7.2 The IDOL2 collection
7.5.3 Submitted runs to the ImageCLEF 2009
Toda festa comporta uma série de rituais mais ou menos complexos mediante os quais se “encarregam” semioticamente certos comportamen- tos, práticas, lugares, tempos e agentes ou grupos sociais. Poderíamos perguntar-nos o que acontece com a “dimensão ritual” quando se verifica a transformação da festa na festa e isso se marca com o crescimento desme- dido da função econômica. Implica por necessidade o desaparecimento do rito na feira? A resposta dependerá do tipo e qualidade da interpreta- ção do rito que disponham.
Essa tarefa tem sido amplamente desenvolvida, sobretudo na antro- pologia. No momento, os trabalhos de Roberto da Matta me parecem mais interessantes, em boa medida porque tem se dedicado a estudar o
ritual em sociedades complexas106. Segundo esse autor, os rituais servem na atualidade para promover a identidade social e construir seu caráter.
Sem dar lugar a dúvidas, o ritual é um lugar estratégico para pene- trar na ideologia e valores da sociedade, porque, por meio dele, se marcam instantes privilegiados nos quais se busca converter o único em univer- sal, o local em regional, o regional em nacional, assim como o individual em coletivo. “O ritual é um dos elementos mais importantes não somente para transmitir e reproduzir valores, senão como instrumento de geração e modelado terminal desses valores. Disso é uma prova a contundente asso- ciação entre rito e poder” (MATTA, 1980, p. 24-25).
Existe uma intrincada ligação entre as distintas técnicas do poder e as formas grandiosas do cerimonial e do cerimonioso. Isso contribui para a manutenção e representação da distância entre o fraco e o poderoso; ou, em outros casos, para construir e encenar uma coerência, que é um dos pilares da estrutura de legitimação e autoridade. “É mediante o rito que se atualizam estruturas de autoridade, pois permite situar dramaticamente e, lado a lado, quem sabe e a quem não sabe, quem tem e quem não tem, que está em contato com os poderes do alto e quem se situa longe deles” (MATTA, 1980, p. 26).
Da Matta afirma que a maior parte das sociedades que ele denomina “complexas, individualistas e modernas” estão marcadas por ritos come- morativos de algum evento único, realizado por um grupo ou bloco de classes bem definido, que está pelo acordo geral e pela força do poder, colocado por cima de todas as possíveis diferenças que caracterizam tais sociedades e pode com isso representar toda a coletividade. Por essa razão, o ritual é um instrumento privilegiado para expressar e construir 106 Veja Jean Cazenueve, Sociologia del rito, Buenos Aires, Amorrortu, 1972; Alberto M. Cirese, Oggetti, Segni, musei. Turin, Einuaudi, 1977; Roberto da Matta, Carnavais, malandros,herois. Rio de Janeiro, Zahar, 1980; e Arnold van Gennep, I ritidipassaggio. Turin, Boringhieri, 1981.
totalidades sobre as quais se faz fixar a atenção mediante múltiplas formas de dramatização. Todo ritual tem como linha definidora e distintiva um processo de dramatização; isto é, a condensação de algum aspecto, ele- mento ou relação que se coloca em foco e se destaca do entorno em que habitualmente se encontrava.
O rito nos estabelece um problema de contrastes, daí a necessidade de se estudar o mundo social tomando como ponto de partida as relações entre seus momentos mais importantes: o mundo cotidiano e as festas, a rotina e o ritual, a vida e o sonho, o personagem real e o paradigmá- tico (MATTA, 1980, p. 30).
Em contrapartida às opiniões mais correntes sobre a excepcionali- dade e natureza extracotidiana do rito, dessa posição é possível captar o mundo do ritual como totalmente relativo ao que transcorre no “mundo cotidiano”. Uma ação que na vida diária é banal ou trivial adquire um alto significado quando é “destacada” em certos ambientes por meio de uma sequência que consegue colocar essa ação em uma posição especial.
É por meio dos mecanismos de dramatização – quando se con- verte o evento em signo – que a sociedade pode proporcionar uma visão alternativa de si e, mediante isso, pode ressaltar aquilo que se considera importante (CIRESE,1977, p. 67).
Assim, compreende-se como todo ritual é orientado de acordo com o tipo de combinações que gera e não por ser capaz de modificar a essência do cotidiano. Essa particular combinação que se engendra constitui uma espécie de gramática, que a análise concreta deve trazer à luz. Mediante essa “gramática”, o ritual destaca alguns aspectos da realidade e nos faz mais presentes que outros.
O mundo ritual é, para Roberto da Matta, um mundo de oposições e uniões, de ressaltes e integrações, de proeminências e inibições, de
aspectos ou elementos da realidade. “É nesse processo que as coisas do mundo adquirem um sentido diferente e podem expressar mais do que expressam em seu contexto normal” (MATTA, 1980, p. 60).
O importante, então, para operar com a dimensão ritual da feira, será analisar os mecanismos utilizados para a criação desses momentos em que, por assim dizer, ciclicamente se põem em close up coisas, elementos
e relações do mundo social cotidiano107. Haverá, também, que se dedicar especial atenção aos ritos que convergem em toda feira.
Parece ser uma constante que não há feira sem rainha e assim, o baile, a rinha de galos, a comida e os jogos mecânicos com elementos que, sem dificuldade, podem encontrar-se em todo evento desse tipo.
Em uma recente pesquisa sobre a feira de Colima, a maioria das pes- soas entrevistas de três distintas classes sociais coincidiam em dar uma importância relevante e significativa ao processo de eleição e coroação da “rainha dos festejos da feira”. Mas por que uma rainha em meio a um sucesso comercial, industrial, agrícola, vaqueiro e cultural? (ACEVEDO
et al., 1983)
Isso se deve a que, por regra geral, dentro das sociedades modernas se criam símbolos, que devem ser dominantes e que servem como ponto 107 Preferimos falar da “dimensão ritual” da vida social na feira em oposição ao que nos parece um deslize “pansemiotista” de Matta (1980); ele considera que “toda a vida social é um rito”. Em sua linguagem, isso equivaleria a aceitar que toda a vida social é um discurso, questão que, em princípio, dilui a especificidade da sociedade como um sistema de relações sociais objetivas e a reduz a inter-relações comunicativas de outra índole. Melhor caberia aqui propor, como o próprio autor o faz em outras passagens, que, embora todo rito seja uma dramatização (ou um discurso) sobre a vida social, nem toda a vida social é um rito. Nesse caso, não está clara a escala que adota Matta e isso nos impede saber se ele se refere à interação social ou às rela- ções objetivas que possibilitam e fundam a interação. Por outro lado, parece-nos que Cirese abordou com rigor e lucidez os problemas inerentes a essas posições em suas Notas provisórias sobre fabrilidad, procreación, signicidad y primado de las infraestructuras, em Estudios sobre las Culturas Contemporáneas, n. 1, v. 1, Mexico, 1986.
de referência para a contaminação de todo o sistema. “Não é por casuali- dade que quase todos esses símbolos sejam objetos que em seus domínios de origem estão associados ao alto, a coisas elevadas...”108 (MATTA, 1980, p. 78).
Da mesma maneira, se poderiam estabelecer as relações que se travam entre a totalidade dos “códigos” e domínios que se encontram atualmente nas feiras sob a proeminência (ou contaminação) de uma ideologia de tipo individualista e econômica. Entretanto, isso será matéria de uma análise mais refinada e complexa.