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Uma coisa nos tem ficado suficientemente clara: a feira, na maior parte das cidades do país, se tem convertido no fato cerimonial mais importante do ciclo anual de festividades. Está longe de ser somente mais um fenômeno comercial. Sua própria estrutura e o tipo de elementos culturais, que dentro dela se modelam e modulam, lhe têm outorgado no curso do tempo uma impressionante capacidade para aglutinar, no seu entorno – durante alguns dias – a totalidade das classes e grupos da localidade.

O operário e o empresário, o burocrata e o político, o policial e o vaqueiro, o agricultor e o banqueiro, os profissionais e os comerciantes, velhos e jovens, mulheres e homens se “reconhecem” na mesma feira. Essa é, ou ao menos assim se apresenta e se percebe de algum modo e com suas nuanças, a feira de “todos” e “para todos”.

A feira, como um ritual complexo, permite representar aspectos sociais da vida diária e, ao mesmo tempo, possibilita a criação de “totali- dades abarcadoras” e, com isso, se converte por necessidade em um fato cultural chave para a constituição das identidades (MATTA, 1980, p. 35-65).

Também temos visto que em outro nível a estrutura mesma da feira e sua gestão marcam limites e leitos precisos para o exercício da função lúdica das cidades. Todos se divertem ao seu modo e a feira é para todos.

Ao revisar o desenvolvimento histórico e os aspectos institucional e material dessa grande celebração, temos constatado que um bloco de classes, que se tem apropriado da gestão e direção da feira, tem conse- guido modelar e modular à sua maneira (de classe) uma questão em que todas as classes se pode reconhecer: a identidade global, como região ou estado, e a necessidade de distração. Em outras palavras, isso significa que,

historicamente, esse bloco tem conseguido construir e impor seu projeto social e cultural como o mais legítimo perante todos.

A feira pode ser, então, captada como um grande “teto” significante coletivo compartilhado por uma pluralidade de grupos e classes sociais, que elaboram, a partir disso, uma diversidade até contraditória de signifi- cados, ou sentidos distintos e contrapostos; tal convivência relativamente harmônica é possível somente quando se têm estabelecidas as relações de legitimidade entre as distintas práticas e concepções das classes em jogo.

Por sua vez, a legitimidade cultural somente é possível quando se opera coerentemente sobre elementos culturais como a identidade regio- nal e a dimensão lúdica, que são capazes de envolver todas as classes como tais.

Até o momento, temos considerado todos esses elementos para mos- trar e ensaiar ao mesmo tempo a interpretação da feira como uma frente cultural, em que se luta e se tem lutado – velada ou abertamente – pelo monopólio legítimo dos mecanismos de legitimação social.115

Essa luta se desenvolve, principal, mas não exclusivamente, dentro do nível da construção social do sentido, ao entrarem em confrontação as distintas maneiras de exercer a modulação e a modelagem dos elementos culturais transclassistas.116

Nas feiras, e particularmente na de Colima, essa confrontação tem sido resolvida, em parte pelas relações de força (apropriação estatal/ comercial de evento, em virtude da situação objetiva dos grupos e clas- ses) e, ao mesmo tempo, pela impressão de um maior grau de coerência 115 A palavra “frente” não se utiliza somente com o sentido de “enfrentamento”, mas também

inclui o de fronteira ou limite.

116 Fossaert o denomina “instância ideológica” e é o procedimento de pesquisa para representar a totalidade social a partir do ponto de vista da atividade social fundamental de representar-se o mundo e a vida. Veja, de Robert Fossaert.La société, t.I. Une théorie general, Paris, Seuil, 1977, e La société, t.VI.Lesstructuresidéologiques, Paris, Seuil, 1983.

e orientação da produção do fenômeno feira dentro de uma lógica que tem favorecido a homogeneização das práticas e privilegiado somente os aspectos modernos e as novidades, para configurar e redefinir o atrativo, o divertido e o espetacular.

Todo ano, o povo valoriza e exige jogos mais sofisticados e cantores mais famosos: a feira “seria melhor” à medida que conseguisse apresentar um melhor e maior número de inovações mecânicas e nomes artísticos de peso.

Da festa de gestão e participação comunitária à feira/espetáculo, presenciamos a consolidação – ou melhor, a representação e a ritualização

de uma ideologia “econômica” e o caminho de uma celebração popular à constituição “oficial” de uma vitrine para mostrar ao próprio povo e aos visitantes externos os “avanços” do Estado em seu conjunto.

Em certa medida, pode-se dizer, com ressalvas, que a feira mesma é um discurso da sociedade sobre ela mesma (MATTA, 1983). Só que esse discurso é o resultado de uma negociação e de um intenso vai e vem em que os melhores situados socialmente e com maior capital linguístico específico puderam dizer mais e de maneira mais coerente que os outros sobre questões que correspondem a todos.117

A grande maioria delega seu “poder falar” a poucas pessoas, porque estas o fazem melhor e “mais bonito” e porque são mais fortes.

Fica pela frente um labor heurístico muito amplo sobre uma rea- lidade que não tem sido estudada e que, para terminar de amolar, nem sequer parece digna de esforço algum. É tão somente, que quem sabe nes- sas questões cotidianas de sentido da vida, do amor e da felicidade, do morrer e do viver, do sofrer e do penar, do ódio e da solidariedade, da 117 Veja o conceito de “capital linguístico” em Pierre Bourdieu, Ce que parlerveutdire, Paris, Fayard, 1982, e, do mesmo autor, “Le marchélinguistique”, em Questions de sociologie, Paris, Minuit, 1980, p. 121-137.

diversão e da identidade, é muito provável que o esforço necessário para poder avançar não seja precisamente puxar e puxar, senão – mais efetivo, mas, às vezes, de momento pouco compreensível – afrouxar e afrouxar. O verdadeiro esforço, paradoxalmente, está em “soltar-se” (como quando subimos ao bodyjumptrabant).

Capítulo VI

Jogo perigoso. Feiras, memórias

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