriano” de cultura que maneja Cirese, conceito que limita o âmbito da cultura aos desempenhos e esquece que estes são impensáveis fora de uma competência cultural, muito longe de ser puramente intersubjetiva.

Como a combinação inorgânica é a orgânica

Como o estado interno fragmentário é o unitário

Como o modo de expressão implícito é o explícito

Como o conteúdo degradado é o original

Como a contraposição mecânica é a intelectual

Como a contradição passiva/ativa é a ativa/passiva.

Ainda que seja evidente que a maior parte das qualidades negativas recaia sobre o folclore, isso não significa que a cultura dominante burguesa não tenha, também, aspectos negativos e conservadores e que, a partir do folclore, não possa e deva assumir valores positivos para conquistar a hegemonia. Desse modo, nos textos de Gramsci, encontramos elementos para pensar em quatro possibilidades distintas: a) folclórico/reacionário; b) folclórico/progressista; c) oficial/reacionário; e d) oficial/progressista. A concepção de mundo das classes subalternas deve ser elevada até esta quarta possibilidade, ou seja, a reforma intelectual e moral que o interesse político de Gramsci propõe consiste em conquistar os atributos “positivos” da oficialidade (leia-se a segunda opção das quatro apresenta- das) a partir do estado negativo, mas real, das concepções populares.

A defesa da cultura do povo não implica a defesa de suas condições materiais de subalternidade. Gramsci não é, pois, um folclorista român- tico; propõe conhecer o folclore para “destrui-lo”, porque o que deve destruir-se são as condições estruturais que tem produzido a “subalterni- dade” da cultura miserável das classes subalternas. Essa destruição, longe de ser o resultado de um processo de aculturação coativa, se realiza a partir de “dentro” da espessura cultural dessas classes e implica, necessariamente, a criação de um intelectual orgânico capaz de dirigir e organizar-se “em povo” para a conquista da hegemonia.

Atingindo este ponto, podemos captar com mais claridade a forma com que Gramsci, a partir de uma perspectiva marxista, introduz no

debate a polêmica das classes sociais (amplamente escamoteada antes dele) e partir dele define a “cultura popular” (“folklore” em seus escritos) pela sua relação de contraste com a cultura das classes “não-populares” dentro de um sistema de hegemonia.

As observações de Gramsci sobre o folclore não apareceram publi- cadas, senão até 1950. A partir de sua publicação, ressurge e se reaviva na Itália um amplo debate, que originou distintos desdobramentos.29

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