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Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 33-37)

Em geral, a continuação das indicações gramscianas na Itália enfocou as distintas formas das culturas campesinas do sul e sua relação com a cul- tura italiana/ocidental dominante.

Dentre os muitos continuadores dessa tendência, destaca-se Alberto M. Cirese tanto pela sua ampla obra como pela sua proposta dos desníveis internos da cultura. Com essa noção mais ampla, ele (1976a, p.13) afirma

que

nas sociedades chamadas superiores, as distinções, sepa- rações, estratificações e oposições sociais entre classes ou

estratos dotados de poderes diversos político-econômicos encontram uma equivalente geral em certas distinções, separações, estratificações e oposições culturais.

Ou seja, que a diversidade da condição social corresponde a uma diversidade cultural, na qual se mantém a participação desigual dos diver- sos setores sociais na produção e na fruição dos bens culturais.

29 Ver Pietro Clemente et al., II dibattito sul folklore in Italia, Milán, Edizioni di Cultura Popolare, 1976.

Isso implica que, nas sociedades classistas, a diversidade de situações objetivas produz um campo complexo ou espaço de representações, em que coexistem culturas não somente diferentes, senão desniveladas. Em outras palavras,

a noção de desníveis internos de cultura nas sociedades

complexas tende a indicar, nos escritos de Cirese, uma subdivisão geral dos feitos culturais em duas grandes dimensões internas aos complexos nacionais estratifi- cados em classes, um plano da cultura com a divisão de classes e a consequente distribuição diversa do poder e goze a cultura (CLEMENTE, 1979, p.137).30

A cultura das classes subalternas se define, assim, por sua posição em relação àquelas classes, e não por sua capacidade de impugnação, beleza ou integração. Entretanto, deve se fazer notar que o uso do conceito de

desníveis internos de cultura e sua correlativa implicação, cultura hege-

mônica versus culturas subalternas, tem sido submetido a intensas críticas

(algumas, em minha opinião, infundadas). Porém, para sua operatividade deve levar-se em consideração que:

a) a bipartição esquemática cultura hegemônica/culturas subal- ternas é de ordem metodológica, e não ontológica. Ela supõe sua abertura a diversas articulações e relações entre os dois grandes blocos.

b) A cultura do bloco de classes dominantes é a cultura dominante, mas não é nem toda, nem a única real cultura.

30 Pietro Clemente, “Dislivelli di cultura e studi demologici italiani”, em Problemi Del Socialismo, nº 15, Roma, Franco Angeli, 1979, elabora aqui uma série de críticas interessantes sobre a noção de desníveis internos de cultura, que considera de utilidade necessária e produtiva aplicada somente sobre uma escala mais ampla dos fenômenos culturais.

c) As distintas culturas subalternas têm espessura e essên- cia sociocultural específicas, capacidade de resistência, adaptação e modificação das relações que mantêm com a cul- tura hegemônica.

d) A categoria baseia como essencial, metodologicamente falando, a conexão formal entre os fatos culturais e grupos sociais. e) Ainda quando o caráter dos desníveis recortam horizontal-

mente (classistamente) os fenômenos culturais, é possível pensar sobre a grande gama de formações culturais transclas- sistas. Falando de outra maneira: se está bem fundamentada a íntima relação entre classes e culturas, há neles lugar para pensar a unidade relativa e a verticalidade (transclassista) de certos ele- mentos do discurso social comum.

f) Dentro da “subalternidade” que os desníveis recortam, não deve entender-se somente as culturas camponesas tradicionais, senão um amplo espectro composto pelos sistemas de representações operárias, colonos suburbanos, imigrantes, grupos étnicos mar- ginais etc. Entretanto, esse é um problema que deve redefinir-se e afrontar-se para não utilizar mecanicamente a reciprocidade que existe entre os desníveis. Isso implica, pelo que dissemos anteriormente, a existência de uma vasta gama de “subculturas” de classe que mantêm entre si uma série de relações de domina- ção, contraposição, resistência e refuncionalização. (Cabe aqui notar que os desníveis não somente se observam nos produtos de casa cultura, senão que supõe também, de maneira funda- mental, o nível das “competências culturais”, ou os modos de produção e percepção simbólicos.) Finalizando, recentemente Garcia Canclini (1982, p.69-70) tem criticado essa concepção como “estática e valorativa”. Entretanto, penso que os desníveis não são “criados” normativamente pela categoria, senão têm

um substrato material e sígnico quantitativo. Isso tem estreita relação com a “apropriação desigual do capital cultural”, apro- priação que não somente é “desigual”, senão quantitativamente diferente e, pelo mesmo motivo, constitutiva de distintos níveis. Dentro da mesma tradição gramsciana, deve-se incluir Luigi Lombardi Satriani, que tem se ocupado em enfatizar o caráter contraposto das culturas populares em relação à cultura dominante. De fato, seus escri- tos nos levam a considerar o folclore como a cultura de impugnação. Sem dúvida, a maior influência que tem exercido Lombardi Satriani tem sido, entre outras possíveis, é a de haver “politizado”, por assim dizer, as análi- ses clássicas e assépticas que a antropologia cultural tem realizado sob o prisma da cultura popular, mas ele tem sido criticado pela sua noção muito reificada de impugnação e narcotização. A meu ver, o problema não está somente nas noções, senão na forma específica de construção e valida- ção da maioria de seus objetos de análise, quase sempre provérbios, ditos, crenças e contos, que, depois de um epidêmico tratamento “conteudístico” escasso, ou nulamente relacional e com ínfimo nível de rigor metodoló- gico, o conduz a imputar um “caráter” psicologicamente “impugnador” ou “narcotizante” a tal ou qual conteúdo isolado que, podendo ou não con- cordar com os bons desejos do militante/analista, soa “politizado”, mas renuncia propriamente a análise.31

Em sua última e interessante obra sobre a ideologia da morte na sociedade campesina do sul, a análise é basicamente menos reificadora, mas igualmente resistente a critérios de validação alheios ao sentido

31 Veja, principalmente, Luigi Lombardi Satriani, Antropología cultural: análisis de la cultura subalterna, Buenos Aires, Galerna, 1974; do mesmo autor, Apropiación y destrucción de la cultura de las clases subalternas, Mexico, Nueva Imagen, 1978 (tradução para o espanhol de Folklore e profitto, Florencia, Guaraldi, 1976). E “Análisi marxista e folklore come cultura di con- testazione”, em Diego Carpitella (comp.), 1976, p. 351.

comum do próprio pesquisador. A influência desse autor se tem manifes- tado particularmente em distintos trabalhos de análises da cultura popular na América Latina.32

Numa linha mais ou menos similar, trabalha Vittorio Lanternari, que concebe o folclore atual como uma cultura em busca de identidade antiburguesa.33

Não obstante, deve-se reconhecimento às distintas fundamentações que tais autores têm realizado no terreno teórico e empírico. Sobretudo, destacamos que sua obra tem sido uma primeira provocação para estudar, de maneira diferente, o popular.

Dentro do debate italiano, estes autores (Cirese, Lombardi Satriani e Lanternari) têm sido amplamente criticados por uma geração mais jovem, em especial por Giulio Angioni e Pietro Clemente.

Angioni, discípulo de Cirese, critica a orientação geral dos estudos demológicos na Itália, afirmando que “têm sido dedicados em sua maioria a fenômenos culturais, sobretudo, de nível artístico e ideológico/religioso e têm deixado de lado os níveis sócio/econômico e o jurídico/político”.34 Isso tem orientado, definitivamente, tais estudos a penetrar no miolo da problemática complexa da dialética situação/representação somente de uma maneira bastante intuitiva e “declaratória” (quando não é ignorada), mas não é válida cientificamente, razão pela qual dificilmente se podem liberar do fantasma do formalismo. Angioni propõe reorientar o objeto de estudo aos modos específicos de dominação do capitalismo no interior da formação social do Estado italiano, proposta que, se consegue superar a 32 Luigi Lombardi Satriani e M. Meligrana, Il ponte di San Giácomo, Milán, Saggi Rizzoli, 1982. 33 Vittorio Lanternari, Crisi e ricerca di identita (folklore e dinâmica culturale), Nápoles, Liguori

Editori, 1977.

34 Giulio Angioni, “Tre reflessioni e una premessa auto critica su cultura e cultura popolare”, em Problemi del Socialismo, nº 15, Roma, Franco Angeli, 1979, p. 161-162.

redução economicista e resgatar dentro da totalidade o “especificamente” cultural, nos abre uma intensa via para traçar novas relações entre os desní- veis de cultura e as formas de internacionalização do modo de reprodução capitalista, as “formas” culturais “massificadas” que lhe correspondem e a refuncionalização/desarticulação/rearticulação que fazem das culturas populares.

Outra crítica que se tem expressado a essa corrente pós-gramsciana é a ênfase excessiva nos fenômenos “folclóricos” e “tradicionais”, em sua maioria camponeses, ou artesanais, motivo pelo qual alguns chegam a confundir “cultura popular” com “tradições populares”, deixando, assim, de lado os processos atuais de proletarização, de criação de novas culturas subalternas geradas na dinâmica interna e externa do modo de produção capitalista. Dessa maneira, o mesmo Angioni propõe estudar, além das culturas populares “tradicionais” (camponesas, artesãs etc.) e, de maneira urgente, as modernas culturas que, com processos como a migração, a terceirização da economia, a formação de grandes classes médias e o cres- cimento e relativo amadurecimento político da classe proletária, se têm originado e participam de modo predominante na dinâmica dos desníveis internos de cultura. Pietro Clemente afirma que “uma nação de folclore muito dilatado se torna prejudicada para a definição do campo dos estu- dos demológicos; na minha opinião – disse Clemente – esta nação deveria ser, se não abolida, ao menos delimitada, para que designe fatos muito específicos”.35 Desse modo, numa linha paralela à de Angioni, Clemente propõe delimitar seu campo de estudos em todos os âmbitos possíveis, que se configuram pela relação “cultura”/”classes subalternas”, claro que levando em consideração os estratos modernos, em especial o proleta- riado. O terreno específico de estudos é, então, a condição estrutural/

cultural/de subalternidade, entendida não somente como residual, senão, também, como atual.

Cirese mesmo, em uma interessante reelaboração autocrítica, reconhece haver sofrido pessoalmente a distorção ótica por identifi- car “o popular”, com o que é considerado “simples” ou “elementar”; e o não-popular, como o considerado complexo. Em consequência, realiza uma reflexão detalhada e uma excelente esquematização sobre os usos e extensões do termo “cultura popular” e suas relações de oposição como o não-popular.36

Finalmente, os debates mais recentes na Itália tendem a enfatizar a importância dos elementos culturais transclassistas, dentro do problema das culturas populares em suas relações com a cultura hegemônica, e a estabelecer os vínculos e distinções dessas culturas com a, assim chamada, “cultura de massa”. Tais reflexões emergem a partir de 1980, principal- mente, nos distintos números da revista La Ricerca Folcklorica.37

Em resumo, com as contribuições e desenvolvimentos do “filão gramsciano”, o popular adquire um sentido plenamente classista, rela- cional e histórico e nos proporciona uma aproximação operativa e não somente normativa ao estudo do nosso tema.

A ruptura que se opera é, pois, tripla. Contra os românticos: o popu- lar não é uma essência, senão um fato social. Contra os eruditos: o popular não se compreende como uma substância, senão como um fato relacional e historicamente produzido. Contra os populistas: o popular não se define

por sua origem, senão pelo seu uso e refuncionalização.

36 Originalmente mimeografado, como anotações para o curso “Forme , modelli, struture”, Roma, Universitá degli Studi di Roma, Facoltá di Lettere e Filosofia, 1979-1980.

37 La Ricerca Folklorica, Contributi allo Studio della cultura delle classi popolari, Brescia, Grafo Edizioni.

A partir dessas rupturas, é melhor então, falar sobre cultura(s) popular(es), no plural. Numa relação mais ou menos estreita com os desenvolvimentos anteriores, daremos um panorama sobre outra linha importante de estudos.

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